Catherine Anderson

Stimo Cu





      Passaram-se dez anos desde que Joe Lakota trocou a sua cidadezinha do Oregon e a mulher que amava pelas falsas promessas de uma grande metrpole. Agora est
de regresso, porque quer proporcionar ao filho aqueles valores que s se encontram verdadeiramente na terra que nos viu nascer. E tambm porque ambiciona reacender
a paixo que em tempos o uniu  bela Marilee Nelson. Esta porm j no  a jovem tranquila que um dia ele abandonou.  hoje uma mulher atormentada por um segredo
que no quer partilhar, nem mesmo com Joe.
      Marilee nem sequer o deseja voltar a ver, de to dolorosa que fora a sua separao. Apesar de os seus braos robustos serem capazes de a proteger, ela bem
sabe o mal que eles podem tambm trazer-lhe. Mas se a razo a aconselha a resistir s propostas persistentes de Joe, o seu corao diz-lhe outra coisa bem diferente.
 ento que ele lhe faz o mais irresistvel dos pedidos: que se torne sua mulher e me do seu filho. Como poder ela, no entanto, concordar com tal casamento, quando
no  sequer capaz de lhe dizer a verdade?





Para Steven Axelrod, meu agente, que vai sempre um pouco mais longe e ganhou a minha gratido e respeito. Uma vez que este livro  acerca de um jogador de futebol
americano, ponho assim a questo: Quando estou a tentar correr com a bola, est sempre l, como minha claque, meu treinador e meu guarda, interceptando e interferindo
de modo que consiga fazer o meu toque de meta. Obrigado, Steve. Voc  o melhor.

Isto  uma obra de fico. Nomes, personagens, locais e incidentes so produto da imaginao do autor ou usados ficticiamente e no se destinam a ser considerados
reais. Qualquer semelhana com acontecimentos, locais, organizaes ou pessoas da vida real, vivas ou mortas,  pura coincidncia.


Prlogo


Segunda-feira, 20 de Maio San Milagros, Califrnia

      Antes de sair do foyer do cinema, Joe Lakota parou bastante antes da porta dupla para permitir que o filho de quatro anos, Zachary, tomasse um gole do refresco
acabado de comprar. O ar que os rodeava cheirava fortemente a pipocas frescas, enchendo o odor a manteiga as narinas de Joe.
      Com o cabelo a brilhar  luz suave, Zachary atirou-se  laranjada como um sifo de meio litro, os olhos a lacrimejar por causa do gs carbnico. Demasiado
acar, pensou Joe, aborrecido. Mas, de qualquer moldo, deixou o mido beber  vontade. Afinal, era uma ocasio especial. No queria tornar-se um daqueles pais to
agarrados s regras que nunca deixam o filho divertir-se.
      Depois de parar para tomar ar, Zachary dardejou olhares de desconforto s pessoas que andavam pelo foyer cor de vinho e amarelo, reflectindo a sua expresso
uma ansiedade muito arraigada que s desapareceria com o tempo. Apesar do parecer do terapeuta da criana, insistir nesta ida ao cinema tinha ido contra o instinto
de Joe enquanto pai. Que mal havia em deixar o mido fazer coisas como aquela ao seu prprio ritmo?
      - Est tudo bem, filho - sussurrou Joe. - Aquelas pessoas esto apenas  espera, na bicha, para comprar comida antes de ir ver o filme. Eu estou aqui e daqui
em diante estarei sempre.
      Joe tinha travado uma prolongada e dura luta para ser capaz de dizer aquelas palavras e sentia-se muitssimo bem. To bem, de facto, que queria grit-las ao
mundo. A sua ex-mulher, Valerie, nunca voltaria a pr as mos no filho. Nunca.
      Joe alisou o cabelo despenteado de Zachary com o olhar fixo no pequeno rosto virado para baixo que toda a gente dizia ser to parecido com o seu.  parte a
tez escura de ndio que ele e Zachary partilhavam, resultado da sua ascendncia Sioux, Joe no conseguia ver grandes semelhanas. Supunha que isso pudesse dever-se,
em parte, ao facto de ter passado aproximadamente metade dos seus trinta e um anos a jogar futebol, tendo partido o nariz quatro vezes ao todo at uma leso no joelho
o ter obrigado a retirar-se.
      Com toda a honestidade, no entanto, no conseguia lembrar-se de alguma vez ter sido to bonito. As feies de Zachary eram quase perfeitas, a boca em forma
de um arco clssico com um generoso lbio inferior, o nariz direito como uma rgua. S de olhar para ele, Joe sentia uma sensao quente e dolorosa no peito.
      - No exageres - avisou, vendo o filho beber. - Lembra-te do que aconteceu da ltima vez.
      Zachary endireitou-se e franziu o nariz. - No volto a fazer aquilo, pai. Agora j sou grande!
      - Eu sei que s, mas mesmo ns, os crescidos, podemos ter acidentes. No vamos acabar a noite com uma molhadela. - Joe deu a brincar com os ns dos dedos no
cimo da cabea de Zachary. - Esta noite  especial, lembras-te?
      - Porque o juiz assinou hoje o nosso papel.
      - Exactamente. Um papel muito importante. Daqui em diante, tu e eu somos uma equipa.
      - Para sempre, sempre?
      - Isso mesmo.
      - Vais ser o meu coordenador ofensivo?
      Desde que visitara o campo de treinos, Zachary tinha-se deixado cativar por todos os aspectos do trabalho de Joe como treinador especial dos San Milagros Bullets.
Por mais lisonjeiro que fosse, Joe esperava que o fascnio do filho pelo futebol no se tornasse uma obsesso para a vida inteira. Desde logo, era uma profisso
que, fisicamente, tinha um preo, pois as leses sofridas no campo tornavam-se muitas vezes definitivas e debilitantes. O desporto tambm podia ser emocionalmente
brutal, especialmente se a fama e a fortuna chegassem com demasiada facilidade a um jovem sem preparao para lidar com elas. Com trinta e um anos, um mau casamento
atrs de si e a centmetros da falncia, Joe tinha experimentado o lado mau do estrelato. Queria mais do que aquilo para o mido. Muito mais, nomeadamente uma vida
cheia de coisas que durassem e fossem verdadeiramente importantes.
      - Gostaria de ser - respondeu com a voz tomada, pensando que a maioria dos bons pais quereria provavelmente ser um, coordenador ofensivo misto, mantendo-se
nas linhas laterais da vida e dando conselhos sensatos antes que os midos entrassem na confuso.
      Tirou do bolso do anoraque azul um bon preto dobrado. Depois de lhe tirar os vincos contra a coxa, ps o bon, baixando a pala sobre os olhos para esconder
parcialmente o rosto enquanto batia no puxador da porta com a anca,
      - Pronto para a luta? Zachary sorriu. - Pronto!
      O ar frio da noite caiu-lhes em cima quando Joe empurrou a porta. Dois adolescentes desviaram-se para a esquerda, a rapariga, uma loura esbelta, o jovem, moreno,
com constituio atltica. De braos entrelaados, estavam a ver o cartaz com o anncio de uma prxima atraco e sussurravam baixinho, aparentemente apenas atentos
um ao outro.
      Durante um pesado momento, Joe sentiu os anos recuarem e quase podia acreditar que estava a ver-se a ele mesmo e a Marilee, o seu primeiro amor, uma dcada
antes. Havia alguma coisa naquela rapariga - a inclinao da cabea - que lhe trazia a mente momentos que tinha feito muito por esquecer.
      Raramente Joe se permitia pensar na Marilee e mal podia acreditar que estava a pensar nela naquele momento. Ainda mais surpreendente era o facto de as recordaes 
ainda doerem. Deus, como a amara...
      Imagens dela passavam-lhe pela mente, pintadas com pinceladas to vivas que parecia que a tinha visto ainda na vspera. Cabelo louro cor de mel, olhos azuis 
insondveis, um sorriso to doce que quase lhe partia o corao.
      - Pai?
      Joe estremeceu e voltou a concentrar-se, sentindo-se desorientado. O filho estava a olhar para ele, perplexo, fazendo com que Joe ficasse preocupado com o 
tempo que ali tinha permanecido a olhar para o espao.
      - Tenho frio - queixou-se Zachary.
      Estava fresco - normal para a zona da baa em Marco. Rajadas de vento moldavam o casaco aberto de Joe contra o dorso, com a humidade costeira a atravessar 
o nylon. Zachary tambm tinha estado a beber um refresco gelado, o que, indubitavelmente, o fazia sentir mais frio do que realmente estava. Joe puxou a criana para 
junto dele e apertou-lhe rapidamente o casaco.
      - A est. Melhor?
      Zachary tiritava e olhava de soslaio para o refresco. Joe sorria. - Vamos deit-lo fora. - Dirigiu-se a um receptculo de lixo cheio at cima, perto da ilha 
da bilheteira. - Quando chegarmos a casa, fao-te chocolate quente...
      Luzes brilhantes relampejaram nos olhos de Joe. Gritos speros e o barulho inconfundvel do clique dos disparadores das mquinas fotogrficas irromperam a 
toda a volta deles. Ouviu a adolescente dar um gritinho de susto.
      - Pai! - Zachary gritou, encostando-se mais ao peito do pai. - Pai!
      A tampa do copo de refresco, esmagado entre os corpos deles, saltou e esguichou laranjada para o peito da camisa de Joe. O choque do frio de gelo ajudou-o 
a limpar a cabea.
      - Est tudo bem, Zachary.  s a Imprensa. O pai est aqui!
      A criana agarrou-se ao pescoo de Joe e emitiu um dbil queixume de terror. Joe ouviu as portas do cinema fecharem-se e adivinhou que os dois adolescentes 
tinham fugido para dentro do edifcio. Enquanto os olhos se habituavam  penetrante luminosidade, observou a multido de reprteres que avanava.
      - Senhor Lakota! Soubemos que lhe foi atribuda hoje a custdia do seu filho. Quer comentar?
      -  verdade que pagou  sua ex-mulher uma quantia substancial para obter a custdia? - gritou outro.
      A condensao e o facto de se ter entornado tornaram o copo parafinado escorregadio. Os dedos de Joe no conseguiram agarr-lo e o refresco caiu no cimento. 
Sentiu os salpicos nas pernas das calas. Um dos reprteres ps o p em cima de um cubo de gelo, escorregou e disse uma asneira enquanto procurava recuperar o equilbrio.
      O corpo de Zachary foi abalado por violentos tremores. Joe pensou em fugir para dentro do cinema. Mas, no - aqueles filhos-da-me ficariam  espera dele c 
fora. Era melhor ir j para o carro do que correr o risco de fazer o mido passar duas vezes por uma experincia daquelas.
      Bolas. Joe tinha feito tudo o que era possvel para evitar quaisquer encontros com a Imprensa esta noite, chegando ao ponto de alugar um carro, com medo de 
que o seu fosse reconhecido. E agora, isto. Um homem no podia levar o filho a ver um filme sem ser perseguido pelos reprteres?
      - Ei, rapazes - tentou ele. - Recuem um pouco. Esto a assustar o meu mido. Deixem-me entrar no carro e terei todo o prazer em responder s vossas perguntas.
      Ignorando o pedido, os reprteres continuaram a aproximar-se. A nica coisa que lhes interessava era obterem a histria e se, para isso, fosse preciso fazer 
correr o sangue de uma criana, tanto pior.
      Encaixando Zachary entre os ombros para o confortar, Joe sussurrou: - Est tudo bem, rebento. So apenas uns jornalistas. Eles no querem fazer-te mal.
      -  verdade que a sua ex-mulher est metida nas drogas? - gritou um homem.
      Um reprter da televiso que estava  frente dos outros empurrou um microfone contra a cara de Joe, batendo, entretanto, descuidadamente na caneca de Zachary. 
A criana gritou. Diabos os levem. Tinha de tirar dali o filho. Estar assustado daquela maneira podia ser o suficiente para Zachary ficar mentalmente perturbado.
      De um momento para o outro, a fria de Joe atingiu o auge. Afastou o microfone. - Recuem e abram caminho! Vou passar.
      Os reprteres no se mexeram. De facto, Joe comeava a pensar que eles estavam a cerrar fileiras contra ele. ptimo. Aps cinco anos a jogar como quarterback 
dos Bullets, no se encolhia quando se tratava de atravessar uma linha.
      Uma luz dourada vinda de um toldo e dos candeeiros da rua iluminava a zona. Os msculos de Joe ficaram tensos quando olhou para l dos homens, para o Audi 
prateado estacionado na berma do passeio. Meteu a mo no bolso das calas para tirar as chaves.
      - Fomos informados por uma fonte fidedigna de que Valerie Lakota est viciada no lcool e na cocana! - gritou outro jornalista. - Quer comentar?
      Claro que ele no queria comentar. No percebiam que estavam a falar da me do filho dele? Vale tudo - era o lema deles. Bom, ia dar a provar queles estpidos 
o seu prprio remdio. Apenas esperava que o seu joelho lesionado aguentasse a punio.
      Da mesma forma que dantes pegava numa bola, meteu o filho debaixo do brao, virando o ombro contrrio para a parede de corpos. Agachando-se para tomar balano 
e ganhar impulso, disparou pretendendo apanh-los desprevenidos e conseguir correr directamente at ao carro.
      A forca pura do seu impulso para a frente, juntamente com um equilbrio duramente adquirido ao longo de anos de colises com jogadores maiores, no campo, fez 
Joe sair do impedimento, atravessar a linha da frente e alcanar o passeio. Zs! Quase no sentiu o impacto quando abriu caminho e levou tudo  frente.
      A uns metros do automvel, o seu caminho foi subitamente bloqueado por um reprter entroncado, de calas bege e camisa branca. Olhando para Joe atravs da 
lente de uma mquina fotogrfica a disparar, o reprter gritou: - Senhor Lakota, quanto  que pagou  sua ex-mulher para...
      Joe bateu no tipo, atirando-o para o lado. Ouviu um baque de carne e o estrpito de equipamento a bater no cimento. Enquanto cobria a distncia que restava 
at ao Audi, carregava no porta-chaves de controlo remoto para abrir a porta do lado do condutor.
      - Seu filho-da-me, partiu a minha mquina fotogrfica!
      O reprter saltou-lhe para os ps e fez uma investida selvagem, tentando agarrar o brao de Joe. Falhando o alvo, agarrou, em vez disso, a perna de Zachary. 
O menino choramingava de medo. Joe rodou e soltou-o da priso do homem com um golpe violento no pulso deste. - Tire as mos do meu mido!
      - V para o diabo com o seu maldito mido! E o meu equipamento? Com um olhar de relance para o rosto enraivecido do homem, Joe percebeu que ia haver sarilho. 
O seu nico pensamento foi pr Zachary em segurana dentro do carro antes que acontecesse qualquer coisa. Percorreu o resto da distncia at  borda do passeio a 
toda a velocidade. Quando atingiu a porta do Audi, uma mo agarrou-o pelo ombro e f-lo parar. O porta-chaves caiu dos dedos de Joe, tilintando ao bater contra o 
carro e caindo na valeta.
      Sem alternativa, Joe ps Zachary no cho, entre ele e o carro, para o proteger. Quando se virou para enfrentar o reprter enraivecido, umas mos fortes agarraram-se 
com firmeza  frente do seu casaco aberto. - Vai pagar os prejuzos. Est a perceber, sua besta? No pode andar por a a bater nos reprteres e ficar por isso mesmo! 
H leis.
      Joe podia ter dito que tambm havia leis para proteger celebridades e respectivas famlias da Imprensa, mas agora no era altura para discutir a questo. Tudo 
o que lhe importava era tirar Zachary dali. Com um rpido movimento dos pulsos, libertou-se do homem e empurrou-o para trs.
      - Estou a avis-lo, caro senhor, desaparea da minha frente. Tenho uma criana comigo, para o caso de no ter reparado. Para trs!
      O reprter bateu no peito de Joe com as mos, com forca suficiente para tirar o chapu da cabea de Joe. Perdendo o equilbrio, Joe cambaleou, quase caindo 
para trs, em cima de Zachary.
      Foi o fim.
      Um sentido de proteco feroz e uma ira quase irracional incendiaram-se dentro dele. Fechou o punho e martelou o queixo do reprter com um directo. Derrubado, 
o homem caiu pesadamente para trs, tendo o tombo no cimento sido amortecido apenas pelos outros jornalistas que se comprimiam atrs dele.
      Ignorando a dor dos ns dos dedos esfolados, Joe virou-se e agarrou no filho para o meter dentro do Audi. As chaves. Soltou uma praga quando se inclinou para 
procurar na valeta. Num frenesim, Zachary agarrou-se-lhe ao pescoo, agitando a cabea e impedindo a viso de Joe. Finalmente, Joe avistou o porta-chaves de controlo 
remoto perto de uma grade de drenagem.
      Enquanto Joe se inclinava para apanhar as chaves, Zachary chorava e gritava: - Depressa, pai! Quero ir para casa! Quero ir para casa!
      Quando abriu a porta do carro, Joe abraou mais apertadamente o filho. Casa. Uma mirade de imagens varreu-lhe a mente - de calmas ruas ladeadas de rvores; 
do jardim da cidade nas noites de Vero; da me, de vestido estampado de trazer por casa e avental, atarefada a enrolar a massa da torta na sua cozinha alegre mas 
antiquada. Casa. A palavra significava muito mais para ele do que um apartamento na cidade, num segundo andar, isso era certo.
      - Por favor, pai! Quero ir-me embora! - chorava Zachary. - Eles vo apanhar-nos. Depressa! Por favor, pai! Quero ir-me embora. Quero ir-me embora!
      No havia para onde ir, no havia para onde correr. Enquanto vivessem em San Milagros, seriam inevitveis encontros ocasionais com a Imprensa.
      Mantendo o brao  volta do filho, Joe deslizou por baixo do volante, fechou a porta e trancou-a e, a seguir, virou-se, ps-se de joelhos para pr o filho 
em segurana. A criana recusava-se a largar o pescoo de Joe. Ambos estavam a tremer, Joe, de raiva, Zachary, de terror.
      - Est tudo bem, scio - disse ele, com a voz mais calma que conseguiu arranjar, enquanto se libertava da criana e lhe punha o cinto de segurana. - Tu ests 
ptimo. Eu estou ptimo. Vai correr tudo bem. - Depois de se virar para a frente, Joe meteu a chave na ignio. - Vamos para casa - disse ele, quando o motor comeou 
a roncar. - Ests a ver? Estamos em segurana. As portas esto trancadas. No podem fazer-nos mal.
      Uma luz ofuscante invadiu o carro. Zachary tremeu, perdendo ainda mais cor na carinha j plida quando olhou para o reprter que se tinha aproximado do lado 
do Audi para tirar a sua fotografia atravs do vidro.
      - Depressa, pai! Depressa!
      Furioso, Joe afastou o carro da berma com um ranger de pneus, reacusando-se a travar perante os reprteres que lhe saltavam ao caminho. Se aquelas bestas fossem 
atropeladas, era problema delas.
      Ia tirar o mido daquela cidade que no passava de um buraco malcheiroso. Para longe da loucura. Para longe de tudo aquilo...
      Casa. A saudade atacou Joe, rapidamente e com fora. De todos os locais que lhe ocorriam para onde podia levar o filho, Laurel Creek surgia-lhe na mente como 
um farol no meio da tempestade. Podiam ir para l e ficar em segurana. Imagens enchiam-lhe a mente - de um ritmo lento e preguioso; de rostos amigveis e sorridentes. 
Uma pessoa em especial destacava-se na sua memoria: Marilee, o seu nico verdadeiro amor, a nica mulher que nunca tinha conseguido esquecer.
      
    Captulo Um
    
      
      Segunda-feira, 17 de Julho, Laurel Creek, Oregon
      
      Passara aproximadamente um ano desde o ltimo ataque de pnico de Marilee Nelson e ela acreditava honestamente que no voltaria a ter mais nenhum.
      At ver o capacete de futebol.
      Como capacete de futebol, era bastante vulgar, cinzento com listas carmesins, as cores da equipa de Laurel Creek High, sua alma mater. Nada muito assustador 
em relao a isso. No, o que lhe causava terror era que o capacete estivesse junto do vidro de trs de um Honda azul desconhecido, com placas de matrcula da Califrnia, 
que estava estacionado  frente da garagem dela.
      Isso era o suficiente para lanar Marilee numa completa histeria, sem sequer passar pelo estado de pnico.
      Depois de o seu carro ter parado com um solavanco, desligou o motor e olhou para aquela placa da Califrnia at lhe arderem os olhos. JOE, dizia l. Um nome 
muito vulgar. Era, sem duvida, pura coincidncia que um tipo chamado Joe, da Califrnia, tivesse estacionado o seu carro no caminho dela. Talvez um mido que andasse 
a arranjar dinheiro para ir para a Universidade vendendo assinaturas de revistas. Ou um recenseador que andasse a vaguear pelo estado errado.
      Podia ter ficado convencida, mas havia aquele capacete. S havia um Joe da Califrnia que tivesse equipamento de futebol do Laurel Creek High no carro. O seu 
Joe. Mais de um metro e noventa de homem musculoso e fatal.
      - Oh, meu Deus!
      Ao som da voz dela, Boo, o seu co, acordou da sesta no lugar do passageiro. Lanando-lhe um olhar mal-humorado, com os olhos mortios, bocejou e lambeu-lhe 
o nariz.
      - No olhes para mim como se eu fosse uma cobarde. Tu  que precisas de um Valium para ir  consulta ao veterinrio.
      Marilee inspirou, trmula, engoliu em seco e tentou descontrair o corpo. Lentamente, at a respirar. Contra os teus pensamentos. Agora, para ela, a rotina 
era como que uma segunda natureza e, embora por vezes fosse ineficaz, desta vez funcionara para desacelerar o bater do corao. Graas a Deus. Ter um ataque de pnico 
simplesmente por ver um carro seria um presente envenenado.
      - Isto  uma estupidez. Quero dizer... porque  que hei-de estar preocupada? Voltou para casa, ao fim de dez anos. E depois? Tivemos um caso. Grande coisa. 
Depois de ter regressado h quase dois meses, de repente, decidiu passar e dizer ol. Porqu, no fao ideia. Talvez para me fazer infeliz!? Sim, isso funciona.
      Boo ganiu, apoiou outra vez a sua grande cabea nas patas e fechou os olhos piegas orlados de vermelho.
      - Exactamente. Maador. J no me importo. - Deixou cair as chaves na bolsa. - A srio. Sou uma mulher de vinte e oito anos, auto-suficiente, a viver num sculo 
iluminado. Por pior que seja a situao, eu resolvo-a.
      Munindo-se de toda a coragem, Marilee saiu do carro. Tudo o que tinha que fazer era controlar-se e pensar numa boa mentira para se livrar dele.
      Oh, meu Deus, porque  que ele est aqui?
      As mos tremiam-lhe enquanto dava a volta ao carro, abria a porta e tirava Boo da sua soneca. O co resmungou quando ela lhe deu umas palmadinhas na grande 
cabea ossuda.
      - Anda, canzarro. Por uma vez, faz com que esse nariz que Deus te deu sirva para alguma coisa. Fareja-o. Mostra-te feroz. Corre com ele e dou-te um suculento 
lombo da melhor qualidade ao jantar.
      Boo resmungou ao sair do lugar. Fechando a porta, Marilee virou-se para o seguir, determinada a no deixar que isto a prostrasse. Tudo lhe tinha corrido to 
bem neste ltimo ano... Maldita fosse se deixasse agora Joe voltar a entrar na sua vida e virar o seu mundo de pernas para o ar.
      De maneira nenhuma. Tinha coisas importantes na agenda para esta tarde. No interessava se era apenas uma enorme panela de carne de vaca guisada que estava 
ao lume. Exactamente s quatro e meia, tinha que pr as batatas. Isso era um compromisso premente, no era? Mostrar-se-ia apenas contente por voltar a v-lo - ha, 
ha - e explicaria, lamentando, que a tinha apanhado numa ma altura.
      Situao resolvida.
      Boo arrastou-se pesadamente  frente dela, ocupando a maior parte do passeio com a sua estrutura ossuda e a pele lassa a rolar-lhe por cima das omoplatas salientes. 
Na bifurcao do cimento, optou pela direita, tomando o caminho entre a garagem e a casa. Seguindo na peugada do co, sacudia nervosamente o plo castanho que se 
lhe agarrava s calas brancas e  blusa cor-de-rosa sem mangas.
      Oh, meu Deus. Que estava ela a fazer? Como se ela se importasse com o seu aspecto. No conseguia aprender. Soprava as franjas para tirar os caracis frisados 
castanhos com madeixas louras dos olhos. Joe Lakota era o ltimo homem do mundo que queria impressionar. Era perigoso para o bem-estar dela e, se se esquecesse disso, 
por um segundo que fosse, ver-se-ia confrontada com mais sarilhos do que era capaz de aguentar, cerca de cem quilos deles.
      A meio caminho de casa, Boo parou com uma postura de desconfiana a farejar o ar. Marilee viu Joe sentado no alpendre lateral. Dobrado para a frente pela cintura, 
com uma perna dobrada e a outra estendida, estava a massajar o joelho.
      Mesmo a distncia, estava lindo - se se gostasse de pele bronzeada, cabelo preto despenteado e muitos msculos. Trazia umas calcas cinzentas de fato-de-treino 
e uma T-shirt desportiva a condizer com Laurel Creek High School impresso em letras maisculas a toda a largura do peito.
      Quando a viu, endireitou-se. Tal como muitos ces, Boo era ligeiramente mope e, evidentemente, s conseguiu ver Joe quando ele se mexeu. Marilee podia ter-se 
rido da reaco do co se no tivesse ficado, ela mesmo, to assustada com aquele visitante inesperado. O comportamento do Boo significava - Que surpresa! Um intruso? 
Quase instantaneamente, longos fios de baba branca comearam a escorrer dos lbios flcidos do co.
      - Ol! - disse Joe, num tom amigvel e nada ameaador. Infelizmente, parecia perigosamente capaz de se pr em p a qualquer momenta e torcer um co com um 
pouco de peso a mais at o fazer num oito.
      O corpanzil de Boo ficou tenso, as quatro patas bem abertas no cho, e soltou um suave - Uuf. No era uma criatura muito corajosa, caracterstica que se tornou 
mais bvia quando veio s arrecuas e o rabo colidiu com a perna de Marilee.
      Marilee tinha uma boa razo para fugir. Aquele bartono melfluo tinha-lhe assombrado os sonhos durante uma dcada. O sangue escorria-lhe da cabea e danavam-lhe 
pequenos pontos pretos  frente dos olhos.
      Era uma reaco ridcula. Desde que mantivesse a distncia, Joe Lakota no constitua ameaa. Por mais poderoso que o seu bom aspecto de moreno fosse, j no 
tinha nenhum efeito nela.
      Bem, talvez tivesse algum efeito. Ela no estava morta, afinal. O olhar escaldante dele causava-lhe formigueiro na pele.
      Ladrando sem parar, Boo passou da atitude de dar-se bem para a de ataque o que, para ele, era algo entre um lento passeio e uma srie de paragens sbitas, 
destinadas, Marilee tinha a certeza, a certificar-se de que ela ainda ia atrs dele.
      - Est tudo bem, Boo - disse ela, inclinando-se para a frente de modo a passar-lhe uma mo reconfortante primeiro na coxa e depois no lombo e no ombro, e finalmente 
na cabea, na medida em que ele ficava cada vez mais para trs para a deixar ir  frente. Maldito co!
      - Deixa-me adivinhar. Arranjaste-o para te proteger, no foi? Marilee forou um sorriso - um daqueles terrivelmente frios que a faziam sentir-se como se tivesse 
a cara suja de clara de ovo. Ento... era assim que as coisas iam passar-se. Ambos a fingir que verem-se outra vez era a coisa mais natural do mundo. Bem, podiam 
ser duas pessoas a jogar esse jogo.
      - Nada de insultos, por favor. Ele j teve uma tarde difcil no veterinrio e est completamente drogado com Valium.
      -  Valium?  isso que se passa com ele? - Joe inclinou-se para a frente, olhou para o focinho cado do co e depois estendeu uma mo que parecia quase to 
grande como um prato. - Anda c, Boo. Porque  que tenho a sensao de que o nome te fica bem?
      Boo quase deitou Marilee ao cho, tentando escapar a que ele lhe tocasse.
      Joe riu-se. - Anda - incitou. - Eu gosto de ces. Ah, a est, vs? - disse ele quando Boo lhe farejou os dedos. - Eu sou bom tipo.
      - Parece que ele no percebe que o mundo est cheio de estranhos. Exceptuando as visitas da minha famlia, no temos muita companhia.
      Boo chegou-se um pouco a frente para dar mais uma cheiradela  mo de Joe. Evidentemente, o cheiro tranquilizou-o. Descontraiu-se um pouco e aproximou-se mais 
para que o visitante lhe coasse as ore-lhas. Pateta falso e intil.
      Marilee continuava a perguntar a si mesma por que raio tinha Joe vindo  casa dela. S sabia que preferia que no tivesse vindo.
      Quando olhou para ela, ela afixou outro sorriso.
      - Que bela surpresa.
      - Estou a ver que ests emocionadssima. - Ps-se em p. - Espero que no te importes de que tenha ficado aqui  tua espera. Est mais quente do que o fogo, 
do lado da frente.
      A sua memria e as noticias dos jornais no lhe faziam justia. No sabia dizer por que razo isso a surpreendia. Joe sempre fora to bonito que quase fazia 
doer os olhos e os anos s lhe tinham melhorado o aspecto, dando carcter e definio a um semblante j de si impressionante.
       parte o modo quase imperceptvel como protegia a perna direita, o seu corpo grande e forte mexia-se com graa e -vontade, sendo visvel debaixo do algodo 
cinzento o jogo dos msculos do ombro, a flexibilidade das suas coxas esticando as pernas das calas do fato-de-treino. Fragmentos de sombra e de sol pintalgavam-lhe 
o rosto, acentuando a iluminao vacilante a cana do nariz, que parecia uma lmina, e a linha muscular do queixo quadrado. Parecia alerta e... agressivo.
      Pra com isso, Marilee. Pra. Joe era uma das pessoas mais bonitas que alguma vez tinha visto. Na sequncia desse pensamento, deu consigo a lembrar-se do artigo 
que tinha lido acerca dele no jornal em Maro, dizendo que tinha batido num reprter e lhe tinha partido o queixo. No via Joe h dez anos. Desde ento, ele tinha 
conseguido chegar ao topo num desporto profissional brutal. Outrora, era doce e delicado, mas o que  que havia de se dizer dele agora?
      Tentou freneticamente lembrar-se da desculpa que tinha inventado para o pr dali para fora. S lhe vinha uma palavra  mente: agenda. Boo deixou-se cair no 
cimento fresco, soltando um suspiro de inconfundvel alvio por no ter sido chamado a proteg-la.
      Joe abanou a cabea.
      - J percebi porque  que no lhe chamaste "Killer".
      Ps as mos nas ancas e levantou o joelho direito, mostrando com essa posio atltica o msculo duro como uma pedra. Noutra pessoa, aquela pose poderia ser 
para dar um ar de macho, mas ela suspeitava de que Joe estava apenas a transferir o peso para a perna boa. H trs anos, uma carga na linha de 20 jardas tinha-lhe 
lesionado o joelho direito. Segundo o cunhado, Ron Palmer, que tambm era amigo de sempre de Joe, duas operaes e meses de reabilitao no tinham conseguido reparar 
todos os danos. Joe no estava deficiente, mas um homem com menos garra e determinao talvez tivesse ficado.
      Agarrou-se  camisa. - Desculpa vir com estes trapos, mas no fui mudar-me a casa antes de vir para aqui.
      Ela percebeu que tinha estado a olhar. - Oh, no! Eu no estava... ests com ptimo aspecto, a srio. Eu, eee...  que... fiquei surpreendida por te ver. Agradavelmente 
surpreendida,  claro.
      O olhar triste dele cintilava como se tivesse ido repousar na cara dela. Olharam um para o outro. Durante esses segundos, os anos recuaram e ela sentiu-se 
outra vez com dezoito. O simples facto de olhar para ele fazia vir  superfcie velhos sentimentos que estavam nalgum local profundo dentro dela e extravasavam espalhando-se-lhe 
pelo corpo todo. Contentamento, tristeza, ternura nostlgica - e uma prudncia que lhe apertava o estmago.
      Finalmente, ele desviou o olhar, virando-se outra vez para Boo.
      - Mauzo. Como raio  que te foste prender a um co?
      O co j se tinha instalado para dormir uma soneca e tinha um ar to estpido que se transformou num grande quebra-gelo.
      - Salvei-o do corredor da morte. - Ela decidiu que ele acharia estranho que se mantivesse to distante, pelo que se aproximou dos degraus. - Pertencia a um 
homem que cria e treina ces de caca. O pobre Boo no engraava com a perseguio de caa.
      - Provavelmente, o pobre Boo tinha medo de poder meter-se numa situao perigosa... como um esquilo.  sempre assim, to agressivo?
      Tirando a correia do ombro, Marilee poisou a bolsa no rebordo do alpendre e inclinou-se para fazer festas na orelha de Boo.
      - Os medicamentos tiram-lhe um pouco de coragem, realmente. - Pobre beb. A cobardia era uma cruz terrvel de carregar. - Teria sido posto a dormir se eu no 
o tivesse adoptado. Nem toda a gente gosta de ces. Esteticamente falando, so bastante... especiais.
      - Achas que so lindos, claro. Marilee forou outro sorriso frio.
      - Acho que ele  to desajeitado que se torna giro. Respondendo ao contacto dela, Boo esticou a espinha, soltou um prolongado ronco, suspirou de satisfao 
e peidou-se. Marilee endireitou-se rapidamente para evitar a exploso.
      - Acho que abusaste do Valium. Ele est  beira do coma. - Arqueou uma sobrancelha morena, subiu para o patamar para evitar o cheiro e virou-se para lhe estender 
a mo. - Sobe para aqui antes que morras asfixiada.
      Ela ignorou a mo que ele lhe tinha estendido e subiu os degraus, dobrando-se quando j estava mais acima para pegar no saco.
      - Foi exactamente por esta razo que fomos ao veterinrio. Diagnstico, estmago nervoso. - Apalpou a mala de mo que estava volumosa. - Tenho umas pastilhas 
para resolver o problema.
      Ele coou-se ao lado do nariz. - Esperemos que sim.
      - Ento... a que devo a honra desta visita?
      - S quis passar. Dizer ol. Pr a escrita em dia.
      Ela olhou para o relgio, grata por o seu crebro ter finalmente engrenado. - Caramba! Lamento tanto, mas apanhaste-me numa m altura. Tomara que tivesses 
telefonado a dizer que vinhas.
      - Porqu? Assim podias ter-te ido embora convenientemente?
      Ele tinha o nmero dela. - No sejas estpido. Adorava conversar contigo.  apenas que tenho um compromisso premente.
      - V l, Mari. Em nome dos velhos tempos. Achas que foi fcil para mim vir c? O mnimo que podes fazer  oferecer a um velho amigo alguma coisa fresca para 
beber. No vou demorar-me tanto tempo como isso.
      F-la sentir-se pequenina. Se temesse este encontro tanto como ela, provavelmente no teria sido fcil para ele vir.
      - Eu, eee... - Aproveitou para tomar flego e se acalmar. - Suponho que arranjo uns minutos. Que tal um ch gelado?
      - ptimo.
      - Senta-te. - Fez um gesto em direco s robustas espreguiadeiras. -  s um minuto.
      Abriu as portas envidraadas. Quando entrou na cozinha, Joe foi atrs dela. Ela queria que ele ficasse l fora. Tentando esconder o seu desconforto, ps a 
bolsa em cima da mesa oval de carvalho.
      - Onde est o teu menino? - Limpou as palmas das mos pegajosas s calcas. - A minha irm telefonou-me ontem  noite, depois de l teres estado a jantar. A 
Gerry diz que ele  a tua cara chapada.
      - No.  muito mais bem-parecido.
      - Zachary, no ? - Como se ela no soubesse. O nome da criana era um nome que nunca esqueceria, por razes que no gostava de recordar. - A Gerry diz que 
ele tem quatro anos?
      - Quatro e meio. No te esqueas de acrescentar isto, seno ele fica profundamente ofendido. Ainda est com a minha me. Passei por aqui antes de o ir buscar.
      - Oh! Da prxima vez, gostava que o trouxesses. - No era que houvesse uma prxima vez, por vontade dela. - Gostava de o conhecer.
      -  bastante tmido com estranhos. Marilee tinha ouvido dizer isso mesmo a irm.
      - Acho que ele passou um mau bocado?
      - Pode dizer-se que sim. A me dele  um problema. Tambm sabia disso. - Lamento.
      - Sim, bem, casamento de ressaca. Tinha a minha cabea no... - Interrompeu-se e limpou a garganta. - A Valerie no foi feita para ser me.
      Evitou olhar para ele. - H mulheres que no so, acho eu. A Gerry diz que voltaste para c por causa do teu filho?
      - Ambiente de terra pequena, no h jornalistas nem fs a perseguirem-me. No suportava mais a vida  luz da ribalta. Aqui em Laurel Creek sou apenas o Joe, 
um rapaz da terra que teve o dom de subir na vida em espiral. - Encolheu os ombros. - Isso torna as coisas mais fceis para o Zachary.
      - Bem, espero que as coisas tambm corram bem para ti, aqui. - Mentirosa, mentirosa.
      Tirou do os copos do aparador e depois serviu o ch gelado. A sua grande cozinha de campo no parecia to espaosa como isso com ele l dentro. Pior ainda, 
ele encostou um ombro ao ltimo armrio, fechando-a na zona de trabalho em U. O seu olhar triste varreu o carvalho reluzente, depois apanhou as cortinas Priscilla 
azuis, a sua coleco de animais de quinta, de cermica, que brilhava em todos os espaos disponveis do balco de azulejos de mrmore, e os tapetes de trapos entranados, 
feitos por ela,  mo, no Inverno passado.
      - Continuas a ser uma amante incurvel de animais, estou a ver - observou ele secamente.
      - Consumada. Com os animais, sabemos exactamente com que  que contamos.
      Ele riu-se por entre dentes. - O que, em relao a certas espcies, quer dizer que tm livre acesso.
      -  verdade, mas pelo menos so francos e honestos. Com os homens,  uma lotaria, no ?
      - Falas por experincia prpria?
      Que  que ele queria dizer? Tinha gotas de suor no cachao. O Joe fora sempre assim. Conhecia-a demasiadamente bem e fazia-a sentir-se to fcil de ler como 
um texto em letras garrafais. Mais uma razo para se manter longe dele.
      - Gosto da tua casa. D uma sensao de conforto, acolhedora.
      - Obrigada. Sou muito feliz aqui. Pes acar?
      - No, obrigada. Mete apenas o dedo l dentro.
      Espantada com a resposta dele, olhou por cima do ombro e viu-o a observ-la. A sua boca firme contorcia-se de humor reprimido e os olhos reluziam de apreo 
quando se deslocaram preguiosamente para a cara dela.
      - Ests com ptimo aspecto. Andava a rezar para que estivesses gorda e feia, com um par de grandes verrugas salientes. Deus no existe.
      Gorda e feia? Por que raio  que esperava isso? Porque ainda sentia alguma coisa por ela. A ideia quase a assustou de morte.
      - Tu tambm ests com muito bom aspecto. E detestava-o por isso. Aos trinta e um, o mnimo era ter desenvolvido um pouco de barriga. Talvez pudesse sugerir-lhe 
que voltasse daqui a uns dez anos. Dar-lhes a possibilidade de se deteriorarem um pouco mais fisicamente.
      Ela tinha a garganta a arder. Ele desencostou-se da parede e encaminhou-se vagarosamente para ela, nunca deixando de a olhar nos olhos. A cada passo que ele 
dava, ela sentia as pernas mais fracas. No aguentaria se ele lhe tocasse e receava que fosse exactamente isso que ele tencionava fazer.
      Quando ele parou, sentiu-se como se ele estivesse quase em cima dela a aambarcar a maior parte do oxignio disponvel. O cheiro dele rodeava-a - uma mistura 
que no era desagradvel de algodo seco ao sol, aftershave condimentado, erva fresca do campo, e suor limpo, masculino que lhe enchia a mente de recordaes assustadoras. 
O calor que irradiava da sua grande estrutura penetrava-lhe na blusa tricotada e nas calcas de linho, aquecendo-lhe a pele, fazendo-lhe andar a cabea  roda e provocando-lhe 
sobressaltos na respirao.
      Respira com regularidade. Inspira e expira. Concentra-te na conversa. No te autorizes apensar em mais nada.
      A contraco de humor nos cantos da boca dele tornou-se lentamente num sorriso. Era outra coisa dele de que se lembrava com uma clareza dolorosa, o modo preguioso 
como sorria. Primeiro, os olhos comeavam sempre a cintilar. Depois, a covinha tremia-lhe quando aquele sorriso devastador se instalava. Nunca deixara de lhe fazer 
sentir enfraquecer os joelhos, e agora assim era. As nicas diferenas que conseguia detectar eram que a boca se tinha tornado mais firme, a contraco dos lbios 
tinha-se tornado um pouco mais cnica e a covinha tinha gerado uma ruga permanente.
      Ver as mudanas que nele se tinham dado magoava, pois cada uma representava os milhares de dias e de noites desde a ltima vez que se tinham visto. Outrora, 
ambos acreditavam que nada no mundo podia separ-los. Infelizmente, Marilee tinha aprendido da pior maneira que uma vida inteira podia transformar-se num piscar 
de olhos, mudando tudo e todos os planos.
      Ele esticou-se por trs dela para ir buscar um dos copos, tendo o seu brao roado nela ao de leve. Depois, com ela ainda presa entre ele e o balco, bebeu 
um grande gole. Ela olhava-lhe para a garganta, observando a laringe a andar para baixo e para cima e os msculos a funcionarem. O ch estava quase todo bebido quando 
parou para tomar ar.
      - Ah - disse ele baixinho, enquanto lambia os lbios -, era isto mesmo.
      - Mais?
      - Um cavalheiro no aparecia sem avisar para te beber o ch todo. Estendeu-lhe o copo. - Mas alguma vez eu disse que era um cavalheiro?
      - S demora um segundo fazer mais. - Pegou no jarro para lhe voltar a encher o copo. A mo tremia-lhe tanto que entornou parte do lquido. - Ups! Desculpa.
      - No h problema. - Passou o copo para a outra mo e limpou os dedos molhados s calas. - Hoje est tanto calor l fora que podias despejar tudo em cima 
de mim sem eu me queixar.
      Para alvio dela, ele foi para a mesa, onde folheou os rascunhos em que ela tinha estado a trabalhar para um livro infantil que estava a escrever. - Um ramo 
de flores com cara e pestanas compridas? - disse ele com uma risada.
      - A ideia  ser um amor-perfeito.
      - No fiques ofendida. O mais que me aproximo de flores  quando fao uma encomenda.
      Para uma das muitas senhoras suas amigas, sem dvida.
      - Quem  o mido com cara triste?
      - Chama-se Azul.  o nico amor-perfeito dessa cor que h no jardim e  marginalizado, sendo a moral da histria que a cor de cada um no  importante. No 
fim, embora tenha sido desprezado pelos outros, salva todo o jardim da destruio porque  uma subespcie rara.
      Ele sorriu amavelmente e depois dirigiu-se  sua vitrina, inclinando-se para analisar as fotografias emolduradas que ocupavam duas das prateleiras de vidro. 
- Ah, lembro-me deste dia. As corridas da gua com borbulhas no parque da cidade.
      Se soubesse que ele vinha, teria escondido todas as suas fotografias. Lembrava-se de todos os pormenores dessa tarde, e tinham passado muito pouco tempo a 
ver as corridas de barco. Joe levara-a para debaixo da ponte, estendera uma manta e dera-lhe lies da bela arte do beijo na boca, que ela achara completamente nojento 
- ao todo, durante trs segundos.
      - As corridas continuam a ser um acontecimento, aqui, no fim de Agosto - disse-lhe ela.
      - A srio? - Dirigiu-lhe um olhar malicioso. - Talvez devssemos dar um passeio pela rua da memria e ir juntos este ano.
      - Tenho que ajudar a Gerry a tomar conta dos midos. Aborrecias-te de morte.
      - Duvido seriamente. Com sete midos a correrem por todo o lado, no. Voltar a ver o Ron quase fez com que ficasse contente por nunca me ter casado contigo 
e no me ter tornado catlico.
      Ela levou o ch para a varanda e foi encostar-se  grade, um brao  volta da cintura e o copo na outra mo. Quando ele foi ter com ela, aproximou-se tanto 
que os plos do seu brao nu picaram-na. Afastou-se um pouco para ganhar a zona-tampo de que necessitava e depois tentou alhear-se dele, concentrando-se nos pssaros 
a cantar, nos roncos do Boo e no gelo a chocalhar nos copos. Joe Lakota era difcil de ignorar.
      Acalmou a garganta com um gole de ch. Ele virou a cabea morena, pondo a cara to perto que lhe conseguia ver os poros da pele lustrosa, os plos das suas 
longas pestanas pretas e os salpicos dourados dos seus olhos castanhos. O olhar dela desviou-se para a boca dele e conseguiu resistir a ir mais longe.
      - Desculpa interromper-te desta maneira, mas precisava de ter este primeiro encontro. Vivendo na mesma cidade, somos obrigados a tropear um no outro. No 
sei o que se passa contigo, mas eu temia-o.
      - A adulao no te leva a parte nenhuma.
      - Sabes o que quero dizer. No nos separamos da melhor maneira. - Uma expresso embaraada fixou-lhe nas feies tristes. - Tenho vergonha de o confessar, 
mas a princpio escondi-me, na esperana de te evitar. Passado algum tempo, isso pareceu-me ridculo. Foi de tal maneira que ficava paranico de cada vez que via 
uma loura. Quando quase me acocorei no supermercado para me esconder atrs das laranjas, soube que tinha que vir enfrentar-te.
      Marilee no pde deixar de se rir perante a imagem que as palavras dele invocavam. Joe Lakota a agachar-se atrs das laranjas? Saber que ele estava nervoso 
tambm ajudava, de algum modo.
      - No outro dia, quase bati num carro estacionado, quando pensei que te tinha visto a atravessar a rua. Eu sei o que se sente.
      Suspirou e olhou para o cabelo dela.
      - A cor mudou.  assustador. Estava  espera de um louro puro e tens madeixas. S te reconhecia se estivssemos frente a frente.
      Ela apontou para um caracol frisado na tmpora.
      - Comeou a ficar castanho, com a idade, e a Me Natureza fez um hiato antes de completar o trabalho. Acabei com a confuso.
      - A mesma Marilee, sempre a rebaixar-se. H mulheres que pagam uma fortuna para fazer madeixas com um louro como esse.  lindssimo.
      - Sim?
      - Sim - garantiu ele, acaloradamente. - No percebes mesmo, pois no?
      - Perceber o qu?
      Levantou-se uma brisa e ele afastou uma madeixa que lhe caa sobre a testa. - Como s bonita.
      - Oh, por favor.
      - Olha, tens que saber que eu no te fazia um elogio s para te fazer sentir bem.
      Ela voltou a rir-se, consciente como estava de que se tinha aliviado alguma da tenso que tinha sobre os ombros. - Obrigada. Acho eu.
      - Olha, estou a ser brutalmente honesto. Estou muito magoado contigo, querida, mas isso no quer dizer que seja cego de todo.
      - Obrigada - disse ela outra vez.
      - Algumas pessoas tm um brilho especial - continuou ele. - Olha-se para elas e elas... no sei como descrever isso, mas sente-se nelas doura.  quase como 
um abrao. Alguma vez sentiste isso?
      - Sim, com a tia Luce.
      - A tia Luce? - Atirou a cabea para trs e desatou a rir-se. Quando lhe passou a hilariedade, limpou por baixo de um dos olhos e disse: - Oh, meu Deus, desculpa. 
Ela  uma doura, realmente.  que... - Voltou a desatar s gargalhadas. -  uma porreira! Ainda pinta o cabelo de cores extravagantes?
      - Cor-de-rosa, da ltima vez. E agora anda com brincos que se acendem. Luzinhas alimentadas por pilhas de relgio. Parece um aliengena acabado de aterrar. 
Muito doce, no entanto. Sempre que preciso de algum para me dar carinho, seja pelo que for, vou ter com a tia Luce. Ela no julga uma pessoa, sabes?
      - Que fizeste tu alguma vez... para alm de me partires o corao, claro... para que algum te julgasse?
      Se ele soubesse... - Todos ns arranjamos confuses, Joe.
      - Como disse, estou muito magoado contigo, querida. Mas ainda penso que s a coisa mais prxima da perfeio que se pode arranjar.
      - No sejas absurdo. - A tenso continuou a diminuir. No sabia por que razo isso no a surpreendia. Aquilo era o que o Joe tinha de mais traioeiro, a sua 
capacidade de ultrapassar as suas defesas. - Eu sou a rapariga que te abriu a cabea. Lembras-te? Fiquei louca e empurrei-te para o grande mergulho.
      - Foi por minha culpa que bati no cimento. Ela deu uma gargalhada de espanto.
      - Santo Deus! Sempre arranjaste desculpas para mim.
      - Bem,  verdade. Dei uma volta no ar para me agarrar. Alem disso, desapertei-te a parte de cima do fato de banho e mereci.
      - Eu era uma fedelha. Onze anos e lisa como uma tbua. Se fosse mais velha, com alguma coisa para esconder, ainda se podia entender.
      Ele deu uma volta ao copo, fazendo o gelo tilintar. - As raparigas daquela idade so dolorosamente modestas. Eu  que era um fedelho. De algum modo, no conseguia 
resistir a provocar-te.
      Marilee riu-se nostalgicamente enquanto as recordaes se desenrolavam  sua volta. - Passaste por uma fase ordinria, passaste.
      - Andava a namoriscar-te. Ainda eras demasiado ingnua para apreciares os meus esforos.
      - Oh, continua. No voltes a esse tempo. Eu no era nada nova de mais.
      - E eu era o qu? O Matusalm? - Abanou a cabea. - Sempre te amei. Sabes disso. Ontem  noite, estava deitado acordado, a tentar lembrar-me da primeira vez 
que apanhei a doena fatal. Acho que tinhas cinco anos e eu, oito.
      De algum modo, tinham-se arriscado em terreno perigoso. Mas, ento, o terreno, com o Joe, no era todo perigoso? Em todo o caso, ela no conseguiu resistir 
a dizer: - Tanto quanto me lembro, tiveste uma coisa quente com a Jane Ellen Rawls quando eu tinha onze anos. E quanto  Beth Patterson e  Suzy Fischer?
      - Nunca andei com a Suzy Fischer e as outras duas eram apenas experincias.
      - Sem dvida que fizeste muitas experincias.
      Piscou-lhe o olho enquanto tomava mais um gole de ch. - Tinha que aperfeioar a minha tcnica de modo a no estragar tudo contigo.
      Definitivamente, terreno perigoso. Nunca tinha experimentado a sua tcnica com ela. Antes tivesse. Talvez ela estivesse bem nessa altura, mais capaz de enfrentar 
as coisas e de as perspectivar. Ah, mas havia o desgosto. A vida tinha-os apanhado desprevenidos.
      Marilee bebeu um rpido gole de ch, com movimentos to desajeitados que entornou algum  sua frente. Estava gelado e provocou-lhe um sobressalto. Agarrou 
no decote da blusa para afastar a parte molhada da pele. O olhar de Joe caiu como uma pedra. Ela espalmou a mo sobre o peito. Olharam um para o outro.
      Ela foi a primeira a desviar o olhar. - Ento... vieste c apenas conversar?
      - Sim, apenas conversar. Principalmente, desanuviar o ambiente. - A expresso dele tornou-se sria. - J no consigo odiar-te, Mari.  altura de me livrar 
disso, de pr a dor para trs das costas. Disse-te coisas terrveis naquela noite. No sentia nenhuma delas. S queria magoar-te tanto como tu me estavas a magoar 
a mim.
      Uma sensao ardente invadiu-lhe os olhos. Realmente, no queria entrar naquilo. Por outro lado, talvez ele tivesse razo. Talvez ambos se sentissem melhor 
se enterrassem juntos os seus fantasmas.
      - Lamento tanto, Joe. Tu s a ltima pessoa no mundo que alguma vez quis magoar. Quero que saibas isso.
      Ele acenou afirmativamente com a cabea mas no disse nada. Ela tinha a sensao de que ele estava com um n na garganta, tal como ela, e no conseguia falar. 
Caiu o silncio entre eles. Os cheiros que havia no ar recordavam-lhe os preguiosos dias de Vero h muito passados.
      Quando finalmente ele quebrou o silncio, disse: - Ontem, quando fui  casa do Ron, pusemos em grande parte a escrita em dia. Ele disse que no acabaste o 
curso. Tanto quanto consigo lembrar-me, querias ser professora.
      - Sim, bem... escrever para crianas  uma forma de ensinar.
      - Os esboos que tens em cima da mesa so maravilhosos. Tens uma afinidade com as crianas e realmente apaixona-te chegar a elas, no ?
      - Sim. Adoro o meu trabalho.
      - Fico contento. Sair da faculdade deve ter sido uma deciso dolorosa.
      Deu-se-lhe um n no estmago. Outra vez terreno perigoso.
      Ele ps o copo quase vazio em cima da grade e esfregou as mos.
      - Quanto tempo levaste a tomar a deciso?
      - Caramba, no sei. Um bocado. - At ali, no era mentira. Qualquer coisa entre uma hora e um ano podia ser designada por um bocado.
      - Da ltima vez que falmos, ainda estavas entusiasmada em obter as tuas credenciais.
      - Sim, bem,  medida que o tempo passou, o meu entusiasmo vacilou. As aulas aborreciam-me. Psicologia e tudo isso. Achei que ensinar no era para mim.
      - Ento, demoraste um bocado a perceber, no foi? Acabaste o ano? Ele no lhe tinha deixado espao para fugir  questo. Ou tinha que lhe mentir ou lhe dizia 
a verdade. Agarrou-se mais  cintura com um brao, lembrando-se do tempo em que fizeram um corte na palma da mo de cada um, misturaram os sangues e fizeram um pacto 
eterno de serem os melhores amigos para sempre. Os amigos no mentem uns aos outros. Virou o corpo para olhar pensativamente para o gelo em que incidia o sol. A 
rapariga que tinha feito aquele voto tinha morrido.
      - Acabei por sair durante o perodo da Primavera. No voltei, depois das frias.
      Ele ficou em silncio por um tempo interminvel. Depois, disse:
      - Eu tirei um pouco de Psicologia.
      - Ah, sim? E gostaste?
      - Aprendi muito. Alguma vez estudaste linguagem corporal?
      - No.
      - Tambm achava que no. Se tivesses estudado, fazias melhor do que assumir uma postura defensiva durante tanto tempo.
      - Uma postura defensiva?
      - Agarrares-te dessa maneira a ti mesma. Quer dizer: "No me toques."
      Tirou o brao da cintura e agarrou o copo com as duas mos, sobrepondo as pontas dos dedos.
      - Ests a tentar acalmar-te, Marilee? - Apontou para o copo. - Mos apertadas. Uma tentativa subconsciente de te aguentares.
      Ela afastou-se um pouco da grade. Ele virou-se para a observar e sorriu.
      - Agora, levantas o queixo. Clssico.
      A pulsao dela acelerou. Ps o copo ao lado do dele e limpou as palmas das mos s calcas. - O que  que  clssico?
      - Provocao. Ests a comear a ficar zangada e gostavas de me dizer onde havia de o meter. A educao... ou possivelmente o bom senso, ou talvez um pouco 
de ambos impede-te de ir to longe como isso, pelo que ests a diz-lo com o ngulo da tua cabea. - Estudou-a por um momento. - No te sais muito airosamente. Esse 
olhar nos teus olhos estraga o efeito todo. Mensagens mistas. - Voltou a sorrir. - Nunca envies mensagens mistas a um homem, querida. Arranjas sarilhos.
      - No gosto do teu tom. Talvez devssemos pr termo a esta discusso.
      - No h hiptese.
      - No ests a fazer sentido.
      - Claro que estou. E sabes bem que sim.
      Apareceu-lhe um brilho nos olhos. - Achas mesmo que consegues mentir-me? Pensa bem. Eu conheo-te demasiado bem.
      - No te menti.
      Marilee no estava a gostar do modo como ele estava a olhar para ela. Olhou para o relgio. - Oh, caramba, so quase quatro e meia! Preciso de pr as batatas 
no estufado. Hoje, a Gerry sente-se um bocado adoentada e, aos oito meses e meio, isso  uma preocupao. Vou levar-lhes o estufado para o jantar.
      Ele deu uma risadinha, com um som profundo, melfluo e perigoso.
      - No vais evitar esta conversa.
      Ela olhou-o nos olhos. Recuou um passo.
      - No sei donde  que isto vem, Joe, mas no estou a gostar.
      - Ver esse medo nos teus olhos tambm no  agradvel para mim.
      - Ele parecia enrolado e pronto a explodir. - Podes explicar-me isso, Marilee? Diz-me uma coisa que alguma vez te tenha feito que te faa ter medo de mim.
      - No sejas absurdo. No estou com medo de ti. Tu insinuaste que te menti e eu no gosto disso! - Voltou a agarrar-se  cintura, desta vez com os dois braos. 
- E no tenho medo de ti. Conheo-te desde pequena. Eu... eu confiava-te a minha vida!
      - Prova - disse ele com um sorriso que pareceu quase to letal como a sua gargalhada. - Vem c e beija-me.
      - O qu?
      - No  que nunca o tenhas feito. Beijamo-nos um ao outro dzias de vezes... que diabo, provavelmente, centenas de vezes. Quando namorvamos, beijarmo-nos 
era o mximo que podamos fazer, lembras-te? Tornamo-nos to criativos que no consigo imaginar a razo por que agora pareces to admirada. - Fez-lhe sinal com o 
dedo. - Anda.
      - Eu... eu acho que  a altura de te ires embora.
      - Como h dez anos? Desculpa, querida, desta vez no tive um grande choque. Estou a pensar com a cabea, no com o corao, e tirei as vendas.
      Continuou a avanar para ela, com movimentos lentos e medidos.
      - Lembras-te de quando ramos midos - disse ele baixinho - e nos disseram que a honestidade e sempre a melhor poltica? Definitivamente, neste caso, seria. 
A verdade, Marilee. To simples e fcil. Deves-me isso. No achas?
      - No me ameaces.
      Avanou mais um passo. - Nunca fao ameaas vs. Sabes disso.
      - No faas isso - sussurrou ela. - Estvamos a comear bem. Eu at estava com esperana de que pudssemos voltar a ser amigos. Agora, ests a portar-te mal. 
Porque  que no te limitas a aceitar e te livras disso?
      - Aceitar o qu? Que deixaste de me amar?
      - Sim!
      - E quanto tempo andaste a atormentar-te com essa deciso? Foi como a tua deciso de sair da faculdade? Uma revelao que tiveste de um dia para o outro?
      - Eu no decidi em relao  faculdade de um dia para o outro. J te disse que foi uma coisa em que pensei ao longo do tempo, que...
      - Ests a mentir. - Avanou mais um passo. Ela sentia os ps como se estivessem colados ao cho da varanda. Ele levantou uma mo e agarrou-a pelo pulso. - 
Ontem, o Ron disse-me como realmente foi, Marilee. Que deixaste a faculdade abruptamente. Vieste para casa. Meteste-te no quarto. No comias. No falavas. Perdeste 
tanto peso que os teus familiares tiveram medo de que estivesses doente. Toda a gente achava que era a minha culpa, que eu era o maior palerma do mundo e te tinha 
deixado. E tu deixaste-os acreditar nisso. Nunca disseste uma palavra para contar a verdade a ningum, nem uma vez, nestes anos todos. Porqu?
      Ela tentou falar, mas no conseguiu. Oh, meu Deus, Oh, meu Deus... dizia ela, com um n na garganta.
      - No me importava tanto se fossem pessoas de quem eu no gostasse. Mas o Ron  o meu melhor amigo e a Gerry  como uma irm para mim. E tu sabes como eu respeitava 
os teus familiares. - Riu-se amargamente. - O Ron procedeu de modo estranho durante... meu Deus, devem ter sido uns trs ou quatro anos. Pensava que ele se sentia 
mal por tu me teres deixado. Mas a verdade  que ele estava chateado comigo por ter acabado contigo. Quase estragaste uma amizade de toda a vida. Consegues explicar-me 
isto? Ou justificar? D-me uma razo pela qual eu merecesse isso.
      Saltaram-lhe lgrimas dos olhos e ela abanou a cabea.
      - Eu tambm no - disse ele com uma voz que quase no passava de um sussurro. - E sabes que mais? No est de acordo com o teu carcter seres to cruel. De 
facto, de todas as pessoas que conheo, tu s a ltima que eu esperava que se portasse mal comigo. A ltima de quem eu suspeitaria de que mentisse, isso  certo. 
Simplesmente, isso no  teu. Todavia, com o teu silncio, permitiste que as pessoas de quem eu gostava pensassem o pior de mim e tu, ali, agora mesmo, disseste-me 
uma descarada e completa mentira. Porqu? Algo me diz que, quando souber a resposta a esta pergunta, tudo o resto ir ao seu lugar.
      - Nunca quis que algum pensasse mal de ti! - conseguiu ela dizer, finalmente. - Juro, Joe. Nunca ningum me disse uma palavra que fosse acerca de ti. No 
sabia que o Ron estava aborrecido contigo. A srio, no sabia.
      - Acredito - garantiu-lhe ele. - Sabes porqu? Acho que estavas to concentrada noutra coisa qualquer que nunca realmente paraste para pensar no que o teu 
silncio podia levar as pessoas a pensar de mim. O que importava... o que estava na tua mente... era impedi-las de adivinhar a verdade a teu respeito... a verdadeira 
razo pela qual deixaste a faculdade e vieste para casa esconder-te. No  verdade?
      Marilee sentiu-se como se fosse desmaiar.
      - Acho que foi pela mesma razo por que me mentiste, porque se me disseres coisas de mais, eu podia comear a junt-las e descobrir a verdade.
      - No... no sei o que queres dizer. E, alm do mais, o que  que tens a ver com isso?
      Ele continuava a falar como se no a tivesse ouvido.
      - Portanto, deixaste a faculdade. Que  que isso tem? Muitas pessoas deixam a faculdade. Porque  que havias de me querer manter na ignorncia de quando o 
fizeste? Saber o que  que me diria?
      Ela sentiu o sangue fugir-lhe da cabea. Ele sabia. Estava escrito na cara dele. No sabia como, mas, de algum modo, ele sabia.
      
      
    Captulo Dois
    
      
      - Joe, por favor. No faas isso. - Marilee tinha experimentado demasiados ataques de pnico para no reconhecer os sinais de aviso. Torceu-se desesperadamente, 
tentando libertar-se dele. - Larga-me. A srio.
      Embora no estivesse a causar-lhe dor, estava a agarr-la impiedosamente.
      - O que  que saber a verdade me diria? - voltou ele a perguntar.
      - Durante toda esta noite, pensei nisso, andei s voltas com isso, desmontei e voltei a montar isso. Porque  que a Marilee no queria que eu soubesse que 
ela deixou a faculdade na segunda-feira de manh, imediatamente a seguir  nossa ruptura?
      - Aconteceu h uma dcada. Que diferena faz isso agora?
      - Se no faz diferena, porque  que me mentiste a esse respeito?
      - Deu uma palmada na tmpora. - E o outro tipo? Aquele por quem me fizeste acreditar que me deixaste? Pelo que conclui depois de falar com o Ron, nunca houve 
outro tipo. Pelo menos, antes de romperes comigo. Nem depois. Nunca. E se nunca houve outro tipo, porque  que me despedaaste o corao?
      Marilee estava com a terrvel sensao de que ele j sabia - ou, pelo menos, suspeitava. - A srio, Joe. Estou farta disto. So horas de te ires embora.
      - H uma soluo. Se eu me for embora, no ters que te haver comigo.
      - Eu j no tenho que me haver contigo. Ests a cometer um grande erro se pensas que podes voltar a entrar na minha vida dez anos depois. No tenho que aturar 
isto.
      - Entrar? Eu no sai. Fui empurrado. Agora estou de volta e a descobrir que nada, nada era o que parecia naquela altura. Mentiste-me naquela noite e ests 
a mentir-me agora.
      - E depois? - disse ela, respirando com arquejos. - Fiz-te pensar que havia outro e no havia. Grande coisa. Eu no te amava. Era o que interessava na altura 
e  o que interessa agora.
      - Isso  a verdade ou  mais uma mentira? Olha para mim quando o disseres. - Pegou-lhe no queixo e obrigou-a a enfrent-lo. - Olha para mim, olhos nos olhos, 
e depois dizes: "Eu no te amo, Joe."
      Marilee sentiu-se apanhada dentro de uma bolha de plstico. A cada flego, pressionava mais, deixando-a cada vez com menos oxignio. Um brilho surreal iluminava 
tudo, tornando difcil focar. Fechou os olhos com fora. - Joe, eu no te amo! - gritou com intermitncias. Levantou as pestanas e olhou para ele, com a viso j 
to afectada que era como se estivesse a tentar v-lo atravs de ondas de calor. - Neste momento, odeio-te por estares a fazer isto! - Com uma fora nascida do desespero, 
tentou libertar-se dele, mas mesmo com o pnico a dar-lhe mpeto, no chegava para ele. A sua mo continuava a agarrar-lhe firmemente o brao. - Vai para casa. Deixa-me 
em paz. - Com medo de se ir abaixo  frente dele, pressionou o peito com o outro punho para tentar respirar. - No te quero aqui.
      - No me vou embora sem respostas.
      - Achas que s o nico que ficou magoado?
      - No, no acho - sussurrou ele. - J no.
      Uma parte dela sabia que no devia dizer mais nada, mas ele tinha-a levado para alm do que era prudente. - Quando te vi afastares-te, doeu! E mais tarde, 
quando ouvi falar nas raparigas todas que namoraste, doeu! E quando te casaste, doeu, maldito sejas! E quando tiveste um beb? - A voz dela tornou-se estridente, 
parecendo ressoar-lhe dentro da cabea. - Devia ser eu a ter filhos teus! Eu! Como  que achas que me senti? "Zachary James." Achas que eu no me lembrava de que 
tnhamos escolhido esse nome juntos?
      Oh, Deus, ela mal conseguia pensar. Passando a mo pelo cabelo, fechou o punho. - Que sentido  que isto faz? Porqu voltar a coisas que esto mortas h dez 
anos?
      - Porque no esto mortas. Para mim, pelo menos. Ainda te amo, que raio!
      Ouvi-lo dizer aquilo foi o pequeno empurro final que a fez cair a pique. A bolha tinha-se comprimido at ao ponto perigoso. Sentia-se como se fosse um pedao 
de carne embalado em vcuo, com a pelcula agarrada  boca e ao nariz sempre que tentava respirar.  roda,  roda, o mundo todo estava a andar  roda. Ar. Tinha 
de tomar ar.
      - Mari? Ests bem?
      A voz dele soou-lhe como se viesse de uma grande distncia. E pela vida dela, no conseguiu responder-lhe.
      Joe tinha querido desesperadamente obter dela a verdade e agora preferia no o ter querido. A cara dela tinha ficado plida de morte e brilhante de suor. Olhava-lhe 
fixamente para o peito, enquanto o seu palpitava violentamente. Com horror que se ia instalando lentamente, percebeu que ela estava a ter um problema respiratrio. 
Agarrou-lhe nos ombros e inclinou-se para lhe ver as feies plidas.
      - Mari?
      Ela espalmou as duas mos sobre os seios, de boca aberta, os olhos cheios de uma urgncia frentica, lutando por oxignio. Pequenas inspiraes rpidas que 
parecia no lhe chegarem aos pulmes. O que era aquilo? Asma? Ou talvez um grave ataque de ansiedade? Meu Deus do cu. Estava com as pernas praticamente a ceder 
e parecia ir ter um colapso. Estava a sufocar  frente dos olhos dele.
      Agindo puramente por instinto, ps-se atrs dela e agarrou-a num abrao, os braos  volta da cintura dela, a boca junto aos seus ouvidos.
      - Est tudo bem, Mari. Eu estou aqui. Acalma-te. Respira devagar e fundo. Descontrai-te. Deixa de lutar. Deixa os msculos descontrarem-se.
      Ela estremeceu quando ele lhe ps uma mo nas costelas. Depois, atirou a cabea para trs, contra o ombro dele, e lutou para se libertar. Acreditando que ela 
podia cair se a largasse, ficou com ela enquanto ela fazia forca com os ps contra o cedro, as pernas a comprimirem-se convulsivamente. Tentou ignorar o frenesim 
das lutas dela, tanto contra ele como contra a traio do seu prprio corpo. Ele continuava a falar, perdendo o fio  conversa, sendo o seu principal objectivo manter 
o tom calmante e fazer com que ela deixasse de lutar por respirar.
      Ela tinha de estar a receber pelo menos algum oxignio, pensava ele, enquanto andavam numa dana macabra pela varanda. Seno, j estaria inconsciente. Mesmo 
assim, parecia-lhe que cada segundo demorava uma eternidade e, se era assim para ele, mal podia imaginar o horrvel que era para ela.
      A certa altura, ela agarrou-lhe o pulso com uma mo, como que para lhe tirar a mo da barriga, mas a falta de oxignio tinha roubado a fora. Todavia, deu-lhe 
motivos para se interrogar. Teria ele provocado isto, talvez ao agarrar-lhe o brao? No queria acreditar nisso, no podia acreditar nisso. Independentemente do 
que acontecera, tinham sido amigos durante a maior parte da sua vida. Ele  que a ensinara a andar de bicicleta.
      Mas que mais poderia ter provocado aquilo? Antes de a agarrar, ela estava a respirar bem. Talvez com um pouco de rapidez a mais, mas nada de especial. Depois, 
ele tinha-lhe agarrado o pulso, e zs! Idiota. Depois de falar com o Ron, ontem, tinha tido as suas suspeitas. Devia ter-lhes prestado ateno e mantido a sua distncia. 
Mas, oh, no. Estava to decidido a arrancar-lhe a verdade que no tinha parado para pensar nas consequncias possveis.
      Lembrou-se do olhar prudente que tinha visto nos olhos dela quando ela o avistara na varanda, como ela dava um passo atrs de cada vez que ele se aproximava 
de mais. Ai, Jesus. No suportava que lhe tocasse.
      Virando-a nos braos e pegando-lhe por trs dos joelhos, levou-a para uma cadeira e sentou-a. No momento em que teve a certeza de que ela no cairia do assento, 
largou-a e recuou um pouco, ainda preparado para a apanhar, mas dando-lhe a distncia de que ela precisava desesperadamente.
      Precisava de saber quanto tempo duraria o ataque depois daquilo. Quando finalmente passou, ela caiu de joelhos, com a boca a escancarar-se enquanto ela fazia 
enormes inspiraes irregulares. Sabendo que tinha sido a causa daquilo, podia ter chorado.
      - Temos rapariga - sussurrou ele. - Concentra-te na respirao. No penses em mais nada. Deixa os pulmes trabalhar. Agora vais ficar bem.
      Encostou uma mo  casa, precisando de apoio. Oh, Deus! Tinha sido to cego, to incrivelmente cego! Achas que s o nico que ficou magoado? Tinha visto a 
consternao cruzar-lhe o rosto quando disse aquilo e sabia perfeitamente que ela nunca lho tinha querido dizer.
      - Desculpa, Mari. Desculpa. Nunca pensei em fazer com que acontecesse aquilo.
      Ela encolheu os ombros e esfregou os braos.
      Cuidando de manter a distncia, agachou-se  frente dela, com os braos apoiados nos joelhos e o olhar fixo nas frgeis mas do rosto dela.
      Deu-lhe uma vontade louca de se rir. De repente, tudo parecia muito claro. Muito brutalmente claro. O modo abrupto como ela tinha quebrado o compromisso entre 
eles, sem qualquer explicao. At o modo como tinha mantido a distncia e se abraara  cintura naquela noite fatal voltava agora a perturb-lo. J no te amo! 
- gritara ela. E ele tinha acreditado, virando-lhe as costas quando ela mais precisava dele. No quero voltar a ver-te, Joe. Est tudo acabado entre nos. Entendes? 
Acabou.
      - Oh, Mari. - Procurou na expresso atormentada dela respostas para perguntas que quase tinha medo de fazer. - Porque  que no me disseste?
      Os lbios dela afastaram-se como que para falar, mas no saiu nenhum som. Engoliu. Pestanejou. - No podia, Joe. Foi logo a seguir a ter acontecido e eu estava... 
- Lambeu os lbios e encolheu os ombros. - H coisas que no se podem partilhar com ningum.
      Uma parte dele esperava que ela dissesse que no tinha razo - que estava muito longe da verdade. Mas, no. Viu-lhe a verdade escrita na cara. Inclinou a cabea 
e observou o jogo de sombras das suas mos pendentes na varanda, dando um momento para tomar plena conscincia. Mari, a sua doce e preciosa Mari. Durante os trs 
anos que namoraram, levara-a todas as quartas-feiras a noite  aula de educao religiosa. Todos os sbados  noite, antes de sair, esperava por ela trinta minutos 
a uma hora, dependendo da bicha, aborrecido ao mximo, sentado num banco de igreja enquanto ela ia confessar-se. Ela fora a sua Mari - jovem e doce, com estrelas 
nos olhos, e acatava as regras sempre que estava com ela, preservando ferozmente a sua inocncia.
      Pensar que um patife qualquer se tinha aproveitado dela - que o filho-da-me tinha ousado pr-lhe as mos em cima - toldava-lhe a vista de ira. As sombras 
projectadas pelas suas prprias mos na varanda formavam punhos cerrados.
      - Quem  que te fez isso? - sussurrou ele, tenso. - Juro por Deus e por tudo o que  sagrado que mato esse filho-da-me.
      Ela ficou ali sentada por um momento, com um olhar vago e os dedos trmulos a esfregarem a garganta. Quando finalmente olhou para cima, as grossas pestanas 
castanhas e voluptuosas revelaram uns olhos to azuis que marcavam um vivo contraste com a sua palidez.
      - Para que  que isso servia?
      - Far-me-ia sentir muito melhor.
      Apertou de tal forma os dentes que a articulao do maxilar vibrou. Ardia nele ira to selvagem que lhe apetecia furar a parede da casa a murro e desfazer 
a varanda. Pobres substitutos. O que realmente queria, era deitar as mos  garganta desse filho-da-me e espremer-lhe lentamente a vida.
      Ela agarrou-se aos braos da cadeira.
      - Agora, gostava que te fosses embora - disse ela, inexpressivamente. - Estas situaes deixam-me esgotada. Foi h tanto tempo que quase me esqueci de como 
me fazem sentir esgotada.
      - Tiveste muitos, suponho eu.
      - No ltimo ano, no tive nenhum.
      Se aquilo era subtil, ele detestava a rudeza.
      - Desculpa, Mari. Quando c vim, o meu objectivo era saber a verdade, no pr-te doente.
      - Eu sei.
      - O que  isso? Alguma espcie de ataque de ansiedade.
      -  falta de melhor termo.
      Ela dobrou a ponta da lngua por cima do lbio superior, fazendo-lhe lembrar as muitas vezes em que ele prprio tinha feito aquilo. O gosto doce e capitoso 
dela estava-lhe gravado na memria. Naquela altura, ela fazia um conjunto elegante, era o tipo de rapariga que enchia a cabea de um rapaz de pensamentos sobre sexo 
escaldante e sinos de casamento porque sabia muitssimo bem que no podia ter uma coisa sem a outra.
      Continuava a ser elegante - to graciosa e loura que lhe cortava a respirao. - Vou-me embora daqui a poucos minutos... logo que tenha a certeza de que ficas 
bem.
      - Eu estou ptima - assegurou ela, com uma tremura na voz que lhe enfunava as palavras. - S preciso de me deixar estar aqui. Gostava que te fosses embora 
e me deixasses tratar disto. No consegues entender?
      A urgncia do tom dela contribuiu muito para o ajudar a entender. Ela parecia encurralada - os olhos adorveis a brilharem como janelas para uma alma torturada 
e a dardejarem de um lado para o outro como se procurassem por onde fugir. Nesse momento, Joe soube que ela no podia falar mais naquilo, que se a pressionasse ou 
se aproximasse demasiado dela, ela podia ter outro ataque.
      Levantou-se e recuou, desta vez at  grade da varanda. - Se  de espao que precisas, a o tens. - Ps as mos nas ancas. - Vs?
      Ela acenou afirmativamente com a cabea, mesmo continuando a respirar um pouco rapidamente de mais para que ele ficasse tranquilo.
      - No h mais perguntas, no h mais presses, prometo. A nica coisa que me interessa s tu. Uma vez que tenha a certeza de que ests bem, saio daqui.
      No acrescentou que seria apenas uma retirada temporria. Ainda a amava; e ela, na prtica, confessara que ainda o amava. Tinham-lhe sido concedidos dois milagres 
na sua vida, sendo um deles o filho e o outro, esta mulher, e quase tinha perdido os dois. Tinha lutado muito e durante muito tempo para recuperar a guarda do Zachary. 
Agora, tinha de enfrentar uma batalha de tipo completamente diferente, uma batalha que exigia um complexo planeamento e uma estratgia cuidadosamente executada. 
No importa. Ela valia bem o esforo.
      - Enquanto esperamos, no te importas que eu esclarea umas coisas?
      A expresso dela transmitiu uma cansada resignao.
      - Acho que sim.
      - Durante todos estes anos, pensei que era o nico que tinha ficado magoado - disse ele com a voz tomada. - Agora percebo que fui mais bem-sucedido do que 
imaginava em todas as vezes que fiz o pior que podia para te magoar.
      Ela no disse nada, ficou ali sentada, a ouvir, com um ar glacial nas feies plidas.
      Joe inclinou a cabea, batendo numa tbua do patamar com a biqueira do sapato de corrida. - Tomara, agora, poder desfazer tudo, Mari, mas no posso. O Todo-Poderoso 
d muito poucas borrachas. A nica coisa que posso fazer e pedir-te que me perdoes.
      Olhou para ela de soslaio, a ver se estava a prestar ateno. A sua expresso impassvel no lhe deu nenhuma indicao. Os msculos da parte de trs do pescoo 
retesavam-se e vibravam de tenso. No era fcil baixar a guarda e tornar-se de novo vulnervel para ela.
      Engoliu em seco, sentindo a garganta como se um punho cruel estivesse a bater-lhe na laringe. Perguntou fugazmente a si mesmo se seria assim que ela se sentia 
quando estava para ter um ataque.
      - Quanto s outras raparigas todas com quem dormi depois de me teres devolvido o anel - disse ele. - Nenhuma delas - nem uma - alguma vez significou fosse 
o que fosse para mim. Bem sei que isto  uma das frases favoritas dos homens, quase um clich, e se optares por no acreditar em mim, realmente no te posso criticar. 
Mas  a verdade.
      Silncio.
      - D a ideia de que fizeste um dirio da minha vida amorosa - continuou. - Em cada entrada, devias ter includo uma nota de rodap, de que eu ainda te amava 
e no conseguia tirar-te da cabea, independentemente do que fizesse.
      Ainda nada. Ela continuava ali sentada, a olhar para a varanda, a brisa quente a despentear-lhe os caracis beijados pelo sol. Joe teve uma vontade enorme 
de a agarrar pelos ombros e lhe dar um abano.
      - Durante dois anos, depois de nos termos separado, ficava com lgrimas nos olhos sempre que deitava leite nos cereais. Dois anos, Mari. - Est bem, no foi 
romntico. Pelo menos, conseguiu a ateno dela. Fixou nele um olhar desconcertante. - Cantavas sempre: "Snap, crackle, pop!", lembras-te? - Ele avanou lentamente 
para ela. - Depois de comeres, bebias sempre o leite que ficava na tigela. - Ainda  distncia de um brao, percorreu-lhe o delicado arco do lbio superior com a 
ponta do dedo. - Fazia a um bigode, exactamente a. Sempre que eu comia cereais, pensava nisso e as saudades de ti eram tantas que quase me matavam.
      Retirou a mo e suspirou.
      - A outra coisa a que te referiste e que tenho que resolver  o meu filho. Quando me apercebi de como ele se parecia comigo, apaguei a luz e embalei-o s escuras 
porque as lgrimas corriam-me pela cara abaixo. Sempre disseste que o nosso primeiro filho seria um rapaz e que seria exactamente como eu. Lembrava-me disso sempre 
que olhava para ele. Isso passou-se seis anos depois de rompermos. Seis! Eu era um homem casado. No tinha nada que pensar noutra mulher e muito menos que chorar 
por ela. Mas para mim, tu eras a minha e a nica, a rapariga que amara durante toda a minha vida, a rapariga que sempre havia de amar e, Deus me perdoe, na minha 
mente, a Valerie era a intrusa.
      - Sentir-me-ia realmente em falta por isso, mas ela tambm no me amava, pelo que estvamos empatados. Eu sabia, quando ela casou comigo que era atrada principalmente 
pelo dinheiro e pelos flashes das mquinas fotogrficas, facto que se tornou espalhafatosamente bvio quando se ps a andar, depois de me ter lesionado no joelho. 
Mas nessa altura, eu esperava que pudssemos construir uma vida juntos. Demo-nos bastante bem e o sexo era bom, para no dizer fantstico. Joguei, perdi e quem pagou 
foi o meu mido. Ainda est a pagar, facto que me tira o sono todas as noites porque sei que sou responsvel por todas as lgrimas que verte.
      - Oh, Joe... - Fixou o olhar no dele e ps a ponta da lngua entre os dentes. - Acho que tambm sou responsvel por isso.
      - No te disse isto tudo para te fazer sentir culpada. Apenas quero que entendas que...
      - Eu sei. Mas sinto-me culpada da mesma forma. Sempre soube que te magoei. Mas nunca fui alm disso, nunca pensei no impacto dos meus actos num menino que 
nunca vi. - Coou as bochechas. - Tomara ter conseguido escrever-te, explicar-te, pelo menos em parte. Mas no conseguia falar sobre isso com ningum. Nem numa carta.
      Joe analisou o que ela acabara de dizer. Houve uma coisa que lhe chamou a ateno, que ela nunca tinha falado acerca disso com ningum. Mal conseguia acreditar 
nos seus ouvidos.
      Ela levantou-se sem firmeza e depois ficou ali como se os ps estivessem desligados do crebro. Quando vacilou ligeiramente, com uma tontura, ele segurou-se 
com todo o comedimento, sem avanar para lhe pegar no cotovelo, como desejava fazer. Um pssaro comeou a cantar no ptio. Ela fixou o olhar na rvore onde ele estava 
empoleirado.
      Observando-a, Joe registava cada vez que ela respirava, cada pulsao na concavidade da garganta e cada movimento nervoso das suas mos esbeltas. Deus, como 
ele a amava. Lentamente, comeou a voltar a cor s suas delicadas mas do rosto. Quase conseguia ver a fora a voltar a fluir-lhe nos membros.
      - Lembras-te do tempo em que eu pus a loo de bronzear sem sol umas horas antes do meu baile de finalistas do 11. ano? - perguntou ela, de repente.
      De onde aquilo tinha vindo, ele no sabia. Sorriu ligeiramente.
      - A altura em que puseste de mais, no misturaste, paraste a meio do pescoo e esqueceste-te de lavar as mos? Sim, lembro-me vagamente de uma coisa assim.
      Ela continuou a olhar para a rvore onde o pssaro cantava to bem.
      - O meu vestido tinha riscas que pareciam esparguete. Eu parecia uma zebra.
      - Sempre gostei muito de zebras.
      Ela ignorou aquilo. - Estava to zangada que chorei at os olhos se fecharem de inchados, e, quando vieste buscar-me, tinha manchas vermelhas pela cara toda.
      - Belas manchas. Davam bem com as riscas castanhas. Ela suspirou.
      - Levei a mantilha de renda azul da mam por cima dos ombros para esconder o pior e tu pregaste as pontas com o meu ramalhete. Eu sabia que parecia horrvel 
mas tu deste-me um beijo na ponta do nariz e disseste: "Tudo arranjado, minha Mari. s outra vez a rapariga mais bonita de trs condados."
      - Achava que eras. O mais importante  que ainda acho. s belssima, Mari. To bonita. E nunca deixei de te amar. No penses que alguma vez deixe. - Engoliu 
em seco e deixou o olhar fugir para longe enquanto escolhia cuidadosamente as palavras seguintes. - Eu sei que isto no est no mesmo plano que riscas castanhas 
e manchas vermelhas. Tornamo-nos ambos adultos e os nossos problemas so um pouco mais difceis de resolver, actualmente. Mas difcil no  o mesmo que impossvel, 
Mari. Pelo menos, se enfrentarmos juntos esses problemas. H anos, enfrentvamos tudo juntos. Lembras-te? Se voltarmos a fazer isso, conseguiremos ultrapassar esta 
situao. No  de um dia para o outro, e talvez no seja fcil, mas, juntos, conseguimos. Eu sei que conseguimos.
      Virou para ele os olhos mais bonitos de todo o estado e no fundo desses olhos ele viu como ela ainda o amava profundamente. Infelizmente, tambm viu desespero 
que estava to fundo que o assustou.
      - No consegues concertar isto, Joe - disse ela, trmula. - Desta vez, no consegues. No consegues concertar-me. Oh, como eu desejava que conseguisses.
      Com aquelas palavras de despedida ainda a soarem-lhe nos ouvidos, ela virou-lhe as costas e desapareceu dentro de casa.
      
      
    Captulo Trs
      
      
      s trs horas da manh seguinte, Mari foi acordada pelo pesadelo que a perseguiu nos ltimos dez anos. O sonho, coreografado no palco da sua mente em movimento 
lento e a cores, parecia to sinistramente real que a deixava sempre num estado de puro terror, e sabia pela experincia que a nica maneira de o sacudir era andar 
para aliviar.
      Conhecia a rotina de cor. Partindo do quarto, virava invariavelmente  direita quando saa da porta para verificar os outros trs quartos que davam para o 
vestbulo e, depois, a porta de entrada. Uma volta em U. Outra vez pelo vestbulo, para a sala de estar e, depois, para a sala de recreio. Da, atravessava outra 
vez a parte principal da casa at  cozinha, quase morrendo de susto de cada vez que o cho rangia.
      Tudo em segurana. Todas as janelas de correr estavam fechadas no trinco e trancadas com uma ripa de madeira. Com excepo das novas portas envidraadas, que 
ainda no tinham trinco adicional de segurana, todas as portas tinham fechadura dupla e eram fechadas  chave.
      Aliviada, com o corpo pegajoso, ficou em p no meio da cozinha. Segura. Apenas um mau sonho. O seu pequeno mundo continuava inviolado.
      Com um olhar turvo do sono, acariciou as coisas familiares e muito queridas que tinha espalhado pela cozinha. O frasco de bolachas da av - um porquinho gorducho 
com um bibe s flores -, a famlia de patos de cermica que andava pelo cho. Coisas familiares. Boas recordaes. Tinha sido s um sonho, e estava segura.
      Ainda com aquele pensamento a envolv-la, apercebeu-se de um movimento pelo canto do olho e virou a cabea de repente para olhar para o enorme armrio das 
vassouras ao lado das portas com persianas que separavam a arrecadao da cozinha. Mesmo quando estava a olhar, a porta do armrio, j ligeiramente entreaberta, 
abriu-se mais e - oh, meu Deus - viu quatro dedos de uma grande mo enluvada sarem da abertura.
      Um homem... escondido no armrio. Estava a uns meros dois metros de distncia, apanhada na zona de servio da cozinha, em forma de U, com ele entre ela e o 
resto da casa. Depois de medir a distncia para o extremo oposto da diviso e uma possvel fuga, comeou a deslocar-se nessa direco. Antes de conseguir dar dois 
passos, os dedos saram mais e dobraram-se ligeiramente como que para agarrar o rebordo da porta.
      Formaram-se na cabea oraes irreflectidas, uma litania de terror. O corao batia de tal maneira que parecia que lhe ia saltar para a boca. No conseguia 
sentir as pernas. Oh, Deus... oh, Deus... oh, Deus.
      Depois, a mo caiu no cho. Pronta para desatar a correr, olhou pasmada para ela. Sem corpo, pattica, estava ali na sada de ar condicionado, os dedos a tremer 
como nos estertores da morte.
      Era apenas uma luva castanha de jardinagem que estava pendurada com o seu par num camaro, do lado de dentro da porta. Apanhada na corrente de ar que vinha 
pela fenda, tinha sido empurrada para o lado e sara pela abertura.
      As pernas de Marilee cederam. Caiu redonda, indo os joelhos bater no carvalho encerado. Indiferente  dor, abraou-se a si mesma e desatou a soluar. Uma luva. 
Apenas uma luva. Meu Deus. Se tivesse tido a presena de esprito necessria para se precipitar para o telefone que estava no balco atrs dela, podia ter chamado 
a polcia. Imaginava o olhar deles quando descobrissem que tinham vindo a correr para a salvar do assalto de uma luva de jardinagem.
      Quando recuperou a fora nas pernas, Marilee ps-se em p, foi apanhar a luva e p-la de novo no camaro. Quando atravessou a diviso, a porta do armrio voltou 
a mexer-se, fazendo os seus nervos saltar. Estpida, que estpida. Era apenas uma corrente de ar, mais nada.
      Mesmo assim, estacou. H dez anos, pensara: Ele est s a tentar ajudar-me. Explicaes que qualificasse com "apenas" tendiam a ser a sua desgraa.
      Apenas uma corrente de ar? Era a nica explicao razovel, mas podia afirmar? E se abrisse a porta para pendurar a luva e l estivesse dentro um homem?
      Era loucura e ela sabia, mas tirou numa faca de carniceiro do cepo que estava em cima do balco, apenas para o que desse e viesse. Apenas para o que desse 
e viesse. Apenas para o que desse e viesse. Estava a perder o juzo. A afundar-se.
      Ps cautelosamente um dedo no puxador da porta e abriu o armrio com tanta fora que a porta bateu na parte da frente do frigorfico. Exceptuando os utenslios 
normais de limpeza, o armrio estava vazio. Mulher inflige mltiplas facadas  esfregona.
      O olhar dela deslocou-se para a porta com persianas da arrecadao. J tinha olhado uma vez l para dentro e verificado a porta das traseiras para ter a certeza 
de que estava fechada  chave. Mas teria visto bem? No se lembrava de ter aberto a despensa, que tinha definitivamente espao suficiente para esconder um homem.
      Lembrou-se de que todas as portas e janelas da casa tinham sido fechadas  chave e nos trincos quando as verificara. Disse a si mesma que ir outra vez  arrecadao 
era um comportamento obsessivo, compulsivo e repetitivo. Recordou os anos todos em que estivera to doente - como a sua vida se descontrolara tanto. Se se deixasse 
comear a comportar irracionalmente, podia piorar.
      No importa. Tinha de ir  arrecadao. No havia opo. Tinha absolutamente de l ir. Abriu as portas, entrou e escancarou a despensa. Nada. Devia ter-se 
sentido aliviada, mas, nesse momento exacto, o frigorfico deu um solavanco e a casa rangeu. Virou-se, com o corao a bater e uma vozinha, no fundo da mente, a 
dizer-lhe: E se no fosse s a casa a ranger? E se fosse o cho a ceder sob o peso de algum?
      Ralhando consigo mesma, voltou a passar pelas divises todas para verificar as janelas e as portas. A cada passo, dizia a si mesma que os seus demnios da 
vida real estavam dez anos atrs, que Laurel Creek era uma cidade o mais livre de crime que era possvel e que nenhum intruso podia estar dentro da casa. De que 
 que tinha medo?
      Quando a segunda inspeco no revelou nada, recusou-se a deixar-se cair na armadilha de fazer ainda mais uma. Em vez disso, obrigou-se a voltar para a cama. 
Depois de rebolar para um lado e para o outro durante cerca de uma hora, acabou por adormecer, mas foi revisitada quase imediatamente pelo sonho. Acordou estremunhada 
e ainda sentia a mo enorme a tapar-lhe a boca, o polegar carnudo a impedir o ar de lhe correr nas narinas.
      Levantou-se a pressa do colcho e ficou encolhida, no meio da diviso, a hiperventilar e a olhar para a roupa da cama em desordem como se estivesse cheia de 
cobras. Oh, Deus. Isto no lhe acontecia h quase um ano. Apenas um sonho. No fora real.
      Mas sentira como se fosse real, parecera real.
      Procurou s apalpadelas o rosrio, que estava em cima da mesinha-de-cabeceira. Beijando o crucifixo com os lbios dormentes, fez o sinal da cruz e comeou 
a sussurrar oraes no meio de uma respiraro ofegante. Oh, meu Deus. Ajuda-me. Ajuda-me. No posso fazer isto. No posso deixar acontecer outra vez. Se deixar isto 
apoderar-se de mim uma vez, pode nunca mais passar.
      Demasiado aterrorizada para dar ouvidos  sua prpria voz da razo, correu de diviso em diviso, verificando outra vez as fechaduras de todas as portas e 
janelas, acendendo todas as luzes, escancarando todos os armrios, olhando para todos os aparadores e espreitando por debaixo de todas as camas.
      Depois, repetiu o processo.
      A terceira vez, percebeu o que estava a fazer. "Dj vu". No podia deixar aquilo acontecer. No deixaria aquilo acontecer.
      Parou na sala de estar, com os braos  volta da cintura e o rosrio ainda agarrado no punho fechado. O corao batia com forca, no com um ritmo acelerado 
normal, mas com pancadas de partir as costelas que recordava com uma clareza que causava nuseas. Se no parasse aquilo, sabia que a seguir se barricaria na cama, 
com medo at de atender o telefone.
      No. No ia acabar assim. Tinha trabalhado de mais, sofrido de mais, para deixar que esses sentimentos prevalecessem. Afinal, era Marilee Nelson, a escritora 
e ilustradora bem-sucedida. No ano passado, tinham feito um artigo no jornal acerca dela. Tinha uma carreira com que a maioria das mulheres sonharia.
      Mas enquanto ali estava, perguntara a si mesmo Porqu? Passara to bem durante meses! Nada de pesadelos, nada de ataques. Agora, estava a beira da segunda 
ocorrncia em menos de vinte e quatro horas. Porqu?
      A resposta era aterrorizadoramente simples. Joe. Ele ter-lhe aparecido  porta destrocara-lhe os nervos e causara-lhe grande confuso nas suas emoes. Durante 
toda a noite, recusara-se a pensar nas possveis ramificaes da sua visita, mas o subconsciente no se controlava com essa facilidade. No fundo, as revelaes da 
tarde tinham-na aterrorizado.
      Oh, Deus, ele tinha-lhe arrancado a verdade e se honestamente ainda a amava, como afirmava, ela estava num grande sarilho, sem dvida nenhuma. Conhecia-o demasiado 
bem para acreditar que no aceitava um no como resposta, simplesmente recuando, pelo menos se ainda gostava dela. Era uma das pessoas mais tenazes que jamais conhecera. 
Se se fixava numa meta, ou a alcanava ou quase se matava a tentar. O seu xito no futebol era testemunha disso. O prprio facto de j andar praticamente sem coxear 
tambm dizia da sua vontade de ferro. Se queria alguma coisa, nunca desistia.
      Conhecendo-o, ele contact-la-ia no dia seguinte. Quando o fizesse, ela exporia logo tudo - explicaria em termos que no fossem duvidosos a razo por que no 
podia ter mais nada a ver com ele. Seria difcil - e humilhante, mas tinha de o fazer entender o que podia acontecer-lhe se ele insistisse.
      Se a amava - se realmente a amava - manter-se-ia afastado.
      
      Na tarde seguinte, Joe recostou-se na sua cadeira de escritrio que rangia, ps os calcanhares dos Nike em cima da secretria e ps um pequeno saco de gelo 
de um dos lados do joelho, perguntando a si mesmo quem teria decidido fazer aquelas porcarias to pequeninas. No  que no apreciasse o gnio. Geleia que ficava 
fria de gelo quando se deitava dentro de um saco de plstico era uma ideia fantstica e maravilhosamente conveniente para um invalido no assumido que no queria 
que os seus jogadores o vissem coxear. Mas naquela altura apreciaria um saco suficientemente grande para lhe apanhar o joelho todo de uma vez.
      Suspirando, olhou para a porta metlica fechada  chave. Pintada de cinzento de alto brilho, estava lascada e arranhada em vrios stios, mostrando uma velha 
camada de castanho cor de coc de beb. Milhares de rapazes tinham aberto aquela porta ao longo dos anos, incluindo o prprio Joe. Sabia exactamente o que  que 
tinha causado todas aquelas mossas, para no falar das que tinham sido pintadas. Quando a porta se abria de mais, o que tendia a acontecer sempre que atrs dela 
estava um aluno do liceu com oitenta quilos, aquele raio de coisa batia na estante. Porque  que nunca ningum tinha mudado o armrio, era um mistrio.
      Abenoado alvio. O gelo aliviava sempre. Inclinou a cabea para trs e fechou os olhos, deixando o frio fazer o seu trabalho. Quando o pior da dor tinha aliviado, 
olhou para o relgio de parede, que estava vinte minutos atrasado porque o ponteiro dos minutos continuava a ficar preso. Uma hora, mais coisa ou menos coisa. Zachary 
devia estar a acordar da sesta.
      Inclinou-se para a frente, deitou a mo ao telefone e puxou a velha relquia para o colo. Um marcador de disco. Nunca usava aquela maldita coisa sem perguntar 
a si mesmo em que  que a administrao da escola gastaria o oramento anual. Pelo menos, forneceram-lhe um telemvel. Uma recepo de cada, mas funcionava. Trazia-o 
nas calcas do fato-de-treino quando estava no campo, no tanto por querer estar sempre disponvel se o reitor telefonasse para receber as informaes dirias acerca 
dos progressos da equipa, mas porque a me podia tentar entrar em contacto com ele. Precisava de saber que estava s a uma chamada telefnica de distncia se acontecesse 
alguma coisa ao Zachary.
      Ligou o nmero, que tinha mudado desde que tivera de o decorar, no jardim infantil, uma precauo de segurana para o caso de se perder. O meu nome  Joe Lakota. 
O nome da minha me  Faye Lakota. Vivo no 362 da Rua K. O meu nmero de telefone  555-3231.
      S tinha uma pergunta a fazer: como raio podia uma criana perder-se em Laurel Creek? Joe tinha a certeza de que quase podia ultrapassar os limites da cidade 
com um esguicho de urina. Nem sequer o basset da Sr.a Grimes tinha alguma vez conseguido virar-se dentro deste pequeno burgo, e o pobre simplrio andava to calado 
que isso queria dizer alguma coisa.
      Imediatamente antes de o telefone comear a tocar, Joe interrompeu a ligao, voltando a olhar para o relgio. Tinha mais de uma hora at reiniciar a sesso 
dupla de treino. Porque no aproveitar o intervalo do almoo para ir a casa da me fazer uma curta visita? Podia pr l gelo no joelho enquanto tomava uma chvena 
de caf com ela. Agora que tinha comeado a trabalhar, no conseguia v-la tanto como queria, e o Zachary tambm gostaria da surpresa.
      Tirando as chaves do carro da gaveta do meio, Joe atirou o pacote de gelo descartvel para o lixo.
      Menos de dez minutos depois, estava a parar o Honda na rampa de entrada da sua casa de infncia, uma velha relquia desconexa de uma casa de quinta com revestimento 
exterior de cedro em bruto que, com a idade, se tornara castanho-escuro. Mal tinha desligado o motor quando a me apareceu no amplo alpendre da frente, olhando como 
se estivesse  espera dele. Por vezes, Joe perguntava a si mesmo se ela ficava  janela a ver o que faziam os vizinhos, como tantas pessoas de idade faziam. Nunca 
lhe tinha parecido ser do tipo bisbilhoteiro, mas no se podia negar que sabia sempre o momento exacto em que ele chegava l a casa. O cabelo castanho grisalho aos 
caracis enquadrava-lhe o rosto com ondas suaves que pareciam ter perdido o brilho e olhando para ela atravs do vidro da frente, Joe achou que estava um pouco plida.
      - Ol, me. Como vai? - perguntou quando saiu do carro.
      - ptima, docinho, ptima.
      Ela limpou as mos ao sempre presente avental, que protegia o vestido estampado de trazer por casa. Joe pensou que devia haver um catlogo - intemporal - pelo 
qual as senhoras de idade encomendavam as suas roupas. Atravessando o relvado irregular em direco aos degraus, admirou-se por ela estar praticamente na mesma. 
Exceptuando as marcas da idade que lhe tinham posto rugas na cara e a tinham fragilizado, parecia exactamente como quando ele era rapaz, at nas sabrinas pretas 
e nas meias elsticas castanhas que usava.
      - Aposto que vens c ver o teu filho - disse ela. - Agora, est a dormir, corao querido. Foi dormir a sesta um bocadinho tarde.
      Joe evitou um encolher de ombros, aliviado por nenhum dos seus jogadores alguma vez ter ocasio de ouvir os nomes carinhosos que a me lhe chamava. Docinho 
ou corao querido? Ah, bem. Estavam um degrau acima de cara de boneca, outra indignidade que a me lhe infligia.
      Parecia to cansada. Isso preocupava-o. Ultimamente, parecia-lhe que tinha sempre um ar cansado, dando-lhe razes para perguntar a si mesmo se tomar conta 
do Zachary no era de mais para ela. J no era uma criana e um mido de quatro anos dava muito trabalho.
      - Est bem, me? - perguntou ele enquanto subia os degraus. - Parece um pouco cansada. Talvez devesse deitar-se um bocadinho.
      - No. Vou fazer uma tarte de abbora.
      - Com este calor? - A alma escocesa da me encolhia-se toda perante a despesa desnecessria de ter o ar condicionado a funcionar. Ao chegar ao ltimo degrau, 
Joe inclinou-se para lhe beijar a delicada face enrugada. - Vais arranjar maneira de ter uma trombose.
      - Descansei um bocado enquanto estive a ver uma velha reposio da Lassie. Estou ptima, Joseph. Preocupas-te de mais.
      - Talvez. - Amava-a, simplesmente, era tudo, e parecia-lhe que ela se esforava mais do que era recomendvel na sua idade. - Lassie, hem? O mido quer um co, 
me. Ests a ser cmplice?
      Ela riu-se enquanto abria a parte exterior da porta dupla.
      - Todos os rapazes deviam ter um co. Uma das coisas que lamento na vida  nunca ter podido dar-me ao luxo de te arranjar um.
      Tinha-lhe dado tudo e mais alguma coisa de que um mido necessitava, fazendo limpezas durante oito horas por dia para complementar a miservel penso de sobrevivncia. 
Excepto no que dizia respeito a ocasionais comentrios racistas sobre a sua ascendncia sioux, nunca se tinha sentido de segunda classe durante a infncia e a adolescncia. 
No liceu, tinha usado sempre sapatos de marca, jeans com assinatura, e tinha sempre muito dinheiro para gastar. Tivera de trabalhar para comprar um carro e pagar 
o seguro, e mais tarde tinha tido bolsas de estudo na universidade, mas isso tambm muitos outros rapazes. Tudo somado, fora uma boa experincia de aprendizagem. 
Algures nos confins da memria, ainda sabia fazer esticar um dlar.
      - Eu arranjo-lhe um co, me. Prometo. S tenho que construir uma cerca, primeiro.
      Joe foi atrs dela at  sala de estar, atirando as chaves para cima da televiso de consola que lhe tinha comprado havia trs anos. Isso e a cadeira declinvel 
azul, que tambm tinha comprado, eram as nicas peas de moblia da sala que no eram dos anos 50 ou anteriores, sendo o nico aspecto positivo que algumas das peas 
estavam agora outra vez miraculosamente em moda. Tinha visto um sof muito bem estufado semelhante ao dela quando fora comprar moblia no ms anterior.
      - No adies muito arranjar-lhe o co - avisou ela, encaminhando-se para a cozinha, antiquada mas alegre, o cho rangendo a cada passo. Todos os rangidos e 
gemidos irritavam Joe. Tinha-lhe dado toneladas de dinheiro nos seus tempos de glria e no imaginava onde raio ela o tinha gastado. S sabia que no o tinha usado 
para reparar a casa. - A primeira coisa que ficas a saber - continuou ela -  que ele vai fazer o liceu e a ltima coisa que querer ser um cachorro. Os remorsos 
so como sabo e gua; ficam realmente baratos.
      - E cruel ter um co preso o dia inteiro, me, e no vou deix-lo dentro de casa de maneira nenhuma. Transformava a minha carpete nova numa lixeira. To certo 
como eu estar aqui.
      - Aquela carpete! - Dirigiu-se a um aparador, pegou num prato de sobremesa que tinha o mesmo desenho azul e branco do que aquele em que ele comia aos dezasseis 
anos e serviu um enorme pedao do que parecia ser um bolo de especiarias como cobertura de caramelo feita em casa. Comeou a crescer gua na boca de Joe. Enquanto 
enchia um alto copo de leite para acompanhar, ela disse: - Deves ter tido um problema de loucura temporria para comprar aquela carpete. Nunca entenderei por que 
razo escolheste branco-sujo.
      Toda a casa dele era branco-suja. Carpete, paredes, cortinas e estofos. E depois? Pelo menos, nada combinava mal e no tinha esgotado a pacincia a escolher 
cores. - Na altura, pareceu-me bem.
      A decorao de interiores no era o seu forte. Pensando nas paredes nuas da sua nova casa, Joe levou um saco de plstico de cinco litros de uma das gavetas 
da cozinha e depois foi ao antigo Frigidaire encher o saco de cubos de gelo.
      Sentando-se numa das cadeiras de madeira da cozinha, ps o saco de gelo em cima do joelho e olhou para uma marca de mo em gesso por cima da prateleira dos 
livros de receitas. Tinha dado aquela marca de mo no Dia da Me, quando estava na primeira classe. Zachary iria em breve para a escola e estaria resolvido o problema 
da decorao da parede. Joe ia ter mosaicos de feijes, marcas de mos, silhuetas e toda a espcie de coisas para pendurar em toda a parte. Ento, porque preocupar-se 
com isso?
      A me cortou-lhe os pensamentos sinuosos metendo-lhe o pedao de bolo debaixo do nariz. - Come - disse ela.
      - Isto  para mim?
      - Claro que  para ti - respondeu ela, pondo-lhe o leite ao lado do cotovelo. - Se comesse assim, pesava cento e cinquenta quilos.
      Pessoalmente, Joe achava que ela podia engordar uns quilos. Deu uma dentada no bolo, fechou os olhos e quase chorou, em xtase. Era cobertura glac caseira 
de caramelo, daquela que ela cozia em lume brando no fogo e depois batia at ficar cremosa. Era uma coisa quase to boa como sexo.
      - Oh, me! - disse ele com um suspiro de apreo. - Isto  fantstico. Fizeste para o Zachary? Vais estrag-lo com mimos.
      - Tu sobreviveste. - Sentou-se  frente dele e sorriu. - Gosto de o estragar com mimos. No fazes ideia do prazer que  t-lo c todos os dias.
      Enquanto Joe acabava o seu bolo e continuava com o gelo no joelho, conversaram sobre coisa nenhuma em particular. Sabia bem poder sentar-se na cozinha numa 
tarde sufocante de Julho a conversar sobre nada de importante - decidiu Joe -, mais uma razo para estar contente por ter regressado  terra.
      - Bem, me - disse, finalmente. - Provavelmente, tenho que voltar para o trabalho.
      Ps os pratos no lava-louas. Depois, pondo um brao por cima dos ombros da me, caminhou com ela para a porta da frente, pegando nas chaves quando passaram 
pela televiso.
      - Amo-te, meu anjo - disse ela quando ele se inclinou para lhe beijar a testa.
      - Faz-me um favor? Deite-se uns minutos enquanto o Zachary ainda esta a dormir.
      - Oh, est bem! - Abriu-lhe a parte de fora da porta dupla. - Tem cuidado a conduzir quando c voltares  noite. Tira-me esse p do acelerador.
      Joe desceu os primeiros degraus e depois virou-se para voltar para trs. - Eu j no ando a altas velocidades, me.
      - Sim, sim. Eu bem te conheo, meu diabinho das velocidades. Mes. Seu diabinho das velocidades? Fazia parecer que quase ainda andava de fraldas. No apanhava 
uma multa por excesso de velocidade desde o divrcio, quando a Valerie tinha deitado aquelas manpulas gananciosas ao Lamborghini. O Honda que tinha comprado para 
o substituir proporcionava transporte confortvel e fivel por um preo razovel, mas no tinha potncia para bater recordes de velocidade.
      Estava a sorrir quando tirou o carro em marcha atrs da rampa de acesso  casa. Na esquina, fez uma curva a direita para entrar na estrada principal, tendo 
o cuidado de manter a velocidade nos quarenta exactos enquanto rodou numa zona residencial. Passou por midos de bicicleta, viu pessoas a caminhar e teve de contornar 
um co que tinha decidido dormir uma sesta  sombra fresca de um ulmeiro.
      Para todo o lado para onde olhava, Joe via coisas que lhe lembravam que tinha deixado para trs o ritmo sem sossego da vida citadina. Laurel Creek era um mundo 
inteiramente diferente. Zachary teria ali uma infncia ptima, com muito mais liberdade para andar  vontade do que teria em San Milagros. Estar na mesma terra que 
a Marilee tambm era uma vantagem.
      Passou logo a seguir na rua onde ela continuava a viver. Olhando outra vez para o relgio, viu que ainda tinha um pouco de tempo antes de ter de se apresentar 
no vestirio. Tinha andado toda a manh preocupadssimo com ela. Que mal poderia fazer parar e ver como ela estava?
      Desacelerou e meteu a segunda para virar e contornar o quarteiro, de volta  casa dela. O seu Taurus verde estava estacionado na rampa de entrada, o que queria 
dizer que estava em casa. Apontou o seu Honda para o espao ao lado do carro dela.
      Boo foi ter com ele ao passeio da frente, ocupando tanto espao que Joe parou um momento para lhe fazer uma festa. - Lembras-te de mim, no lembras? - disse 
ele, coando-o atrs das orelhas pendentes. - Aqui est, esperando que a tua dona me receba com o mesmo entusiasmo.
      Nem pensar. Joe subiu os degraus da frente e tocou  campainha. As portas duplas da frente eram envidraadas nos topos. Quando chegou ao trio de entrada para 
ir  porta e viu quem estava no alpendre, os seus passos vacilaram. Joe lanou-lhe um sorriso. Ela percorreu o resto da distncia at  entrada com bvia relutncia 
e depois abriu a porta apenas at ao ponto que a corrente de segurana permitia.
      - Ol - disse ela com voz inexpressiva.
      - Sou eu, o traste. S quis passar para ver como estavas.
      - Ah.
      Aquilo no era exactamente "Vai para o diabo", mas andava perto. Ele apoiou-se com uma mo na trave superior da porta imvel, cruzou os tornozelos e chegou-se 
mais  frente para lhe ver melhor a cara, que parecia de cera e plida. - Como  que te sentes hoje?
      - ptima - disse ela com voz monocrdica. Teve uma comicho pelo cachao acima.
      - ptima? No pareces ptima, querida.
      - Estava a dormir a sesta.
      - Ah, desculpa. No queria acordar-te.
      Ela olhou-lhe sem expresso para o peito. A comicho passou-lhe para o couro cabeludo. - Mari, querida, ests doente?
      Longo silncio. Depois, pestanejou e disse: - Joe, ontem, quando disseste que ainda me amas, estavas a falar a srio?
      Algo estava errado. Nunca a tinha isto assim, completamente impassvel, com uma voz montona, cada palavra espaada.
      - Amo-te tanto que daria a minha vida por ti. - Olhou para o relgio e decidiu que o seu treinador-adjunto poderia aguentar as coisas at ele chegar. - Diz-me 
s de que  que precisas.
      - Preciso que te mantenhas longe de mim, Joe - disse ela de modo monocrdico. - Simplesmente, por favor, mantm-te longe. No voltes aqui.
      Aquilo era a coisa mais prxima de morrer por ela que ele podia arranjar. Nunca a ver? Fechou os olhos e escutou por um momento a respirao dela, extremamente 
aliviado por ela no parecer ter problemas. Nada de inspiraes rpidas e pouco profundas. Levantou as pestanas para lhe olhar para o rosto doce. No podia deixar 
de estar preocupado com a palidez dela.
      - Sei que no entendes - disse ela baixinho, desta vez, ao menos, com inflexo, o que lhe aliviou um pouco a mente. - E no quero entrar numa explicao pormenorizada 
porque  embaraoso. Por favor, limita-te a aceitar, Joe. Eu no posso estar perto de ti. Trabalhei realmente muito para pr de novo a minha vida em ordem e no 
posso permitir que isso seja destrudo...
      - Eu nunca faria isso.
      - Sabias que eu tinha que encomendar as minhas mercearias pelo telefone?
      - No, no sabia disso. Mari...
      - Ouve, por favor. - Quando ele voltou a tentar falar, ela interrompeu-o com outro - Por favor? - Ele ficou em silncio e ela continuou. No houve pausa para 
pensar. Teve a sensao de que ela tinha decorado o que planeava dizer. - Comprei esta casa de modo a poder ter o meu prprio espao. - Fez um gesto com a mo sem 
energia. - Viver em casa era como... no sei explicar... sufocar, de algum modo. Sabes como os meus pais so disciplinados.
      Joe sabia muito bem. Karl Nelson era o sal da terra, e a mulher, Emily, uma querida, mas deram um significado completamente novo  expresso - botas-de-elstico. 
Missa das oito todas as manhs dos dias de semana. Um rosrio em famlia todas as noites, depois do jantar. Raramente viam filmes na televiso por causa da linguagem. 
Se a Marilee no se tivesse rebelado enquanto adolescente, ainda andaria de saias compridas, soquetes e oxfords pretos e brancos.
      - De qualquer modo - prosseguiu ela -, - achei que gostaria de viver sozinha e de ser proprietria da minha casa. Tinha o dinheiro que a mam e o pap tinham 
poupado para a minha faculdade para dar como entrada. A Gerry utilizou o dinheiro da faculdade para ajudar a comprar a casa dela e do Ron e, por isso, pensei porque 
no eu? Mas depois de me ter mudado para aqui, arrependi-me. Sentia-me desconfortvel por viver aqui completamente sozinha.
      A garganta dele comeou a apertar-se-lhe e comeou a formar-se-lhe na mente uma imagem do que tinha sido a vida dela.
      - Agir  pressa e tudo isso. Isto era um stio demasiado bonito para alugar ou para ficar vazio e eu estava presa ao pagamento da hipoteca. Pensei em vend-la 
e voltar para casa, mas... no sei... acho que os meus familiares estavam secretamente contentes por eu lhes ter sado de debaixo das saias e eu tinha vergonha em 
confessar que era to cobarde. Portanto, estava determinada a aguentar e a ficar. Grande erro, esse. Comecei a ficar realmente doente - muito pior do que em casa 
dos meus pais. Mesmo com dois ferrolhos em cada porta, encostava-lhes frigideiras para que fizessem barulho se algum entrasse. Enfiei daqueles sininhos redondos 
de Natal em longos pedaos de cordel e pendurava-os nas portas. Quando o telefone tocava, era como se me estivessem a arrancar a pele com um raspador. Os nicos 
stios aonde ia eram  missa de domingo e ver os meus pais ou a minha irm, e quase tinha um ataque cardaco s de ir at ao meu carro, mesmo em pleno dia. Suponho 
que se podia dizer que eu estava meio agorafbica. Tal como o Zachary, pensou ele. A esconder-se do mundo.
      - No posso voltar a isso - sussurrou ela apaticamente. - Nunca sabia o que podia provocar um ataque. Podes imaginar estar na bicha na mercearia e acontecer 
uma coisa dessas. Ou ir dar um passeio de carro para acalmar, adoecer e no conseguir voltar para casa? Uma vez, tive um numa reunio de famlia e o pai chamou uma 
ambulncia. Foi terrvel. O mdico do Servio de Urgncias disse que eu tinha asma e, depois disso, os meus familiares chateavam-me de morte por no trazer o inalador. 
No servia de nada, portanto, para que andar com ele? Mas no podia dizer-lhes isso. Se tivesse dito, fariam perguntas.
      Joe apoiou o peso no outro p, desejando que ela tirasse a maldita corrente e o deixasse entrar. - E teria sido mau se eles tivessem feito perguntas? - perguntou 
ele. - Talvez falar com algum ajudasse, Mari. Alguma vez pensaste nisso? - Como ela no respondia, disse: - No h tratamento para ataques de ansiedade? O mnimo 
que devias fazer era ir a um mdico.
      - Fui ao meu mdico assistente e disse-lhe que estava com os nervos em franja e tinha ataques de ansiedade. Evidentemente, isto  bastante vulgar e ele no 
foi meter o nariz. Receitou-me uns tranquilizantes suaves. Da a uma semana, voltei l e disse-lhe que no estavam a fazer nada, pelo que ele aumentou a dose.
      Apesar do seu tom montono, Joe quase conseguia sentir a angstia dela. - Oh, Mari, se estavas a passar um bocado to mau, por que raio no me disseste? Tinhas 
que saber que eu viria. Que se lixasse o futebol, que se lixasse tudo. - Meteu um dedo pela abertura da porta para lhe fazer uma festa na face. - Teria estacionado 
na soleira da tua porta, dormido no sof. Fosse o que fosse. No estava a mais do que uma chamada telefnica de distncia.
      Ela fez um pequeno barulho exasperado e mexeu a cabea para fugir ao contacto. - No ests a ver, Joe? Tu eras a ltima pessoa a quem eu podia telefonar. A 
ltima.
      - Porqu, por amor de Deus? Acho que  isso que me deixa mais espantado. Fomos sempre to prximos. Eu contava-te tudo, tu contavas-me tudo. E de repente no 
podias falar comigo?
      - Eu sabia o que aconteceria se estivesse contigo, o que tu esperarias de mim. No conseguia lidar com isso, e ainda no consigo.
      As tmporas comearam a latejar-lhe. - Sexo, queres tu dizer?
      - No te armes em espantado. - Ficou em silncio por um momento, o que lhe disse que ela tinha terminado o seu bem ensaiado discurso e estava agora  procura 
de palavras. - Estvamos  espera at casarmos, mas quanto tempo duraria isso? Estvamos noivos. Era cada vez mais difcil, de cada vez que estvamos juntos. Eu 
sabia que havia de se dar, provavelmente sem demora.
      Um arrepio fez-lhe pele de galinha nos braos.
      - Tnhamos esperado trs anos completos e eu tinha, finalmente, dezoito. Depois de aquilo acontecer, no podia continuar assim. No podia!
      Joe tirou a mo da porta. Apoiando os punhos fechados nas ancas, comeou a andar num pequeno crculo no alpendre, com o olhar fixo nos ps. Tinha manchas de 
erva nos Nike, reparou estupidamente. Finalmente, disse: - Foi por isso que rompeste o nosso noivado? Porque pensavas que eu esperava que fizesses sexo comigo?
      Ela correu com a mo a corrente que impedia a porta de se abrir mais. - No pensava, eu sabia que esperavas.
      - D-me algum crdito - disse ele, delicadamente. - No sou to insensvel como isso.
      - Tu no sabias e eu no te podia dizer. Nem sequer podia falar acerca disso!
      - E isso no foi bom - salientou ele. - Ter-te-ia levado a Eugene. Mesmo nessa altura, tenho a certeza de que tinham l um centro de crise de violaes.
      Ela estremeceu quando ele disse a palavra em voz alta. Joe sofria com tristeza por ela. Ela estava obviamente a fazer uma negao, no s incapaz de falar 
acerca do que tinha acontecido, mas tambm a fingir, a certo nvel, que realmente nunca tinha acontecido.
      - Precisavas de aconselhamento, Mari. Acho que ainda precisas. Eu teria tratado das coisas para o teres.
      - No te podia falar nisso, Joe. Porque  que no consegues entender isto?
      - Ento, em vez disso, riscaste-me da tua vida. Que  que pensavas, querida, que ficavas bem milagrosamente, sozinha? Querida... - Voltou para junto da porta 
e estendeu uma mo para lhe tocar no cabelo belssimo. As madeixas encaracolaram-se-lhe nas pontas dos dedos como fios de seda. - As pessoas nem sempre recuperam 
quando acontece uma coisa dessas. Precisam de ajuda para lidar com o problema e, a menos que obtenham ajuda, tm problemas. No ests sozinha, tu sabes.
      Ela comeou a soluar baixinho. Joe encostou o ombro  outra porta como se, ao faz-lo, ficasse mais perto dela. - Ah, Mari, no. - Pensou seriamente em partir 
a maldita corrente de modo a poder pegar-lhe e confort-la. - Desculpa estar a fazer sermes. Eu sei que no foi um tempo fcil para ti, que te sentiste completamente 
sozinha e, provavelmente, no sabias o que fazer. - Era uma rapariga catlica de uma cidade pequena. Nessa altura, Joe at duvidava que ela tivesse ouvido muitas 
vezes a palavra "violao", quanto mais saber o que havia de fazer se viesse a tornar-se vtima. - Por favor, no chores. O que precisamos  de nos concentrarmos 
no presente. No ? Agora j sei. Posso ajudar-te, se me deixares.
      - Ajudar-me? - repetiu ela com voz esganiada. - No posso ser envolvida numa relao, Joe, e estar contigo  uma presso que neste momento no posso ter.
      F-lo sentir-se como uma doena contagiosa.
      - Nada mudou nos ltimos dez anos. Tu ainda s o Joe e eu ainda sou a mesma velha confusa. Estar contigo ontem? Agora sinto-me como se estivesse fechada numa 
gaiola. A picarem-me com pauzinhos.
      - Nunca te magoaria. Tenho a certeza de que sabes disso.
      - O que eu sei  o que se passa nas profundezas da minha cabea so duas coisas diferentes. O sonho voltou ontem  noite, Joe.
      O sonho?
      - Foi a primeira vez que o tive em dez meses. Tive que tomar tranquilizantes para dormir. E, esta manh, mais. Por isso  que estava a dormir a sesta quando 
tocaste. Estou pedrada. Inebriada. Se me amas, se realmente me amas, ficars longe de mim.
      Ele amava-a, realmente. Sempre amara e sempre amaria. Mas deix-la sozinha no lhe parecia a coisa mais inteligente a fazer. Se ela pudesse, ao menos, v-lo 
regularmente em situaes que no fossem ameaadoras, no teria ataques de pnico e, finalmente, ultrapassaria aquilo. Ele sabia que sim. - Marilee, fazes uma coisa 
por mim?
      Ela fungou e finalmente disse que sim com a cabea. - Deixa-me levar-te ao mdico. No aqui na cidade, onde toda a gente saberia. Talvez a Bedford. Aposto 
que tem l um par de bons psiquiatras. Eu conduzo. Se quiseres que eu espere no carro, assim farei. Ou, se precisares de apoio moral, entro contigo. Tenho a certeza 
de que o mdico entender se eu ficar contigo nas primeiras sesses.
      - O qu? E ter-te a ouvir todos os pormenores sujos e a julgar? - Julgar! De que raio havia de te julgar?
      Ela arquejou baixinho, o olhar ferido que tinha nos olhos quase lhe partindo o corao. - E se a mulher pedir, Joe? Alguma vez pensaste nisso?
      Praguejou em surdina e agarrou a corrente com uma mo, pensando como seria fcil tirar aquela maldita coisa. - Nenhuma mulher pede isso. Mesmo que ande nua 
pela Main Street, no chega a isso.
      - Tu no sabes a histria toda!
      - No preciso de saber. Conheo-te.
      - Eu fiz uma coisa muito estpida, Joe. - O olhar dela cruzou-se com o dele, o azul dos olhos dela muito escuro e cheio de sombras que pareciam ndoas negras. 
- Que estupidez. Meti-me na boca do lobo! Tu disseste-me que nunca fosse a festas da associao de estudantes. Lembras-te? Tu avisaste-me, repetidamente.
      - Lembro-me - disse ele firmemente.
      - Bem. Eu no te dei ouvidos. Fui a uma com a minha grande irm da irmandade. Muitas outras raparigas foram e nunca tiveram problemas. Imaginei que estivesses 
apenas a ser proteccionista.
      Tinha sido demasiado proteccionista. Tendo crescido em Laurel Creek com pais estritamente religiosos, tinha sido protegida toda a vida, e com trs anos de 
faculdade no bucho, ele conhecia os perigos que ela podia encontrar num grande campus universitrio.
      - Toda a gente da irmandade usava o sistema de ir aos pares. Era essa a regra para festas e a minha grande irm no conseguiu arranjar mais ningum para ir 
com ela. O namorado ia l estar e ela, realmente, tambm queria ir. No se cansou de me pedir que fosse com ela naquela noite e eu acabei por ceder. Pressupunha-se 
que ficssemos juntas, que olhssemos uma pela outra, mas ela arrancou.
      Ele ia ficar maldisposto. Diabo! - Mari, s tinhas dezoito. Por vezes, as pessoas fazem coisas estpidas, aos dezoito anos. Faz parte do crescimento, querida. 
Cometer erros e normal. Pensas que nunca fiz nada estpido? Pensa melhor.
      - Nem toda a gente paga pelos seus erros como eu paguei.
      Ela nunca tinha falado com ningum acerca disto e agora, quando finalmente decidiu falar, era atravs de uma porta entreaberta? Ele sups que os tranquilizantes 
lhe tivessem soltado a lngua mas, independentemente disso, precisava de estar ali dentro com ela. Estar ali no alpendre, daquela maneira, quando era to claro que 
ela precisava dos braos dele  sua volta era pura tortura. - Mari, querida...
      - Conheces aquela coisa... a bebida muito alcolica? Evergreen, ou qualquer coisa assim? Algum ps uma grande quantidade disso no ponche.
      - Everclear, queres tu dizer? - Era uma coisa com 95% de lcool e conseguia deitar abaixo um homem grande mais depressa do que um gancho mdio da direita.
      - Sim, Everclear, era isso. A casa da fraternidade estava cheia e a msica, aos berros. Eu estava com calor e o namorado da minha irm da irmandade ofereceu-me 
um copo de ponche. Achei que tinha um gosto estranho, mas nunca tinha tornado nenhuma bebida alcolica.
      Oh, Deus. Lembrou-se de como ela era incrivelmente ingnua naquela altura. Apetecia-lhe matar o tipo que lhe tinha feito aquilo. No havia prescrio; para 
ele, no. O filho-da-me podia muito bem-estar casado e ter filhos, mas isso no lhe dava o direito de ter uma vida sem mcula enquanto ela lutava com as suas recordaes 
em cada momento que passava acordada.
      - S tomaste isso, um copo? - perguntou ele, esperando que ela continuasse a falar.
      - Foi um grande copo de plstico, e bebi-o todo.
      Joe conhecia o tipo de copo a que ela se referia, e se o filho-da-me estava a tentar embebed-la, sem dvida que tinha posto mais lcool no ponche dela. Joe 
tinha conhecido tipos assim na faculdade, alguns deles na sua prpria fraternidade. Eram parvalhes sem conscincia.
      - Primeiro, fiquei mesmo tonta - disse ela, em farrapos. - Depois, comecei a sentir-me enjoada. Terrivelmente enjoada. Ele disse que havia um stio onde podamos 
deitar-nos.
      Joe passou uma mo por cima dos olhos. Sabia o que a vinha - praticamente, podia ter ele acabado a histria. Imaginou-a, quase incapaz de se ter de p e nauseada, 
a confiar num... tipo "simptico" que estava a ajud-la.
      - Devia ter chamado um txi para regressar  irmandade! - chorava, a voz a ficar sumida. - Em vez disso... ai, Joe, fui to estpida, to incrivelmente estpida. 
Eu conhecia-o e pensei que podia confiar nele, por isso... fui com ele. Eu fui com ele!
      Comeou a chorar a srio. Esteve ali a observar sem poder fazer nada enquanto conseguiu aguentar. Depois, agarrou o puxador, meteu o ombro  porta e disse: 
- Sai da frente, querida. Isto  uma loucura. Vou entrar.
      - No! - Ela lanou o seu peso contra a porta para o impedir.
      - S para conversar, juro.
      - J te disso que no posso falar acerca disto.
      At um momento atrs, tinha estado a portar-se muito bem. No lhe escapou o facto de, quando finalmente o dique rebentou, ter sido ele o escolhido por ela 
para despejar o corao.
      - ptimo. No falamos, ento. S quero estar a dentro contigo. Como teu amigo. Descarta tudo o resto, querida, e ainda ficamos com isso. Sempre amigos, lembras-te?
      - Ai, Joe.
      - Posso ficar um bocadinho. - Que se lixasse a preleco no vestirio. Se perdesse o emprego, arranjava outros dois numa bomba de gasolina. Com excepo do 
filho, no havia ningum no mundo que tivesse mais importncia para ele do que aquela mulher. - Vou-te arranjar ch. Ouve. Quando te sentires melhor, vou-me embora. 
Est bem? Tira a corrente.
      - No... por favor. No entres. Por favor, no, Joe. - Inspirou com debilidade. - Eu estou ptima. A srio. E no te quero aqui dentro. Eu estava bem at te 
ver ontem. Praticamente, j estava bem.
      - Tens alguma coisa contra ficares inteiramente bem? No queres que eu entre contigo, muito bem, mas o que importa  que precisas de ir a um mdico.
      Absteve-se de mencionar que tinha parado na biblioteca depois de sair da casa dela na vspera, trazido alguns livros e comeado a estudar problema dela na 
noite anterior depois de pr o Zachary na cama. Tinha concentrado a sua ateno principalmente nos ataques de ansiedade nas perturbaes do stress ps-traumtico, 
e embora ainda estivesse longe de se sentir bem informado, tinha marcado vrias pginas que descreviam exactamente os sintomas dela. Praticamente todas as passagens 
eram precedidas de - Em casos graves. Ela precisava de ajuda e mesmo que fosse a ltima coisa que fizesse, tencionava tratar de que a obtivesse.
      - Achas que estou louca.
      - Querida, eu no disse isso. Disse?
      Ela fez um som de exasperao. - Tens razo. Estou louca. Mas no posso ir procurar aconselhamento. Falar naquilo s me far pior. At pensar naquilo me faz 
pior.
      Tinha estado a despejar o corao at ele ter falado em entrar, e ele suspeitava de que lhe tinha feito imenso bem deitar aquilo c para fora.
      - Mari, eu...
      - Agora, tenho que ir, Joe. Por favor, no voltes c. Da prxima vez, no abro a porta.
      No podia deix-la fechar assim a linha de comunicao entre eles. No caso de alguma vez ela precisar de falar, no queria que hesitasse em pegar no telefone. 
- Posso, pelo menos, telefonar-te de vez em quando? S para saber como ests?
      Ela olhou para ele durante um longo momento, os olhos cheios de uma ansiedade que lhe dizia que ela queria do fundo do corao poder dizer que sim. - No telefones, 
Joe. No posso correr riscos. Se comear a ficar doente outra vez, talvez nunca fique bem. Preciso que fiques longe e lamento dizer-te que isso inclui falar ao telefone.
      Precisava dos braos dele  sua volta mas, de momento, ele no ia discutir. - Lembra-te, a linha esta aberta em ambos os sentidos.
      - Est bem.
      - Ento, por agora, adeus - disse ele, a sua voz rouca de sentimentos que no podia exprimir. Conformou-se com dizer "Amo-te, Mari. Se alguma vez precisares 
de mim, por favor no hesites em dizer-me. Estarei aqui num abrir e fechar de olhos e virei sem expectativas, prometo."
      Outro longo silncio. Depois, to baixinho que ele quase no apanhou, ela sussurrou "Eu tambm te amo", imediatamente antes de lhe fechar a porta na cara.
      
      
    Captulo Quatro
      
      
      Ao fim da tarde do dia seguinte, Joe obrigou-se a concentrar-se num grupo de rapazes que no jogava nada. Faltava apenas um ms para comear a escola e a poca 
de futebol. No tinha muito mais tempo para os pr em forma e a tarefa tornava-se cada vez mais assustadora.
      Junto  linha lateral com o seu treinador-adjunto, Ted Ridgeway, observava a equipa a efectuar um jogo treino. Quando o quarterback fez o passe, o wide receiver 
no s se atrapalhou ao agarrar a bola, mas, de algum modo, tambm tropeou.
      Ted praguejou em surdina. - Homem, Bedford High vai desfazer-nos, esta temporada. Vou acabar a vender hambrgueres para sobreviver a menos que estes midos 
consigam organizar-se.
      Bedford era o maior rival da Laurel Creek High desde que Joe tinha memria. Com o tempo, a rivalidade entre as duas escolas tinha-se tornado na coisa mais 
importante daquela comunidade em cada poca de futebol, tornando o que devia ser um jogo divertido numa renhida luta pela vitria. 
      Por vezes, a colheita de rapazes que apareciam para o futebol tornava a vitria sobre Bedford uma possibilidade. Este no era um desses anos. Joe nunca tinha 
visto tantos midos descoordenados ao mesmo tempo em toda a sua vida.
      Tinha tentado falar com Jim McCalister, o reitor do liceu, acerca da falta global de capacidade atltica da equipa, mas Jim tinha feito orelhas moucas. Derrotar 
a Bedford High era absolutamente obrigatrio, men. Por que razo pensava Joe que o ltimo treinador tinha sido despedido e ele tinha sido contratado para o substituir? 
Porque o futebol do liceu era extremamente importante nesta cidade, isso  que era, e se algum podia levar a Laurel Creek High aos playoffs estaduais era Joe Lakota.
      Grande problema. Joe no tinha a certeza de que aqueles rapazes tivessem l dentro o que era preciso. Sempre que faziam uma jogada, uma deles estragava-a fatalmente.
      Naquela manh, Joe ficara to frustrado que tinha dado consigo quase a gritar com um mido, coisa que jurara nunca fazer. Com o emprego na corda bamba, era 
fcil de mais ser engolido pela loucura e comear a pensar que vencer era tudo. Bem, caramba, vencer no era tudo. Aqueles rapazes estavam ali a esgotar o corao 
por ele e isso tinha que contar para alguma coisa, mesmo que nunca ganhassem um nico jogo.
      Joe rabiscou um apontamento rpido e depois meteu o bloco de notas com mola debaixo do brao e foi para o campo. Enquanto corria, fez soar duas vezes com fora 
o apito de prata que trazia pendurado ao pescoo com um atacador.
      Parecendo de orelha murcha e envergonhados consigo mesmos, os rapazes arrastavam os ps, alguns deles cabisbaixos, outros tirando a proteco da boca para 
cuspir no relvado. Joe percebeu que era preciso uma conversa para os animar. Se o nimo deles baixasse ainda mais, por pouco que fosse, andariam com os lbios inferiores 
a arrastar pelo cho.
      Parou e deu uma palmada no ombro do wide receiver.
      - Desta vez, mantiveste-te de olho na bola. Grande progresso! Com os seus olhos azuis surpreendentemente brilhantes, o jovem, com a cara vermelha, olhou para 
Joe e encolheu os ombros.
      - Estraguei outra vez a jogada, Como  que isso  um progresso? No era fcil elogiar um mido quando fazia tantas asneiras, mas Joe estava motivado. Ao longo 
da sua carreira no futebol, os treinadores que tinham tido maior efeito nele e conseguido dele os melhores desempenhos tinham sido os que o fizeram acreditar nele. 
Pensando rapidamente, disse: -  que desta vez estragaste, fazendo bem, Petersen! Agora, s tens que aprender a descontrair as mos quando contactas com a bola.
      Poisando o bloco de notas na relva, Joe fez sinal a um jogador para lhe atirar a bola. - Assim - disse ele quando atirou a bola ao ar e depois a agarrou. - 
Ests a ver como as minhas mos cedem ao impacto?
      Deu outra palmada no ombro do jovem e meteu-lhe a bola nas mos. - Faz de conta que  um ovo.
      - Um qu?
      - Um ovo. No queres que ele se parta, pois no? Ento, quando ele vem para as tuas mos, cede-lhe. Vais ficar espantado com o que isso far s tuas recepes. 
Uma vez que domines isso, estars no bom caminho para te tornares um wide receiver campeo.
      - Eu?
      Joe tinha de admitir que era preciso alguma imaginao.
      - Claro, tu. Porque  que pensas que te escolhi para esta posio?
      - Porque no apareceu ningum melhor?
      - Exactamente, no havia a ningum melhor - respondeu Joe. - Achas que eu vou optar por uma segunda escolha? Eu conheo o potencial quando o vejo e, acredita 
em mim, Petersen, tu s nico.
      Isto no era mentira. Joe conhecia o potencial quando o via e Peterson classificava-se nos primeiros dez por cento pela sua total falta de potencial.
      - O mesmo  vlido para o resto de vocs, rapazes! - disse ele bruscamente. - Escolhi cada um de vocs a dedo. Portanto, tirem esse ar triste da cara. Tornar-se 
o melhor no  brincadeira. Vai exigir muito trabalho! Esto dispostos a dar cento e dez por cento?
      - Sim, treinador! - gritaram alguns jogadores.
      - Mais alto! - gritou Joe.
      - Sim, Treinador!
      - Vamos. Um grupo de maricas fazia melhor do que isso!
      - Sim, Treinador! - berraram eles todos.
      Tomara Joe que eles conseguissem jogar futebol como conseguiam gritar. - Isso  o que eu quero ouvir - gritou ele. - Agora, vamos repetir a jogada! Vamos faz-la 
at sair bem!
      O telemvel que Joe tinha no bolso das calas do fato-de-treino tocou exactamente nessa altura. Pegou nele e atendeu. - Fala Lakota.
      Joe esperava que a chamada fosse do seu preparador fsico, que tinha levado um dos jogadores para o balnerio uns minutos antes para ligar um pulso torcido. 
Em vez disso, era uma mulher. Tapou um ouvido e afastou-se do grupo de rapazes, esforando-se por ouvir o que ela dizia. Parecia de idade e ansiosa por qualquer 
motivo.
      - Desculpe - interrompeu ele. - Quem fala?
      - Sarah Rasmussen, a vizinha da tua me! Ela est muito doente, Joseph. Chamei uma ambulncia e j c esto para a levar para o hospital. Acho que  do corao.
      Joe sentiu-se como se a terra lhe tivesse desaparecido de repente de debaixo dos ps. - Oh, Jesus, no - sussurrou. O medo fez o sangue martelar-lhe nas tmporas. 
- At que ponto  grave? - Comeou a afastar-se do campo e depois percebeu que no podia ir-se embora sem dizer ao treinador-adjunto porqu. Voltou para trs. - 
Onde est o meu mido, Senhora Rasmussen?
      - Est debaixo da mesa. O pobrezinho est morto de medo. Eu oferecia-me para tomar conta dele de modo que pudesses ir directamente para o hospital, mas penso 
sinceramente que era melhor passares primeiro por c. Toda esta agitao, acho eu. Ele est a gritar e horrivelmente perturbado. Nem sequer consigo tocar-lhe.
      Mesmo com o vento a dificultar a audio, Joe ouvia o som dos gritos de Zachary. - Vou j para a. Faz-me o favor de lhe dizer isso, Senhora Rasmussen? Estou 
a dentro de cinco minutos ou menos.
      - Sim, eu digo-lhe.
      Joe terminou a chamada e correu para a linha lateral para pr o treinador-adjunto ao corrente da situao. Menos de um minuto depois, estava a correr para 
o parque de estacionamento da faculdade.
      Eram aproximadamente oito horas quando Joe chegou a casa naquela noite, a arrastar os ps ao carregar o filho a dormir do carro para casa. Homem, que dia. 
Com descanso e tratamento, parecia que a me fincaria boa. O ECG no mostrava anomalias e embora os resultados do teste das enzimas ainda no tivessem chegado, o 
mdico achava que a forte dor que ela tinha tido no pescoo e no brao tinha, provavelmente, sido causada pela angina de peito e no por uma coronria. Como medida 
de precauo, ficava no hospital para fazer mais exames e em observao, para alvio de Joe. Quase morrera de susto quando viu como ela estava fantasmagoricamente 
plida.
      A sua me j no  to nova como era, dissera-lhe mais tarde o Dr. Pe-trie. Tomar conta de uma criana de quatro anos  simplesmente de mais para ela. Sugiro 
que organize doutra maneira o modo de tomar conta da criana. Quando for para casa, ela pode tomar conta do neto durante perodos curtos - umas horas, a menos que 
tenha quem a ajude, e ento pode tomar conta dele durante mais tempo - mas no pode continuar a ficar com ele o dia inteiro se estiver a tomar conta dele sozinha 
e nunca de forma regular.
      Por mais aliviado que Joe estivesse por a me ir ficar boa, o seu inesperado colapso tinha-o colocado numa situao complicada. Organizar de outra maneira 
o modo de tomar conta do filho no era simples, pelo menos em relao a um mido como o Zachary. No havia modo de Joe deixar o menino num centro de dia, como faziam 
outros pais.
      Diabo. Joe no sabia o que ia fazer e tinha uma malvada de uma dor de cabea por estar preocupado com isso. No havia volta a dar, tinha de estar de manh 
no campo a dirigir o treino. Faltar ao trabalho quando ainda estava h to pouco tempo no lugar era uma boa maneira de ser despedido.
      Zachary acordou quando Joe puxou a roupa para o meter na cama.
      - Porque  que ainda ests triste, pai? A av est melhor, no est? Joe forou um sorriso e inclinou-se para dar um beijo na testa do filho.
      - No estou triste, rebento. S um pouco cansado, mais nada. E preocupado.
      - Por causa de a av Faye poder morrer?
      - No, no... - Joe fez uma festa no cabelo de Zachary. - A av Faye vai ficar boa.
      - A menos que eu a faa adoecer outra vez.
      Frustrado pelas sombras no quarto meio s escuras, Joe aproximou-se mais,  procura dos grandes olhos assustados do filho. - Tu no fizeste a av adoecer, 
Zachary. Aonde  que foste buscar essa ideia?
      - Disse o mdico.
      Joe recuou, desejando que Zachary no tivesse ouvido aquela conversa. Mas, mais uma vez, sem ningum que tomasse conta dele, Joe no tinha tido outra hiptese 
que no fosse ficar com o filho no hospital. - No, diabrete, no foi nada disso que o mdico disse. A av Faye adoeceu porque  idosa, no por tua causa.
      - O mdico disse que tomar conta de mim cansou-a.
      Fazia pouco sentido negar, pelo que Joe no tentou. - Tu s um menino activo e a av Faye  uma senhora idosa com um corao mau. Muitas das coisas que ela 
gosta de fazer cansam-na... trabalhar nas flores dela, fazer tartes. Se o corao lhe comeasse a doer por se cansar a ir  igreja, culpavas Deus de a ter feito 
adoecer?
      - No - disse Zachary com voz hesitante.
      - Bem, ento, tambm no deves culpar-te. - Joe apertou o filho nos braos e pegou-lhe ao colo. - Tonto. Tu gostas da tua av e trabalhas muito l em casa, 
a fazer toda a espcie de coisas para ela. Ela gosta tanto de ti que no se deita com a frequncia que devia quando tu l ests. Mais nada.
      Zachary escondeu a cara no peito de Joe e disse, com uma voz alta e estridente: - Eu nunca quis fazer-lhe doer o corao, pai. Ela estava a fazer-me o lanche, 
como todos os dias, quando a cara dela ficou esquisita e me pediu que lhe desse o telefone. Depois de telefonar para a senhora do lado, caiu no cho e no conseguiu 
falar mais. Pensei que ela ia morrer.
      Joe fechou os olhos e comeou a balanar lentamente para trs e para a frente. Por vezes, sentia-se um pai lastimavelmente inadequado. Porque  que no tinha 
percebido o que o filho estava a sentir? Todas aquelas horas  espera de notcias da me e o Zachary a sentir-se culpado. Era um fardo muito pesado para um rapazinho 
carregar durante toda a tarde e noite.
      - Oh, Zachary... Desculpa. Ouve. Ests a ouvir?
      - Sim.
      - O que aconteceu  av Faye no foi culpa de ningum. O corao dela est velho e fraco e ela tem a dor da angina h muito, muito tempo... desde muito antes 
de ter comeado a tomar conta de ti. Quase tudo lhe pode provocar um ataque. Sabes o que ela gosta de ir passear  noite? At isso. No teve nada, absolutamente 
nada, a ver contigo.
      - De certeza? - perguntou a criana com a mesma voz esganiada, que indicou a Joe que ia comear a chorar.
      - De certeza absoluta. Juro... Palavra de escuteiro - disse. - A av Faye adora-te e diverte-se realmente a tomar conta de ti. O que acontece  que est velha. 
- Joe deu um beijo no cimo da cabea do filho inalando os cheiros do menino, de que tanto gostava, vestgios do champ e do sabonete, de manteiga de amendoim e de 
geleia, de lpis, de cola. - Se ela soubesse que estavas a sentir-te mal, dizia-te exactamente a mesma coisa, que no foi culpa tua e que s um tonto por pensares 
isso. No tarda nada, estar de p a andar por a, achando-se outra vez s como um pro. Vais ver.
      - No posso mais ficar com ela - disse Zachary, desolado.
      - Como dantes, no - concordou Joe.
      - Para onde  que vou enquanto ests no treino de futebol, na faculdade, pai?
      - Tenho que arranjar qualquer coisa - disse Joe com muito menos confiana do que parecia. - E tu vais ficar contente com o que eu arranjar, prometo. At l, 
no tens que te preocupar. Que tal uma histria para adormecer?
      Zachary sorriu e fugiu do colo de Joe para mergulhar outra vez debaixo dos lenis. - Boa noite, Lua.
      Joe reprimiu um murmrio de desagrado. Tinha lido tantas vezes esse livro que o sabia de cor. Deu um piparote no candeeiro de cabeceira. - Seja Boa noite, 
Lua.
      Zachary aconchegou-se mais debaixo dos lenis e bocejou. - Pai?
      - Hmm? - respondeu Joe enquanto procurava na coleco de livros favoritos, na gaveta da mesa-de-cabeceira.
      - E se no conseguires arranjar nada para mim? O que  que fao? Essa era uma pergunta a que Joe no sabia responder e estava to preocupado com isso como 
o Zachary. - Alguma vez me viste falhar quando me pus a pensar numa coisa?
      - No.
      - Bem, ento? Eu arranjo qualquer coisa, rebento, e tu vais gostar. Prometo.
      
      Marilee estava na sala de lavar roupa a dar de comer ao Boo quando o telefone tocou. Eram quase nove horas e raramente recebia telefone-mas to tarde, pelo 
que a primeira coisa que pensou foi que a Gerry podia estar a ter o beb. Correu para a cozinha e, pegando no auscultador, disse ansiosamente: - No me digas que 
ests em trabalho de parto.
      Uma voz masculina, profunda, veio pela linha. - Desculpa?
      Ficou com a cara a escaldar. - Joe? - Ficou to perturbada com o telefonema dele que levou um momento a recompor-se.
      - Por favor, no desligues.
      - Pensei que tnhamos decidido que no falvamos. 
      - Preciso da tua ajuda, Marilee.
Algo na voz dele f-la hesitar em cortar a ligao. Agarrou com mais fora no auscultador. - Ajuda minha?
      - A minha me est no hospital.  do corao. Teve um colapso esta tarde.
      O estmago de Marilee deu um salto.
      - Oh, no. - Ela sempre gostara de Faye Lakota. - O corao dela, dizes tu? Oh, Joe! Ela  to nova.
      - Faz setenta e seis no ms que vem. Realmente, no  to nova como isso.
      Setenta e seis? Marilee olhou pela janela da cozinha para a escurido do ptio. Para onde tinha ido o tempo? - Lamento muito. Vai ficar boa?
      - Os resultados do teste das enzimas ainda no vieram, mas o ECG parecia bastante bom. - Ele parecia emocionalmente em baixo, com uma voz estranhamente cavernosa, 
mas cortada pela tenso. - O Doutor Petrie acha que foi apenas um ataque da angina e no um verdadeiro ataque cardaco.
      - Que posso eu fazer para ajudar?
      - Detesto abusar da tua amizade, querida, mas no tenho alternativa. Preciso de te pedir um favor.
      - No sejas parvo. A tua me  uma pessoa querida. Quando acontecem coisas como esta, pe-se tudo o resto de lado. Quando  que ela vem para casa? Posso l 
ir fazer-lhe a cama, limpar a casa. Sendo assim, at posso trabalhar l durante uns dias e tomar conta dela.
      - Disso j tratei. Lembras-te da Senhora Rasmussen, a senhora da porta ao lado? Ainda esta bastante activa e ofereceu-se para ajudar. Ela e a me so muito 
chegadas, pelo que acho que vo gostar de passar o tempo juntas, acho eu.
      - Ah! - Marilee percorreu as linhas de argamassa castanha entre os azulejos macios do balco. - Ento?
      - Preciso de algum que tome conta do Zachary. O mdico diz que a minha me j no pode tomar conta dele. Uma criana da idade dele  de mais para ela.
      Aquela ideia no tinha ocorrido a Marilee. Fechou os olhos. Zachary. - Durante quanto tempo?
      Longo silncio. - Provavelmente, umas semanas. Eu pedia a Gerry e ao Ron, mas eles j tm tantos midos e ela est para ter outro. Alm disso, o Zachary  
dolorosamente tmido e precisaria de semanas para se adaptar a toda aquela agitao.
      - Umas semanas?
      - S at eu conseguir que ele se habitue a um centro de dia. Uma vez que ele se acostume a ti, posso comear a lev-lo a um centro uma vez por dia, durante 
o meu intervalo do meio da manha. Habitu-lo lentamente s educadoras e aos outros midos todos. Quando ele se sentir  vontade, posso comear a deix-lo l. Talvez 
s de manh, a principio.  Depois, logo a seguir, todo o dia.
      Semanas - Se fosse outra criana qualquer, Marilee teria dito que sim num abrir e fechar de olhos. Mas o Zachary? A irm dela, a Gerry, dissera que ele era 
um menino querido, e provavelmente adoraria tomar conta dele. A nica coisa era que para tomar conta dele, teria de tambm ver o Joe todos os dias. No havia maneira 
de evitar.
      - Eu... - Pensou rapidamente. - Realmente, Joe, seria melhor para mim ajudar em casa da tua me e deixar a Senhora Rasmussen tomar conta do Zachary. Assim, 
posso ir fazendo alguma coisa enquanto a tua me descansa. - E posso organizar cuidadosamente o horrio de modo a nunca tropear em ti, acrescentou em silncio. 
- Tomar conta de uma criana de quatro anos ocupava-me o dia todo.
      - Eu sei.  que... - Praguejou em surdina, com palavras ininteligveis. - Que diabo, Marilee. No te pedia se no estivesse numa enrascada dos diabos. O Zachary 
no  como os outros midos. No posso deix-lo com uma pessoa qualquer. Por alguma razo, no gosta da Senhora Rasmussen. Hoje, quando a me teve o ataque, ele 
passou-se. Estava escondido debaixo da mesa e a gritar quando a Senhora Rasmussen me telefonou para a faculdade. Pobre mido, estava assustado de morte.
      - Mas, Joe, ele nem sequer me conhece.
      - Ele vai adorar-te. Sei que sim. Os midos no so estpidos. Tu tens um jeito especial para as crianas, Mari. Basta-me ver algum do teu trabalho para perceber 
isso. Tambm s muito sensvel. O Zachary passou tempos duros, a viver com a me. Tem sido reticente em relao aos pormenores, dizendo-me muito pouca coisa. Nem 
sequer confidenciava ao terapeuta. Acho que tem dificuldade em falar nisso. Hs-de entend-lo, querida, talvez melhor do que ningum.
      Ela meteu os dedos no cabelo. - Golpe sujo. No me toques assim nas cordas sensveis. Tu sabes que no quero ver-te. Tomando conta do Zachary, no teria alternativa.
      - Achas realmente que eu usaria o meu filho de um modo to dissimulado? Ainda te amo, Marilee. Fui frontal contigo a esse respeito. Se conseguisse arranjar 
uma maneira de fazer isso, qualquer maneira de fazer isso, comeava do ponto exacto em que ficmos, com anel e data de casamento. Mas no me podes acusar de ser 
dissimulado em relao a isso.
      Isso era verdade. Assustadoramente verdade. Joe nunca fora do tipo dissimulado. Sempre pusera as cartas na mesa e jogara limpo. Se alguma vez chegasse o momento 
de um confronto entre eles, seria taco-a-taco. S de pensar nisso, ficava com os joelhos a tremer.
      - Adorava ajudar com o Zachary - confessou ela. - Mas... no posso. No quero ver-te. Pensei que tinha deixado isso claro.
      - Marilee, estou desesperado. Posso dizer-lhe que s minha amiga, que te conheo desde sempre. No ser a mesma coisa que deix-lo com uma pessoa completamente 
estranha.
      Ela piscou os olhos e esfregou a tmpora, que comeara, de sbito, a latejar. - Desculpa, Joe.
      - Marilee, por favor... Vou perder o meu emprego se comear a faltar a treinos. Ou o deixo com algum ou fico sem rendimentos e, ao contrrio do que toda a 
gente pensa, no estou sentado em cima de toneladas de dinheiro no banco. A Valerie quase me deixou limpo quando nos divorciamos e acabou o servio quando lhe paguei 
para ficar com a guarda do Zachary. Tinha dinheiro suficiente para dar uma pequena entrada para esta casa quando me mudei para c, e fiquei com alguma coisa para 
uma aflio. E assim. Perco o emprego e fico no mato sem cachorro.
      - Ento, ests a pedir que me enterre at ao nariz?
      Ficou em silncio por um momento. - Custa-te assim tanto ver-me? Eu limitava-me a deixa-lo a e ir busc-lo.
      E a dilacerar-lhe o corao de cada vez que ela o visse. - Lamento muito, Joe. Adorava ajudar. Mas isso  o tipo de coisa que pura e simplesmente no posso 
fazer.
      Emitiu um som baixo e soprado que ela sabia ser de pura frustrao. Depois, caiu em silncio, com um barulho rpido e cadenciado a assinalar a passagem dos 
segundos. Ela imaginou-o a bater com a ponta de uma esferogrfica no balco da cozinha. - Quase hesito em perguntar isto com medo do que possa ser a tua resposta. 
Tens, realmente, medo de mim, querida?  disso que se trata?
      - No  to simples como isso. - A mo dela apertou convulsivamente o telefone. - Quando as pessoas esto nos destroos dos automveis tm medo de automveis? 
No.  ir a algum lado de carro que as enerva, especialmente a altas velocidades.
      - Ento, vamos a passo de caracol. No tenho problemas nisso.
      - No  to simples como isso!
      - Marilee... o que , exactamente, que receias que possa acontecer?
      - Tu sabes muito bem o que receio que possa acontecer.
      - Sexo, mas isso no faz sentido.  preciso que os dois queiram.
      - ?
      - Comigo, . - A voz dele ficou rouca de ternura. - Ento, onde est a preocupao? Nunca acontecer nada entre ns que tu no queiras que acontea. Certamente 
sabes disso.
      - No  s isso.  muito mais complicado. No posso dissecar os meus sentimentos e explicar-tos todos. - Apertou a cana do nariz. - Em suma, ver-te, estar 
contigo perturba-me e no posso correr o risco de voltar a adoecer.
      - Marilee, pensa.  um medo racional?
      - Joe, se racional tivesse alguma coisa a ver com isto, eu no teria doze frigideiras.
      - Doze? No tens tantas portas para o exterior como isso.
      - Eu punha uma encostada e deixava duas no cho para ter a certeza de que haveria um barulho alto. Alm de dois ferrolhos em cada porta. Racional? Ests a 
perguntar-me se sou racional?
      - Realmente, s brilhante. Um alarme improvisado e muito eficaz contra ladres.
      Ela rolou os olhos. - Sabes muito bem que era uma loucura. No finjas que era outra coisa. Depois de me mudar para aqui, vivi assim vrios anos e precisei 
de mais trs para chegar aonde estou agora.
      - E eu ponho isso em perigo?
      - Sim.
      - Como? Estou a fazer um grande esforo para entender, mas, francamente, no faz muito sentido. Primeiro, e acima de tudo, somos grandes amigos e grandes amigos 
no se magoam.
      - Notcia:  por isso que as pessoas loucas so loucas, no fazemos sentido.
      - O simples facto de achares que talvez sejas louca diz-me que no s. As pessoas loucas acham que os outros  que so malucos.
      - Estou convencida de que s maluco por sugerires que te veja duas vezes por dia. Isso conta?
      Ele soltou uma risada e o som fez-lhe vir  mente imagens do aprofundamento da ruga da sua bochecha magra quando a boca firme dele se inclinava lentamente 
num sorriso assimtrico. Se a simples imagem dele lhe fazia estragos nas extremidades nervosas, como podia ela esperar manter a distncia quando o visse constantemente? 
Pior ainda, ela arriscava-se a perder tudo. Incluindo a mente.
      Tirou o auscultador do ouvido e disse para o microfone: - Desculpa, Joe. Detesto abandonar-te desta maneira num momento difcil. A srio. Mas eu tomar conta 
do Zachary est fora de questo. Se puder ajudar doutro modo, no hesites em me dizer.
      - Marilee - disse ele, com uma voz desmaiada. - No desligues! Ela ps o auscultador no descanso e depois ficou ali, a olhar para o telefone, contando at 
dez. Aos sete, voltou a tocar. Fechou os olhos, sabendo muito bem que era ele. Cada toque provocava-lhe um sobressalto. Ps as mos nas ilhargas, determinada a no 
atender. Acabaria por dizer que sim, se atendesse. Tanto quanto gostaria de ajudar e quanto se sentia mal por abandonar o Zachary, tinha de se ajudar a si mesma.
      Oh, Deus, quanto tempo ia ele deixar tocar? Pensou em desligar o telefone. Mas e se a Gerry entrasse em trabalho de parto e precisasse ela? Devia ter o beb 
num prazo inferior a duas semanas e, por vezes, tinha partos prematuros.
      Finalmente, Marilee j no aguentava mais. Levantou bruscamente o auscultador e gritou: - Fazes o favor de aceitar um no como resposta? Achas que  fcil 
para mim recusar quando sei que o Zachary pode acabar num centro de dia?
      - Marilee?
      Oh, no. - Gerry? Ests a ter o beb?
      - Espero que no. No. S te liguei para ver se no te importas de ter companhia. Preciso de te devolver o tacho do estufado e o Ron ofereceu-se para aguentar 
o forte de modo a eu poder sair de casa sozinha por uns minutos. Talvez tomar um chocolate quente com a minha irm e fazer alguma coisa realmente louca, como uma 
conversa sem interrupes com outro adulto.
      Vinda to depressa a seguir  chamada do Joe, a perspectiva de ter companhia no era das coisas mais importantes da lista de Marilee, mas a Gerry afastava-se 
to raramente dos filhos que no tinha coragem para lhe dizer que no. - Adorava companhia. E ests com sorte. Tenho bolinhos de chocolate frescos.
      Gerry fez um som que era meio gemido, meio suspiro. - Estou a daqui a cinco minutos. Um bolinho de chocolate? Ai, mulher, cresce-me gua na boca s de pensar 
nisso.
      Marilee riu-se entre dentes. - Ento, at daqui a cinco minutos.
      Gerry levou mais perto de dez minutos a chegar l, sem dvida porque a gravidez a tinha tornado consideravelmente mais lenta. Quando entrou na cozinha, foi 
com a barriga para a frente e as costas ligeiramente arqueadas, como que para manter o equilbrio. Trazia um vestido cor-de-rosa, estampado, sem cinta, os tons de 
rosa a darem com a cor das bochechas. O cabelo loiro, to encaracolado como o de Marilee, enquadrava as suas feies delicadas com suaves madeixas brilhantes, fazendo 
os olhos azuis parecer grandes e assustados.
      Agora que eram mais velhas, as pessoas pensavam muitas vezes que Marilee e Gerry eram gmeas. Embora conseguisse ver, sem dvida, uma grande semelhana, Marilee 
achava secretamente que Gerry era, de longe, a mais bonita. Mesmo nas fases avanadas da gravidez, tinha um aspecto lindssimo e parecia brilhar de doura interior.
      - Desculpa ter demorado tanto - disse Gerry, quase sem flego. - Tive que ver se o airbag estava desligado antes de arrancar e um tonto qualquer ps o mecanismo 
no meio do painel de instrumentos. Termos que nos inclinar para o lado e para a frente para desligar aquela coisa. Grande problema. J no  fcil inclinar-me, ainda 
por cima era difcil ver o mostrador para dizer se estava ligado ou no. Ento, depois de fazer aquela ginstica toda, fiquei presa entre o assento e o volante.
      Nessa altura, Marilee j estava a rir-se.
      - Oh, no. Presa? No acredito.
      - O Ron passa a vida a baixar o volante e depois esquece-se de voltar a p-lo como eu o tinha. Aquela coisa tem que vir um bocadinho baixo antes de voltar 
para cima. O nosso beb vai nascer com marcas de dedos na cabea.
      Marilee voltou a rir-se. - Pobre querida - disse ela, tirando o tacho das mos da irm e dando-lhe depois um rpido abrao. - Ests com um ar to desconfortvel.
      - Desconfortvel? Passei por isso h duas semanas e agora entrei fase m. - Gerry agarrou-se ao rebordo da mesa e sentou-se desajeitadamente numa cadeira da 
cozinha, manobra que realizou inclinando-se ligeiramente para trs e, depois, deixando-se simplesmente cair.
      Suspirou e pestanejou. - Sabias que passei pelo menos oito dos ltimos quinze anos grvida? Parece quase normal no conseguir ver os dedos dos ps.
      - Est quase. No tarda nada, estars outra vez magra. - Marilee ps o tacho do estufado em cima do balco ao lado do lava-louas e depois cortou alguns bolinhos 
de chocolate s fatias para pr num prato. Quando os ps em cima da mesa, perguntou: - Queres chocolate quente ou um grande copo de leite frio?
      Gerry sorriu. - Ests a brincar, no ests? O Ron nunca me deixa passar chocolate pelos lbios quando estou de esperanas. Leu num stio qualquer que  mau 
para o beb.
      - E ?
      - Talvez. Lembro-me vagamente de o Doutor Holt dizer que no devia comer chocolate de mais e  por isso que tenho a certeza de que o Ron leu num stio qualquer. 
Eu nunca seria suficientemente estpida para lhe dizer uma coisa dessas e correr o risco de ser privada do meu chocolate. Estou com desejos disso. Tu no imaginas. 
A noite passada, sonhei que tinha um caso com um coelho de chocolate da Pscoa.
      Marilee sorriu. A irm nunca deixava de lhe melhorar a disposio, mesmo quando se queixava. - Chocolate quente a sair.
      - Com gomas.
      - Com gomas! - concordou Marilee. - Quando fores para casa, estars to excitada com o chocolate e acar a mais que o Ron vai dar-me na cabea.
      Enquanto Marilee aquecia canecas de gua no microondas para as bebidas quentes instantneas, Gerry falava sem parar do marido e dos midos. - Foi to amoroso 
da tua parte fazeres-nos aquele estufado, Marilee. Nem imaginas. No s evitaste que eu tivesse que fazer o jantar aquela noite, mas tambm me sobrou o suficiente 
para fazer outra vez um grande guisado com ele hoje  noite. Juntei-lhe umas latas de chili, pus em cima algumas tostas, cozi durante dez minutos e, pronto, estava 
feito o jantar. O Ron fez uma grande salada para acompanhar.
      Sentindo aproximar-se uma das suas dores de cabea da tenso, Marilee esfregou as tmporas enquanto se juntava  irm  mesa.
      - Ainda bem que deu jeito.
      Seguiu-se silncio enquanto a Gerry trincava um bolinho de chocolate e sorria sonhadoramente enquanto mastigava. Depois de engolir e de dar mais uma dentada, 
que meteu na bochecha, perguntou:
      - Quando telefonei, estava a imaginar coisas ou pensaste que era o Joe?
      Marilee encolheu os ombros. - Eee... sim, mais ou menos.
      - Viste-o?
      - Sim.
      Os grandes olhos azuis de Gerry chispavam de curiosidade. - Tens andado a esconder-me coisas. Ele veio penitenciar-se e pedir desculpa? Marilee engoliu em 
seco, com dificuldade. - Desculpa de qu?
      - De qu? - Gerry gesticulou com o bolinho de chocolate meio comido. - O tipo largou-te como quem larga uma batata quente quando foi seleccionado para os profissionais. 
Partiu-te o corao.
      Marilee pressionou com o dedo uma migalha que tinha cado em cima da mesa, evitando o olhar da irm quando confessou: - Na realidade, Gerry, foi o Joe que 
ficou com o corao despedaado.
      - O qu?
      - J te disse. Fui eu que quebrei o compromisso e no ele.
      Longo silncio. - Tu quebraste o... - Interrompeu-se e ficou ali a olhar por um longo momento com a boca aberta. - Porqu? - Lambeu um pouco de goma do canto 
dos lbios. - Nunca me disseste isso. Todos estes anos pensei que veneravas o cho que ele pisava. Por que raio foste tu a romper?
      - Rompi e pronto. - Naquele momento, Marilee soube por que razo tinha mantido silncio durante aqueles anos todos, permitindo que toda a gente acreditasse 
que Joe a tinha deixado. No queria ser colocada numa situao desagradvel como aquela. Em vez de assumir as consequncias, tinha-o sacrificado no altar da autopreservacao, 
sabendo, l no fundo, que ningum da famlia dela alguma vez voltaria a sentir o mesmo por ele. Perceber isso f-la sentir-se muito envergonhada. Joe tinha razo; 
nunca tinha feito nada para lhe merecer aquilo. - Tive as minhas razoes, Gerry. Por favor, aceita isso e no faas perguntas. Tudo o que direi  que no teve nada 
a ver com alguma coisa que o Joe tivesse dito ou feito.
      Gerry levantou as sobrancelhas. - E isso  tudo o que fico a saber.
      - Exactamente.
      - Tens conscincia de que a curiosidade ardente pode fazer uma mulher entrar prematuramente em trabalho de parto? Isso pr-me-ia louca. Conta-me.
      Marilee abanou a cabea. - No te diz respeito, mana. Tive as minhas razes. Vamos deixar as coisas assim. Est bem?
      - Havia outro tipo?  isso, no ? Pensaste que te tinhas apaixonado por outro qualquer e rompeste com o Joe por causa dele. Depois, ele deixou-te. Foi por 
isso que deixaste a faculdade e vieste para casa, porque ficaste destruda com isso.
      - No vou discutir esse assunto contigo.
      - Eu sou tua irm.
      Tambm era uma lngua-de-trapos e contava praticamente tudo aos familiares e ao Ron. - Realmente, realmente no quero falar nisso, Gerry e se insistes, vou-te 
deixar sozinha a comer os bolinhos de chocolate e vou dobrar roupa.
      - Muito bem, muito bem. No me intrometo mais. - Gerry despachou aquele bolinho e agarrou noutro. - Ento o que  aquilo de o Zachary ir para um centro de 
dia? Podes dizer-me?
      Marilee suspirou e contou a histria dos problemas cardacos de Faye Lakota. Quando acabou, Gerry disse: - Meu Deus, Marilee, dadas as circunstncias, como 
podes tu dizer que no ao tipo?
      - No foi fcil.
      - No parece teu.
      - Sim? Talvez no me conheas a srio.
      Gerry riu-se. - Ha-ha, e os porcos tm asas. - Sorveu ruidosamente um grande gole de cacau quente. - Ai, o Ron vai ficar muito zangado quando eu lhe disser 
que foste tu que rompeste com o Joe e no o contrrio. Durante uns anos, andou to desvairado que tive que ter uma conversa sria com ele para o impedir de saltar 
em cima do Joe. Agora, tenho que arranjar uma grande conversa para ele no te apertar o pescoo.
      Marilee preferia ter ficado calada a respeito deste assunto outros dez anos. Mas isso no era justo para o Joe. - Diz ao Ron que peo desculpa. O Joe no foi 
o canalha que, evidentemente, todos vocs pensavam.
      - Ei, querida? - Gerry esticou-se para tocar na mo de Marilee. - Ests bem?
      - Sim, estou ptima - disse Marilee com firmeza. - Eu... s estou a sentir pr-se-me uma grande dor de cabea. - Esfregou outra vez as tmporas.
      - Tenso. A chamada do Joe perturbou-te. - Suspirou. - Quem me dera que te abrisses comigo, que deitasses c para fora o que est a incomodar-te. Desde quando 
 que escondes coisas de mim?
      H dez anos. - No estou a esconder-te nada. S...
      - Tretas. - Gerry poisou a caneca com um clique agudo. - V l. Tudo c para fora. Acertei. Era outro tipo, no era?  a nica explicao. Ele partiu-te o 
corao e humilhou-te, desinteressou-te dos homens.  por isso que nem sequer namoras, no ?
      - No. - De repente, Marilee sentiu a cabea como se fosse urna abbora que se tivesse despedaado no cimento. Explodiu-lhe atrs dos olhos uma dor que cegava. 
- No foi outro. Quem  que no seu perfeito juzo podia sequer olhar para outro tipo quando tinha algum como o Joe?
      - Ele  ptimo - concordou Gerry. Depois, mordiscou o lbio, estudando, confusa, a irm. - E tambm  bonito. Uma combinao imbatvel. Excepto por ter rompido 
contigo... coisa que agora descobri que no fez... nunca soube que tivesse feito mal a ningum, a menos que fosse provocado ou estivesse a defender-te.
      Marilee suspirou perante esta referncia. - Meteu-se numa quantidade de sarilhos por causa de mim, no foi?
      Gerry sorriu. - Lembras-te de quando ele meteu o Brady Pitcher dentro do armrio por te ter deitado ketchup no cabelo e no teu vestido novo?
      - A ndoa nunca saiu e a me tinha acabado de o fazer. Foi a primeira vez que o vesti.
      - E o teu cabelo ficou cor-de-rosa, em cima, durante dias! - Gerry deu uma risadinha. - Caramba, aquele Brady era um mido mau. Sabes o que  que  engraado? 
Hoje,  o melhor tipo que possas imaginar. Estranho, no ? Acho que se livrou da maldade toda na infncia. Penso que tinha um fraquinho por ti. Sempre se meteu 
mais contigo do que qualquer outro.
      - O Joe foi suspenso por trs dias por ter lutado com ele no trio. - Marilee dirigiu  irm um olhar muito angustiado. - Sinto-me to mal por o ter abandonado 
nesta situao, Gerry. Eu sei que ele nunca mo teria feito se a situao fosse ao contrrio.
      Ao dizer isto, Marilee lutava contra uma onda esmagadora de sentimento de culpa. Era verdade. Joe tinha sido sempre maravilhoso para ela, incluindo recentemente, 
mas ela tinha-lhe virado as costas quando ele precisou dela. Pior ainda, ela sabia muito bem que se alguma vez acontecesse alguma coisa e precisasse dele, ele estaria 
l, sem fazer perguntas. E o Zachary. Se tinha tantos problemas como o Joe dizia, como podia ela deix-lo ir para um centro de dia?
      - Achas mesmo que consigo ir agora para casa dormir com isto a bailar-me na cabea? - perguntou Gerry. - Meu Deus! No acredito nisto. Ainda ests apaixonada 
por ele. Vejo isso escrito na tua cara. - A expresso de Gerry tinha perdido todo o ar de travessura provocatria e os seus olhos azuis escureceram de compaixo. 
- Ai, querida, no faas isso.  para isso que as irms servem, para conversar. Tu ests realmente dilacerada por alguma coisa. Conta-me l.
      -  um assunto que simplesmente no quero discutir. - Marilee respirou muito fundo, sabendo que a sua deciso acerca do Zachary tinha sofrido uma inverso 
repentina. Estranhamente, a dor de cabea dissipou-se no momento em que chegou a essa concluso. - Gerry, por acaso, o nmero do telefone do Joe? Imagino que no 
o tenha na lista, no ?
      - Claro que no o tem na lista. Uma pessoa como o Joe no pode ter o nmero disponvel para qualquer um. As pessoas dariam com ele em doido, telefonando constantemente.
      Marilee esperou um momento. - Ento, tens?
      Resmungando em surdina, Gerry fez um esforo para se levantar. - No tenho comigo. Tenho que telefonar ao Ron e pedir-lhe que veja na agenda. - Fez a chamada 
e anotou o nmero para a Marilee num bloco ao lado do telefone.
      - Obrigada - disse Marilee quando foi ter com a irm junto do balco. Olhou por um momento para o nmero de telefone e depois sublinhou os dgitos. - Detesto 
interromper, mana, mas preciso de lhe telefonar e gostava de falar com ele em privado.
      - Vais ficar com o Zachary, no vais? - disse Gerry com ar cmplice:
      - Sim, acho que vou. Gerry chegou-se a ela.
      - Podes dizer-me s uma coisinha muito pequenina?
      Marilee sorriu, contra vontade. - No. - Encaminhou a irm para as portas envidraadas e deu-lhe um beijo na face antes de a enxotar. - Boa noite, mana. Amo-te. 
Se precisares de mim a meio da noite para ir tomar conta dos midos, d-me um toque.
      Gerry inclinou-se para trs para retribuir o beijo e apanhar mais um bolinho. - Para o caminho - disse, com uma covinha a destacar-se-lhe na face enquanto 
sorria com irreverncia. - Esperemos que o Ron no d pelo meu hlito a bolinhos de chocolate. Como se um chocolate de vez em quando fizesse algum mal.  um coca-bichinhos 
e, alm de tudo o que  moderno, tambm ainda acredita em todas as coisas que esto fora de moda. No me deixa pendurar roupa na corda nem levantar os braos acima 
da cabea. Quando pintou o quarto do beb, eu no podia l pr os ps por causa do cheiro. D comigo em doida.
      Marilee ajudou a irm a descer as escadas e depois, no dando tempo a si mesma para mudar de ideias, voltou a correr para dentro, foi direita ao telefone e 
marcou o nmero de Joe. Uns segundos depois, quando ele atendeu, no se deu ao trabalho de se identificar. - Ol!
      Pode ouvir um sorriso na voz dele. - Desculpa, Joe. No devia ter-te dito que no. Eu fao isso, mas apenas com certas condies.
      Eu sabia que tu no me abandonavas - disse ele com a voz tomada.
      - As condies? - recordou-lhe ela. - Doutro modo,  uma falsa partida.
      - Est bem. As condies. Quais so?
      - Nada de brincadeiras.
      - Brincadeiras? Que queres dizer exactamente com isso?
      - Quero que me ds a tua palavra de que manters isto estritamente numa base de amizade. Para ser mais clara, no me pressionas seja de que maneira for e nada 
de piscadelas nem de sorrisos.
      - Nada de qu?
      - Tu sabes, piscadelas e... - Ela percebeu como aquilo era absurdo. - No te faas de inocentes. Tu sorris dessa maneira para mim de propsito e sabes bem 
disso.
      - Sorrio para ti como? - Agora, decididamente, havia um sorriso na voz dele. - Tens que ser mais especfica.
      - Tu sabes. E se o fizeres, vais pela porta fora e o Zachary vai contigo. O mesmo se aplica a longos olhares quentes. Nada de olhares acesos, ponto final.
      - Quentes? - Ele riu-se calorosamente. - Verificas com um termmetro atmosfrico ou usas o dedo ao vento?
      - Joe, tu sabes o que quero dizer.
      - No posso olhar ? V l. Um tipo no pode...
      - Nada de olhares longos - disse ela com firmeza.
      - Est bem, est bem. Nada de olhares longos. Mais alguma coisa?
      - No fazes o teu nmero de cozinho perdido.
      - O meu nmero de cozinho perdido? Esse  o nico que fao com xito garantido. Quando tinha dezasseis anos, passava metade da minha vida ao espelho, a treinar. 
Que diabo, no ests mesmo para brincadeiras.
      Ela riu-se contra vontade. - Ento fazes mesmo aqueles olhares de propsito.
      - Querida, contigo, no deixo nada ao acaso.
      - E nada de termos ternurentos - disse ela intencionalmente.
      - Como  que se escreve ternurento?
      - Ests a fazer uma lista?
      - No, s quero manter-te ao telefone. Adoro ouvir a tua voz. Marilee fechou os olhos. - Continua e estamos condenados antes de comear. Estou a falar a srio, 
Joe. S amigos.
      - Este amigo adora a tua voz.
      - Tu s impossvel. Queres que eu fique com o Zachary ou no?
      - Sabes que sim. S amigos, meu pingo de mel. Tens a minha palavra.
      - Pingo de mel  ternurento.
      - Tambm podes p-lo nas panquecas. O pingo de mel fica. Sempre te chamei isso e f-lo-ei sem pensar. Pelo menos, tens que ser justa.
      Sempre lhe tinha chamado pingo de mel. Ela acenou afirmativamente com a cabea e depois percebeu que ele no a via. - Est bem, pingo de mel fica. Mas pelo 
menos tenta no o usar muitas vezes. Ento o que  que achas?
      - Posso negociar essas condies?
      - No. Negcio fechado?
      - Negcio fechado. S amigos.
      - Tens a certeza?
      - Eu sei o que ests a pensar. Que tentarei fazer este arranjo funcionar a meu favor.
      Ela tinha medo disso, sim. - Tentars?
      - Nunca deixei de cumprir a minha palavra para contigo, pois no?
      - No.
      - Porque  que havia de ser agora a primeira vez?
      - No creio que seja.
      - Sabes o que estive a fazer enquanto estava  espera que me telefonasses.
      - Tinhas tanta certeza assim de que eu telefonaria?
      - Bastante. - A voz dele engrossou e baixou muito. - Quando  que te pedi fosse o que fosse que tu no me fizesses?
      - Nunca, acho eu. - No via ele que a incapacidade dela de lhe dizer no era o que o tornava to perigoso? - Ento... que estiveste a fazer enquanto esperavas 
que eu telefonasse?
      - A suster a respirao.
      - A suster a... - Interrompeu-se e fechou os olhos. - Oh, Joe. Ele suspirou, com um som que veio pela linha, rouco e cansado.
      -  horrvel, no respirar, e o problema  que sei que o que sinto no  nada comparado com o que tu passas. Pelo menos, eu posso parar quando quiser.
      No conseguia pensar no que dizer, pelo que no disse nada.
      - Eu nunca... e repito: nunca... faria nada deliberadamente que pudesse fazer-te passar por isso, pingo de mel.
      - Eu sei, - sussurrou ela. E a grande magoa  que sabia mesmo.
      - Portanto, deixa de te preocupar. Desde logo, tenho que pensar no meu filho. No correrei o risco de estragar as coisas contigo. Como  que eu ficaria? Segundo, 
tal como vejo as coisas, se h alguma esperana para ns, temos que comear como simples amigos, de qualquer modo.
      -  isso mesmo, Joe. No h esperana nenhuma. 
      - Eu sei que acreditas nisso.
      Ela enrolou o fio do telefone no dedo e viu a carne escurecer  medida que era cortada a circulao. - No me faas arrepender-me de fazer isto mesmo antes 
de comear. Um movimento errado e acabou o negcio. A srio. No h segundas oportunidades.
      - Eu sei que ver-me todos os dias  uma coisa bastante assustadora. Se qualquer outro homem tivesse feito aquele comentrio, ela teria negado. Mas j tinha 
confessado tanta coisa que no via razo para fingir o contrrio. - Sim - disse ela com voz rouca -,  realmente assustador.
      - Ver-me nestas condies no te far ficar doente outra vez, Mari - assegurou ele delicadamente.
      - Espero que tenhas razo.
      - Assegurar-me-ei de que assim seja. E aqui est outra ideia a reter. Se, por qualquer motivo, alguma vez adoeceres, no ficas sozinha. O Zachary e eu vamos 
para a e tomamos conta de ti.
      Era exactamente o que ela queria ouvir.
      - Se precisares de mercearias, eu vou busc-las. Se precisares de ir dar um passeio de carro para acalmar e no conseguires voltar para casa, terei um sinalizador 
de localizao instalado no carro de modo a poder ir buscar-te. E em vez de frigideiras, ter-me-s a mim para ficar de guarda s tuas portas.
      A imagem que se lhe formou na mente f-la sorrir contra vontade.
      - Ter-te na minha casa quando estivesse assim era como atirar-me logo pela borda fora.
      Ele riu-se. - Eu compro-te uma vara de gado de alta voltagem.
      Ela voltou a sorrir, porque quase conseguia acreditar que ele fosse to longe como isso, o que era apenas mais uma razo para pr em causa a sua sanidade. 
Como  que podia ter medo de um homem que claramente a amava tanto?
      - Oh, Joe...
      - No te preocupes com a possibilidade de voltares a adoecer. Por favor, no, pingo de mel. Se acontecer, no passars por isso sem mim. Da prxima vez, estarei 
l  tua disposio.
      Os olhos encheram-se-lhe de lgrimas. - Tu e o Zachary a irem ajudar-me a pendurar os meus sininhos no cordel?
      - Podes apostar. Custe o que custar.
      Ele fazia aquilo parecer to simples. Mas no era e ela no imaginava um modo de descrever melhor para que ele entendesse.
      Caiu um longo silncio. Depois, ele disse: - s um anjo por concordares em ajudar-me. O Zachary vai adorar ficar a. Eu sei que vai.
      Pensando na criana, parte da tenso que Marilee tinha nos ombros aliviava-se. - Ento, traze-lo de manh?
      - Sete e meia est bem? No primeiro dia, devia ficar por a uma meia hora para assegurar que ele fique bem.
      No ficou entusiasmada com a ideia, mas se ia tomar conta do Zachary, era de esperar isso no primeiro dia.
      - Sete e meia  ptimo - concordou.
      - s mesmo um anjo, pingo de mel. Ento, at amanh de manh. - Depois de dizer adeus, Marilee poisou o telefone e olhou para auscultador durante um longo 
momento. Ele tinha-lhe chamado pingo de mel at quando disse adeus. Estavam a comear muito bem. Detestava pensar o que ele podia fazer com um ol.
      Teve uma crise histrica de riso. Um movimento errado e acabava o negcio? Joe Lakota conseguia atirar-se a ela do lado oposto de uma sala.

      
    Captulo Cinco
      
      
      S amigos. 
      Marilee tinha grandes esperanas de impor aquela mxima. Grande problema. Na manh seguinte, Joe apresentou-se-lhe  porta s seis horas com um Zachary de 
pijama e a dormir nos seus braos. Ainda a apertar o cinto do robe, Marilee ouviu, sonolenta e confusa, Joe pedir desculpa por a ter acordado. Depois, deixando-lhe 
cair aos ps um saco de papel com a roupa do filho, explicou a correr que a me estava a ser transportada de ambulncia para o centro cardaco de Bedford.
      - Problemas durante a noite - disse ele baixinho para no acordar a criana a dormir que lhe tinha posto nos braos. - O Doutor Petrie acha que h um bloqueio 
grave. Vo fazer um cateterismo de emergncia... sabes, um daqueles procedimentos em que metem tinta no corao? - Olhou para o relgio. - Est marcado para as oito 
e meia e quero estar com ela um bocado antes de a levarem para dentro. O Doutor Petrie diz que pode ser perigoso, especialmente quando j est a ter problemas. Tm 
que fazer o teste para ver o que est errado, mas h uma possibilidade... - Parou e passou uma mo por cima dos olhos. - Podem perd-la na mesa de operaes.
      - Oh, Joe. Lamento muito. - Comeando a acordar, Marilee mudou a criana de posio para lhe pegar melhor e disse: - Como reagir o Zachary ao acordar com 
uma pessoa estranha?
      Os msculos  volta da boca contraram-se-lhe, puxando para baixo os cantos da boca. - Ficara perturbado. - Meteu as mos por baixo do plo vermelho que trazia 
e tirou um fio. Depois, meteu-o na mo dela. - D-lhe isto. No me separo muitas vezes dele mas por vezes deixo-o us-lo. Disse-lhe que o manter em segurana, e, 
por vezes, t-lo f-lo sentir-se melhor. Se assim no for, pelo menos saber que s algum muito especial para mim simplesmente por eu to ter dado.
      Marilee apertou com um brao o menino que continuava a dormir para virar o outro pulso e abrir a mo. Na palma da mo estava a medalha de S. Cristvo que 
tinha dado a Joe uns vinte anos antes. Os olhos encheram-se-lhe de lgrimas. - Nem sei se ainda  considerado santo. No acredito que ainda a uses.
      Dirigiu-lhe um daqueles olhares de cozinho perdido que ela tanto temia. 
      - As nicas vezes em que o tiro,  para deixar o meu filho us-lo. Acredito sinceramente que j me salvou a vida mais de uma vez.
      - Ento, eu dou-lho quando ele acordar.
      - Bom. F-lo- sentir-se melhor. Quanto ao resto, ters que tocar de ouvido. Se no conseguires acalm-lo, liga para o hospital e eu volto para c logo que 
puder.
      - E deixas a tua me?
      - O Zachary est primeiro. Ela entende isso.
      Todavia, no o chamaria a menos que tivesse absolutamente que o fazer. - Vai, Joe. Eu c me arranjo.
      - Desculpa! Tencionava ficar um bocado. Sinceramente.
      - Eu trato disto. - Marilee sabia que ele levaria mais de uma hora a chegar a Bedford. Cada minuto que perdesse a conversar com ela era um minuto que no teria 
para passar com a me antes de a levarem para dentro. Ele dirigiu-lhe outro daqueles olhares que sempre lhe derretiam o corao e ela deu consigo a pensar que era 
ele que estava a precisar muito de um abrao. Parecia preocupado e meio adoentado e, pelas olheiras que tinha, via-se que no tinha dormido bem.
      - Obrigado, Marilee. No sei o que faria sem ti. Realmente no sei. Antes que pudesse pensar nisso e mudar de ideias, Marilee libertou um brao, deu um passo 
at  soleira da porta, ps-se em bicos de ps e abraou-lhe o pescoo.
      - No te preocupes. Ela vai ficar bem, Joe. Eu sei que vai.
      Viu uma expresso de espanto perpassar-lhe pela cara e quase conseguiu sentir a hesitao dele. Depois ele suspirou, devolvendo cuidadosamente o abrao, inclinando-se 
para lhe beijar o cabelo. Para sua surpresa, foi maravilhoso voltar a sentir o brao forte dele  sua volta. Maravilhoso e completamente desconcertante porque lhe 
dera aquele abrao apenas como um gesto de ternura para com um velho amigo e no esperava ter gostado.
      Com o brao ainda  volta dela e do filho, recuou ligeiramente para lhe beijar a ponta do nariz e as duas faces e voltou a pux-la para si. - s realmente 
um anjo, sabes? Quando o Zachary acordar, diz-lhe que o amo e que telefono de hora a hora, a hora certa, para saber dele.
      Com as faces ainda a arder, Marilee disse que sim com a cabea.
      - Eu... eu digo-lhe.
      Sentia-o a tremer e, assim, soube que tinha razo ao pensar que ele precisava de um abrao.
      - Fazes-me mais uma coisa? - sussurrou-lhe ele ao ouvido. Tudo. - O qu? - perguntou ela.
      - Reza um tero por ela. Se algum tem ligao directa a Deus, tens que ser tu.
      - Nem por isso. Mas  como se j estivesse feito - prometeu. - Vou ligar  minha me e  Gerry e pedir-lhes que tambm rezem por ela.
      - Obrigado.
      A boca dele roou-lhe na orelha, num sopro de calor. Depois, foi-se embora. Enquanto o via correr para o carro  luz amarela-limo do sol da manh, quase chorou 
por causa da maneira como assentava a perna direita. Tinha de ter dores constantes.
      Joe. Havia coisas que nunca mudavam, e o seu amor por ele era uma delas. Olhando para trs, no podia acreditar que, realmente, o tivesse abraado. Em que 
raio estaria a pensar? Se esperava que ele mantivesse a distncia, ela tinha de fazer o mesmo. S amigos? Bem. Comeava maravilhosamente.
      Fechou a porta, vendo-o atravs do vidro sair com o seu Honda da rampa de entrada. Quando desapareceu da vista, encostou a face ao cabelo macio e moreno de 
Zachary, sabendo, mesmo sem tentar procurar no meio das suas confusas emoes, que j amava aquele menino por ser filho de Joe. Era to simples como isso.
      Mas, claro, no era nada simples. Na vida, alguma coisa  simples? Este era o filho que ela prprio outrora sonhara ter. Zachary James. Pegar nele assim fazia-lhe 
doer o corao. A dormir, descontrado, estava encostado a ela to confiantemente como se lhe pertencesse; a presso do seu corpinho quente era suave e pesada. Ela 
sofria com tristeza, desgosto e cimes, embora t-lo nos braos tambm satisfizesse uma necessidade que ela tentara muito acreditar que j no existia. Zachary, 
o filho que podia ser dela. Que devia ser dela. Sentia-se to enganada. Espoliada de tudo o que sempre quisera.
      Como  que devia lidar com isso? Mais importante do que isso, como raio ia esconder os seus sentimentos de Zachary? As crianas eram de longe mais intuitivas 
do que muitos adultos pensavam.
      Foi para a sala de estar e afundou-se na cadeira de baloio com a criana ainda agarrada ao seu peito. No sono, murmurou qualquer coisa. Depois de pr as suas 
contas e a medalha do Joe na mesa de apoio, fez-lhe uma festa no cabelo ao de leve e olhou-lhe para o rosto encantador. Oh, meu Deus. Era to querido! E a Gerry 
tinha razo: era igual ao Joe.
      Comeou a baloiar, acalmando-o para voltar ao sono ao mesmo tempo que se acalmava a ela. Cimes. Que desperdcio de energia. Zachary no tinha culpa da me 
que tinha, e se ela permitisse que pensamentos acerca da Valerie influenciassem a relao dela com aquele menino era uma idiota. Levantou-lhe uma mo, encantada 
quando ele se lhe agarrou a um dedo. Tinha unhas muito pequeninas e absolutamente perfeitas. Passou-lhe com o polegar pelos ns dos dedos, sorrindo ao lembrar-se 
das muitas vezes que tinha visto a Gerry examinar os novos bebs daquela maneira.
      Bem, e ento? Naquele breve momento, Zachary James Lakota era dela para ela amar. Era uma prenda inesperada e estava determinada a gozar cada minuto do tempo 
que passasse com ele. No interessava quem era a verdadeira me. Por agora, era dela.
      Uma hora depois, quando Zachary comeou a acordar lentamente, Marilee ainda estava a embal-lo. Quando ele pestanejou, ela preparou-se sabendo que podia ficar 
espantado de a ver e assustar-se. Em vez disso, abriu os olhos, olhou-lhe vagamente para a cara e sorriu, com ar sonolento.
      - s a senhora das histrias?
      Marilee sentiu um n na garganta. - O qu?
      - A senhora que escreve histrias para meninos. O meu pai disse que ia trazer-me para c. Adormeci no carro.
      - Ah, sim. Sou a senhora das histrias.
      - Ol.
      - Ol, Zachary - respondeu ela, baixinho.
      - O meu pai diz que s a melhor amiga dele de sempre, que ele  o teu melhor amigo de sempre e que tu vais gostar muito de mim, simplesmente porque sim.
      -  verdade - murmurou ela.
      - Como?
      Sorriu contra-vontade. - Assim, porque sim.
      Ele retribuiu o sorriso - um lento sorriso maroto que lhe aquecia os belos olhos castanhos antes de lhe aparecer na boca. Uma profunda covinha destacava-se-lhe 
na face.
      Acomodou-se melhor e ps-lhe um fino bracinho  volta do pescoo. - Eu tambm gosto de ti.
      Ela abraou-o com mais fora e apoiou a face na sua cabea sedosa. Filho da carne dela... filho dos seus sonhos. Naquele momento em que abraava Zachary, no 
tinha a certeza se havia uma diferena mensurvel.
      Assim comeou a sua tarefa de prestadora de cuidados de dia, apaixonando-se um pouco mais de cada vez que respirava.
       medida que a manh avanava, Marilee perguntou pelo menos uma dzia de vezes a si mesma como raio podia ser to estpida. Estava a brincar? A mentir a si 
prpria? Ou era simplesmente estpida? Como  que podia ter acreditado, por um momento que fosse, que podia fazer isto pelo Joe e sobreviver com o corao intacto? 
O amor no trazia um interruptor para se ligar e desligar. Amara Joe quase desde que tinha memria e ainda amava. Metendo o Zachary em casa, tinha-se tramado. Passo 
seguinte, corao partido e possvel catstrofe. Umas semanas? Isso era o tempo suficiente para se viciar na criana... o tempo suficiente para se apaixonar tanto 
por ele que preferia morrer quando o Joe comeasse a lev-lo para um centro de dia.
      Cumprindo a sua palavra, Joe telefonou pouco depois de ter chegado ao hospital. Com uns bigodes de leite, Zachary agarrou-se ansiosamente ao telefone, sorrindo 
de orelha a orelha quando ouviu a voz do pai. Observando-o, Marilee sorriu. Era uma criana to pequenina que at o auscultador do telefone parecia gigantesco na 
mo dele.
      De repente, comeou a olhar para toda a parte e acabou por descobrir o relgio de parede em forma de vaca pintalgada. - Sim, estou a ver. - Franziu o sobrolho. 
- Ponteiro pequeno no nove, ponteiro grande no doze. - Dirigiu um sorriso excitado a Marilee. - O meu pai vai telefonar-me outra vez s nove!
      Marilee acenou afirmativamente com a cabea, pensando para consigo que a maioria dos pais, na situao do Joe, talvez se tivesse esquecido de telefonar. Tinha 
de estar preocupadssimo com a me mas, mesmo assim, cumpria a promessa e telefonava ao filho s horas combinadas. De hora a hora,  hora certa.
      - Est bem. Sim, ela deu-ma. Mas no preciso. Ela  muito simptica e tem um co! Amo-te, pai. Diz  av que tambm a amo. - Passou o telefone  Marilee. - 
O meu pai quer falar contigo.
      - Ol - disse ela, baixinho.
      - Ol, pingo de mel. Como vai isso? Ele chorou quando acordou?
      - No, nem uma lgrima. Evidentemente, adormeceu no carro  espera de vir para aqui, pelo que quando acordou e me viu no ficou surpreendido.
      - Eu disse-lhe, mas ele estava muito ensonado e no tinha a certeza de que tivesse retido as coisas que lhe disse. Parece que est feliz e calmo.
      Marilee viu Zachary subir outra vez para a cadeira da cozinha para acabar os cereais do pequeno-almoo. O co sentou-se pacientemente ao lado dele, sempre 
alerta a qualquer petisco que casse. - Ele e o Boo j so amigos. Acho que vai ser ptimo, Joe. Concentra-te na tua me e no te preocupes.
      - No estou preocupado - garantiu ele. - Pelo menos, enquanto ele estiver contigo. No entanto, caso precises de mim,  melhor eu dar-te o nmero directo da 
enfermeira.
      Marilee anotou rapidamente a informao. - Como esta a tua me?
      - Assustada. Passo a vida a dizer-lhe que vai correr tudo bem mas isso  fcil de dizer. Est com muitas dores.
      - No lhe podem dar qualquer coisa?
      -  Acho que j deram. Mas ainda no est a fazer efeito. Marilee ouviu vozes em fundo. Joe disse rapidamente adeus, prometendo continuar em contacto e desligou. 
Marilee afastou o telefone do ouvido e abraou-se a ele por momentos, de olhos fechados, como se tivesse a lutar para perceber os seus sentimentos. Pavor, ansiedade, 
medo e excitao.
      Era a excitao que mais a preocupava. Ouvir a voz dele. V-lo. Olh-lo nos olhos. Parecia outra vez uma adolescente tonta. Isto era perigoso. Sentia-se como 
uma pessoa que quer entrar na gua e mete primeiro o dedo do p para experimentar a temperatura. Se entrasse naquela piscina especfica, talvez ficasse sem p e 
submergisse.
      S amigos - garantia a si mesma. Tinha estipulado as condies, o Joe tinha concordado com elas e queria segui-las  letra. Tinha de ser.
      
      Joe telefonava de hora a hora para falar com o Zachary e queria sempre que a Marilee lhe desse notcias. Ela tentava que as conversas fossem rpidas e impessoais, 
mas a preocupao bvia do Joe com o filho enfraquecia-lhe a deciso e dava consigo a ficar mais tempo do que o necessrio ao telefone, a dar-lhe pormenores para 
lhe descansar a mente. Estavam a colorir, a fazer jogos, a fazer o almoo. No fim de cada telefonema, a voz do Joe ficava rouca e ele agradecia-lhe com uma sinceridade 
que a fazia sentir-se abraada.
      - Como tu, h uma num milho - sussurrou ele quando telefonou durante a operao da me. -  a mais estranha das sensaes, voltar a ouvir a tua voz ao telefone. 
Sinto-me como se tivesse andado perdido durante dez anos e acabasse de reencontrar o caminho para o stio a que perteno.
      - Joe - suspirou ela, numa admoestao.
      - Eu sei, eu sei. Prometi.
      Parecia to abandonado que, instantaneamente, Marilee teve sentimentos de culpa. - Neste momento ests debaixo de uma grande presso - disse ela, para suavizar. 
- Eu entendo.
      - Desculpas-me? - perguntou ele com uma alegria tensa. Marilee sabia que lhe perdoaria quase tudo e isso era outra coisa que a preocupava.
      Quando Joe telefonou pouco antes do meio-dia, era para dizer a Marilee que tinha sido marcada outra angioplastia a Faye para a tarde.
      - Vai ser um procedimento arriscado. O Doutor Petrie tinha razo: tem um bloqueio grave. No entanto, ainda no h danos irreversveis no corao.
      - Isso so boas notcias - salientou Marilee, tentando ser positiva. - Tenho a certeza de que ela vai sair bem disso, Joe. Tenta no te preocupares tanto.
      - No estou preocupado - garantiu ele, o que era, obviamente mentira porque a voz dele parecia trmula. - Eu... tenho toneladas de coisas na mente. Esta tarde, 
tenho absolutamente que aparecer no trabalho porque amanh no estarei l a maior parte do dia. E, na realidade, quero voltar aqui e estar com a minha me esta noite. 
Causa-te problemas se eu s aparecer para ir buscar o Zachary por volta das dez?
      - De maneira nenhuma. Ests  vontade. Faz o que tiveres a fazer e no penses mais nisso.
      - Amanh, eu...
      - O mesmo em relao a amanh e durante o fim-de-semana. Tambm hs-de querer estar com ela sbado e domingo, tenho a certeza. Lavo-lhe o pijama todas as tardes 
e deito-o aqui. Para a semana as coisas j estaro mais tranquilas e poderemos estabelecer uma rotina. At l, conto que ele chegue cedo e se v embora muito tarde.
      - Tens a certeza de que no te importas, especialmente domingo? Ele passa-se se tentares lev-lo  missa. No se d bem no meio de multides.
      - Posso faltar um domingo, Joe. No h problema. A srio.
      
      Marilee mal viu Joe at ao meio da semana seguinte. Andava to ocupado com as exigncias do emprego e a tentar estar todos os momentos possveis com a me 
no hospital que mal tinha tempo para respirar, quanto mais demorar-se em casa dela. No entanto, telefonava de hora a hora, cumprindo a promessa que fizera a Zachary, 
independentemente de onde estivesse ou do que estivesse a fazer.
      A criana parecia ter o rigor do pai como um dado adquirido, o que dizia a Marilee que Joe era o pai maravilhoso que ela sempre acreditara que devia ser. Muitos 
homens faziam promessas aos filhos e depois esqueciam-nas rapidamente. Joe, no. Se prometia uma coisa ao Zachary, cumpria a sua palavra.
      Os dias longos davam a Marilee muito tempo para gozar o facto de ter o Zachary e, mantendo a promessa que fizera a si mesma, tentava aproveitar ao mximo cada 
minuto, trabalhando s quando ele estava a dormir. Nas horas em que estava acordado, passavam o tempo a fazer coisas de que ambos gostavam. O passatempo favorito 
do Zachary era colorir e preferia inquestionavelmente os desenhos da Marilee aos livros normais para colorir. Felizmente, ela tinha montes de desenhos que fizera 
ao longo dos anos e no tinham qualidade para serem publicados. Porm, o Zachary achava-os maravilhosos.
      Zachary. No havia volta a dar-lhe, era fcil de mais gostar dele. No fim do primeiro dia, j tinha ido to longe que era difcil separar-se dele quando o 
Joe foi busc-lo. A meio do segundo dia, deu com ela a olhar-lhe para aquele pequenino rosto expressivo e a ficar com lgrimas nos olhos s de pensar que algum 
pudesse um dia fazer-lhe mal. No fim do terceiro dia, apetecia-lhe ir  procura de Valerie Lakota e arrancar-lhe o cabelo.
      No era uma reaco racional, especialmente para Marilee, que raramente se entregava a fantasias violentas. Mas a sua sensao de ofensa tornava difcil importar-se 
com saber se estava a ser racional ou no. Algum tinha maltratado cruelmente aquela criana e a simples ideia de que as pessoas responsveis por isso pudessem ficar 
impunes punha-a a ferver.
      Naturalmente, a ira dela centrava-se na ex-mulher de Joe. Como me do Zachary, era responsabilidade da Valerie proteger o menino de todo o mal enquanto ele 
esteve  sua guarda, e a pattica criatura tinha falhado miseravelmente no seu dever. Embora no fosse frequente Marilee ver provas disso, cada incidente tinha nela 
um efeito devastador.
      Um dia, quando o Zachary entornou o leite, ao almoo, a cara dele ficou to branca como o lquido que tentava to freneticamente impedir de pingar para o cho.
      - Olha, no tem importncia, Zachary - apressou-se Marilee a garantir-lhe. - Acidentes acontecem a toda a gente.
      Mas a criana no parecia ouvi-la. Com as mozinhas em concha, formou um dique ineficaz para conter o fluxo de leite, os olhos cada vez mais abertos quando 
o lquido se lhe escapava por debaixo dos dedos e escorria pela borda da mesa para o cho encerado. Obviamente, tinha entornado leite noutra ocasio e fora gravemente 
punido por isso.
      Boo veio em socorro. Quando o co acabou de lamber o leite derramado, Marilee levantou uma sobrancelha para o seu assustado convidado do almoo e disse: - 
Acho que ele gostaria de mais um bocadinho se no te importasses de entornar o que sobrou.
      Zachary piscou os olhos. Depois, olhou para a pequena quantidade de leite que restava no copo. Claramente, no podia acreditar que ela estivesse a dizer-lhe 
que o entornasse de propsito.
      - O cho sobrevive - disse-lhe ela. - J temos que o limpar, que mal tem?
      - No te importas?
      Marilee contraiu os lbios. - Ajudas-me a limpar?
      - Sim.
      - Bem, ento? - Encolheu os ombros e sorriu. - V.
      Com a mo a tremer, Zachary pegou no copo. Dando-lhe um ltimo olhar desconfiado, despejou o resto do leite. O co caiu-lhe em cima imediatamente, contente 
por lamber o leite entornado. Zachary riu-se e, de algum modo, descontraiu-se. - Sem dvida que ele gosta muito!
      Marilee levantou-se para ir buscar o jarro de leite ao frigorfico e voltar a encher o copo da criana. - O Boo gosta de comida de gente ponto final. Est 
sempre a postos para fazer a limpeza de acidentes. - Enquanto deitava mais leite, acrescentava, baixinho: - Foi um acidente Zachary. Eu sei que no entornaste o 
copo de propsito. Na minha casa, nunca sers castigado por nada que no tencionasses fazer. Est bem?
      - Est bem - agradeceu ele com voz desmaiada, num tom que dava sinal de dvida.
      Marilee ps outra vez o leite no frigorfico e reocupou o seu lugar, o interesse pela comida cedendo o lugar  preocupao com a criana. - No que respeita 
a isso, Zachary... - prosseguiu cautelosamente - na realidade, no acredito em castigos.
      O olhar emotivo da criana fixou-se nela, passando de uma expresso de incredulidade para uma descrena atnita. - Nunca?
      - No, nunca - assegurou-lhe. - Acho que castigar meninos  uma estupidez e uma maldade.
      - Eu, tambm! - concordou ele rapidamente.
      Ela teve dificuldade em esconder um sorriso. Brincando com a cdea do po, explicou: - Acho que todos ns aprendemos mais com os nossos erros se tivermos que 
os compensar de modo produtivo. - Pelo seu ar perplexo, achou que ele no tinha a certeza do que ela queria dizer, pelo que esclareceu: - Por exemplo, se fizeres 
uma porcaria? Peo-te que limpes. Se fizeres uma coisa que no seja bonita a algum, peo-te que faas uma boa aco para compensar. Assim, no s aprendeste que 
fizeste um erro, mas tambm aprendeste a fazer bem. Lamentar  bom, mas raramente resolve seja o que for.
      Por um momento, ele reflectiu sobre aquilo. - Nem sequer ds uma palmada?
      Abanou a cabea. - No acho que dar palmadas seja muito produtivo.
      Pareceu muito aliviado por ouvir aquilo. - O meu pai no d palmadas. No entanto, diz que s d se eu brincar na rua.
      - Por acaso, acho que brincar na rua  uma coisa muito m. Podes ser atropelado por um carro e isso magoar-te-ia muito e at podia matar-te.
      Ele concordou acenando afirmativamente com a cabea. - Foi por isso que ele disse que me dava uma palmada. Porque gosta muito de mim. - Pegando na sua sanduche, 
dirigiu um longo olhar ao Boo que tinha adquirido direitos de ocupao do lugar ao lado da cadeira dele e estava ansiosamente  espera de mais coisas que cassem. 
- Pobre Boo. Ele no tem almoo.
      - Quando acabarmos, podes dar-lhe os nossos restos - prometeu Marilee.
      Dito isto, voltou a sua ateno para a comida e deixou cair o tema do castigo. A seu tempo, Zachary confiaria nela e sentir-se-ia seguro com ela. Entretanto, 
s podia tranquiliz-lo e fazer os possveis por no o assustar.
      O nico problema era que Zachary ficava assustado sem razo aparente. Uma tarde, depois de transpirar a varrer a varanda, Marilee anunciou que precisava de 
uma bebida, aps o que Zachary fugiu a correr se escondeu num armrio da casa de banho. Outra vez, quando pediu  criana que fosse buscar uma caixa de sapatos de 
lpis de cor ao armrio do trio, escondeu-se debaixo da cama dela. De ambas as vezes, quando Marilee descobriu o esconderijo da criana e tentou convenc-la a sair 
de l, ficou to aterrorizado que molhou as calas.
      Sempre que isto acontecia, Marilee ficava preocupadssima. Para piorar as coisas, o Zachary acreditava claramente que ela ia ter um ataque de fria por ele 
ter sujado os jeans. Em vez disso, ela levou-o para uma cadeira onde o embalou at ele se acalmar. Depois, tiveram ambos que mudar de roupa e ela fez uma mquina 
para reparar os danos.
      - Bem, ningum vai saber - disse ela ao Zachary, com uma piscadela.
      - Isso  bom - admitiu a criana. - O meu pai fica zangado a srio.
      Marilee teve uma sensao de formigueiro no pescoo. - Contigo?
      - No, com a minha me, acho eu. A cara dele fica muito estranha e os lbios ficam cinzentos.
      Marilee imaginou que os seus lbios tambm tivessem ficado cinzentos. Ver o medo nos olhos do Zachary - v-lo agarrado aos jeans, claramente horrorizado por 
ter perdido o controlo - quase lhe partia o corao. Tambm a fazia desejar descobrir a Valeria Lakota e dar-lhe um directo no nariz.
      Oh, meu Deus... Oh, meu Deus. Tinha passado de puxar os cabelos para dar murros? Que raio lhe estava a acontecer?
      O que lhe estava a acontecer era o Zachary, percebeu ela. Tinha perdido o p, estava a afogar-se, afinal. E o Joe nem sequer l tinha estado para lhe dar um 
empurro.
      Zachary.
      Para um menino to pequeno, tinha um apetite enorme. Naqueles primeiros dias em que o Joe viera muito tarde buscar o filho, Zachary jantara em casa da Marilee 
e de cada vez que comeava a cozinhar, podia jurar que tinha visto crescer-lhe gua na boca.
      - Nunca comes carne assada em casa, Zachary? - perguntou-lhe ela, uma tarde.
      - No. S hambrgueres, e o pai queima-os sempre.
      - No  grande cozinheiro, pois no?
      A criana encolheu os ombros e torceu o nariz.
      - Ele vai para a escola.
      - Escola?
      - Sim. Aprender a cozinhar. Diz que no pode criar-me com comida enlatada, seno, fico fraco.
      Marilee interrogou cuidadosamente Zachary para saber o que e que o pai lhe dava para comer. Descobriu que os talentos culinrios de Joe se limitavam  comida 
pronta a comer ou de fcil preparao que vinha em caixas, latas ou pacotes de folha de alumnio, sendo as nicas excepes - hambrguer queimado e batatas rebentadas.
      - Como  que se rebenta uma batata? - perguntou ela.
      - No microondas. Agora, o pai s as deixa l at ficarem quentes e comemo-las quase cruas. - Perante o olhar espantado de Marilee, Zachary acrescentou rapidamente: 
- Uma batata quente, quase crua,  melhor do que um murro no olho.
      Aquilo era o lema do Joe, tinha a certeza. Quase parecia que estava a ouvi-lo dizer aquilo. Hambrguer queimado? Santo Deus. Quando Joe comeasse a ir buscar 
a criana s quatro horas, todas as tardes, ela ia sentir-se pessimamente por a deixar ir com fome, especialmente sabendo como sabia que provavelmente iam para casa 
jantar uma lata de chili.
      Alto!
      Deu a si mesma um grande abano mental. No ia deixar-se absorver por aquilo. De maneira nenhuma. Muitas crianas sobreviviam bastante bem com comida muito 
menos saudvel. O Zachary ficaria ptimo.
      Quando Faye teve alta do hospital, as presses sobre o tempo de Joe diminuram e, depois disso, conseguiu finalmente levar o Zachary s oito, todas as manhs, 
e ir busc-lo s quatro, como tinham combinado inicialmente. Na primeira manh, a entrega correu bem, com o Joe a dizer um rpido adeus ao filho, sem sequer entrar 
porque estava um bocado atrasado. Infelizmente, Marilee duvidava de que as coisas corressem to bem quando ele fosse buscar o Zachary, nessa tarde. Pela primeira 
vez desde o incio da combinao, ele no estaria com pressa para ir a parte nenhuma e ela receava que pudesse inventar uma dzia de desculpas para se deixar ficar.
      Alarmada com a ideia de passar tempo com ele, Marilee decidiu cortar o mal pela raiz antes que comeasse. Telefonou a Gerry ao princpio da tarde, quando o 
Zachary estava a dormir a sesta, e combinou ir ter com ela s quatro e um quarto para tomar caf e conversar. Agora, assegurou a si mesma, podia dizer ao Joe, com 
toda a honestidade, que tinha um encontro e apress-lo assim.
      Amanh... bem, esperssemos que o amanh cuidasse de si. Havia de pensar nalguma coisa. O truque, tinha a certeza, era criar-lhe o hbito de se ir embora depressa. 
Uma vez estabelecido um padro, era menos provvel ser quebrado.
      Infelizmente, poucos minutos depois de falar com a irm, voltou a assustar inadvertidamente o Zachary sugerindo que brincassem s escondidas. A criana ficou 
plida e comeou a afastar-se dela, abanando a cabea.
      - No quero! - disse com um soluo e correndo prontamente para a sala de jantar, onde mergulhou para debaixo da mesa, enrolando-se numa bola e cruzando os 
braos por cima da cabea.
      Tinha-se dado muito bem durante uns dias, com o Zachary a dar todos os sinais de que se sentia seguro e completamente  vontade com ela. Marilee no conseguia 
imaginar que raio de coisa teria feito ou dito que o assustasse.
      Afastando as cadeiras, ps-se de gatas e meteu-se debaixo da mesa. Com medo de lhe tocar, receosa de o perder completamente, sentou-se ao lado dele, curvada 
e abraada aos joelhos.
      - Se no gostas de brincar s escondidas, querido, podemos brincar a outra coisa qualquer.
      Zachary encolheu-se. - No quero brincar a nada!
      - Est bem. Ento, podemos ir colorir durante um bocado. Ou posso contar-te uma histria.
      Uma vez que ele no dava sinais de tencionar sair de debaixo da mesa, Marilee decidiu que a nica alternativa era a histria. Apoiou o queixo nos joelhos e 
comeou a contar a histria de um menino que ia ficar com uma babysitter.
      - O menino no sabia ao certo o que esperar da babysitter - disse ela cuidadosamente - e, por vezes, sem querer, a senhora dizia e fazia coisas que o faziam 
ficar assustado.
      Zachary mexeu um brao para olhar para ela. Marilee sorriu para ele.
      - A pobre senhora... - continuou. - Ela gostava muito do menino e s queria ser amiga dele. A ltima coisa que ela queria era assust-lo. Mas, de alguma forma, 
tinha assustado.
      "Como no sabia ao certo o que tinha feito que estivesse errado, no podia sequer pedir desculpa. Portanto, meteu-se debaixo da mesa com ele e ficou com um 
torcicolo por estar toda torcida."
      Zachary voltou a esconder a cara.
      Marilee esperou um pouco e depois disse, suavemente: - Queres fazer-me o favor de me dizer o que  que eu fiz de errado, querido? Prometo que no volto a fazer.
      - No quero que me pregues sustos - disse ele, to baixinho que quase no conseguiu perceber as palavras. - Saindo de repente de armrios e coisas assim.
      - Ah. - Pensou naquilo por um momento. - Acho que isso seria mesmo assustador, no ?
      - Sim.
      - Alguma vez algum te fez isso?
      - Sim. Acontecia muito quando a minha me dava festas. As pessoas embebedavam-se e punham uma coisa no nariz. Depois, faziam jogos maus, apagando as luzes 
e saltando como monstros.
      Uma sensao ardente passou pelos olhos de Marilee. O Zachary s tinha quatro anos e o Joe tinha ficado com a guarda dele na primavera. No podia ter muito 
mais de trs anos quando esse tipo de coisas aconteceu.
      - E eles pregavam-te sustos a ti, querido, ou apenas uns aos outros?
      - A mim. - respondeu ele, zangado.
      Marilee no o culpava minimamente por se sentir azedo e zangado. Como  que adultos responsveis e decentes podiam fazer uma coisa to horrorosa a um menino, 
em nome do divertimento? - Disseste que eles apagavam as luzes. Estava tudo s escuras na casa quando te pregavam esses sustos?
      - Sim - disse ele com voz estridente. - Achavam engraado e riam-se!
      - A ti, isso no podia parecer nada engraado.
      - No - admitiu ele. - Assustava-me mesmo, mesmo muito. Ia esconder-me.
      - Eu tambm teria feito isso!
      - Hum, hum. - Marilee abraou-se ainda mais aos joelhos. - O que  que ela fazia quando te encontrava, querido?
      - Batia-me at lhe doerem as mos. Isso tambm a fazia zangar-se comigo e dizia ao Frank que me batesse ele com o cinto.
      - Oh! - Marilee sentia a garganta como se estivesse a fechar-se. - Isso deve doer terrivelmente!
      - Sim - disse ele, engolindo em seco de modo audvel. - A minha me dizia ao Frank que batesse devagar, mas ele no o fazia. Batia sempre com muita, muita 
fora e, se eu tentasse escapar, apanhava mais. Ele agarrava-me pelo brao e batia-me em crculos, a toda  volta.
      Bater? Para Marilee, chicotadas com um cinto no era meramente bater. Era chicotear. - Ele feria-te?
      - Fazia ndoas negras.
      Marilee no queria ouvir aquilo. As imagens que se formaram na sua mente faziam-na sentir-se mal. - Oh, Zachary... - Estendeu a mo para lhe fazer uma festa 
no pescoo estreito, sem saber ao certo o que dizer.
      - No vais contar, pois no? - perguntou ele.
      A mo dela parou em cima da T-shirt s riscas azuis e amarelas que ele trazia. - Contar a quem, querido?
      - Ao meu pai.
      O corao dela contraiu-se. - Nunca contaste isso ao teu pai?
      - No - disse ele com voz esganiada. - E tu tambm no podes contar. Prometes? O meu pai ficava muito, muito zangado. Com a minha me e com o Frank.
      Marilee mordeu o lbio, percebendo de repente que aquele menino estava a experimentar alguns dos mesmos medos que ela tinha h dez anos, nomeadamente de que 
o Joe pudesse ter um ataque de ira se soubesse a verdade e fizesse alguma coisa louca.
      -  Oh, Zachary... - sussurrou ela. No me faas isso! pensou ela freneticamente. No me peas que esconda segredos ao teu pai. - O teu pai precisa de saber 
essas coisas.
      A criana rolou sobre as costas e fixou-a com um olhar acusador.
      -  Tu disseste que querias ser minha amiga! Mentiste!
      - No, ento... Estou a tentar ser tua amiga, Zachary. A srio, querido,  tudo o que quero.
      - Ento, no podes dizer ao meu pai! - Os olhos encheram-se-lhe de lgrimas. - O meu pai gosta muitssimo de mim!
      - Eu sei que sim.
      - E ficava muito, muito, muito zangado se descobrisse. Iria  casa da minha me ralhar com ela e ela chamava os polcias! E eles punham-no na cadeia por bater 
no Frank e podiam nunca, nunca, nunca mais o deixar sair.
      - Oh, querido, tenho a certeza de que o teu pai no vai para a cadeia.
      - Ah-ah! Como da outra vez!
      - Da outra vez?
      - Quando foi ralhar com a minha me e bateu no Frank, a minha me chamou os polcias! Vieram e prenderam-no!
      Para Marilee, aquilo era novidade. - Prenderam? Zachary olhou para ela, com lgrimas a escorrerem-lhe das pestanas inferiores para as faces plidas enquanto 
acenava afirmativamente com a cabea. - Puseram-lhe algemas e levaram-no num carro branco com luzes em cima.
      -  Oh, querido.
      Marilee ficou chocada. Joe tinha sido preso por agresso? Meu Deus do Cu... o Joe? A incredulidade dela depressa se desvaneceu. Sabia como ele era ferozmente 
protector daqueles que amava. Alm disso, quem era ela para fazer juzos de valor? No tinha conta as vezes, nos ltimos dias, que tinha pensado em dar um murro 
no nariz da Valerie.
      - Oh, Zachary...
      Ele esfregava furiosamente as bochechas, olhando para ela de sobrolho franzido por detrs dos punhos fechados. - A minha me tinha medo de o deixar entrar, 
pelo que ele deu pontaps na porta dela e entrou de qualquer maneira!
      - Oh, meu Deus! - A lista de acusaes contra ele crescia na mente dela. Arrombamento e violao de domiclio, destruio de propriedade, agresso... no admirava 
que estivesse falido. Deve ter pago uma fortuna s em multas.
      - Ele estava mesmo, mesmo zangado. Deitou o Frank ao cho e bateu-lhe na cara.
      Marilee esqueceu-se de que no tinha espao e bateu com a cabea na mesa. Pondo a mo no local onde sentia uma dor aguda, perguntou: - Estava assim to zangado 
por ter descoberto que o Frank te tinha batido com um cinto?
      - Sim. E tambm porque o Frank disse que eu lhe menti e me fez engolir molho picante.
      - O qu?
      - Molho picante.  vermelho e queima. Assim, nunca mais nos esquecemos e no dizemos mais mentiras.
      Marilee no podia conceber que algum fizesse uma coisa daquelas a uma criana pequena. Horrorizada, disse: - Se estavas a viver com a tua me, como  que 
o teu pai descobriu o que se passava?
      O queixo do Zachary comeou a tremer e as lgrimas caam mais rapidamente para as faces. - Eu telefonei-lhe.
      - Ah! - A imagem tornava-se cada vez mais ntida.
      - Pensei que ele s iria l buscar-me. No sabia que ele ficaria to zangado, que daria pontaps na porta da minha me e bateria no Frank.
      Marilee suspirou, mal sendo capaz de imaginar a ira com que o Joe devia estar. Receber um telefonema do filho a soluar para lhe dizer que um patife qualquer 
o tinha chicoteado e obrigado a gargarejar com molho picante? Fechou os olhos, procurando recompor-se e rezando uma rpida e silenciosa prece pelo bom senso.
      - Se voltam a pr o meu pai na cadeia, a minha me fica outra vez comigo - disse-lhe Zachary com uma voz irregular. - No quero voltar para l, nunca mais!
      - Estou a ver o teu dilema - confessou ela.
      - Ento, no podes contar-lhe que me bateram mais vezes, nem acerca dos jogos de monstros. Tens que prometer.
      Marilee assentou outra vez o queixo nos joelhos erguidos, com o olhar perturbado fixo no Zachary. - Agora entendo que no tenhas contado ao teu pai muito do 
que aconteceu enquanto estiveste em casa da tua me - disse ela baixinho. - Enfrentas uma dupla contrariedade.
      - O que  isso?
      - Uma dupla contrariedade?  quando podem acontecer duas coisas realmente ms, neste caso, o teu pai meter-se em sarilhos que podem lev-lo  cadeia e, como 
resultado, teres que ir viver outra vez com a tua me. 
      -  Sim, uma dupla contrariedade.
      - Bem - disse ela, pensando cuidadosamente antes de falar -  No podemos deixar acontecer nenhuma dessas coisas.
      -  No. Portanto, tens que prometer.
      Marilee olhou-o directamente nos olhos. - Sinto-me muito honrada por teres confiado suficientemente em mim para me contares, Zachary.
      Ele baixou os olhos. - Eu no queria. S que... quando falei acerca dos jogos de monstros, esqueci-me e falei de mais.
      Ela respirou fundo e expirou lentamente. - Sabes porqu, no sabes? Porque guardaste segredos feios fechados dentro de ti durante demasiado tempo e eles precisam 
de sair. E precisavas de uma pessoa amiga com quem conversar. Algum que no dissesse ao teu pai, nem nada. - Sorriu para ele. - Ests bastante confiante em que 
eu no v a casa da tua me bater no Frank. No ?
      Ele fez um leve sorriso e depois sentou-se e cruzou as pernas. - No s suficientemente grande para bater no Frank.
      - Tambm no tenho coragem suficiente - confessou ela com uma gargalhada sem humor. Voltou a suspirar. - O teu pai , no entanto. Aposto que, por ti, at com 
lees se bateria.
      - Sim. Ele gosta muito de mim.
      - Sim, claro que sim, e tens toda a razo em achar que ele ficaria muito, muito zangado se lhe contasses o que o Frank te fez.
      - O Frank fazia muita coisa. As outras pessoas, tambm. Pessoas que vinham s festas da minha me.
      Marilee acenou afirmativamente com a cabea. - Pensei que talvez pudesse ser uma coisa assim. As pessoas que bebem e pem coisas no nariz ficam com a cabea 
toda esquisita, Zachary, e fazem coisas que no deviam fazer. - Pensou por um momento. - No outro dia, quando eu te disse que precisava de uma bebida... pensaste 
que ia embebedar-me e ser m, no pensaste?
      Ele disse que sim com a cabea, parecendo envergonhado. - S por um minuto, mais nada.
      - Eu s tinha sede e apetecia-me ch.
      - Agora, j sei.
      Marilee suspirou. - Por vezes, bebo lcool.
      - Bebes? - Olhou para ela com um olhar preocupado. 
      - No  muito frequente. Normalmente, s vinho e num jantar especial - garantiu-lhe - e nunca o suficiente para me embebedar. Mesmo que me embebedasse, nunca 
seria m para ti. Prometo.
      - Isso  bom.
      Marilee engoliu em seco e olhou para o vinco dos seus jeans. - Foi por isso que tiveste medo do meu armrio dos lpis? - perguntou - Porque pensas que pode 
saltar algum de l e apanhar-te?
      Ele disse que sim com a cabea. - Ou pr-me l dentro.
      O estmago dela deu uma volta. - L dentro?
      Ele encolheu os ombros. - No entanto, o teu no tem fechadura. Eu olhei.
      - Algum te fechou  chave dentro de um armrio?
      - Por vezes, a minha me fechava porque estava a divertir-se e no queria estar a tomar conta de mim. Dizia que no armrio eu no me podia magoar. Dava-me 
a minha almofada e um cobertor mas eu no gostava de l estar dentro. Era escuro e no conseguia sair.
      Para sua consternao, Marilee comeou a sentir a boca a tremer. Respirou vrias vezes rapidamente, determinada a no chorar. Quando se recomps, disse: - 
Eu tambm no gostaria de estar dentro de um armrio Zachary, e nunca te fecharei  chave dentro de nenhum. Est bem?
      - Nem mesmo se tiveres uma festa?
      - Nem mesmo assim.
      - Detesto festas.
      - As festas no so todas assim. Mas entendo a razo por que sentes isso. Acho que tambm j sei por que razo tens medo de estranhos.
      Ele bateu com fora nas faces molhadas. - Mas de ti, no. - Olhou para ela. - Tu tens sorrisos nos olhos.
      - Oh, Zachary... obrigada. Acho que isso  a coisa mais bonita que jamais algum me disse.
      - Prometes no contar ao meu pai?
      Marilee contornou cuidadosamente essa pergunta. - Sabes, Zachary, acho que talvez estejas a subestimar o teu pai. Tens razo em acreditar que ele se sentir 
muito zangado com o Frank. Mas no to zangado que faa alguma coisa estpida. Manter-te com ele , para ele, a coisa mais importante do mundo. Ele no far nada 
para estragar isso, independentemente de quanta ficar zangado.
      - O meu pai pode ficar muito, muito zangado.
      Marilee no podia criticar Joe por ter deitado abaixo a porta da Valerie e entrado de rompante pela casa dentro. Talvez ela prpria fizesse a mesma coisa. 
- Sim, pode - concordou. - E entendo a razo por que tens relutncia em contar-lhe isto tudo. Ao mesmo tempo, no entanto, acho que  um grande erro manteres segredos 
para com ele. Ele ... - Interrompeu-se e pensou profundamente antes de continuar. O teu pai  uma pessoa que conserta tudo. Sabias?
      - Ele no consegue consertar o triturador do lixo.
      Marilee deu uma risadinha a despeito da seriedade da conversa, imaginando Joe com a pia desmanchada. - Suponho que o talento dele para consertar no abrange 
tudo - concedeu ela. - Mas  ptimo a consertar sentimentos.  aquilo a que eu chamo um bom ouvinte, e entende o que as pessoas sentem. Sabes aquelas sensaes assustadoras 
todas que tens? O teu pai arranjaria um modo de acabar com elas, acho eu. Mas no pode, a no ser que saiba por que razo as tens. 
       Zachary voltou a ficar plido. - Vais contar-lhe.
      -  Eu no disse isso. Disse que  um grande erro tu no lhe contares. Marilee ps-lhe uma mo debaixo do queixinho. - Sabias que no falares com ele acerca 
do que aconteceu em casa da tua me fere os sentimentos do teu pai?
      - Fere?
      Disse que sim com a cabea. - Ele disse-me que no falas com ele e parecia triste. Acho que ele est muito, muito preocupado contigo.  por isso que te leva 
ao mdico, sabes? Na esperana de que contes ao mdico o que te perturba, uma vez que no lhe contas a ele.
      - Tambm no posso dizer nada ao mdico. A seguir, ele fala sempre com o meu pai e conta-lhe tudo o que eu digo.
      Marilee deu outra gargalhada de espanto. - Meu Deus, que confuso. Ests entre a espada e a parede, no ests? No podes falar com ningum.
      - No. E se tu contares, vou ficar zangado a srio contigo.
      Ela sorriu e puxou-lhe a ponta do nariz. - Vou-te dizer o que se faz. Eu prometo no contar ao teu pai absolutamente nada do que me disseres a menos que ele 
prometa e jure primeiro que no vai ralhar com a tua me nem bater no Frank. Que tal?
      Zachary pareceu indeciso.
      - O teu pai cumpre sempre as promessas. Nunca faltou a nenhuma que me tenha feito.
      - A mim, tambm no - admitiu Zachary.
      - Bem, ento? F-lo prometer! Depois, podes falar com ele acerca de tudo o que quiseres sem preocupaes.
      Esta era, obviamente, uma opo em que Zachary nunca tinha pensado. - Achas que posso faz-lo prometer.
      Marilee pensou por um momento. - No estou a ver porque no. Queres que eu fale com ele a esse respeito? Acho que provavelmente posso arrancar-lhe uma promessa.
      Zachary acenou afirmativamente com a cabea. - E se ele no prometer no lhe dizes nada?
      - Nem uma palavra. - Levantou a mo. - Tens o meu juramento solene, Zachary. Nem uma palavra a menos que ele prometa e jure no perder a cabea e no fazer 
alguma coisa estpida.
      Apertaram a mo um ao outro e selaram o juramento.
      
      
    Captulo Seis
      
      
      Durante o resto da tarde, Zachary falou quase sem parar. Agora que o menino podia confiar em algum, todas as coisas feias que tinha guardado l dentro saram 
em catadupa. As histrias,  vez, traziam lgrimas aos olhos de Marilee, provocavam-lhe ira ou faziam-lhe doer o corao e todas elas, sem excepo, revelavam-lhe 
o que aquela criana tinha suportado.
      Tinha absolutamente de ser estabelecida uma linha de comunicao entre Zachary e o pai, percebeu ela. Aquela criana precisava de se curar e, segundo os clculos 
dela, isso nunca comearia a acontecer enquanto Zachary no sentisse que podia confiar em Joe. Naturalmente, a criana procurava no pai conforto e proteco. Um 
abrao e a confiana nele constituiriam um grande passo no sentido de ajudar o menino a lidar com a mirade de sentimentos que o incomodavam.
      Por mais relutante que Marilee estivesse em iniciar qualquer relao pessoal com Joe, esta era uma ocasio em que se sentia obrigada a abrir uma excepo. 
Para esse fim, telefonou a cancelar a visita a Gerry e ps mais vegetais no assado semanal do que normalmente teria posto.
      Quando Joe apareceu, s quatro, deixou o Zachary a ver televiso enquanto se dirigiu ao carro, ao encontro dele. O sol reflectido no pra-brisas obstrua parcialmente 
a viso dele dentro do Honda, mas ela conseguia ver com pormenor suficiente para distinguir os seus ombros largos, o cabelo despenteado pela brisa e os olhos escuros 
que pareciam estud-la e no perder nada enquanto se aproximava.
      Inclinando-se quando ele abriu a janela, disse: - Queria saber se tu e o Zachary podiam ficar para jantar esta noite.
      Ele arqueou imediatamente a sobrancelha, procurando o olhar dela com o seu, cheio de interrogaes. - Jantar?
      Estava claramente to incrdulo que ela sorriu, contra sua vontade - O prato do dia, hoje,  assado no tacho com batatas, cenouras e cebolas-beb, acompanhado 
de salada, e, para sobremesa, tarte de ma  la mode. 
      Fechou um olho, o brilho travesso a desmentir o sobrolho carregado -  De facto, no devias provocar um homem a morrer de fome. s responsvel por te aproximares 
de mais e por recuares um bocadinho.
      Ela riu-se. - Ficam ou no?
      - Oferece-me uma refeio dessas e a pergunta no  se fico, mas sim se alguma vez me vou embora. Cozinhar no  o meu forte.
      - O Zachary j mencionou isso uma ou duas vezes.
      Tirou as chaves da ignio e abriu a porta. Quando saiu do carro, parecia uma torre ao lado dela, o tecto do Honda mal lhe chegando  ltima costela. Marilee 
recuou um passo, sentindo-se reduzida ao mnimo ao p dele, mesmo no exterior. O algodo gasto da lavagem da sua blusa cinzenta do fato-de-treino agarrava-se-lhe 
ao dorso, mostrando os contornos fortes do seu peito. As mangas curtas revelavam braos de bronze cheios de msculos e de tendes. At os seus sapatos de tnis faziam 
dos dela anes.
      - Eu sei que  grosseiro olhar o dente a cavalo dado - disse ele -, mas tenho que perguntar: Porqu o convite para jantar? O que sabia  que no me querias 
 tua volta.
      Marilee esperara entrar com facilidade nesta conversa, mas agora tudo o que tinha planeado dizer fugira-lhe da mente. - Desta vez, decidi abrir uma excepo. 
Preciso de ter uma conversa contigo acerca do Zachary e no  coisa que possa dizer-te contigo sentado no alpendre.
      Os olhos dele semicerraram-se. - Do Zachary? - Olhou preocupado para a casa. - Ele est bem?
      - Est ptimo. Bem, realmente, no est ptimo. Ambos sabemos disso.  um menino muito perturbado. - Mordeu o lbio inferior, tentando pensar na melhor maneira 
de dizer aquilo. - Ele abriu-se comigo esta tarde, Joe. Contou-me tudo o que lhe aconteceu em casa da Valerie.
      -  Sim? Marilee, isso  maravilhoso! Porqu essa cara sorumbtica? Vai para cinco meses que anda no mdico. Se finalmente comeou a fazer isto  um grande 
progresso.
      Ela disse que sim com a cabea. - Sim, bem, ele fala comigo, no com o mdico. - Esperou um pouco. - O mais importante  que no fala contigo. Isso  um estado 
de coisas que tens que rectificar.
      - Num instante. 
      Bateu com a porta do carro e comeou a andar  frente dela. - No vs to depressa, Joe. H coisas que precisas de saber, coisas que precisamos de discutir.
      Parou e virou-se para procurar o olhar dela. - Tais como?
      - Antes de comear, deixa-me dizer-te isto. Ao ouvir o teu filho falar, esta tarde, tive que fazer tudo o que pude, vrias vezes, para me manter calma. Tive 
uma vontade enorme de dar um murro no nariz da Valerie quando o Zachary acabou.
      - Oh, meu Deus. O que ele te contou  to mau como isso?
      - Muito mau, mas no  por essa razo que estou a dizer isto. - Sustentou-lhe o olhar, por um momento, tentando dizer com os olhos o que talvez no conseguisse 
transmitir com palavras, que nunca o julgaria. - S quero que saibas, antes de eu dizer seja o que for, que entendo exactamente como deves ter ficado furioso vrias 
vezes e que, na maioria dos casos, admiro a tua conteno.
      Ele suspirou e passou uma mo pelo cabelo. - Merda. Ele contou-te do Frank. - A expresso envergonhada que as suas feies adquiriram fez com que Marilee tivesse 
vontade de lhe dar uma palmada no ombro. Porque no queria estabelecer esse tipo de familiaridade entre eles, conseguiu resistir ao impulso, mas com dificuldade.
      - Houve circunstncias atenuantes - apressou-se ele a garantir-lhe.
      - Eu sei disso, Joe, e a verdade  que, se fosse eu, na tua situao, talvez tivesse feito a mesma coisa. Acho incrvel que tenhas sido tu a ir preso. Ao que 
me parece, o mau foi o Frank. Deviam t-lo fechado  chave.
      - Sim, bem, naquela altura, no havia provas que corroborassem a minha histria. O Zachary s depois  que apanhou com o cinto, que foi o castigo por me ter 
chamado e ter apanhado o Frank enraivecido, pelo que os polcias nunca viram marcas.
      - Ah! Entendi que ele me tinha dito que o Frank j lhe tinha batido quando te telefonou.
      - Ele tem quatro anos e faz confuso com a sequncia dos acontecimentos. - Encolheu os ombros. - Bastou-me ouvir a histria do molho picante para me pr a 
ferver. Que coisa srdida, e o Zachary engoliu muito e depois vomitou, o que foi extremamente doloroso. Infelizmente, no deixou sinais exteriores de maus tratos. 
Eu era o vilo mais bvio. Quando cheguei l a casa, ouvi o Zachary a gritar e arrombei a porta com um pontap para poder chegar a ele. Quando encontrei o Frank 
na sala de estar, a aban-lo, dei um arranjo novo  cara dele, fim de histria.
      - No - disse ela baixinho. - Para o Zachary, ainda no escrevemos "Fim".
      Muito cautelosamente, Marilee relatou partes da sua conversa com o Zachary, acentuando principalmente a necessidade do Zachary de exigir a Joe a promessa de 
que no ficava zangado e no ia retaliar se o filho falasse com ele. A cada palavra que ela dizia, a expresso de Joe tornava-se mais triste.
      -  Meu Deus - sussurrou, quando ela acabou. - O meu filho tem medo de me fazer confidncias?  isso que ests a dizer. Este tempo todo comigo a fazer tudo 
o que podia para que se abrisse comigo, e fui sempre eu o problema? Nem sequer pode falar com o mdico dele, com medo de que o mdico conte o que ele diz?
      Vendo a angstia dele, Marilee ps de parte as suas reservas e tocou-lhe no brao. - Oh, Joe, por favor, no vejas isso assim. O Zachary tem medo de ti. Tem 
medo por ti. No quer que o pai faa alguma coisa louca em defesa dele de modo que o metam outra vez na cadeia. S isso.
      Ele estremeceu. - Como  que pensas que isso me faz sentir? Quem  o pai e quem  o mido? O meu filho de quatro anos a acautelar-se comigo? Diabos! Sinto-me 
como se tivesse cinco centmetros de altura. Perder a cabea daquela maneira tem-no impedido de melhorar.
      - Est bem, tu deixas o teu temperamento apoderar-se de ti e o Zachary tem medo de que isso possa acontecer outra vez. E depois? Acima de tudo, tu s o exterminador 
do drago dele. Pensa s como isso o deve fazer sentir-se bem, saber como o amas e que arrombas portas para o alcanar.
      Ele ps as mos nas ancas, olhou para o relvado bem aparado E suspirou. - Bem, acho que tenho umas barreiras para corrigir.  melhor atirar-me a isso.
      - Sim.
      Coou-se ao lado do nariz e depois baixou o olhar para o cimento. Observando uma formiga que estava a tentar atravessar a rampa de entrada, entreteve-se a 
atorment-la durante uns segundos, bloqueando-lhe um caminho aps outro com a ponta do sapato enquanto a pobrezinha tentava freneticamente fugir dali. Quando finalmente 
se cansou de provocar o insecto e o deixou fugir para a relva, olhou para cima.
      - Obrigado, Marilee - disse ele numa voz baixa e melflua. - No  o suficiente, eu sei. Por ti, se pudesse, ia buscar a lua. Tu devolveste-me o meu filho. 
Obrigado.
      Os olhos dele ardiam com lgrimas enquanto ela o via caminhar a passos largos em direco  casa. No cimo dos degraus, parou para olhar para trs. - Quanto 
tempo tenho antes do jantar?
      - Todo o tempo de que precisares. O assado est em lume brando e pode continuar o tempo que for necessrio; e eu deixei a salada para o fim.
      - Importas-te que te requisitemos a sala de estar por um bocado? 
      - Sintam-se em casa. Eu arranjo muito com que me ocupar enquanto estiverem a conversar.
      
      Joe levou o filho para a sala de estar para uma conversa que devia ter havido h muito. Uma vez instalados no sof de Marilee, deixou o Zachary falar durante 
alguns minutos - de tudo e de nada, menos das suas experincias enquanto viveu com a me. A criana fez-lhe perguntas acerca do seu dia de trabalho, acerca de quando 
iam  pesca, e depois veio com a artilharia pesada: apresentou o pedido de um co de preferncia como o Boo.
      Joe sorriu, instalou-se mais confortavelmente encostado s almofadas verdes e depois, sem aviso prvio, deitou o Zachary de costas para lhe fazer a brincadeira 
de lhe roar o rosto na barriga, provocando um vendaval de gargalhadas.
      - Eu acho que ests a ver se me enganas - acusou Joe com uma rosnadela provocadora. - Um co? Um co! Est o jantar  espera para tu me pedires um piegas dum 
co feio e velho? Pensei que tnhamos vindo aqui para falar de coisas srias!
      Quando a hilariedade do Zachary parou, os seus grandes olhos castanhos encheram-se de sombras e olhou para Joe com uma expresso suplicante. - Eu quero falar 
de coisas srias, pai, mas estou com contorcimentos na barriga.
      O sorriso de Joe desvaneceu-se quando ajudou o filho a sentar-se. - Contorcimentos, hem? Isso deve ser horrvel.
      Zachary disse que sim com a cabea. - Contorcimentos assustadores que me fazem sentir como se tivesse que vomitar o almoo.
      - Em cima de mim, no, espero eu.
      - Sim.
      Joe suspirou. - Bem, acho que antes de podermos conversar, precisamos de fazer passar esses contorcimentos. Deves ter alguma coisa realmente m para me dizer.
      - Sim, e tenho medo de que fiques zangado mesmo que tentes no ficar.
      - Contigo?
      - No. Com a minha me e o Frank e algumas outras pessoas.
      - E isso faz-te contorcimentos?
      A criana disse que sim com a cabea. - Vai-te pr muito, muito zangado, pai. Talvez at suficientemente zangado para bateres com um carro.
      - Uau, isso  muito mau. - Joe pensou por um momento. -  Se bem entendi, falaste muito com a Marilee, hoje. Isso fez-te contorcimentos?
      - No. A Marilee no  suficientemente grande para ir bater no Frank.
      - Ah! - Joe sorriu tristemente. - Acho que a tens razo. Zachary fechou o punho sobre a parte da frente da sua pequena T-shirt e comeou a torcer a malha 
de todas as maneiras, com a testa
franzida e o sobrolho carregado. Joe teve a sensao de que a criana se tinha encurralado.
      Aproximando-o mais para lhe dar um abrao tranquilizador, Joe dedicou-se  tarefa de ajudar o rapaz a sair daquela situao e conversar.
      Depois de ouvir o filho durante cerca de uma hora, Joe sugeriu que deixassem o resto da conversa para mais tarde, quando chegassem a casa.
      - Acho que, provavelmente, devamos ir comer antes que o jantar se estrague. No achas?
      Zachary endireitou-se e piscou os olhos. - Sim. Realmente, estou com fome.
      - Para mim, isso no  novidade. A tua barriga tem estado a roncar permanentemente nos ltimos trinta minutos.
      - A tua, tambm.
      Ao entrar na cozinha, Joe encontrou a Marilee sentada  mesa, apoiada nos cotovelos, com um bloco de papel  frente e a cabea apoiada nas mos. Conhecia aquela 
sensao. Equilibrando Zachary numa anca, olhou para ela por um longo momento, querendo apenas pr o filho numa cadeira e tom-la nos braos. Ela havia de chorar 
com ele, ele sabia - partilhando a sua dor e a sua tristeza pelo que tinha acontecido ao filho - e depois falaria com ele at ter passado a nusea do estmago e 
a dor no centro do peito diminusse.
      Mas no lhe podia tocar, quanto mais tom-la nos braos, e, oh, como lamentava as restries. Engraado. No fim da adolescncia e pouco depois de chegar  
casa dos vinte, quando namoravam, praticamente no pensava em mais nada, quando estavam juntos, seno fazer amor com ela. Agora, aspirava igualmente por outros tipos 
de intimidade, aqueles que transcendiam o fsico. Simplesmente apert-la junto ao corao. Conversar com ela pela noite fora. Isso  que era amor, partilhar. 0 sexo 
era maravilhoso, e ele de maneira nenhuma lhe diminua a importncia, mas com a maturidade, queria mais, muito mais, e sabia instintivamente que a nica pessoa na 
Terra com quem podia encontr-lo era Marilee.
      Era to querida, aquela mulher. Duvidava de que ela fizesse alguma ideia de como era especial. Em pouco mais de uma semana com o filho, ela tinha conseguido 
o que Joe e dois mdicos diferentes no tinham conseguido fazer em quase cinco meses.
      Sem dar pela presena deles, ela tinha deixado cair a sua habitual fachada de alegria e, sem a mscara, parecia to triste e to desanimada como ele, com os 
ombros descados, os delicados ns dos dedos brancos da presso das pontas dos dedos no couro cabeludo. Perguntou a si mesmo se ela no teria uma dor de cabea - 
ou, pior, se teria dito ou feito alguma coisa que a aborrecesse.
      - Mari?
      Ela endireitou-se de repente e deu um salto na cadeira como se a tivesse picado com um alfinete. - Oh - Desculpa. - Fez um gesto para o bloco de papel e depois 
esfregou as palmas das mos nas calas de ganga. - Estava... a tentar fazer a minha lista da mercearia - Deu uma risada nervosa. - No fim do dia, fico como que clinicamente 
morta.
      Parecia cansada. A avaliar por algumas das histrias que o Zachary acabava de lhe contar, Joe sabia que no podia critic-la. Tinha a sensao de que ela tinha 
ouvido muitas daquelas histrias durante a tarde. No era para ela tomar conhecimento de coisas daquelas e continuar como se nada fosse. Era uma pessoa demasiado 
empenhada para isso.
      Imaginou que as confidncias do Zachary haviam de a assombrar, com o assombrariam a ele, e que nos dias seguintes estaria constantemente a pensar nelas.
      - Eu prprio estou a sentir-me um pouco clinicamente morto - disse ele. -  do calor, acho eu. Tira-nos alguma coisa.
      O olhar dela fixou-se no dele, fazendo perguntas que no ousava exprimir por palavras e a que ele no sabia responder.
      - O Zachary e eu decidimos conversar mais quando chegarmos a casa. - Joe forou um sorriso e olhou para o filho, cuja carinha estava mosqueada do choro. - 
Os aromas deliciosos que aqui andam estavam a fazer os nossos estmagos resmungar. No era, rebento?
      Esfregando um olho com o punho fechado, Zachary disse que sim com a cabea. - O pai diz que o meu parece o de um lobo esfomeado.
      - Ui, ui. Deves estar mesmo com fome - disse Marilee.
      - Meu Deus.  melhor servir a comida antes que leve uma dentada de algum de vocs!
      Ao v-la andar para trs e para diante na cozinha, Joe decidiu que estava decididamente boa para se comer. As calas de ganga justas mostravam umas pernas 
de primeira classe e tinha uma blusa de algodo vermelha metida para dentro das calas na cintura fina que lhe acentuava a elegncia das ancas. Olhar para ela fazia-lhe 
subir a tenso acima de todos os limites.
      Agarrou numa pega para tirar a tampa do tacho. - Tm vinte minutos para se lavar e pr a mesa. Chop-chop!
      Joe mexeu as sobrancelhas quando ps Zachary no cho. - O ltimo a chegar  macaco.
      A criana arrancou como um raio. Fazendo de conta que no sabia o caminho, Joe seguiu-a, mais devagar. Ao chegar  casa de banho, encontrou o Zachary j em 
cima de um escabelo, no lavatrio.
      - Ests a armar-te, ou qu? Tens um poleiro s para ti.
      -  Foi a Marilee que arranjou para mim. - O Zachary franziu os lbios enquanto limpava desajeitadamente a cara com um toalhete a pingar, deitando mais gua 
na camisa do que na pele. As bochechas ainda tinham vestgios das lgrimas que tinha vertido enquanto estava a falar com Joe acerca da me. - Tambm h uma cadeira 
para mim na cozinha.
      Joe ajudou o filho nas suas ablues. Terminada a sesso de lavagem, a criana limpou-se rapidamente e depois saiu da casa de banho a correr a fim de ganhar 
a corrida de regresso  mesa. Uma vez no corredor gritou: - Vais ficar macaco, pai!
      - Estou a ver que sim. Tu s rpido de mais para mim. No instante seguinte, Joe ouviu o filho dizer a Marilee que tinha ganho a corrida. A avaliar pela sua 
resposta, fingia que estava devidamente impressionada.
      Quando Joe meteu as mos debaixo do fluxo de gua quente que saa da torneira, o seu olhar caiu em cima de uma escova de dentes do rato Mickey que estava num 
suporte a condizer em cima do rebordo do lavatrio. Ao lado, estava uma saboneteira e um copo com o mesmo desenho. Dado o facto de o Rato Mickey s ser ultrapassado 
pelo Barney na estima do Zachary, Joe teve um pressentimento de que Marilee tinha comprado aqueles acessrios de casa de banho especialmente para o filho dele.
      Ver como ela estava a incomodar-se para fazer com que o Zachary se sentisse em casa provocou um n na garganta de Joe. Marilee. Era a esposa perfeita para 
ele e a me ideal para o Zachary. Ela no via isso? E admitisse ela ou no, precisava tanto deles como eles precisavam dela.
      Quando secava as mos, Joe reparou nuns pastis que estavam pendurados na parede oposta ao toucador. Suspeitou que tivessem sido pintados pela Marilee. Eram 
todos de animais e todos deliciosamente fantsticos. Coelhinhos de nariz cor-de-rosa com longas pestanas, caudas fofas e uns cmicos ps enormes em forma de raquete 
de neve. Vacas malhadas com uns olhos castanhos comoventes. Gatinhos tigrados brincalhes enrolados em teias de fio de cores garridas. Fosse para onde fosse que 
se olhasse, ela tinha criado um mundo de fantasia para crianas.
      As crianas por que, obviamente, ansiava e nunca teria se a deixassem agarrada aos seus problemas.
      Olhou solenemente para uma cantoneira em cujas prateleiras estava uma coleco de ratos em miniatura, um de fato-macaco e chapu de palha, outro que era uma 
av ratinha de camisa de noite s flores e touca de dormir, com culos na ponta do nariz. 
      Sorriu e abanou a cabea. No admirava que o Zachary adorasse estar l. A Marilee no se limitava a criar mundos de faz-de-conta nas suas histrias; vivia 
num mundo de faz-de-conta. No podia deixar de perguntar a si mesmo se ela se sentiria mais segura assim, rodeando-se de fantasia. Achava que no podia critic-la 
por isso, se fosse esse o caso. A realidade no tinha sido amvel para ela.                                            
      Joe suspirou, sabendo que os seus pensamentos estavam a dar perigosa volta de cento e oitenta graus no que dizia respeito a ela. Tinha concordado com as condies 
dela para tomar conta do Zachary mas a cada dia que passava, questionava um pouco mais a sensatez dessa deciso. Nada de olhares prolongados, nada de namoriscar 
e absolutamente nada de tocar. Que diabo! Como  que podia fazer algum avano com ela? A concluso era que no podia.
      Era assim que ela queria, ele sabia. Que a deixassem em paz. Que nunca a obrigassem a lidar com os seus problemas - nem com os seu sentimentos para com ele. 
Depois de assistir a um dos seus ataques de pnico, Joe conseguia, sem dvida, entender a relutncia dela em ter outro mas, mesmo assim, no acreditava que a soluo 
fosse meter-se numa redoma para o resto da vida. Sabia que no era, de facto. Com aquela sua pele sedosa e branca como o leite, estava muito melhor para ser abraada 
por um amante e deitar-se em lenis de seda.
      Tinha a certeza de que no conseguia contornar os ataques de pnico, a menos que ela confiasse nele. Sempre que tinha oportunidade, andava a ler os livros 
que havia na biblioteca. Claro que andar a ler livros de Psiquiatria no fazia dele um especialista na matria, mas pelo menos agora entendia muito melhor os ataques 
dela. O segredo era pacincia e ir devagar. Se ela tomasse regularmente um tranquilizante fraco durante algum tempo, conseguiria, pouco a pouco, acostum-la  sua 
presena. Ela acabaria por perceber que no havia nada a recear e seria capaz de se descontrair em relao a ele. S tinha de a convencer disso.
      A  que estava o problema. Tentar penetrar naquela muralha que ela tinha erigido  sua volta era como ir de encontro a cimento armado macio. S amigos. Joe 
era avesso a faltar  palavra que lhe tinha dado, especialmente sabendo, como sabia, que ela confiava que ele no o fizesse. Mas, por vezes, um homem via-se confrontado 
com dois males e tinha de escolher um deles.
      Qual era pior - faltar  sua palavra ou deix-la deitar fora aquela que podia ser a sua nica oportunidade de ser feliz?
      
      Marilee estava a pr o assado numa travessa quando o telefone tocou. Limpou rapidamente as mos e esticou-se por cima da bancada para pegar no auscultador. 
Da a um instante, quando desligou, comeou a tirar o avental. Joe entrou exactamente nesse momento na cozinha.
      - Era o Ron. A Gerry caiu nas escadas. Esto a fazer uma cesariana de emergncia.
      - Oh, meu Deus. E ela fica bem? 
      - No sei. - O corao de Marilee estava a bater apressadamente. Meteu uma mo no cabelo e lanou um olhar preocupado  cozinha. - Desculpa, Joe. Podes tratar 
das coisas daqui em diante? A tarte est no forno e tem que ser tirada. Eu... tenho que ir para casa da Gerry. De momento, est um vizinho com as crianas. O Ron 
pediu-me que l fosse tomar conta das coisas.
       -Vai - disse ele. - No te preocupes com nada daqui.
      Marilee atirou o avental para cima da bancada e foi a correr buscar a carteira que estava em cima do frigorfico. Enquanto procurava freneticamente as chaves, 
que pareciam esconder-se sempre que ela tinha pressa de as encontrar, disse: - Por favor, v, comam. Afinal, eu prometi-lhes jantar. Quando tiverem acabado, deixem 
os pratos no lava-louas. Trato deles quando voltar.
      Dirigiu-se s portas envidraadas, parou e virou-se. - Podias dar comida ao Boo e faz-lo ir  rua antes de te ires embora? O Zachary sabe onde est o saco 
da comida. No fao ideia das horas a que volto.
      - Claro. Conduz com cuidado, est bem? Espatifares-te no ajuda a Gerry.
      Voltou a parar antes de sair a porta. - H uma chave sobressalente no camaro por baixo do aparador. No te importas de fechar a porta  chave?
      - No h problema. Eu trato disso. Podes ir.
      
      Uma hora depois, Marilee estava numa casa de banho a tentar dar banho  Amanda, de dezoito meses, enquanto o Derek, que tinha doze anos, andava  guerra com 
o Jacob na casa de banho do andar de cima, tentando lavar-lhe os ouvidos.
      - Tia Marilee, o Jacob est a ser mau!
      Marilee endireitou-se, esticou o pescoo e gritou o mais alto que pde, na esperana de que a voz l chegasse. - Jacob Robert Palmer, Porta-te bem!
      - Tia Marilee, o Derek est a puxar-me o cabelo! 
      - Ai, ai, meu mentiroso!
      Marilee ouviu cair uma coisa. Depois, o Jacob comeou a chorar. Suspirou e ps-se em p, resignada ao facto de ter que tirar da banheira uma Amanda a pingar, 
envolv-la numa toalha e ir escada acima ver que raio se tinha passado.
      Quando estava a esticar-se para pegar na toalha, tocaram  campainha. - Santa me - sussurrou em surdina. E disse: - Mary, podes ir ver quem ?
      A garota de dez anos respondeu, aos gritos: - Claro, Tia Marilee! - A isso seguiu-se rapidamente um pranto da Tracy, a de seis anos. -  Quero a minha me!
      - Daqui a um minuto acabo a histria - prometeu a Mary.
      A Tracy chorou mais alto. Marilee ouviu os passos da Mary pela casa fora quando foi a correr atender  porta. No instante seguinte, chegou  casa de banho 
uma voz maravilhosamente familiar.
      - Joe, s tu? - perguntou Marilee.
      - Sou - respondeu ele, parecendo mais perto. - Onde ests?
      - Na casa de banho. Preciso que venhas a correr ajudar-me!
      - Aqui vou eu!
      Da a um segundo, apareceu  porta da casa de banho com o Zachary num brao. Parecia grande, capaz e fabulosamente adulto. Podia t-lo abraado. Em vez disso, 
meteu-lhe uma toalha molhada na mo. - O cabelo dela ainda precisa de ser lavado com champ e do umbigo para baixo precisa tudo de ser lavado. Eu tenho que ir l 
acima, acho que o Derek est a matar o Jacob.
      Mesmo a propsito, o Jacob voltou a gritar. O Joe riu-se, ps o Zachary no cho e avanou para a banheira, onde a Amanda estava sentada, a comer sabonete. 
Saa-lhe espuma pelos cantos da boca.
      - Oh, meu Deus! - gritou Marilee.
      Joe voltou a rir-se. - Ol, bochechinhas doces - disse ele quando assentou um joelho no lago de gua estagnada junto  banheira. - Lembras-te de mim? O meu 
nome  Joe.
      - O champ que no faz chorar est na prateleira! - disse Marilee, enquanto corria para o vestbulo.
      
      Uns minutos mais tarde, quando finalmente voltou de l de cima, Marilee encontrou Joe ainda a tentar lavar o cabelo da Amanda. Parecia de algum modo diminudo, 
para no dizer muito molhado, e, quando olhou para cima, j no parecia to capaz como parecera  chegada.
      - Ainda bem que j voltaste. Ela ia arranjando um sarilho com o sabonete. Tive que pr outra gua.
      Marilee atravessou aquele charco at  banheira e ajoelhou-se para acabar de lavar o cabelo da Amanda. - Obrigado, Joe. Salvaste-me a vida. Lamento o estado 
da tua camisa.
      - Lava-se. - Tirou o sabonete das mozitas escorregadias da Amanda. - No h mais petiscos, mida. Acabou-se.
      A Amanda sorriu, mostrando pedaos amarelos de sabonete entre os dentes de beb. Marilee pegou numa toalha limpa e tentou tir-los.
      - J tentei isso - informou Joe. - Acho que vamos ter que nos servir de uma escova de dentes. Reza para que no adoea outra vez. Acho que comeu amoras. -
      - Eu quase que tambm arranjei um sarilho! - disse o Zachary, orgulhosamente.                                                                              
      Joe parecia um pouco verde, agora que estava a estud-lo mais perto. - No sei como  que a Gerry e o Ron fazem - confessou ela.
      - So ambos loucos. Falei com o Ron imediatamente antes de vir para c. A Gerry est em recuperao e o mdico diz que tanto ela como  o beb vo ficar bem.
      - Graas a Deus. A ltima vez que falei com o Ron ao telefone, ele ainda no tinha falado com o mdico. Tenho estado to preocupada.
      - Parece estar tudo bem - garantiu ele. - O Ron parecia esgotado, mas todo contente. Ficou satisfeito por eu vir c ver se podia ajudar-te. Agora, j percebi 
porqu.
      Marilee envolveu a sobrinha rechonchuda numa toalha fofa e tirou-a da banheira. Depois de secar o cabelo da criana, entregou-a a Joe. - Agora, vamos  remoo 
do sabonete.
      
      Duas horas mais tarde, Joe e Marilee, ambos ainda molhados de dar banho aos midos, estavam completamente exaustos na sala de estar, ela na poltrona, ele no 
sof em frente. Todos menos os filhos mais velhos da Gerry e do Ron estavam, finalmente, prontos para dormir. O Zachary tambm tinha adormecido, com o cabelo moreno 
no colo de Joe.
      Ele acariciava distraidamente o cabelo do filho e suspirava, cansado. - Significa isto que se alguma vez te convencer a casar comigo posso preparar-me para 
dar banho a oito midos todas as noites?
      Ela sorriu com doura para ele. - Na realidade, quero uma dzia certa.
      Joe franziu-lhe o sobrolho: - Achas que me assustas, achas?
      - Est a funcionar.
      Ele piscou os olhos e sorriu: - Nunca na vida.
      Marilee foi salva de arranjar uma resposta pela campainha da porta. Antes que se conseguisse levantar para ir ver quem era, a porta da frente abriu-se e entrou 
o que parecia ser uma nuvem de algodo-doce cor-de-rosa. - Ol, querida! Chegaram reforos!
      Sorrindo, Marilee ps-se em p.
      - Tia Luce? Pensei que estava no hospital com o resto da famlia. Lucy entrou a bambolear-se pela entrada de tijoleira, de saltos altos, com umas elegantes 
fitas nos tornozelos que diziam perfeitamente com a sua volumosa tnica, uma criao de cetim cor-de-rosa com aplicaes de chiffon que ondulavam  volta dela. Enquanto 
descia para a sala de estar rebaixada, parecia exactamente uma escuna cor-de-rosa a toda a vela com todas as suas luzes de sinalizao a lampejar.
      - Consegui ver o beb, que  uma coisa que vocs no podem dizer. Vim ajudar.
      O cheiro do perfume de Lucy precedia-a. Marilee fungou, nada surpreendida por a tia usar um perfume de rosas para complementar o conjunto. Quando a Tia Luce 
estava de verde-ma, o cabelo branco-prateado vinha sempre com uma sombra a condizer e ela cheirava a mas. Quando usava lavanda, tinha invariavelmente caracis 
prpura e cheirava a uma mata de lilases em plena fluorescncia.
      - Foi uma simpatia lembrar-se de mim - disse Marilee, com o olhar a mergulhar no berloque que se aninhava no considervel e engenhosamente exposto espao entre 
os seios. Tal como os brincos de Lucy, o ornamento cintilava, fazendo o efeito de uma gambiarra. - Espero que no tenha abreviado a sua visita  maternidade.
      - Oh, no. Vendo um beb de cara vermelha e engelhada, esto todos vistos. - Lucy deu um exuberante abrao a Marilee. - O pobre do mido tem a cabea cnica 
e vem absolutamente sem queixo. Jurei que era o beb mais maravilhoso em que alguma vez tinha posto a vista e depois vim-me embora a correr antes que dissesse alguma 
coisa honesta e ofendesse o Ron.
      Marilee riu-se contra vontade. - Todos os bebes so um bocado disformes imediatamente aps o nascimento, Tia Luce! Daqui a uns dias j fica mais bonito e ser 
lindssimo, como todos os outros.
      - Bem podemos rezar. Este  um beb de cesariana, no te esqueas. Pressupe-se que sejam bonitos quando so os primognitos. Acho que aquela cabea esquisita 
pode ficar assim. - Lucy virou-se e, finalmente, viu Joe e sorriu to brilhantemente de alegria que rivalizou com a sua gambiarra. - Joseph - Ps uma mo em cima 
do corao. - Oh, meu querido! Gosto tanto de te ver!
      Joe tirou a cabea de Zachary do colo e levantou-se. - Tambm gosto de a ver, Tia Luce. - Atirou a Marilee um olhar divertido. - Continuas a iluminar uma sala 
como ningum que eu alguma vez tenha conhecido.
      - Oh, deixa-te estar. - Acenou com uma mo artrtica to cheia de zircnias cbicas que Marilee ficou surpreendida por ela ainda conseguir levantar o brao. 
- Eu bem sei quem  a luz dos teus olhos, rapaz, e certamente no sou eu. - Esticou-se para se agarrar aos ombros largos de Joe e depois endireitou-se para lhe olhar 
para a cara. - Continuas to bonito como sempre, pobre querido.  um fardo terrvel para um jovem quando  amaldioado com bom aspecto. Demasiadas tentaes e toda 
essa maravilhosa testosterona a toldar-lhes o juzo. - Com uns dedos deformados e unhas acrlicas, agarrou a bochecha de Joe e abanou-a um pouco. - Sempre receei 
que cortasses as rdeas e andasses desatinado por uns tempos. Que vergonha! So horas de teres juzo. Fica quieto, desta vez, maroto. S um tonto  que vai para 
o lato quando tem ouro de lei  espera em casa.
      Joe arqueou uma sobrancelha, olhou para Marilee e depois sorriu com afabilidade. - Tem toda a razo, Tia Luce, e fique descansada que eu aprendi a lio.
      Deu-lhe um toque carinhoso no queixo. - No lhe partas outra vez o corao, ests a ouvir? Vou atrs de ti e arrependes-te.
      Joe sorriu. - No parto, prometo.
      Nessa altura, veio da entrada um barulho enorme. Marilee virou-se e viu o o mais recente mais-que-tudo da tia a entrar pela porta da frente. Alto, robusto, 
sessenta e seis anos, vinha carregado com as coisas de Lucy - uma mala de mo de vime cor-de-rosa suficientemente grande
para merecer a classificao de mala de viagem, a sua bengala ornada, que raramente usava, um saco branco enorme que tinha qualquer coisa que cheirava a donuts, 
um xaile tricotado cor-de-rosa e uma malinha de  fim-de-semana. Marilee apressou-se a ir ajud-lo, salvando em primeiro lugar os donuts, que ps em cima de uma mesa 
de pedestal, e pegando, depois, na malinha de fim-de-semana.
      - Meu Deus, Charlie. Vais dar cabo da coluna!
      - Maldita mulher, anda com tanta tralha atrs que quase no consigo carregar com ela.
      A Tia Luce veio a correr aliviar Charlie da sua carteira. - Querido do meu corao, porque  que no trouxeste em duas vezes?
      - Estou farto de andar. No hospital, foi um corrupio. Corredor acima, corredor abaixo. Mas pedir indicaes? No, que diabo. Conheces a tua tia. Sempre com 
a certeza de que sabe para onde vai at l chegar. - Charlie encostou a bengala a um canto e ps a cabea de lado, como que para escutar. - Onde esto as criaturinhas 
todas?
      - A Mary e o Derek esto a ver televiso na sala - explicou Marilee. - O Joe e eu conseguimos finalmente pr os outros a dormir.
      A cara gorducha de Charlie descontraiu-se num sorriso. - Graas a Deus. Assim, no tenho que distribuir os meus donuts todos!
      - Ah, tens, tens! - disse a Tia Luce. - Lembra-te do teu colesterol. Podes comer um, e pronto. Guardamos os que ficarem para as crianas, de manh.
      - Ah, v l. Um nem d para lhe tomar o gosto.
      - Talvez dois, se te portares bem.
      - Esto a planear passar c a noite? - perguntou Marilee.
      - Bem, claro - respondeu a Tia Luce. - Tu tens aquele co horrendo para levar a rua. O Charlie e eu no temos animais de estimao. - Revirou os olhos. - No 
me falta mais frustrao nenhuma do que ensinar truques novos a um homem.
      Charlie atravessou a sala, de mo estendida para cumprimentar Joe. - Charlie Wade. Prazer em conhec-lo.
      Joe esticou-se para apertar a mo ao homem. - Joe Lakota.
      Eu sei quem voc . Sou um grande f dos Bullets. Tem um grande brao para lanar, filho. Que pena esse joelho e ter tido que se retirar to novo.
      - Gosto quase tanto de ser treinador como de estar no campo.
      - Como  que acha que Laurel High se vai portar este ano? 
      Enquanto os dois homens caiam numa conversa acerca de futebol, Marilee contou  tia as ltimas acerca das crianas. As reaces entusiasmadas de Lucy acabaram 
por acordar o Zachary, que pestanejou, sentou-se e, atordoado com sono, olhou fixamente para a flamejante senhora de cor-de-rosa que estava no meio deles.
      - Esta  a minha tia Luce, Zachary - disse Marilee  maneira de apresentao.
      Zachary olhou embasbacado para o cabelo cor-de-rosa de Lucy.
      - s a cara chapada do teu pai! - A Tia Luce inclinou-se para sorrir para a criana. - Meu Deus, est escrito nas estrelas. Vai deixar um rasto de coraes 
partidos pelo caminho. Devamos pendurar-lhe ao pescoo um sinal de perigo.
      - O Zachary  um pouco tmido, Tia Luce - explicou Joe rapidamente. - Tem que lhe dar algum tempo para se descontrair consigo antes de entrar em grandes amizades.
      Joe voltou para o sof, pegou no filho com um brao e comeou a embal-lo enquanto conversava com Charlie. Marilee interveio, levando a tia para a cozinha.
      - Tem a certeza de que quer passar c a noite, Tia Luce? Esta malta pode ser uma tarefa difcil e eu estou perfeitamente disponvel para voltar para c depois 
de ir a correr ao hospital.
      - Com os midos mais pequenos j deitados, posso tratar disto daqui.
      - A Mandy pode acordar - avisou Marilee. - E, por vezes, o Jacob tem pesadelos. S com uma histria  que voltam a adormecer.
      - Est descansada. Ainda no estou na cova, querida, s tenho a minha reserva confirmada.
      Uns minutos depois, Marilee viu-se sentada no lugar do passageiro do Honda de Joe, a embalar nos braos o Zachary, que Joe tinha posto outra vez a dormir. 
Quando saram, Charlie tinha-se instalado num banco do balco de pequeno-almoo, pronto para se deliciar com um donut e uma chvena de cacau aquecido no microondas. 
Grande problema. O senhor mais idoso tinha estacionado o carro atrs do dela, no acesso. De algum modo, foi decidido colectivamente por toda a gente, menos Marilee, 
que Charlie tiraria o carro mais tarde e que Joe a traria para vir buscar o seu Taurus.
      - Est bem para ti, assim? - perguntou Joe quando saa do acesso em marcha atrs. - No me fica fora de mo, nem nada, voltar por  aqui, mas se no te sentires 
 vontade...
      - Est ptimo. - Quando falou, Marilee percebeu que realmente se sentia optimamente. No tinha o pulso acelerado, no tinha aquela sensao de no conseguir 
respirar. Estava muito ciente da presena avultante de Joe ao seu lado, mas por razes que a ultrapassavam, por uma vez no estava a faz-la sentir-se tensa ou claustrofbica. 
- Deixa o pobre do Charlie deliciar-se com o seu petisco. A Tia Luce no lhe da descanso. 
      Joe riu-se enquanto entrava na estrada e avanava pela rua sossegada orlada de rvores. - Ela  cheia de vida. Que idade j tem ela? 
      Olhando atravs do crepsculo de Vero para os relvados bem aparados por onde passavam, Marilee respondeu: - Ela e a me fizeram setenta e quatro em Maio.
      - Ningum diria. Saltos-agulha? Passei o tempo todo a querer agarrar-lhe o brao para que no se estatelasse de frente no cho.
      Marilee virou-se para olhar para ele. - Havias de ver as botas de vaqueira de salto alto dela. Vermelho-vivo com rebites dourados e cheias de franjas.
      - Botas de vaqueira?
      - Que completam o seu traje de vaqueira, tambm vermelho-vivo. Chama-lhe fato de Dale Evans. Um domingo, foi com aquilo tudo para a missa. A minha me quase 
desmaiou e caiu do assento.
      Sorrindo e abanando a cabea, Joe mantinha-se  direita. -  espantoso, no ? Aquele par  a prova acabada de que gmeos idnticos podem ser, mesmo assim, 
diferentes como a noite do dia. A tua me  to conservadora e a Tia Luce ... - interrompeu-se, evidentemente incapaz de pensar num adjectivo adequado. - Deliciosa. 
Faz com que os anos de ouro paream uma promessa em vez de uma condenao  morte.
      Marilee suspirou. - Decididamente, ela goza a vida.
      - Qual  a ideia com o Charlie? Ele parece gostar verdadeiramente dela.
      - Apaixonadssimos. Ele quer que ela se case com ele. A Tia Luce no quer porque o primeiro casamento dela foi pela igreja.
      Joe fez um olhar espantado. - Eles no... compreendes... no tm intimidade?
      Marilee sorriu. - No perguntei. Mas ests  vontade, se quiseres. Ele riu-se. - Ganhaste. O importante  que ela seja feliz.
      - Diz isso  minha me. A abordagem pouco ortodoxa que a Tia Luce faz da vida f-la trepar pelas paredes. - Marilee encolheu os ombros. - o que eu acho  o 
seguinte: a Tia Luce cometeu um erro terrvel quando era muito nova e, se tivesse ficado agarrada a um casamento insultuoso, teria sido mau para ela. Ao divorciar-se 
do tipo, pelo menos no trouxe crianas para uma situao de pesadelo. Se quisesse, podia ter pedido ao Vaticano a anulao do primeiro casamento, ficando livre 
para poder voltar a casar pela Igreja. O primeiro casamento estava condenado  partida, durou muito pouco tempo e ela est divorciada h mais de cinquenta anos. 
No acredito que ela no conseguisse obter uma dispensa papal.
      - Ento, porque  que no o faz?
      - A velha escola, acho eu. A Tia Luce tem, em muitos aspectos, pensamento liberal, mas tambm h nela vestgios de puritanismo antiquado. No tempo dela, as 
anulaes eram praticamente inexistente. O Sagrado Matrimnio era para sempre, men. Ela acredita do fundo do corao que o seu erro no pode nem deve ser rectificado.
      - Eu tambm acho que uma unio espiritual devia ser para sempre. - confessou ele. - Isto pode soar mal, vindo de um divorciado. - Parou num cruzamento sem 
ningum, olhou para ambos os lados e depois acelerou. - Por vezes, passo noites acordado, a rever esse tempo da minha vida, perguntando a mim mesmo onde raio tinha 
a cabea. Que deciso estpida! Quando fao uma promessa, acho que devo mant-la, sabes?
      Marilee apertou mais Zachary contra si e afagou-lhe o cabelo. - Resultou do teu erro algo muito precioso, Joe. Tens tanta sorte nisso, ter criado algo to 
doce e perfeito, mesmo quando estavas a cometer erros.
      Ele dirigiu um olhar caloroso  criana. - Sim, e s por essa razo no posso arrepender-me do casamento. O que lamento, no entanto,  qualquer dor que ele 
tenha sofrido por causa das minhas decises erradas. Isso no posso perdoar a mim mesmo.
      Marilee deu um beijo na testa do Zachary. - Todos cometemos erros. Se conseguimos entender isso e condescender com as outras pessoas, porque  que  to difcil 
perdoarmos a ns mesmos? E como podemos ns acreditar que Deus, na Sua infinita sabedoria, no nos perdoa?
      - Boa pergunta.
      - Tomaste uma m deciso uma vez na tua vida - disse ela suavemente. - Est feito e, por causa do Zachary, no alterarias as coisas, mesmo que pudesses. Perdoa 
a ti mesmo, deita isso para trs das costas. Tenho a certeza de que Deus j perdoou.
      Ele ficou em silncio por uns momentos. Quando, finalmente, lhe dirigiu um olhar, os olhos brilhavam intensamente. - Obrigado, Mari. Tens razo. Devia perdoar 
a mim mesmo e deitar isso para trs das costas. - Esperou um pouco e depois acrescentou, com voz rouca: - Agora fazes-me um grande favor? Segue o teu prprio conselho.
      
    Captulo Sete
      

      Nas duas semanas seguintes, ainda que crescesse gua na boca do Zachary sempre que ela punha alguma coisa no fogo,  tarde, Marilee resistiu  tentao de 
voltar a convid-lo a ele e ao pai para jantar. Porm, permitia a si mesma o prazer de preparar sobremesas para ele e para o pai, que lhes dava  noite para levarem 
para casa. Na manh seguinte, Joe nunca deixava de tecer loas s suas qualidades culinrias, fazendo-a sentir-se maravilhosamente apreciada.
      Ele tambm aproveitava todas as oportunidades para lhe dizer como o Zachary parecia ir bem. A terapeuta da criana tinha delirado com os progressos dele, viragem 
que Joe lhe atribua exclusivamente a ela. Ela era, disse-lhe ele, a resposta a uma prece. O elogio e a gratido deixaram-na a sentir-se completamente acariciada 
durante horas e muitas vezes, quando menos esperava, dava consigo a pensar em Joe e a sorrir.
      Com a ltima parte de Agosto veio uma acentuada subida da temperatura, tornando os longos dias de Vero sufocantes e hmidos. Para escapar ao calor, Marilee 
comeou a levar o Zachary ao parque da cidade, onde podiam deitar-se  sombra e caminhar pelos baixios de Laurel
Creek. As sadas trouxeram recordaes, pois passara ali muitos longos dias de Vero com Joe junto quelas margens, quando era mida, e no podia deixar de fazer 
viagens ao passado enquanto ali brincava com o filho dele. Depressa se viu cair no hbito de partilhar essas recordaes.
      - Costuma estar uma corda pendurada naquela rvore - disse ela, uma tarde,  criana, apontando para um tronco retorcido  beira do riacho. - O teu pai lanava 
a verso dele de um grito de guerra Sioux, balanava-se por cima da gua e dava um salto mortal antes de mergulhar.
      Noutro dia, contou ao Zachary histrias acerca dos tempos em que ela e Joe danavam debaixo das rvores ao som de bandas que tocavam no palco.             
      - Vocs eram grandes amigos, no eram? - disse ele, com o espanto estampado no pequenino rosto.
      Sentindo-se repentinamente triste, Marilee abraou os joelhos e olhou para as folhas que farfalhavam por cima deles. Recordar... recordar... sempre a recordar. 
- Sim - disse ela baixinho. - Ele era o meu melhor amigo.
      Antes que conseguisse dizer mais alguma coisa, Marilee reparou num movimento pelo canto do olho, olhou  volta e viu um menino robusto perto da manta deles. 
Tinha a cara sardenta suja do que parecia ser gelado de chocolate e o cabelo cor de cenoura estava como se algum o tivesse mexido com uma batedeira de ovos. Estava 
a olhar atenta e fixamente para o Zachary e depois meteu os polegares sujos no cs dos cales de denim e disse: - O meu nome  Jimmy.
      O Zachary chegou-se mais a Marilee. - Ol - respondeu ela.__
      - Eu sou a Marilee e este  o meu amigo Zachary Lakota.
      O Jimmy franziu a cara redonda e coou a cabea. - Gostas de brincar no balanc? - perguntou ele ao Zachary. - Quero ir brincar para l, mas preciso de um 
menino para a outra ponta.
      O Zachary encostou-se ainda mais a Marilee. - Eu no gosto de balancs.
      O Jimmy olhou para o balanc, no cimo do declive. Depois de meter tanto um dedo no nariz que Marilee ficou preocupada com medo de que ele danificasse o crebro, 
disse: - Eu no salto, no te deixo bater no cho, nem nada. Prometo.
      Marilee olhou para o Zachary. - Eu preciso de ir l acima beber da fonte. Tambem podemos dar uma vista de olhos ao balanc enquanto l vamos. - Ps-se em p, 
tendo o cuidado de no dar a mo ao seu protegido. Tinha convivido o suficiente com os filhos da Gerry para saber que criar confuso  frente de outras crianas 
era muito m ideia. - Como  o teu apelido, Jimmy?
      - Bratt.
      Marilee abafou uma gargalhada de espanto, esperando que o nome no correspondesse  personalidade da criana1. Como ela sabia que aconteceria, o Zachary ps-se 
ao seu lado a caminhar em direco  zona do parque infantil. Uma vez no balanc, o Jimmy mostrou ao Zachary como aquilo funcionava e depois atirou-se para cima 
de uma das extremidades, agarrou-se  pega e disse: 
      - Bem, anda l, mido. Sobe.
      O Zachary assim fez, com relutncia, e da a minutos estava a sorrir, maravilhado. - Olha, Marilee! - gritou uma vez, largando a pega e levantando os braos. 
- No estou agarrado.
      - V l se cais! - avisou ela. - O teu pai d-me cabo da cabea.
      - No caio. J no sou um beb!
      Marilee foi sentar-se debaixo de uma rvore prxima, a observar. Depressa os rapazes abandonaram o balanc e passaram para os outros baloios. Quando se afastaram 
a correr, o Zachary olhou apenas uma vez para trs, para se certificar de que Marilee l continuava. Depois disso, embrenhou-se tanto na brincadeira que pareceu 
esquecer-se completamente dela.
      Sorrindo suavemente, ela experimentava um emaranhado confuso de emoes, sentindo-se alegre e triste ao mesmo tempo. Aquilo era uma espcie de adeus, ela sabia. 
O Zachary dependia muito dela. Agora estava a dar o seu primeiro pequeno passo sem ela.  medida que a sua confiana aumentasse, tornar-se-ia mais ousado e mais 
auto-suficiente, precisando cada vez menos dela. Os fortes instintos maternais que tinha desenvolvido para com o Zachary faziam-na lamentar a perda, mesmo antes 
de ela se dar.
      Endireitou a espinha e levantou os ombros. Tola. O amor tem sempre um preo. Quem sabia disso melhor do que ela? Percebia desde o princpio que permitir a 
si mesma amar o Zachary acabaria num desgosto e isto era s o princpio. Detestava pensar em como ia sentir-se quando o Joe comeasse a lev-lo para um centro de 
dia.
      Devastada era como ia sentir-se. Total e completamente devastada.
      Talvez isto fosse uma bno disfarada, decidiu ela. Uma separao gradual, com o Zachary a desacostumar-se um pouco mais dela a cada dia.
      

            1 A palavra inglesa "brat", que soa da mesma maneira que "Bratt", significa " malcriado. (N. do T.)
      
      
      Afinal, era inevitvel um adeus e, no fim, seria melhor. Durante um ms, quase no trabalhara. Se no se organizasse rapidamente, atrasar-se-ia no cumprimento 
do contrato e isso podia ser prejudicial para a sua carreira. O Zachary precisava da companhia de outras crianas e teria isso no centro de dia. Do mesmo modo que 
teria saudades dele, rapidamente se deixaria absorver pelo trabalho e a seu tempo ultrapassaria isso.
      
      No fim daquela mesma noite, Marilee tinha acabado de se despir para se deitar e ia tomar a sua caneca de chocolate quente que tomava todas as noites quando 
soou a campainha da porta, apanhando-a de surpresa e deixando o Boo, que acordou sobressaltado e se rebolava freneticamente no cho de madeira, espantado. Depois 
de farejar o ar, porm, o co ficou calmo e voltou a deitar-se, dizendo a Marilee mais claramente do que por palavras que o visitante era algum conhecido.
      Olhando para o relgio de parede, reparou que eram dez e vinte, muitssimo tarde para qualquer pessoa da sua famlia ir visit-la. Quem seria to tarde?
      Quando foi ver quem era e acendeu a luz de l de fora, viu pelos vidros que era Joe que estava no alpendre, com o Zachary a dormir nos seus braos. Apesar 
de estar irresistivelmente bonito, com uma camisa s riscas cinzentas e cor-de-rosa e umas calas de caqui, projectava um ar de tremendo desgaste, com o rosto moreno 
cansado e os olhos castanhos sem brilho.
      Soltou rapidamente o fecho de segurana e abriu a porta. - Joe? -  disse ela baixinho para no acordar a criana. - Que raio ests tu a fazer aqui? A tua me 
est outra vez doente?
      Ele abanou a caneca. - No, a me esta ptima, querida. Posso entrar? Preciso de falar contigo.
      Ela recuou para o deixar entrar. O odor a especiarias da sua loo para a barba entrou-lhe pelas narinas quando ele ultrapassou a soleira da porta. -  o Zachary? 
- perguntou ela, preocupada, tocando ao de leve com a mo na testa da criana adormecida para ver se tinha febre. - Ele parecia estar bem quando saste daqui esta 
tarde.
      - No, no. Ele est ptimo. De momento, pelo menos. Marilee no gostou do ar daquilo. - De momento?
      Joe meteu a cabea pela porta mais prxima. - Isto  um quarto? Gostava de o deitar, para podermos conversar sem o acordar.
      Ela tambm no gostou do ar daquilo. A exausto quase inexpressiva da sua voz dizia-lhe que ele vinha trazer ms notcias. - . - Fechou apressadamente a porta 
da frente e encaminhou-se para o quarto de hspedes. - Podes p-lo aqui - disse ela, passando para o outro lado da cama de casal a fim de puxar para trs a colcha.
      Depois de Joe deitar delicadamente a criana adormecida onde ela indicara, puxou outra vez a colcha para cima. Zachary balbuciou qualquer coisa no sono e encostou-lhe 
a bochecha a mo quando ela lhe aconchegou a colcha. Marilee acariciou-lhe a pele de beb com os ns dos dedos e depois alisou-lhe ao de leve o cabelo, com o corao 
a contorcer-se com um feroz sentido de proteco.
      - Oh, Joe - sussurrou ela. - Estou metida num grande sarilho com este rapazinho. Deixei que o meu amor por ele crescesse de mais.
      - Que bom - respondeu ele com voz rouca. - Conto com isso. Um frio percorreu-lhe a espinha. Endireitou-se para olhar para ele que estava do outro lado da cama, 
frustrada com as sombras que encobriam as feies.
      - Tens que ser to misterioso? Ests a assustar-me.
      - Acho que  contagioso - sussurrou ele roucamente. - Eu prprio estou assustado de morte. O meu menino est num grande sarilho, Marilee.
      - Sarilho? - repetiu ela, com o corao repentinamente acelerado. 
      Tirou do bolso das calas um sobrescrito de ofcio e entregou-lho.
      - L - disse ele, com raiva.
      Confusa, Marilee encaminhou-se para a cozinha, abrindo a carta pelo caminho. Sentou-se  mesa, pousando primeiro o olhar no timbre de sociedade de advogados 
da Califrnia. Quando comeou a ler o texto, o corao apertou-se-lhe.
      -  Oh, meu Deus. - Olhou para Joe, que estava em p no centro da cozinha a olhar como se sofresse de neurose da guerra. - Isto quer dizer o que eu penso?
      - Quer. Ela est a pedir ao tribunal que lhe devolva a custdia do filho.
      - Ela no pode fazer isso.
      - Oh, pode, sim. - Metendo as duas mos pelo cabelo j despenteado, riu-se baixinho, com um som irreal e amargo. - Estive ao telefone com o advogado que me 
tratou do divrcio durante metade da noite. Ele no s diz que ela pode voltar atrs, mas tambm que h uma possibilidade muito boa de o juiz decidir a favor dela.
      A carta caiu dos dedos repentinamente paralisados de Marilee e esvoaou para cima da mesa. Ps a mo no peito, sentindo-se como se fosse deitar fora o jantar. 
- Pensava que lhe tinhas pago uma quantidade de dinheiro para ficares com a custdia. Agora ela pode simplesmente aparecer a mudar de opinio sem te reembolsar? 
Isso no  justo.
      - O que posso dizer-te  que nunca passaste por um divrcio. H muito pouca coisa justa no processo todo, especialmente se estiveres a lidar com uma pessoa 
to vida de dinheiro como a Valerie. - Voltou a rir-se. - O nosso acordo no afirmava especificamente que eu estava a pagar-lhe o meu filho. Uma criana no pode 
ser comprada. Escapam-me agora os termos legais precisos, mas no essencial o dinheiro era referido como uma doao ps-judicial em espcie e s era mencionado numa 
adenda. Ambos entendamos que eu estava a compr-lo, mas isso no foi dito expressamente.
      - Ento ela pode, simplesmente, mudar de ideias?
      Ele ps uma mo atrs da cabea. - No ser to simples como isso. Tem que ir ao tribunal e, se eu contestar, o que certamente farei, ter que ir ao juiz. 
Mas, sim, a concluso  que ela pode mudar de ideias. "Uma mudana de sentimento", como lhe chama o meu advogado. Ela  a me biolgica e mesmo que ela tivesse assinado 
uma renncia aos seus direitos de me, a ligao entre me e filho  considerada quase sagrada em muitos estados. V-se acontecer constantemente a mesma coisa com 
as adopes, a me biolgica mudar de opinio passados uns meses e recuperar o filho.
      -  E o teu advogado no te avisou disso antes de lhe pagares aquele dinheiro todo?
      Ele suspirou e apoiou as mos nas ancas. - Avisou, sim. Eu sabia que era um jogo, mas era um jogo que eu tinha que jogar pelo Zachary.
      Olhando-lhe para a cara plida, Marilee quase chorou com pena dele. A dor nos seus olhos era terrvel, o desespero horroroso que a acompanhava, ainda pior. 
Estava para perder o filho e talvez no pudesse fazer nada para o evitar. Nem sequer imaginava como ele se sentiria.
      - Dada a situao em que o Zachary estava - disse ela com convico -, acho que foi melhor entrar no jogo do que no fazer nada. No tinhas opo vlida.
      - No. - Encolheu os ombros. - A minha esperana era de que a despesa de me levar outra vez a tribunal fosse dissuasora e que ela nunca fizesse isto. O que 
no imaginei foi que ela se tornasse to ntima de um rico senador estadual.
      - De um senador? Ela namora um poltico?
      Ele disse que sim com a cabea. - Quando recebi a notcia, esta tarde, contactei com um grande amigo meu de San Milagros que ainda est nos Bullets. O Mac 
diz que o nome do tipo  James Patterson. Lembro-me de ler acerca dele no jornal. Um homem de meia-idade. Barrigudo, a comear a ficar careca e cheio de massa. O 
Mac diz que, desde que a Valerie se ligou a ele, tem gasto dinheiro como se no houvesse amanh. Evidentemente, ele  o proverbial velhote rico que sustenta uma 
namorada jovem.
      - Ento, agora, ela pode dar-se ao luxo de te levar a tribunal para recuperar o Zachary? - Marilee fechou-se. - No fim, ela fica com tudo, praticamente o teu 
dinheiro todo e o teu filho. Que esperta. Na minha terra, chama-se a isso ser desleal, mas tenho a certeza de que a minha opinio no lhe tirar o sono.
      - Tomara eu estar a lidar com uma pessoa to justa como tu. - Olhou para o tecto. - Levei horas para assimilar isto mas continuo sem conseguir acreditar que 
ela esteja a faz-lo. No  por ter uma forte propenso maternal. Ter o Zachary s atrapalha o estilo dela.
      - Oh, Joe, tenho tanta pena - sussurrou Marilee. - Tanta, tanta pena.
      Quando ele voltou a falar, a voz dele soava to tensa como a corda de um violino. - O Mac acha que ela e o bom do senador esto a pensar em casar-se, que ela 
quer o Zachary de volta por causa das aparncias.
      - Aparncias? No estou a perceber.
      - A carreira do Patterson foi quase destruda h uns anos por um escndalo sexual que resultou num divrcio vexatrio da primeira mulher. A andropausa no seu 
pior, o homem mais velho a trocar o casamento de trinta anos por uma loura sensual e um carro desportivo.
      Marilee franziu o sobrolho.
      - Continuo sem ver como  que isso se relaciona com o Zachary.
      Ele encostou um ombro  parte lateral do aparador que estava encostado  parede. - Durante vrios meses, depois de a histria sair, Patterson era notcia importante, 
com fotografias dele e da namorada espampanante escarrapachadas na primeira pgina do jornal. Ele, ou se limpava ou perdia as eleies seguintes. Optou por se limpar. 
- Arqueou para ela uma sobrancelha. - Um caso clssico de branqueamento, se me ests a compreender.  frente das cmaras, portava-se bem. Largou o carro desportivo. 
Deixou de ser visto em pblico com mulheres promscuas. Mas, nos bastidores, continuava  procura da Fonte da Juventude, era um devasso.
      - Parece que a Valerie achou o companheiro perfeito.
      - Exactamente.  nova, bonita, gosta de se divertir, com o bnus adicional de ser uma espcie de celebridade e ter alguma classe. Com uma mulher como ela, 
o Patterson pode matar dois coelhos de uma cajadada, manter um aspecto limpo em pblico e divertir-se  vontade nos bastidores. Casar com a Valerie foi, sem dvida, 
o que o assessor de imagem lhe disse que fizesse, um modo de dourar a plula.
      - Com uma reputao como a da Valerie? Parece-me que ter o nome associado ao dela faria mais mal do que bem  imagem dele.
      Joe riu-se de modo zombeteiro. - Tu achas isso. Mas se for acompanhado da informao adequada e a imprensa pegar na histria, pode conseguir-se quase tudo. 
O Mac diz que o ngulo  "romance de conto de fadas" em letras garrafais, que  uma coisa que se vende sempre com facilidade. Senador de meia-idade com passado cheio 
de altos e baixos conhece mulher mais nova e extravagante. O amor muda a vida deles, bla, bla, bla. Juntos, viram uma nova pgina e tornam-se Senhor e Senhora Respeitabilidade.
      - Quem  que acredita em patranhas dessas?
      Ele fez um sorriso cruel. - O pblico americano. Est a ver-se constantemente. Camufla-se a verdade com enfeites suficientes e as pessoas acreditam em quase 
tudo.
      - Fazes-nos parecer uma molhada de imbecis ingnuos.
      - Nem tanto.  que somos inundados todos os dias pela realidade cruel..., no jornal, na televiso, na rdio e no cinema.  um alvio ouvir uma coisa boa, para 
variar e recebemo-la avidamente. Que h de melhor do que uma histria de amor na vida real?
      Ela reflectiu por um momento sobre aquilo. - E o Zachary completar a imagem de respeitabilidade e de felicidade conjugal?
      Ele encolheu os ombros e levantou as mos. - Se casar com um senador, ser extremamente importante para a Valerie parecer estabilizada e eliminar qualquer 
indcio de escndalo alguma vez associado ao seu nome. Quando fiquei com a custdia, a imprensa tratou o caso de todos os ngulos, sugerindo com frequncia que estava 
metida nas drogas e que eu pagara caro para afastar o meu filho dela. Se recuperar o Zachary, isso refutar tais rumores, j para no mencionar que um menino bonito 
agarrado  mo do Patterson dar bom aspecto.                          
      - Isso  horrvel! Bom aspecto?
      - Bem,  mera especulao.  isso que o Mac acha que esta a motiv-la. Conhecendo a Valerie, no entanto, eu diria que ele tem toda a razo.
      - Que tipo de pessoa  que faz uma coisa dessas? Usar uma criana para fins desses? Isso  desprezvel, Joe.
      - Ela no est a pensar com clareza, Marilee. H muito, muito tempo que no est. Mudou de posio, apoiando-se no outro p mantendo-se encostado ao aparador. 
- Quando no estou furioso com ela - coisa que por estes dias no tem sido frequente - tenho pena dela. Que triste desperdcio. Tinha tanta coisa a favor dela. Era 
esperta bela, ambiciosa. Agora, o vcio da droga tomou conta da vida dela e  caro como os diabos. Penso que j ter gasto a maior parte do dinheiro que eu larguei. 
Casar com um namorado rico salv-la-.
      - Para j - acrescentou ela. - Ao ritmo a que ela gasta dinheiro, o como--que-ele-se-chama... Patterson, disseste tu?... no ser rico por muito tempo.
      Marilee estava a comear a ficar com uma daquelas suas dores de cabea de tenso - uma dor brutal que comeava por cima do olho esquerdo e parecia um picador 
de gelo a meter-se-lhe no crebro. Na esperana de a evitar antes que piorasse, foi ao armrio que ficava perto do fogo buscar ibuprofeno e, depois, ao lavatrio, 
buscar gua.
      Quando voltava para a sua cadeira, disse: - J pensaste em deixar o Zachary depor? Agora ele est muito mais disponvel para falar e podia ser interrogado 
pelo juiz  porta fechada. Mesmo que lhe contasse apenas uma parte das coisas que nos contou a ns, a Valerie nunca teria a mnima possibilidade de recuperar a custdia.
      -  verdade. Mas que  que isso faria ao Zachary? - Joe abanou a cabea. - Esta noite telefonei ao mdico dele e tive uma longa conversa franca com ele. Excepto 
como ltimo recurso, ele  fortemente contra o envolvimento do Zachary nisto. De facto, est preocupado at com a tomada de conhecimento disto pelo Zachary. S agora 
 que o mido comea a adquirir o seu equilbrio emocional. Ficara aterrorizado se descobrir que a me anda a tentar recuper-lo. O mdico est preocupado com a 
possibilidade de isso o fazer cair em estado de pnico.
      Ela recordou-se da expresso de pnico do Zachary quando pensava em ser devolvido  me. - Acho que essa  uma forte possibilidade.
      - Se houver alguma maneira de contornar isso, no quero correr riscos.
Marilee continuou a imaginar o Zachary, assustado e sozinho dentro do armrio escuro.
- Ento que raio vais tu fazer? - perguntou com a dor de cabea a piorar a cada instante. - O teu advogado deu-te alguma esperana? No podemos permitir que ela 
o leve, simplesmente, Joe. Viver naquelas condies destrura o pobre mido!
      -  por isso que estou aqui... para conversar contigo acerca do que se pode fazer.
      0 tique do msculo do queixo dele e o brilho determinado que lhe apareceu de repente nos olhos eram sinal de que no ia gostar do que ele estava para dizer.
      Evidentemente, Joe tambm tinha bastante certeza de que ela no ia gostar. Baixou o olhar para o cho, raspou a superfcie polida do cho com a ponta do sapato 
e depois coou-se ao lado do nariz, tudo hbitos seus de quando ficava nervoso. - Eu... no sei exactamente como comear - confessou numa voz grave -, portanto, 
vou directo ao assunto.
      Marilee preparou-se.
      Ele olhou para cima. - O meu advogado diz que as minhas possibilidades em tribunal sero duas, talvez trs vezes melhores se j no for um pai sozinho quando 
me apresentar perante o juiz.
      Ela contornou cautelosamente aquilo, com a mente a furtar-se s implicaes bvias.
      - Se a minha mulher fosse uma me que ficasse em casa a tomar conta do meu filho, as minhas possibilidades seriam ainda melhores - acrescentou ele bruscamente.
      Um pesado silncio caiu na cozinha, quebrado apenas pelo tiquetaque rtmico do relgio de parede e pelo ressonar suave do Boo que vinha de debaixo da mesa.
      - Que ficasse em casa? - repetiu ela, com uma voz que parecia um guincho.
      - Faz todo o sentido. Como as coisas esto actualmente, eu estou no trabalho durante a maior parte de cada dia da semana e o Zachary tem que ficar com algum. 
A Valerie argumentar que pode ser uma me a tempo inteiro e prestar-lhe melhores cuidados. A minha melhor defesa ser um ambiente em casa, para o Zachary, que seja 
praticamente imaculado.
      - Nada  imaculado.
      -  uma maneira de dizer. No te aborreas, Marilee. Tu perguntaste e eu estou s a dizer-te o que o advogado disse. Ela teve um impulso histrico de se rir, 
mas teve medo de que lhe rebentasse a cabea com a dor, se o fizesse. - No podes estar a sugerir o que penso que ests.
      Quando ele no disse nada, ela fechou os punhos. - Foi por isso que c vieste to tarde; por isso  que no podias deixar para amanh, porque querias discutir 
o casamento?                                                     
      Ele comeou a falar e, depois, ficou em silncio, com o olhar fixo no dela durante um longo e interminvel momento. - Est bem - disse ele, finalmente. - Queres 
que v direito ao assunto, sem rodeios? Casamento  o que estou a sugerir. Que diabo, no posso fazer melhor. Que tal? Estou a pedir. Queres que me ponha de joelhos?
Esfregando a tmpora que latejava com as pontas dos dedos a tremer, ela fechou os olhos. - No me atires isto para cima. Por favor, Joe. Pra antes de comeares 
e, por favor, no faas isso.
      - Deus sabe como eu desejava ter uma opo. Infelizmente, no tenho. Tu o disseste, no princpio. No posso deix-la simplesmente lev-lo. Ela destru-lo-, 
se eu o fizer.
      - Oh, meu Deus!
      - Querida, sabes que nunca te pressionaria desta maneira se tivesse uma opo. Respeitei as condies do nosso acordo at agora, no respeitei?
      - Sim - sussurrou ela.
      - Mas quando te fiz essa promessa, nunca num milho de anos previ isto. Agora, estou confrontado com uma situao mais importante do que ns os dois. Isto 
no tem que ver contigo. No tem que ver comigo. No tem que ver connosco. Tem que ver com um menino de quatro anos cuja vida est para ser virada do avesso e tu 
s a nica pessoa na Terra que pode evitar isso. Que querias que eu fizesse? Que ignorasse isso? Que no discutisse isto contigo? H uma soluo possvel para isto. 
Que espcie de pai seria eu se, pelo menos, no fizesse uma tentativa?
      O pulso de Marilee comeava a acelerar e sentia a traqueia como se fosse fechar-se.
      - Pensas que passei as noites acordado a congeminar modos de conseguir que casasses comigo? - perguntou ele, incrdulo. - Deixaram-me cair isto em cima, vindo 
do cu. Estou a lutar para salvar o meu filho, que diabo, e tu s o meu nico trunfo. - Bufou de frustrao. - O mdico do Zachary est pronto para fazer um depoimento 
a descrever o estado do Zachary quando o viu pela primeira vez e atestar a rapidez com que melhorou desde que comeou a ficar contigo. Pensa s no bem que um relatrio 
desses parecer a um juiz, especialmente se souber que somos casados e felizes e que esta situao ser permanente.
      - Casados e felizes? Tu e eu?
      - No estou a dizer que vai ser fcil, querida.
      - O mais provvel  ser impossvel.
      - Eu sei que tu achas isso. Mas sabes que mais? Acho que ns os dois conseguimos vencer seja o que for desde que o enfrentemos juntos. Eu vou contigo ao aconselhamento. 
Resolveremos os problemas um de cada vez, juntos. Que diabo, se for preciso arranjamos um mdico que te receite uns tranquilizantes para te fazerem ultrapassar os 
momentos difceis.
      Agachou-se  frente dela e amparou-lhe a cara com as mos. - Posso dar-te bebs, querida. Bebs teus. - Perante o olhar de perturbao dela,  recuou. - No 
logo, claro. Tudo a seu tempo... quando te sentires pronta para esse tipo de coisa. Vamos devagar. Um passo de cada vez. Amo-te o suficiente para esperar e acho 
que tu me amas o suficiente para tentares com todas as tuas foras. Muito mais do que as que a maioria das pessoas tem.
      - A maioria das pessoas no tem os meus complexos - recordou-lhe ela.
      - E  exactamente isso que so, complexos. Finalmente, podemos trabalhar para os ultrapassar.
      Marilee daria praticamente tudo para acreditar que era to simples como isso.
      - Uma vez que ultrapassemos essas dificuldades, podemos comear a trabalhar para ter filhos. Uma ninhada deles, se quiseres. O Zachary estar a salvo da Valerie 
e teremos a famlia com que sempre sonhaste. - Meteu-lhe os dedos no cabelo, aproximando o rosto do dela, a implorar com os olhos. - D-me meia oportunidade. Por 
favor, no tens confiana em mim para, pelo menos, me deixares tentar?
      - No posso, Joe. Eu sei que no entendes, mas no posso. Fixou-a com o olhar. - Essa expresso "no posso" no existe. Tu podes. Lembras-te de quando eras 
pequena e eu te ensinei a patinar? Lembras-te de como contavas que eu te mantivesse em segurana, que no te deixasse magoares-te? Porque  que confiavas tanto em 
mim?
      - Porque sabia como tu me amavas - sussurrou, aquela confisso sendo uma tortura porque as recordaes faziam-na sentir-se muito envergonhada.
      - Eu ainda te amo da mesma maneira - garantiu-lhe. - Confia outra vez em mim como naquele tempo... s mais uma vez. Eu fao-te ultrapassar isto, juro por Deus, 
e nunca te arrependers. Nem por um momento.
      Agora, ela mal conseguia v-lo atravs do embaciado das lgrimas.
      - No posso - sussurrou, feita em farrapos. - No posso. E se me amas..., se realmente me amas, Joe... no me pedirs isso. 
      - Ele tirou-lhe as mos da cara, ainda a fix-la com o olhar enquanto ela se punha de p. Durante um longo momento, ficou ali a olhar para ela.
      - Bem, acho que fica assim - disse ele em surdina.
      Ela fechou os olhos e disse que sim com a cabea. - Desculpa, eu quero ajudar. Quero mesmo. Se precisares de dinheiro, tenho cerca de setenta mil dlares de 
poupanas.  teu. Basta dizeres. Se precisares de mais do que isso, posso fazer uma segunda hipoteca sobre a casa. Farei qualquer coisa. Qualquer coisa, Joe. Diz 
e  tua.                                                                                                                             
      Durante vrios segundos, ele no disse nada. - Por mais que aprecie a tua generosa oferta, querida, no  do teu dinheiro que precise.
      Dito isso, virou-se e saiu da cozinha, ressoando os seus passes no cho de madeira pesada enquanto percorria o corredor. Os ecos surdos faziam a casa parecer 
muito vazia e fria. Abraou-se a si mesma para evitar o frio.
      De repente, viu-se a trinta anos de distncia - sozinha na sua cozinha, a altas horas da noite, abraada  prpria cintura e a olhar para o cho. Sem marido, 
sem filhos, sem netos. Apenas uma sucesso interminvel de noites solitrias.
      Joe estava a oferecer-lhe a possibilidade de ter uma vida. Uma verdadeira vida. No era aquilo que tinha que concordar em aceitar por ter medo de correr riscos. 
No era o que era tido como normal. Ele podia dar-lhe tudo o que ela ansiava - um marido que a amasse, uma casa cheia de crianas, pessoas que a amassem quando envelhecesse. 
Uma famlia.
      Oh, que falta lhe fazia a coragem de ir atrs dele, de agarrar aquela oportunidade antes que a perdesse. Joe. Amava-o tanto. Como era possvel que a nica 
coisa que podia faz-la feliz tambm fosse a nica coisa que no podia ter?
      Ouviu-o entrar no quarto para ir buscar o filho. Depois, a porta da frente abriu-se e fechou-se, com um clique suave e agoirento do ferrolho. Silncio. A dormir 
debaixo da mesa, o Boo continuava a ressonar, completamente alheado enquanto ela soluava baixinho com a cara escondida nas mos.
      Joe. Estava a ir-se embora. Outra vez. E, desta vez, duvidava que alguma vez voltasse. O pior  que no podia critic-lo.

    Captulo Oito
      
      
      J sem se preocupar com o clice de shots, Joe deitava directamente da garrafa, a zoada do usque a bater no gelo parecendo dizer Idiota, idiota, idiota.
      Tinha feito umas proezas estpidas na sua vida, mas a daquela noite levava a palma. De manh, ia perguntar a si mesmo que diabo lhe tinha dado. No se podia 
esquecer de como os olhos de Marilee tinham ficado enormes quando percebeu que estava a sugerir-lhe que casasse com ele.
      De olhar fixo no copo, agitou rapidamente o usque antes de o engolir. Com os olhos a chorar por causa do ardor, serviu-se de mais, determinado a atingir um 
estado de entorpecimento total. Ficar a meio caminho, naquela noite, no dava. Com os pensamentos em rebolio como ainda estavam, nunca conseguiria pregar olhos 
a menos que estivesse bbedo. Se o Zachary estava em segurana, metido na cama, porque no? Afinal, no  que fosse habitual. A camada de p que a garrafa de usque 
tinha era testemunha disso. Desde que ficara com a custdia do filho, raramente bebia sequer um copo de vinho ao jantar.
      Suspirou e saiu com cuidado exagerado do bar embutido para uma janela onde ficou a olhar para a escurido. quela hora tardia, a maioria dos vizinhos j tinha 
ido para a cama e, se fosse esperto, seguiria o exemplo deles. J passava bastante das onze e ainda que no dia seguinte fosse sbado, um dos seus dias de descanso, 
o Zachary levantava-se e punha-se a correr s sete.
      Seria que a Marilee ainda continuaria a tomar conta do Zachary? Se lhe dissesse que se pusesse a andar, Joe achava que no a criticaria. Tinha feito um acordo 
e ele tinha dado a sua palavra de que o cumpriria.
      S fizera coisas insensatas, estpidas e completamente loucas. J teria sido suficientemente mau pedir-lhe que casasse com ele, mas porqu, meu Deus, propor-lhe 
uma ninhada de bebs quando estava naquilo?
      Fechou os olhos, desejando poder retirar todas as palavras que lhe tinha dito.  verdade que estava em jogo o futuro do Zachary, e Joe estava desesperado. 
Mas isso no era problema da Marilee. Tinha sido maravilhosa at agora, tomando conta do Zachary com riscos emocionais para ela que no eram pequenos - amando-o, 
fazendo-o sentir-se seguro, sendo sua confidente. Joe sabia muitssimo bem que ela tinha posto de lado o trabalho h muito mais de um ms, dedicando quase inteiramente 
o seu tempo ao filho dele. O Zachary nem sequer era filho dela. Como  que podia, razoavelmente, pedir-lhe ainda mais?
      A resposta era que no podia.
      Joe virou as costas  janela e olhou fixamente para o telefone, sabendo que devia um pedido de desculpa, mas incerto quanto ao modo de o exprimir. Desculpa 
ser um idiota de um egosta? Sim, era um bom comeo.
      Nessa altura, tocou a campainha da porta, surpreendendo-o tanto que deu um salto e entornou um pouco de usque na manga da camisa, enrolada para cima. Quem 
ser? A caminho da sala de estar, poisou o copo no bar. Quando chegou  entrada, acendeu a luz exterior e abriu a porta esculpida de mogno.
      Parecendo uma vagabunda, com um par de calas de ganga desbotadas e uma blusa verde muito grande, com manchas de tinta  frente, Marilee estava em cima do 
seu tapete de entrada novinho em folha. Emolduradas por um emaranhado natural de caracis com laivos de platina, as faces estavam brancas e os grandes olhos azuis 
levantaram-se, cintilantes, para ele.
      - Joe... - disse ela, trmula -, precisava de falar contigo.
      Era a ltima pessoa na Terra que esperava ver. - Eu ia telefonar-te.
      - Ias?
      Uma vez que ela no fazia meno de entrar, ele agarrou-lhe delicadamente no cotovelo e encaminhou-a para dentro. - Sim, ia. No tinha nada que te tratar injustamente 
como tratei nem tinha que estar  espera que me safasses e queria pedir desculpa.
      Quando fechou a porta, ela olhou  sua volta sem -vontade.
      - Telefonei  Gerry para me dar o teu endereo.
      Joe acenou com a cabea, perguntando a si mesmo se ela estava apenas a explicar como tinha descoberto a sua casa ou se estava a tomar a precauo adicional 
de o fazer tomar conhecimento que a irm sabia onde ela estava. A segunda possibilidade quase lhe partiu o corao. - Boa ideia - conseguiu dizer em tom ligeiro. 
- A esta hora  imprudente andares por a sem ningum saber aonde foste.
      Ela entrelaou os dedos, torceu as mos e fez estalar os nos dos dedos. Estava mais contrada do que uma mola comprimida. 
      - Querida, aqui ests em perfeita segurana.
      - Ah; eu sei. - Tocou com a ponta da lngua na concavidade por cima do lbio. Os finos plos loiros que ali crescem reluziam  luz da entrada como uma pequena 
quantidade de p mgico na sua pele imaculada.
       - No ... na realidade, no estou... - A voz sumiu-se-lhe e ele voltou a fix-la com aquele olhar nervoso e de olhos muito abertos. - Cheira muito a lcool, 
aqui. Estiveste a beber?
      - Ah, sim. Tomei uns copos, sim. - Esfregou a boca  manga da camisa. - Tambm entornei um pouco em cima de mim.
      - Ests... bbedo?
      - No exactamente bbedo. - Disparou um sorriso que esperava que lhe sossegasse a mente e fez o melhor que pde para parecer inofensivo, que no era um dos 
seus talentos. - Apenas me sinto alegre,  tudo. No fico briguento, se  isso que te preocupa. - Ela no pareceu tranquilizada. - Marilee, queria mesmo pedir-te 
desculpa.  ptimo teres vindo c para poder faz-lo pessoalmente. - Subitamente nervoso ele prprio, Joe coou a parte de trs do pescoo. - Acerca daquela coisa 
do casamento. Pisei o risco ao sugerir-te uma coisa daquelas e quero que saibas que, se no fosse pelo Zachary, nunca o teria feito. O que se passa  que estou desesperado, 
sabes?
      Mal acabou de falar, apeteceu-lhe dar um pontap a si mesmo. Um homem no dizia a mulher que amava que lhe tinha proposto casamento apenas porque estava desesperado. 
Talvez estivesse um pouco bbedo. Se fosse esperto, adiaria aquela conversa para o dia seguinte. No era grande problema. Naquele momento, ela estava na estrada 
da sua casa.
      Ela ergueu os ombros, levantou o queixo e prendeu um flego tonificante, os seus modos fazendo lembrar-lhe algum que estivesse a reunir coragem para se atirar 
a um abismo. - Vim c falar contigo acerca disso, Joe. Eu... depois de sares... fiquei a pensar e decidi que, realmente, no  m ideia.
      - O qu?
      Ela brincava nervosamente com o colarinho aberto da blusa. - Casarmo-nos. De qualquer modo, achei que devamos falar acerca disso.
      Ele inclinou-se ligeiramente para a frente, bastante seguro de que bebida estava a toldar-lhe o crebro. - Repete l isso.
      Numa voz ligeiramente mais alta, ela disse: - Decidi que talvez no seja m ideia.  brilhante, de facto. Como salientaste,  a soluo perfeita para o Zachary 
e, na realidade, eu quero ajudar de todas as maneiras que puder. Partir-me-ia o corao ver a Valerie recuperar a custdia dele. - Lambeu outra vez a boca nervosamente 
e voltou a respirar fundo. - Tambm no posso negar que quero um beb. Se pudesse ter um filho como o Zachary... um menino meu mesmo, exactamente como ele... seria 
a mulher mais feliz do mundo.                                                
      Ih, sim. Ele era brilhante e ela queria ter um beb dele? Mal podia acreditar nos seus ouvidos. Ao mesmo tempo, teve de resistir a um impulso de a agarrar, 
de correr com ela para a superfcie macia mais prxima e comear logo a trabalhar no projecto, antes que ela mudasse de ideias.
      Isto era o seu sonho mais caro que se tornava realidade. A Marilee a concordar em tornar-se sua mulher? Talvez tivesse bebido a ponto de ficar em estado de 
oblvio, afinal, e estivesse a sonhar com aquilo tudo.
      - Querida, ests... - Joe interrompeu-se, meio com medo de concluir a pergunta. - Importas-te de me dar um belisco? Ou estou mais bbedo do que pensava ou 
a ter uma alucinao.
      - No ests a ter alucinao nenhuma.
      - As alucinaes dizem sempre isso.
      Ela rolou os olhos e riu-se baixinho. Depois, esticou-se e beliscou-lhe o brao. - Satisfeito?
      Olhou para ela com ar pensativo. - No podes estar a falar a srio.
      - To a srio que quero discutir o assunto contigo. Se a proposta ainda estiver de p, est feito.
      Se ainda estiver de p? Se dependesse dele - coisa que sabia que estava fora de questo -, ela estaria grvida do Zachary Nmero Dois em menos de uma hora. 
- Oh, claro que a proposta est de p. - Com medo de que ela pudesse fugir, esteve muito tentado a agarr-la pelo pulso. Em vez disso, levou-a gentilmente pelo brao. 
- Vem para a sala de estar, onde podemos estar mais confortveis a falar. Vou arranjar-te uma bebida. - Um trplice. Quanto mais descontrada estivesse, menos probabilidades 
haveria de ficar de repente demasiado assustada para se casar.
      - Oh, no, obrigado. No bebo porque tenho que conduzir para regressar a casa.
      Estava to tensa que quase se lhe podiam dedilhar notas nos nervo.
      - S um no faz mal, pois no?
      - Na realmente, com excepo de um copo de vinho em ocasies especiais, raramente bebo. Outro complexo, acho eu. No gosto de me sentir aturdida.
      Joe achou que no podia critic-la. Ficar aturdida tinha-lhe custa caro num dado momento da sua vida.
      Uma vez na sala de estar, encaminhou-a para o sof de pele e ajudou-a a sentar-se e depois foi buscar a sua bebida antes de se sentar na otomana  frente dela.
      Marilee ficou a olhar para o usque durante um longo momento. Joe pensou em pr o copo de parte, mas depois abandonou essa ideia. Nunca ficara com mau feitio 
quando estivera bbedo e tinha a certeza absoluta de que no lhe dava para violentar as mulheres. Se ela ainda no sabia, era uma boa altura de ficar a saber.
      - Eu...- Dobrou as mos, os ns dos dedos, pontiagudos, a ficarem brancos por causa da fora que ela estava a fazer. - Como disse, estive a pensar na tua proposta. 
Acho que talvez sejamos capazes de fazer um casamento funcionar se procedermos em grande medida como temos conseguido at agora. Como um arranjo temporrio, quero 
eu dizer.
      Aquilo p-lo de rastos. - Que  que queres dizer com "como um arranjo temporrio"?
      - Bem, sabes... suficientemente prolongado para resolveres o problema da custdia. Um par de anos, talvez? - O olhar dela fugiu do dele. Franziu ligeiramente 
o sobrolho quando olhou para as paredes praticamente nuas da sala de estar. - Uma vez que h um historial que prova que o Zachary esteve bem no ambiente caseiro 
que lhe proporcionaste, no creio que a Valerie tenha qualquer hiptese em tribunal. Que juiz  que ia causar uma perturbao desnecessria na vida da criana se 
ela  feliz a viver contigo?
      Joe percebeu que comeava a soar como um eco, mas parecia que no conseguia travar-se a si mesmo: - Disseste um par de anos?
      Brincando com o bolso da frente da blusa, disse que sim com a cabea. - Eu sei que no  uma maneira nada convencional de abordar as coisas. Mas dadas as minhas 
dificuldades, no posso assumir o compromisso doutra maneira e, se eu no o assumir, que acontecer ao Zachary? - Os seus grandes olhos azuis ficaram hmidos, fazendo-o 
sentir-se como se estivesse a afogar-se em veludo encharcado. - Depois de te teres ido embora, no consegui deixar de pensar nele. Fiquei a recordar aquele dia em 
que me falou na me e em como o aterrorizava a possibilidade de voltar para ela. Ele  to pequenino e indefeso, Joe. Que gnero de pessoa poderia virar-lhe as costas? 
      Joe amava Marilee Nelson h tantos anos que quase se tinha esquecido de quando se tinha perdido de amores por ela mas nunca a amara mais do que agora. No 
conseguia acreditar que ela tivesse arranjado a coragem para fazer aquilo.
      - Nunca devia ter-te pedido ajuda - disse ele, a voz a ficar baixa, com arrependimento. - O problema no  teu e foi errado pr-to ao colo.
      Ela abanou a cabea. - No, no. Por favor, no penses assim. - O olhar dela estava extremamente brilhante. - No  um gesto totalmente altrusta, afinal. 
H a possibilidade de sair disto com um beb. No  que a minha proposta dependa de concordares com essa parte, e nota, por favor, que, se concordares, estou perfeitamente 
disponvel para assinar alguma espcie de contrato que nos proteja aos dois depois do divrcio.
      Depois do que tinha passado com Valerie, Joe teria mandado qualquer mulher passear se lhe pedisse um beb e logo a seguir falasse divrcio. Mas Marilee no 
era mais uma mulher e, naquele momento ele estava to comovido com a preocupao dela com o Zachary que acharia difcil negar-lhe fosse o que fosse. Alm disso, 
no acreditava que, na realidade, ela alguma vez obtivesse um divorcio, de qualquer modo. Naquele momento, estava extremamente nervosa e muito emocionada. Obviamente, 
no tinha perdido tempo a pensar realmente naquilo. O Zachary j estava preso a ela, e os sentimentos da criana para com ela s se intensificariam se viesse a consider-la 
sua me. Quando tivessem passado os dois anos, ela no teria coragem para se ir embora. Escudado nessa percepo, reprimiu um terno sorriso enquanto lhe estudava 
o rosto plido. Amava-a tanto que doa. Era to querida, aquela mulher, e s um reles canalha pensaria em aceitar a proposta dela. Era o mesmo que atra-la a uma 
armadilha e fechar o alapo.
      Achou-se um reles canalha. Detestava-se um pouco a si mesmo por isso, mas ali estava, era uma feia verdade acerca dele que no podia negar. Queria-a e o resultado 
era, justo ou no, nobre ou no, que havia de a apanhar de qualquer maneira. Para ter aquele beb que tanto queria, teria de ter intimidade fsica com ele, o que 
eliminaria o nico obstculo que se interpunha a eles, a averso que tinha ao sexo. No tinha a mnima dvida de que podia transformar isso numa experincia agradvel 
para ela, numa experincia que ela quereria repetir depois de ter descoberto que no tinha nada a recear.
      Comeando a entusiasmar-se mais com a ideia de um... arranjo temporrio... a cada momento, Joe bebeu lentamente um gole da sua bebida, saboreando o paladar 
do usque a rolar-lhe por cima da lngua. Talvez a bebedeira estivesse a toldar-lhe o esprito, mas no conseguia ver uma nica boa razo para no aceitar.
      - Querida, tens a certeza absoluta de que queres fazer isso?
      - Sim, sim.
      Fez um compasso de espera, dando-lhe um momento para mudar de ideias. Uma vez que no mudou, disse: - Ento, querida, est decidido.
      - Assim? - Os olhos dela arregalaram-se. - Entendes que no estou a sugerir um casamento normal. Acho que tomaramos as refeies juntos e coisas assim, mas, 
para alm disso, eu manter-me-ia no meu canto durante a maior parte do tempo, trabalhando  noite enquanto tu estivesses em casa a tomar conta do Zachary e dormindo 
no meu quarto. A minha casa  bastante grande, pelo que provavelmente no te veria muito.
      Para obter o beb que queria, v-lo-ia o suficiente para servir os seus propsitos. Que estava ela a pensar? Que podiam fazer aquilo com um aperto de mos 
casual? Franziu ligeiramente o sobrolho. Com certeza que nem a Marilee era to ingnua como isso. Poucas mulheres engravidavam imediatamente. Talvez tivesse de fazer 
amor com ela uma meia-dzia de vezes - que diabo, podiam tentar todas as noites durante seis meses seguidos - antes que, finalmente, ela tivesse uma anlise positiva.
      Joe queria tanto casar com ela que detestava procurar falhas na proposta dela, mas amando-a como a amava havia preocupaes prticas que no podia ignorar.
      - Como  que tencionas controlar os teus ataques de pnico? - perguntou-lhe.
      Ela encolheu os ombros como se isso no fosse, realmente, uma preocupao. - Espero no ter nenhum. Desde aquela primeira tarde, j estive vrias vezes contigo 
sem problema nenhum.
      No tinha feito amor com ela nenhuma dessas vezes. Joe conteve-se e no salientou isso. Se fosse delicado e paciente, podia seguramente ajud-la a ultrapassar 
a prudncia que tinha em relao a ele.
      - Porqu arranjar sarilhos? - disse ela com vivacidade. - At agora, estive bem contigo. No estive? Se continuarmos da mesma maneira, porque  que hei-de 
comear a ter problemas de repente?
       verdade - aceitou ele. - Porqu arranjar sarilhos? Se surgirem problemas, tratamos deles  medida que aparecerem.
      - Ento, est feito? - Sorriu, incrdula. - Na verdade, no te importas de trabalhar comigo para que eu tenha um beb?
      - Importar-me? Mari, adorava dar-te um beb.
      As faces dela coraram, ficando com uma bela cor rosada. - Oh,  a srio? Pensei que com certeza irias mostrar-te relutante a essa ideia. - Os olhos dela brilharam 
de felicidade. - A maioria dos homens ter-me-ia mandado passear. - Abraou-se a si mesma, claramente to excitada que mal conseguia conter-se. - Oh, Joe... um beb? 
Nem posso acreditar!
      Ele tambm no, na realidade. A viso de Marilee nos seus braos enchia-lhe a mente com detalhes que, decididamente, tinham de ser induzidos pelo lcool porque 
os seus pensamentos fugiram rapidamente para renda preta e sexo escaldante, coisa que no estaria no programa durante muito, muito tempo.                        
      - Onde  que o faremos - perguntou ela.
      Prestes a engolir mais um gole de usque, quase se engasgou com a pergunta. Engoliu e olhou para ela com os olhos a lacrimejar. Ela no podia estar a perguntar 
o que ele pensava que estava.
      - No me importo, de uma maneira ou doutra, desde que o faamos como deve ser - acrescentou ela, dando uma risada nervosa Se penso muito nisso, receio acobardar-me.
      Decididamente, Joe no queria isso. Que diabo! Quanto ao local - amava-a tanto e queria-a de tal maneira que o cho comeava a parecer-lhe bastante bem. Espera. 
Estava um pouco bbedo, mas no era estpido. Havia algo que no estava bem naquilo tudo.
      Depois de lhe estudar as doces feies e os olhos azuis sem maldade, sorriu ligeiramente. - Querida, vamos voltar atrs um minuto. De que  que estamos a falar 
exactamente?
      Ela dirigiu-lhe um olhar perplexo. - De casar, claro.
      O sorriso dele abriu-se. - Claro. No sei onde tinha a cabea.
      Ela friccionou as mos como se estivessem frias. - Reno  o nico local que conheo onde podemos faz-lo imediatamente. - Franziu a testa numa expresso interrogativa. 
-  imperativo que o faamos depressa, no ? No s por minha causa. Com a Valerie e aquela questo da custdia a penderem sobre a nossa cabea, acho que precisamos 
de resolver o teu estatuto marital o mais depressa possvel.
      - Absolutamente. Quanto mais cedo, melhor - concordou ele. - Doutro modo, quando chegar ao tribunal, pode parecer que nos casamos  ltima hora simplesmente 
para virar o juiz a meu favor. E tens razo. Reno  a soluo perfeita. - Embora se tivesse contido e no tivesse exprimido a ideia em voz alta, Joe esperava sinceramente 
que ela concordasse em casar-se com ele pela igreja, mais tarde. - No Nevada no encontraremos burocracia nem haver perodo de espera.
      -  exactamente o que eu acho.
      - Quando  que queres ir? - perguntou ele.
      - Provavelmente, consigo estar pronta para partir amanh s nove da manh. Se quiseres aproveitar este fim-de-semana, a tens.
      - O fim-de-semana  decididamente melhor para mim. Assim, no falto nunca ao trabalho. - Pensou por um momento. - Provavelmente, consigo estar pronto para 
partir s nove.
      - O que  que fazemos com o Zachary?
      Se a Senhora Rasmussen concordar em dar uma ajuda em casa da minha me, posso deix-lo l. 
      - No ser demasiado para a tua me tomar conta dele? 
      -  O Doutor Petrie diz que, desde que a Senhora Rasmussen l esteja a fazer a maior parte do trabalho a srio, a me pode t-lo com mais frequncia e durante 
perodos mais longos. O Zachary no parece ter da Sarah desde que a minha me esteja por perto, portanto, tambm no h problema por esse lado. 
      -  Dou de comer e de beber ao Boo antes de partirmos e ele pode ficar no ptio durante o dia. Estava a pensar que podamos fazer uma rpida viagem de ida e 
volta, partindo amanh de manh e regressando amanh  noite.
      Joe quase concordou, mas depois ocorreu-lhe que perderia a oportunidade de estar sozinho com ela uma noite inteira. - Na realidade, dez horas de conduo  
um pouco de mais para um dia, isto sem contar com o tempo que pode demorar a fazer tudo quando l estivermos. Passamos l a noite e voltamos para casa cedo no domingo.
      A avaliar pela expresso que lhe atravessou o rosto, ela no tinha nada a certeza de que esse plano lhe agradasse.
      - Se vamos fazer isto, tens que confiar em mim, Marilee.
      - Est bem - disse ela com um aceno de cabea determinado. - No me tinha ocorrido passar l a noite, mais nada. - Limpou as palmas das mos nos joelhos das 
calas de ganga. - Arranjamos quartos separados, claro.
      Parecia to atrapalhada com a ideia de partilhar um quarto com ele que fez Joe reflectir. Tinha a enervante sensao de que estava a deixar escapar alguma 
coisa. - Querida, tens a certeza absoluta de que queres mesmo fazer isto? O casamento  um grande passo.
      Ela disse decididamente que sim com a cabea. - Tenho a certeza. O facto de nos casarmos salvaguardar o Zachary, que , claro, a minha principal preocupao, 
e ter o meu beb ser a realizao de um sonho.
      Ele descontraiu-se ligeiramente, agitando os restos do seu usque. Tinha-lhe dado a oportunidade de recuar. Ela tinha vinte e oito anos e conhecia a sua mente. 
Ele no teria de lhe fazer a lista dos prs e dos contras nem que lhe apontar todos os imprevistos. Levou o copo aos lbios para terminar a bebida.
      - A nica coisa que me surpreende  que tu queiras - prosseguiu ela.  -  A maioria dos homens recusaria a simples meno de inseminao artificial.
      Joe engasgou-se. O usque subiu-lhe ao nariz e entrou-lhe na traqueia. Fogo. Marilee levantou-se de um salto e bateu-lhe nas costas.
      - Ests bem? 
      Ele no estava bem. Meu Deus. - Inseminao artificial? - resmungou.
      - A enfermeira da clnica chama-lhe "procriao criativa". D-lhe um ar muito mais bonito. - A voz tremeu-lhe ligeiramente. -  Daqui em diante, podemos usar 
essa expresso, se quiseres.                          
      Podia chamar-lhe o que quisesse. Fosse qual fosse o nome, significa problemas para a relao deles. Ela no tinha a inteno de resolver os problemas dela 
e acabar por ter um casamento normal. - Que clnica?
      - A clnica de fertilidade de Bedford. Eu... fui l no ano passado ver as possibilidades.                                                                  
      Joe sentiu-se como se o seu crebro tivesse passado por um processo de congelao rpida. Olhou fixamente para ela, tentando agarrar a situao e aceitar as 
implicaes.
      - Nunca me meti muito a fundo naquilo - prosseguiu ela. - Um banco de esperma parecia-me to... no sei... duvidoso, suponho que  o termo. Escolher o pai 
do meu filho por computador.
      - Por computador?
      - Sim. Sentamo-nos e lemos perfis de dadores disponveis no computador. - As faces coraram-lhe. - Caractersticas fsicas, pormenores pessoais rudimentares. 
A maioria dos dadores eram estudantes do Bedford Community College. Para garantir a privacidade, a clnica no apresentava fotografias. - Torceu o nariz. - Essencialmente, 
estaria a jogar roleta gentica e sabia que ficava presa ao resultado, para o melhor e para o pior. Antes de me meter demasiado naquilo, recuei. - Sorriu beatificamente. 
- Deste modo ser muito mais fcil. Conheci-te ao longo de mais de metade da minha vida. O nosso filho ter tudo a favor dele... inteligncia, capacidade atltica 
e artstica, bom temperamento e, do teu lado, pelo menos, um aspecto de longe melhor do que a mdia.
      Joe ainda estava a recuperar do choque. A favor dela,  preciso lembrar que ela tinha dito que no tencionava que aquilo fosse um casamento normal. O que aconteceu 
foi que ele estava to concentrado no seu problema que no apreendeu bem o significado disso. Finalmente, teve a presena de esprito necessria para dizer: - Pensei 
que coisas como inseminao artificial eram contrarias  tua religio.
      - Bem... - Ela suspirou e recostou-se. - Talvez seja, suponho eu. Mas tambm o  casarmos fora da Igreja.
      - Uma cerimnia de casamento civil no est propriamente no mesmo plano que a inseminao artificial. Tens a certeza de que querer ir por esse caminho? Os 
teus familiares so muito conservadores. O que  que eles acham de coisas assim?
      Ela virou as mos e olhou para as palmas. - O pai chama-lhe " loucura ultramoderna" e no aprova. Se  uma opinio pessoal ou uma convico religiosa, no 
tenho a certeza e evitei propositadamente perguntar.
      - Estou a ver. - Isto no parecia da Marilee que ele conhecia.
      Ela mantinha o olhar virado para o cho. Aps um longo momento, acabou por olhar para cima, os olhos marejados de lgrimas. - Quero tanto um beb, Joe. No 
sei explicar. Por vezes, quer-se tanto uma coisa que no se consegue pensar seno nisso, e  assim que eu estou, no me importando, realmente, com a maneira como 
vou arranjar um, desde que arranje. - Encolheu os ombros. - Quanto  posio da Igreja sobre a inseminao artificial, o padre nunca escolheu esse tema para a homilia 
e, na realidade, nunca fiz perguntas a ningum a esse respeito.
      - Parecia um pouco envergonhada. - Imagino que, se a Igreja for contra, no ser, na realidade, um pecado to mau como isso se eu no tiver a certeza de que 
estou a fazer uma coisa errada.
      O corao de Joe percebeu ao procurar-lhe o olhar. O simples facto de ela estar pronta para ignorar uma regra da Igreja para ter um beb dizia-lhe at que 
ponto ela o queria. Marilee vivia segundo os preceitos da sua f e nunca, que ele soubesse, tinha desprezado as regras.
      - Por uma vez, vou fazer o que eu quero - sussurrou ela orgulhosamente -, diabos levem o que os outros pensarem. Achas que estou a ser terrvel?
      Ele achava que ela era a pessoa mais doce e mais preciosa que Deus alguma vez tinha permitido que respirasse e partiu-lhe o corao pensar com tinha sido devastadoramente 
solitria e vazia a vida dela at agora.
      - Desde que era pequena, tentei sempre agradar aos meus pais. E agradar a mim mesma? Vi a minha irm ter cinco bebs maravilhosos e sempre ansiei por pegar 
num que fosse meu. Agora tenho essa possibilidade e vou aproveit-la.
      - E achas que ir a uma clnica  a opo adequada?
      - Nesta altura, , para mim, a nica opo. Pensei que entendesses isso.
       maneira de explicao, Joe levantou o copo de usque. - Acho que, a princpio, fui um pouco lento. Pensei... - Parou e deu um suspiro enfastiado. - No sei 
em que  que estava a pensar. S em coisas erradas, obviamente.
      Agora, tudo estava a esclarecer-se para ele. Ela planeava mesmo ficar no seu canto - viver na mesma casa com ele, ter o beb dele e nunca se pr a menos de 
trs metros dele. No admirava que no estivesse preocupada com a possibilidade de ter um ataque de pnico.
      Quase lhe disse que fosse passear, como ela esperava. Amava-a e, que diabo, ela ainda o amava a ele. Como  que podia esperar que ele aceitasse aquilo?
      Naquele momento, Joe enfrentou um facto que andara a evitar at ali. Ela nunca enfrentaria os seus medos em relao ao sexo nem tentaria venc-los a menos 
que fosse obrigada a isso.
      O desapontamento e a preocupao com ela tornaram-se um peso esmagador em cima do peito dele. Depois, antes que se apercebesse do que o tinha atingido, o desapontamento 
e a preocupao tinham-se  tornado numa dor ardente. Podia ele pr-se de lado a observar enquanto ela deitava fora a sua nica possibilidade de felicidade, para 
no falar na dele, simplesmente porque parecia ser isso que ela queria?
      Estaria condenado se o fizesse. O verdadeiro amor no bate frequentemente  porta. Se tivermos sorte, bate uma vez. Uma. Tinha deixado escapar aquela mulher 
por entre os dedos uma vez.
      No voltaria a deixar.
      
      
    Captulo Oito
      
      
      As mos de Marilee tremiam quando meteu a chave na ignio e arrancou com o seu Taurus. Tivera tanto medo que Joe recusasse a sua proposta que o corao ainda 
estava a bater como um martinete. Enquanto saa do caminho de acesso  casa dele, via-o a observ-la do alpendre. Mesmo ao luar, eram evidentes as linhas fortes 
do seu corpo. Estava de p, com as mos nas ancas, um joelho ligeiramente dobrado, a sua grande estatura projectando uma sombra alongada e larga contra a casa. Parecia 
to grande, forte e deliciosamente belo, ali, de p, que mal conseguia acreditar que em breve seria seu marido.
      As emoes dela oscilavam violentamente entre o alvio, a alegria, o nervoso e ondas de autntico pavor que a faziam sentir-se como se se estivesse a afogar. 
No importa. Pela primeira vez desde h dez anos, ia avanar sem medir os riscos. Amara Joe durante quase toda a sua vida e estar separada dele durante tanto tempo 
No tinha diminudo o que sentia por ele. O prprio facto de ter vindo atrs dele naquela noite provava isso. No aguentava se o Zachary tivesse de voltar para a 
me e morreria se voltasse a perder Joe. A invulgar proposta de casamento que lhe fizera fora a nica maneira de que se conseguira lembrar de impedir que qualquer 
dessas coisas acontecesse.
      Joe. At ela romper o noivado, era ele a nica tela em que ela pespontava o desenho completo da sua vida, passada, presente e futura. Depois de o ter mandado 
embora, no ficara nada - nem orientao, nem projectos de coisa nenhuma, apenas um vazio enorme, horrvel, como se andasse a flutuar no vcuo. No podia voltar 
a passar por isso, no voltaria a passar por isso, desde que pudesse evitar. No voltaria  a sentar-se na cozinha a olhar para o Boo e a pensar nos anos vazios que 
tinha pela frente. No haveria mais aceitao passiva do que a vida lhe preparasse. Desta vez, estava a agir, agarrando com ambas as mos o que queria, o diabo que 
se cuidasse.
      Joe Lakota era tudo o que alguma vez quisera e no dia seguinte quela hora, seria finalmente dela. Recusava-se a pensar nas possveis consequncias e no se 
permitiria ter remorsos de No ser totalmente sincera com ele. O casamento nas condies dela protegeria o Zachary da Valerie, que era a primeira preocupao de 
Joe, e, como bnus adicional, Marilee teria Joe na sua vida mais dois anos. Era a soluo perfeita para ela. Sem expectativas da parte de Joe. Sem acordos prvios 
que a prendessem a ele se o arranjo no funcionasse. Se o maior medo dela se tornasse realidade e comeasse a sentir-se doente outra vez, ambos teriam uma sada 
fcil.
      Obrigado, meu Deus. Obrigado. Isto dava-lhe uma oportunidade de ser feliz que nunca esperara ter. Talvez fosse apenas uma vaga oportunidade, claro, mas era 
uma oportunidade, de qualquer maneira, e dependia inteiramente dela o aproveitamento que fizesse. Dois anos inteiros. Isso dava-lhe muito tempo para fazer uma experincia 
com o Joe e tratar de se pr bem. Sem presso dele. Sem metas a atingir por ela em perodos de tempo especficos. Sem promessas que no tivesse a certeza de poder 
cumprir. Podia descontrair-se, gozar a companhia dele, talvez at ir ao aconselhamento s escondidas para que ele no insistisse em ir com ela. E talvez, talvez 
ao fim de dois anos conseguisse ser uma verdadeira esposa para ele.
      Lgrimas de alvio quase a cegavam enquanto trazia o carro para a rua em marcha atrs. Depois de engatar a primeira, tocou a buzina, a dizer adeus. Em resposta, 
Joe levantou uma mo, sem acenar, propriamente, mas dizendo-lhe igualmente adeus, num gesto muito masculino. Por um instante, ficou ali a olhar para ele, com o corao 
a contorcer-se porque sabia que ele no estava satisfeito com a sua proposta. Mas como  que ela podia concordar com as condies dele? Ele queria que ela se comprometesse 
a fazer com que tivessem um casamento autntico, o que, sem dvida, envolveria graus progressivos de intimidade, com ele a tomar as decises importantes. S essa 
ideia fazia-a sentir-se como se estivesse uma mo a apertar-lhe a garganta.
      Precisamente s nove horas da manh do dia seguinte, Joe tocou  porta de Marilee. Enquanto estava no alpendre  espera de que ela respondesse, tentou no 
pensar em como a amava nem no que ia fazer. No entanto, garras de desespero e pnico atormentavam-no a cada suspiro, incitando-o a ignorar a voz da sua conscincia. 
As mos tremiam-lhe e ele fechou-as.
      Olhou atravs do vidro da janela da porta, perguntando a si mesmo o que estaria a demor-la. Talvez tivesse cado em si e fugido a sete ps. Havia nele uma 
parte que quase desejava que assim fosse. Pelo menos, poup-lo-ia ao sacrifcio de ter que lhe explicar aquilo. Que diabo! O que  que ia dizer-lhe? Tinha sido ele 
o primeiro a sugerir o casamento, afinal, e agora estava a fazer um sbito volte-face.
      Respirou fundo e tentou concentrar-se na beleza daquela manh de Agosto. O perfume das rosas beijadas pelo orvalho flutuava no ar e aos seus ps espalhava-se 
a luz do Sol. Para um dia de casamento, aquele estava perfeito. Ainda pode ser, zombava uma voz cruel no fundo da sua mente.
      Atravs do vidro, viu-a correr pelo corredor. Quando finalmente abriu a porta, disse: - Desculpa! Estava na casa de banho. - Passou com a mo de ossos delicados 
por cima da anca para eliminar uma ruga na saia justa do vestido. - Estava com medo que te cansasses e te fosses embora.
      A voz dela tinha um som estridente, mostrando a Joe que estava numa pilha de nervos. Ajeitou o cabelo, os grandes olhos azuis  procura de aprovao nos dele. 
- Pareo bem? - Olhou para o traje informal dele, umas calas de sarja bem vincadas e uma camisa Oxford azul. - Estou demasiado bem vestida, no estou? Oh, homem, 
d-me s um minuto!
      Quase a ultrapassar o limiar da porta, Joe ia ficando com o nariz esmagado quando ela se lhe fechou na cara. Ainda mal tinha assimilado o facto de ela o ter 
deixado no alpendre quando a porta voltou a abrir-se. As faces dela, coradas de embarao, fizeram-no sorrir e brotou ternura dentro dele. Meu Deus, como a amava!
      - No sei em que  que estou a pensar! Entra. H caf acabado de fazer na cozinha. No te importas de te servir?
      - Mari, no vs mudar-te - disse ele, a voz a fazer-lhe lembrar um sapo a coaxar no fundo de um barril. - Ests linda.
      Ela parou, pestanejou e olhou para baixo, para si mesma. - Achas mesmo?
      - Acho mesmo - garantiu-lhe, e estava a ser sincero. To linda. S de olhar para ela quase lhe vieram lgrimas aos olhos.
      Estava com um vestido simples, cru, que lhe acentuava a figura, um peitilho de renda antiga atraindo o olhar dele para o decote redondo e justo, onde o vestgio 
mais descoberto da clivagem dos seios o espreitava. As sabrinas davam perfeitamente com o vestido, um colar de prolas brilhava-lhe delicadamente na garganta e um 
par de graciosos pendentes de prolas piscavam para ele atravs dos caracis beijados pelo sol. Doce. Era o ar dela, como que uma delicada mistura de algodo doce 
criada expressamente para estimular o apetite de um homem. Oh, Deus. Precisava da interveno divina para aguentar aquilo.
      Assaltou-o uma sensao de urgncia. Se no dissesse aquilo rapidamente, poderia deixar-se vencer pela tentao. - Mari, querida, preciso de conversar contigo.
      Ela olhou para o relgio. - Graas a mim, j vamos partir atrasados. No podemos conversar pelo caminho?
      - No. - Disse a palavra com mais veemncia do que queria e dirigiu-lhe um olhar espantado. - No - disse ele mais delicadamente. - Para o que quero dizer, 
no d.
      - Ah! - Mordiscou o lbio inferior com pequenos dentes brancos perfeitamente desenhados, cujos contornos ele j percorrera outrora com a ponta da lngua. Essa 
recordao provocava-lhe um n nas entranhas. - Eu... - A voz dela baixou e a sua expresso feliz e nervosa toldou-se com desapontamento. - Oh, Joe, mudaste de ideias, 
no mudaste?
      Com a mesma rouquido de r, disse: - Desculpa, querida. Eu sei que tiveste essa maada toda a arranjares-te. Mas a menos que possamos chegar a um compromisso 
e alterar um pouco o nosso rumo, mudei de ideias.
      - Estou a ver.
      Mas, claro, no estava. De maneira nenhuma. E que contente que ele estava por ela no estar a ver. O que ele desejava era poder deixar as coisas assim. - Estive 
para te telefonar a fim de te poupar o incmodo de fazer a mala, mas isto  uma coisa que preciso de te dizer pessoalmente.
      Os braos caram-lhe sem energia ao longo do corpo, os belos olhos a brilhar  luz tnue.
       - Joe, se  por causa do assunto da clnica, podemos esquecer isso. Compreendo que no  uma maneira convencional de comear as coisas e, quando perguntei, 
sabia que provavelmente me dirias que no. A principal preocupao  o bem-estar do Zachary.
      - No  isso. - No era inteiramente verdade, claro. Procriao criativa? Sempre que se lembrava dela a dizer aquilo, quase partia um molar, tal a fora com 
que cerrava os dentes. Entrou, fechou a porta e fez meno de ir para a cozinha. - Que tal sentarmo-nos a tomar uma chvena daquele caf que mencionaste?
      - Est bem. - Ela virou-se, seguindo  frente para o corredor. - Se no vamos a Reno, acho que temos todo o tempo do mundo.
      Na realidade, quase no tinham tempo nenhum. Se ele persistisse nas decises que tinha tornado nessa manha, diria o que tinha a dizer, esperaria por uma resposta 
e ir-se-ia embora.
      Seguindo-a, Joe fixou o olhar no movimento irresistvel das suas ancas e, depois, nos tornozelos bem torneados. Era a primeira vez que a via com um vestido 
desde que regressara. Essa viso minava-lhe a fora de vontade, que estava a vir por a abaixo, por assim dizer. V-la todos os dias, quer-la tanto que at os ossos 
lhe doam. Que diabo! No era santo. Longe disso. Tinha tanto autocontrolo como qualquer homem e, por considerao para com ela, tinha-o exercido constantemente, 
mas agora j tinha esticado a corda at ao limite.
      Ainda podia mudar de opinio e ir para a frente com o casamento. No tinha dito o suficiente para os levar ao ponto de No retorno. 
      -  Pra, ordenou a si mesmo. Amava aquela mulher e, por mais difcil que fosse, tinha de pr o bem-estar e a felicidade dela acima dos dele. Os calcanhares 
dela tamborilavam no cho de madeira, a rapidez ligeira e feminina contrastando claramente com o ressoar mais lento e mais pesado dos seus. Enquanto a seguia pela 
casa fora, notou outras diferenas entre eles: o deslizar gracioso dos movimentos dela, enquanto ele se deslocava pesadamente atrs dela, a fragilidade da sua compleio 
fsica em comparao com a dele, e a acentuada diferena de alturas. Mesmo com saltos de sete centmetros, ela mal lhe chegava ao queixo. Para seu tormento, tambm 
notou a delicada pele ebrnea revelada pelo vestido sem mangas, criando uma superfcie imaculada para as carcias das suas mos morenas.
      Deus o ajudasse, como ele a queria. Tanto que tinha as mos a tremer. Tanto que estivera tentado a apanh-la fosse de que maneira fosse, mesmo que isso envolvesse 
manha. Perceber como tinha estado perto de vender a alma ao diabo fazia o estmago enrolar-se-lhe e enchia-o de tristeza. Que espcie de homem casava com uma mulher, 
concordando em manter a relao platnica, e, consumado o facto, a pressionava a fazer mais do que ela tinha combinado? S um completo filho-da-me.
      Havia uma coisa a dizer a favor de ser um filho-da-me feliz, pensou ele com um sorriso amargo. Era melhor isso do que um tipo ptimo mas infeliz. Certo? Errado 
- disse ele a si mesmo com firmeza. Tinha de parar com o palavrrio e acabar com aquilo.
      Alheia ao curso traioeiro dos pensamentos dele, ela atravessou a cozinha em direco a um guarda-loua, pondo-se em bicos de ps para apanhar duas canecas 
de uma prateleira de cima. Esse movimento fez subir a bainha do vestido, mostrando umas pernas de primeira categoria que ele saberia que seriam brancas como o leite, 
sem as meias, e com um toque de seda. Viu-se a percorrer-lhe com os dedos a parte inferior das coxas, territrio que nunca tinha explorado. Para que precisava uma 
pessoa de recordaes quando a imaginao pintava um quarto to vvido? Ele conhecia os caminhos do corpo de uma mulher e o de Marilee era requintado, suavemente 
almofadado para lhe dar formas tentadoramente arredondadas em todos os pontos onde fosse preciso. A sua pele havia de estar quente e ligeiramente hmida de paixo 
quando fizesse amor com ela. A sua respirao aceleraria quando lhe chupasse os seios. Os seus msculos vibrariam nas convulses do orgasmo quando ele lhe estimulasse 
essa parte mais doce e mais protegida dela. A prpria respirao de Joe tornou-se mais rpida e ele tentou afastar essas imagens da mente, com medo do que pudesse 
fazer se continuasse a dar-lhes abrigo. Amor, desejo, compulso. Parecia-lhe naquele momento que havia pouca diferena entre os trs, e seria to terrivelmente fcil 
aproveitar-se dela. O amor dela pelo seu filho tornava-a vulnervel, pouco prudente e completamente aberta a um passe vitorioso.
      Com as mos a tremer, a garganta tensa de desejo reprimido, Joe obrigou-se a sentar-se  mesa a olhar para o ptio pelas portas envidraadas. Quando lhe trouxe 
uma caneca de caf, Marilee ps-lha delicadamente  frente e depois afastou-se, sentando-se do outro lado da mesa.
      Ele envolveu a caneca com a mo, apertando-se-lhe o corao quando olhou e viu que a asa era um duende em trs dimenses. Dali, o olhar deslocou-se para o 
saleiro e o pimenteiro em forma de ratos que estavam em cima da placa giratria. No havia nada naquela casa que representasse a realidade? Fosse para onde fosse 
que olhasse, via elementos de fantasia. Uma famlia de patos de cermica com uma cara simptica estendia-se em fila pelo cho. Uma vaca malhada, na parede era um 
relgio, os olhos com grandes pestanas a moverem-se para um lado e para o outro a cada movimento do ponteiro dos segundos. At o frasco dos biscoitos, uma porquinha 
rechonchuda de bibe e sapatos pretos de salto alto, reflectia o tema da fantasia.
      O controlo que ela tinha da sua estabilidade emocional era to assustadoramente frgil, percebeu ele, que a fantasia e o faz-de-conta constituam uma barreira 
imaterial entre ela e o mundo exterior. Ficou envergonhado ao perceber que, na realidade, tinha admitido a hiptese de abanar a sua existncia cuidadosamente fabricada 
para lhe alterar o eixo em que girava.
      No bolso das calas, o estojo de veludo esfarrapado e manchado, velho de dcadas, que continha as alianas parecia queimar-lhe a coxa. Para achar as alianas, 
tinha passado metade da noite a abrir caixas que nunca tinha tido tempo de abrir e, Deus lhe perdoasse, tinha-as trazido com ele naquela manh, para o caso de j 
no lhe apetecer ser decente uma vez ali chegado.
      Decncia. A decncia ia contribuir para um companheiro de cama muito frio.
      
      Marilee brincava com as prolas que tinha ao pescoo, com o olhar fixo no rosto moreno de Joe, enquanto esperava por uma explicao para a sua mudana sbita 
de atitude. Em vez de lhe dar essa explicao, parecia incompreensivelmente interessado na caneca de caf. Virava-a nas mos, examinava o duende e depois olhava 
de modo taciturno para o fundo do caf.
      Quando finalmente levantou o olhar, o corao dela apercebeu-se da angstia que transparecia dos seus olhos. Tinha a terrvel sensao de que ele estava para 
lhe dizer adeus.
      Com a voz rouca de emoo, disse: - Querida, estou realmente nervoso, pelo que vou tentar dizer isto o melhor que puder. - Um msculo comeou a palpitar-lhe 
na bochecha magra e engoliu em seco, fazendo a ma-de-ado andar para cima e para baixo. - Eu... - Fez uma pausa e olhou para longe. Depois, riu-se em surdina, 
com um som sem graa e estranhamente cavernoso, e esfregou a cara com a mo. - Que diabo! Nem sequer sei ao certo por onde comear.
      - Quando me sinto assim, comeo sempre pelo princpio.
      - E quando foi isso? - perguntou ele baixinho, com os olhos a brilhar  com o que pareciam ser lgrimas. - Para mim, isto comeou h uma vida inteira... na 
primeira vez em que te puxei as tranas.
      No era a proclamao mais romntica que ela alguma vez tinha ouvido mas, mesmo assim, tocou-a como nenhuma pouca coisa podia ter tocado, trazendo-lhe  mente 
uma quantidade de recordaes e atirando-a para muitos anos atrs. Sabia exactamente o que ele estava a tentar dizer, que a amava, que sempre a amara, que lhe parecia 
que os seus sentimentos para com ela sempre tinham existido e nunca terminariam. Ah, sim, ela compreendia porque o amava exactamente da mesma maneira, de todo o 
corao.
      Com a mesma voz cavernosa, ele prosseguiu, cada uma das palavras que proferia trazendo lgrimas aos olhos dela. - Quero tudo, minha Mari, um verdadeiro casamento, 
tudo envolvido numa embalagem chamada para sempre. Quero fazer amor contigo pela noite fora e mostrar-te magia. Quero dar-te bebs meus  moda antiga. Quero ser 
a pessoa que te seca as lgrimas quando estiveres triste e te segura a cabea quando estiveres enjoada. Quando envelheceres e ficares grisalha, quero ser o velhote 
que est ao teu lado... de modo a poder pegar-te na mo e dizer-te que ainda s maravilhosa e que te amo mais do que a prpria vida. Quero ver-te brincar com os 
meus netos. Para toda a vida, Mari. Ou para toda a vida e mais um dia, se conseguires. Mas no posso ficar por dois anos.
      Os nervos atacaram o estmago de Marilee, provocando-lhe espasmos musculares, e a combinao de nylon fazia-lhe ccegas na barriga. Teve um impulso louco de 
se levantar de um salto e lhe tapar a boca com a mo para que ele no pudesse dizer mais nada. A expresso torturada do seu rosto dizia-lhe que no ia gostar do 
que ele viria a dizer-lhe.
      - Eu tambm gostaria disso, Joe - interrompeu ela, com a voz tensa - A vida inteira e mais um dia... contigo. Mas...
      - No h mas. - Sorriu brevemente. Um eufemismo maravilhoso, o sorriso de Joe, sempre a correr-lhe pelo rosto e a ench-la de afecto. Fazia-lhe lembrar a sensao 
que tinha ao observar o cu a iluminar-se lentamente ao nascer do dia. - Eu sei que me amas, querida, e que, l no fundo, queres as mesmas coisas que eu. - Examinou-o 
durante longo momento. - Mas no  isso que ests a propor-me, pois no?
      - No - confessou ela, com voz inexpressiva.
      - No posso aceitar menos.
      - Mas na noite passada...
      - Na noite passada no estava a pensar correctamente. Chama-lhe um caso de loucura temporria ou o que tu quiseres, mas eu no estava a pensar correctamente. 
Se casar contigo, quero que seja um casamento a srio e, para ser justo contigo, preciso de tornar isso claro desse o princpio. No posso jogar esse jogo segundo 
as tuas regras. Quando sugeri que nos casssemos, na noite passada, tinha a plena inteno de trabalharmos em conjunto para ter uma relao normal e no uma coexistncia 
sem significado que terminasse ao cabo de dois anos com um divrcio. Quanto a dar-te um beb, daria o meu brao direito para ter essa honra, mas no  tua maneira, 
sabendo antecipadamente que iramos separar-nos. O ideal  que uma criana viva com os dois progenitores.
      - Estou a ver.
      Procurou o olhar dela, enquanto o seu doa de tristeza. - De certo modo, duvido disso e gostaria mesmo que as coisas ficassem assim. Infelizmente, para perceberes 
o que estou a dizer, no posso ficar por aqui. Ontem  noite, depois de tu e eu termos conversado na minha casa, confrontei-me com um lado negro da minha maneira 
de ser que nunca pensara que existisse. Na verdade, no acredito que seja possvel amar de modo demasiado profundo, mas, por vezes, os sentimentos de um homem ficam 
to confusos que no se consegue separar os sentimentos de amor das nossas prprias necessidades e desejos egostas.
      Quando isso acontece, o que devia ser uma maravilhosa e doce emoo torna-se feio e penoso para a nica pessoa na Terra que se ama ao mximo. Na noite passada, 
decidi mandar tudo para o diabo e que te apanharia fosse como fosse, mesmo que isso envolvesse manha e mentiras. Alguma coisa est mal quando um homem comea a pensar 
assim, e s lhe restam duas opes: mudar de caminho ou retirar-se. Ests a perceber o que estou a dizer-te?
      - Estou a tentar.
      Apoiou os braos na mesa e inclinou-se ligeiramente para a frente, como se, aproximando-se, pudesse emprestar nfase s suas palavras.
      - Amo-te, minha Mari. Mais do que consigo exprimir por palavra e provavelmente mais do que alguma vez sabers. Tanto que no tenho a certeza de conseguir aguentar 
voltar a perder-te. E a reside parte problema, no meu receio de te perder. Quando penso em me deixares daqui a dois anos, fico um pouco desesperado. Ento, comeo 
a pensar em fazer coisas que normalmente no faria, nomeadamente em casar contigo, fingindo aceitar as tuas condies. e, depois do facto consumado dizer-te que 
mudaram os planos.
      As entranhas de Marilee deram voltas e, por um horrvel momento, receou ficar enjoada. O aspecto do rosto dele. Oh, meu Deus. Quase lhe partia o corao. Vergonha. 
Ele no estava a desviar o olhar nem a inclinar a cabea, mas ela podia afirmar que fazer aquela confisso fora a experincia mais humilhante da vida dele.
      - Em minha prpria defesa, preciso de te dizer que as minhas intenes eram boas. Acredito do fundo do corao que fazermos amor ser uma experiencia maravilhosa 
que te dar prazer. - Uma cintilao de malandrice assomou-lhe aos olhos. - Se me desses dez minutos e meia oportunidade provar-to-ia e, depois, todos esses sentimentos 
que tens passariam a ser uma mera recordao.
      Dez minutos. Racionalmente, Marilee sabia que era pouco tempo, mas tambm sabia que cada segundo poderia arrastar-se por uma eternidade. Conteve um estremecimento 
e desviou o olhar, perturbada com o convite provocante que havia nos olhos dele.
      - Ainda no estou pronta para isso, Joe. Talvez nunca venha a estar.
      - Eu sei - sussurrou ele. - E aonde  que isso nos leva, Mari? Eu estou pronto. Mais do que pronto.
      - No sei aonde  que nos leva. S sei aonde pode levar-nos. Silncio. Ficou ali suspenso entre eles, sendo os nicos sons o tiquetaque em surdina do relgio 
de parede e o zumbido do frigorfico. Finalmente, ele disse: - A temos, no ? Nesta questo, somos plos opostos e, a menos que consigamos descobrir um ponto de 
encontro feliz, tenho que recuar. Se no o fizer, s acabarei por te magoar. Da maneira como as coisas se apresentam, sou um ataque de pnico  espera de acontecer. 
No quero ser responsvel por adoeceres outra vez e, sem confiana entre ns,  exactamente isso que vai acontecer.
      Tamborilou com os dedos em cima da mesa, um gesto nervoso que lhe dizia at que ponto ele estava nervoso. - No seria uma deciso da minha parte, nem sequer 
deliberada. Por favor, acredita. Nunca te magoaria de propsito. Mas num certo momento de uma relao, a lbido de um homem sobrepe-se e o juzo vai pela janela 
fora. Mais cedo ou mais tarde... provavelmente mais cedo, a avaliar pela maneira como me sinto... comearia a fazer avanos contigo, a pressionar-te no sentido de 
dares mais do que aquilo que podes dar, e antes que desse por isso, estaramos enterrados em mais problemas do que qualquer de ns poder suportar.
      Marilee endireitou-se mais na cadeira, levantando os ombros e erguendo o queixo. - E se no conseguirmos descobrir um ponto de encontro feliz, que ser do 
Zachary? Pensei que casarmo-nos era a tua nica esperana para o proteger da Valerie.
      - Era. . Mas a que preo? Amo-vos aos dois. Para garantir o futuro do Zachary, no te posso pr num inferno. No seria justo para ti.
      - No. - Alisou uma ruga da saia e depois voltou a olh-lo n olhos. - Amo-o e pronto. No quero que lhe acontea nada de mal especialmente, no quero sentir-me 
de modo nenhum responsvel, se acontecer.
      - Eu protejo o Zachary - disse ele com solene determinao. Combaterei a Valerie com tudo o que puder e, se comear a parecer que o sistema judicial pode voltar 
a falhar-me, h sempre outras opes. Se as coisas estiverem muito ms, posso sempre dar o salto.
      - Irias para onde? - perguntou ela, com foz fraca.
      Passou uma mo pelo cabelo e suspirou. - Na realidade, ainda no pensei nesses pormenores. Para fora do pas, certamente. A minha cara  demasiado conhecida 
para eu desaparecer na obscuridade aqui, nos Estados Unidos.
      Se era possvel os ossos desfazerem-se em gua, era isso que estava a acontecer aos de Marilee. Olhou para ele, incrdula. - Para fora do pas? Oh, Joe, se 
fizeres isso, talvez nunca mais volte a ver-te.
      - A menos que consigamos chegar a um compromisso, no me vers muito, de qualquer maneira. - Perante a expresso chocada dela, ele arqueou uma sobrancelha. 
- Que  que pensas que tenho estado a dizer-te, Mari? - perguntou ele, delicadamente.
      - No pensava que estivesses a pr termo  nossa amizade - disse ela, incapaz de reprimir uma sensao de desespero que se instalou nela. - Com certeza que 
podemos continuar como at aqui, comigo a tomar conta do Zachary e ns a vermo-nos todos os dias.
      Durante um longo momento, olhou para a janela. Quando finalmente voltou a olhar para ela, havia definitivamente lgrimas nos olhos de Marilee. - S como amigos? 
- perguntou ele, com voz grave. - Para mim, isso no est a funcionar, Marilee. Desejava do fundo do corao que estivesse, mas sou um homem novo e saudvel, com 
um apetite sexual igualmente saudvel. Estou louco de amor por ti e o meu corpo fala-me nisso sempre que estou ao p de ti. No posso continuar como temos estado. 
Esta situao com a Valerie s veio abreviar as coisas uns dias, mais nada. J tinha decidido que precisvamos de mudar de rumo. Comecei a pensar assim na noite 
em que a Gerry teve o beb.
      - H tanto tempo?
      - Sim.
      Raspou as unhas na saia e depois fechou os punhos. - Amigos para sempre. No foi isso que disseste?
      - Sim, e continuo a dizer. Amigos para sempre, minha Mari. Mas preciso de mais de ti do que simplesmente isso. A noite passada foi um sinal de perigo e seria 
louco se o ignorasse. Os amigos no se magoam uns aos outros e eu acabarei por te magoar a menos que faamos algumas  alteraes na nossa relao. No tenciono faz-lo, 
mas farei. Sentia a garganta como se tivesse sido esfregada com uma escova de lavar garrafas. Engoliu em seco para tornar a voz mais firme. - Precisas de mais do 
que aquilo que eu posso dar, Joe.
      - Preciso? - Levantou-se da cadeira e deu a volta  mesa para se agachar ao lado dela. Pondo-lhe a mo no queixo, virou-lhe a cabea. Depois, com a ponta de 
um dedo, passou um momento a percorrer-lhe contornos do rosto, como que a memoriz-los. - No estou  espera que faas uma recuperao da noite para o dia. No me 
importo que venhas para mim com um carregamento de medos e de inibies. Podemos resolver essas coisas indo aconselhar-nos juntos e tendo longas conversas com o 
corao nas mos. Quanto a fazer amor, posso avanar com isso a passo de caracol se souber que cada centmetro de lento progresso nos leva a caminho da eternidade.
      Saltaram lgrimas para as pestanas inferiores e para as faces de Marine - Eu podia adoecer.
      - Sim, talvez - admitiu ele. - E talvez eu apanhe um cancro. A vida no traz quaisquer garantias a no ser as que dermos um ao outro, Marilee, nomeadamente 
de que estaremos c um para o outro, independentemente do que acontecer. Se adoeceres, c estarei e ajudar-te-ei a vencer a doena. Acredito que haja algum medicamento 
novo que te possa ajudar. Podemos ver isso. Mas o mais natural  que no voltes a adoecer. Mas no  essa a verdadeira questo, pois no? Isto tem a ver com a disponibilidade 
para correr alguns riscos. Trata-se de apostares em mim e confiares em que eu te ame mais do que tu me amas a mim.
      Olhou-a profundamente nos olhos, implorando. - Confia em mim, minha Mari. Confia em mim, s mais uma vez. Sem condies, sem limitaes. Casas comigo?
      Marilee j mal conseguia v-lo atravs das lgrimas. - Isto tem muito o ar de um ultimato. Ests a pedir-me que assuma um compromisso contigo que no estou 
pronta para assumir e, se recusar, vais-te embora. Preciso de mais tempo.
      - Quanto tempo mais? - perguntou ele, passando-lhe o polegar pelos lbios. - Estars completamente bem daqui a, digamos, dez anos?
      - Isso no  justo.
      - A vida no  justa. Sem dvida que no foi justa para contigo. No penses que sou cego para esse facto ou que estou a menosprezar o que te aconteceu. Apenas 
no acho que vs melhorar sozinha, Mari. Dez anos, vinte. No vais ficar melhor do que ests enquanto no avanares. Chamas a isto um ultimato? Eu chamo-lhe um convite 
para dar aqueles pequenos passos em frente comigo ao teu lado.
      - Eu no estou pronta.
      - Nunca te sentirs pronta - sussurrou-lhe ele, rudemente. -  Nunca, Mari. S tens um ponto de referncia, um ponto de referncia que  realmente horrvel. 
Como  que alguma vez podes sentir-te pronta para passar outra vez por isso? No podes. Em vez disso, tens que acreditar em mim e confiar em que, comigo, no ser 
assim. Arranja coragem, deposita f em mim e lana-te nos meus braos.
      - Fazes isso parecer muito simples, mas no .
      - Amas-me?
      O queixo dela comeou a tremer.
      - Nunca deixei de te amar. Sabes que te amo.
      - Que  que pode haver de mais simples do que isso? - Com os olhos a toldarem-se de ternura e afecto, limpou-lhe desajeitadamente as lgrimas das faces. Depois, 
atirou-lhe um sorriso maroto. - Vai pelo sentimento, rapariga. Esquece tudo o mais e segue-o. Deixa o resto comigo.
      As palavras que ele queria ouvir estavam encerradas atrs de um rolho de medo no fundo da garganta dela. Ansiava por fazer o que ele estava a pedir, atirando-se-lhe 
simplesmente para os braos e sentindo o calor e a fora dele a toda a sua volta. Para sempre. Oh, meu Deus. Ele era tudo com que ela alguma vez sonhara, toda a 
esperana e toda a aspirao. Mirraria e morreria se ele se fosse embora.
      - No posso - sussurrou. - No posso, Joe.
      Ele permaneceu agachado ao lado dela durante segundos interminveis. Depois, com um suspirou que soou a exausto, levantou-se.
      - Acho que tenho a minha resposta.
      Ela reprimiu um soluo, odiando-se por ser to cobarde, mas incapaz de arranjar coragem. Outrora, tivera alguma. H uma vida, tivera muita. Mas, algures pelo 
caminho, tinha-a perdido, juntamente com todos os seus sonhos.
      Ele ficou ali de p mais um momento, como se estivesse  espera.  espera de algo que no veio. - Nunca devia ter vindo c - sussurrou. - s a ltima pessoa 
do mundo que alguma vez eu magoaria intencionalmente e sei que magoei. Lamento muito, minha Mari. Devia ter-me mantido afastado e ter-te deixado em paz.
      Com isso, virou-se e foi-se embora.
      Marilee quase o chamou para que voltasse, mas tambm no teve coragem para o fazer. Em vez disso, tapou a boca com a mo para sufocar um soluo. Joe. Oh, meu 
Deus. Sentindo-se como se lhe estivessem a arrancar o corao do peito, ficou ali sentada, a olhar sem ver atravs de uma mancha de lgrimas para as portas com tabuinhas 
da arrecadao, com todos os sentidos fixados no som dos passos pesados dele a atravessar a casa. Tal como tinha acontecido na noite anterior, encheu-se de uma terrvel 
desolao e cerrou os punhos, com as unhas a dilacerarem-lhe as palmas das mos.
      O cho tremeu ligeiramente sob a sua cadeira quando foi fechar a porta da frente, o marcar sobressaltado de uma coisa que ainda no tinha comeado. Devia estar 
grata por ele ter optado por recuar, ela sabia. Grata por ele ter tido a fora de carcter para acabar antes que as coisas se tornassem feias. Mas no estava grata... 
nem estava satisfeita. Em vez disso, sentia-se como se fosse morrer, lentamente, centmetro a centmetro.
      Ps as mos a tremer na cara. Dez minutos. Ele tinha-lhe pedido apenas dez minutos. Confia em mim, s mais uma vez. Em vez de concordar, tinha ficado ali sentada 
com a lngua presa ao cu da boca e tinha-o deixado ir-se embora. - Oh, Joe...
      Soluando descontroladamente, Marilee estendeu-se por cima da mesa, os braos esticados em direco ao lugar onde ele estivera sentado. Joe. A cobardia tinha-lhe 
custado caro nos ltimos dez anos, mas o preo nunca tinha sido to exorbitante.
      Enquanto se afastava, de carro, Joe lutava contra o impulso de fazer meia volta e voltar para junto dela. Marilee. Mesmo que chegasse aos cem anos, nunca esqueceria 
aquele olhar horrvel que ela pusera. Tinha feito os possveis para no a perturbar, mas tinha perturbado. Pior, tinha uma sensao muito m de que lhe partira o 
corao. Oh, Deus. Sentia-se como uma lesma.
      Bateu violentamente com a mo no volante e praguejou em surdina. No seu tempo, fizera algumas coisas difceis, mas abandon-la fora a mais difcil de todas 
as decises que tinha tornado. S esperava que, mais tarde, ela percebesse que o fizera por ela. Porque a amava. Porque no queria mago-la mais do que j magoara.
      Se ao menos ela tivesse arranjado coragem para correr atrs dele e lhe pedir que ficasse... Mas no, e ele tinha que aceitar isso. Vendo logicamente, sabia 
que, de qualquer modo, provavelmente era melhor assim. Ela tinha um monte de problemas que no se resolveriam com facilidade. Ele tinha que lhe chegasse, tentando 
criar uma criana emocionalmente transtornada. A ltima coisa de que precisava no meio daquilo era de uma mulher perturbada.
      No era que ele no tivesse agarrado a oportunidade com ambas as mos. Lgrimas queimavam-lhe os olhos e pestanejou, irritado, para as afastar. Os nveis de 
testosterona de um homem comearo a baixar quando se chega aos trinta? Talvez fosse isso. Exactamente do que ele precisava, uma deficincia de hormonas masculinas. 
A seguir, comearia a choramingar com filmes tristes.
      Diabos! Deu socos violentos nas faces, dizendo a si mesmo que era apenas suor a entrar-lhe para os olhos. Oh, como a amava. Talvez ainda mais agora do que 
h dez anos. Agora, havia nela alguma coisa to vulnervel que lhe despertara todo o seu instinto de proteco...
      Quando entrou no cruzamento, imaginou por um instante que a ouvira chamar o seu nome, um grito melanclico, to desmaiado que mal chegara a ele. O corao 
saltava-lhe de esperana e olhou para o espelho retrovisor, censurando-se por ser to louco. Oh, claro que sabia que ela o amava. Mas am-lo, simplesmente, no chegava. 
Ela nunca, nem em cem anos, conseguiria arranjar genica para vir atrs dele.
      Exactamente nesse instante viu movimento no espelho e carregou com fora no travo. O carro parou to subitamente que o peito bateu no volante. Olhou estupidamente 
para o espelho, quase incapaz de acreditar nos seus olhos. De saia levantada bem acima dos joelhos e sem os saltos altos, Marilee corria pelo meio da rua, uma mo 
no peito e os ombros a erguerem-se com esforo.
      Joe quase saltou do carro com ele ainda em primeira. O motor do Honda resfolegou e quase se foi abaixo, mas as sacudidelas da resultantes fizeram-no voltar 
a si. Estava no diabo do cruzamento.
      - Joe! - gritou ela, com um tom de voz ainda fraco.
      Engatou a marcha atrs, carregou no acelerador e tirou o carro do cruzamento para a berma. O veculo balanou e crepitou quando desligou o motor. Abriu a porta 
e saltou para fora. Sentia o corao como se fosse rebentar de felicidade enquanto a via percorrer os poucos metros que faltavam para o alcanar. As meias de nylon 
estavam esfarrapadas, do asfalto spero, correndo-lhe grandes malhas pelas pernas elegantes acima.
      No estava preparado para que ela lhe voasse para os braos. O impacto do seu peso, por mais leve que fosse, obrigou-o a recuar um passo. Felizmente, o carro 
estava ali para o ajudar a recuperar o equilbrio. Envolveu-a num abrao apertado, consciente de que os braos dela estavam freneticamente agarrados ao seu pescoo.
      - Amo-te, Joe. Amo-te! Por favor, no me deixes outra vez. Por favor!
      Apertou-a mais contra si, consciente, num ponto distante da sua mente, de que ela estava a tremer violentamente e, por a, soube que ela o amava profundamente.
      - Oh, Mari...
      - Para sempre - gritava ela com a voz entrecortada. - Ganhaste. Depois da cerimnia em Reno, caso contigo pela Igreja, se quiseres. E vou ao psicoterapeuta. 
Contigo, no. Isso  uma coisa que preciso fazer sozinha, mas prometo que vou. Para sempre, Joe. Mas, por favor no me deixes.
      Oh, Deus... sonhara com isto, desejara isto e rezara por isto, mas, realmente, nunca acreditara que ela arranjasse coragem para o fazer. Queria apert-la contra 
ele com toda a sua fora e nunca mais a largar.
      - Tens a certeza? Por favor, certifica-te, Mari. Se, mais tarde, mudas de opinio, matas-me.
      - No mudo de opinio. - Subiu-lhe um soluo  garganta e o seu corpo elegante estremeceu. - Tu  que precisas de ter a certeza. Eu no te posso prometer nada, 
Joe. S que tentarei com todas as minhas foras.           
      - No posso pedir mais do que isso - sussurrou ele.
      - Entende apenas que no haver sada fcil se o fizermos  tua maneira - disse ela numa voz trmula. - Se eu ficar outra vez doente, ests preso. - A voz 
dela tornou-se um grasnido estridente. - Formas de piza e sinos enfiados em cordis. Uma mulher louca que  um embarao para ti e para o teu rapaz. - Saiu-lhe da 
garganta um som baixo de choraminga de beb que era de partir o corao. - No queria fazer-te passar por isso. Foi por isso que sugeri dois anos; no foi por no 
te amar, mas porque no queria que tu e o Zachary ficassem presos a mim se as coisas corressem mal.
      O corao de Joe retorceu-se e uma dor horrvel encheu-lhe o peito. Lgrimas queimaram-lhe os olhos e correram-lhe pelas faces at ao cabelo dela. - Oh, querida, 
no. Presos a ti? Escuta-me. Ests a ouvir?
      Acenou afirmativamente com a cabea esfregando o nariz e o queixo contra a camisa dele.
      - Eu amo-te e nada me far mais orgulhoso do que ter-te como minha mulher. Sers a melhor me do mundo para o meu filho. A melhor.
      - Com sinos e tudo? Tu sabes l.
      - Oh, sim, sei, e fico contigo, com os sinos e tudo. Se voltares a precisar de formas de piza, pint-las-emos de modo a ficarem bonitas junto s portas. E 
penduraremos os sinos de modo que as pessoas pensem que  um toque decorativo.
      Ela riu-se, com um toque de histeria.
      - Vai correr tudo bem - garantiu-lhe ele, com a voz a vibrar de amor por ela. - Vai correr tudo bem. Vais ver. Vamos ultrapassar isto, Mari. Tu e eu, juntos. 
Vamos ultrapassar isto. Nada de remorsos. Nada de sadas fceis. S tu e eu, minha Mari, sempre.
      -  Oh, Joe... Estou assustada - confessou ela com a mesma voz guinchada. - Assustada de morte. No vai ser to fcil como isso. Estou baralhada, c dentro. 
Vou precisar de tempo para pr a cabea direita.
      - Temos o tempo todo - recordou-lhe ele, sorrindo em cima dos caracis dela. - E tenta no ter medo. Os melhores amigos, lembras-te? L estarei. Nunca irs 
arrepender-te desta deciso, Marilee. Prometo-te isso.
      Ela cheirava a sabonete e a champ e a talco, mistura que formava um odor de que ele se lembrava bem e associava apenas a ela. Nenhuma outra mulher que ele 
recordasse tinha alguma vez tido um cheiro to doce. Marilee. No ponto em que a mo lhe assentava na anca, sentia o seu calor suave. Apenas queria experimentar aquela 
suavidade com as pontas dos dedos, mas retiniram na sua mente campainhas de alarme e deixou estar a mo onde estava.
      Abraou-a com toda a fora. Por um momento, ela ficou to rgida que ele receou que os ossos pudessem partir-se. Mas depois, descontraiu-se lentamente e derreteu-se 
com ele como um pedao de manteiga doce, os braos esbeltos apertados  volta do pescoo dele.
      Joe perdeu a noo do tempo e no fazia ideia de quanta tempo estivera ali em p, a balan-la nos braos. Tinha vagamente conscincia de que estavam no meio 
da rua e de que provavelmente os vizinhos estavam a observ-los. Nem sequer isso o levou a larg-la. Apenas agradecia a Deus ser uma rua calma e haver pouco transito.
      Confiana. Tinha-lhe pedido confiana e ela tinha-lha dado. Desta vez, no havia regras bsicas nem contratos. E poder pegar-lhe daquela maneira aps dez longos 
anos era a prenda mais doce que alguma vez lhe tinham dado. No se importava que ela viesse para ele com apreenso. No se importava que tivessem pela frente muitos 
quilmetros de m estrada para a fazer ultrapassar aquilo. O que realmente importava era que fariam juntos o caminho.
      Toda a vida tinha ouvido as pessoas dizerem que eram muito felizes, que estavam no stimo cu, e ele achava que eram parvas. Stimo cu? Onde, diabo, era isso? 
Seis voos acima do cu normal? Bem, j no se ria. O stimo cu existia mesmo e, agora, ele sabia exactamente onde era.
      Nos braos da Marilee Nelson.
      
      
    Captulo Dez
      
      
      
      Quando chegaram a Reno, Marilee sentia-se como se, num minuto, estivesse a voar a grande altura e, no minuto seguinte, estivesse para se despenhar e incendiar. 
Estava aliviada por ter convencido Joe a ir em frente com o casamento, no s por ela mas tambm pelo Zachary. Mas, ao mesmo tempo, sentia-se como se tivesse pegado 
um grande touro pelos cornos. At a, Joe tinha guardado distncia e raramente lhe tocava. Agora, tudo tinha mudado num abrir e fechar de olhos e no tinha a certeza 
de ser capaz de lidar com isso. Mesmo a conduzir, ele esticava frequentemente o brao para lhe tocar na face ou lhe dar a mo, como se, estabelecendo contacto fsico, 
pudesse certificar-se de que ela estava realmente ali com ele.
      Entendia o que ele sentia. Era como um sonho... um sonho maravilhoso, em grande medida. A nica coisa era que Marilee sabia por experincia prpria com que 
rapidez um sonho podia tornar-se num pesadelo.
      - No te preocupes - pediu Joe, com uma cintilao provocante nos olhos que a reconfortou. - Vai correr tudo bem.
      - Podes dizer-me isso por escrito?
      Ele sorriu e voltou a concentrar a ateno no trnsito. - A srio, no so permitidas preocupaes. Tommos a nossa deciso e, agora, a nica coisa que podemos 
fazer  tratar de cada problema  medida que aparecer. Se te preocupares, apenas ficas desnecessariamente tensa e isso s criara problemas, em vez de os resolver.
      Tinha razo; ela sabia que sim. Mas algumas coisas eram de longe mais fceis de dizer do que de fazer. Ela no conseguia deixar de pensar em todas as coisas 
que podiam correr mal e, por uma vez, no estava preocupada apenas com ela. Zachary merecia uma me maravilhosa e aterrorizava-a pensar que pudesse falhar-lhe.
      - Mari - disse Joe baixinho, chamando-a de volta das suas negras  meditaes. - Confias em mim. Est bem? J no ests sozinha. Tens -me a mim. Seja o que 
for que esteja a preocupar-te, eu trato disso, Descontrai-te e tenta no ter maus pensamentos.
      - Estou a tentar.
      Dirigiu-lhe um olhar preocupado. - Est tudo bem, agora?
      - Est.
      - Bem, ento? Agora... neste momento exacto...  o que importa.
      A capela de Reno tinha coraes cor-de-rosa espalhados por todas as paredes e, pior do que isso, eram coraes iluminados que batiam A cerimonia em si foi 
de mau gosto, srdida e sem significado. Marilee sentia-se mais deprimida do que casada depois de Joe lhe enfiar a aliana de ouro liso no dedo.
      - Isto  um pr-forma, mais nada - sussurrou ele quando se inclinou para a beijar. - Seremos casados por um padre logo que consiga tratar disso.
      Marilee tentou agarrar-se a essa ideia, mas Joe manteve-a to completamente desequilibrada do ponto de vista emocional durante o resto da noite que apenas 
manter as emoes  rdea curta tornou-se um desafio. Alugou uma suite no Hilton, coisa que lhe pareceu frvola na medida em que podiam ter-se arranjado com um quarto 
muito mais pequeno num motel  beira da estrada. Porm, quando manifestou essa opinio, ele vetou firmemente a ideia dizendo: - De maneira nenhuma. Na nossa noite 
de npcias, no.
      Noite de npcias? Era isso, supunha ela, mas esperara que ele lhe desse algum tempo antes de insistir em celebrar a ocasio.
      Depois de se instalarem no quarto, ele chamou o servio de quartos e encomendou um jantar  luz das velas para duas pessoas, com duas garrafas de um champanhe 
muito caro.
      - Pensei que tinhas dito que esta cerimnia era apenas um pr-forma - recordou-lhe ela nervosamente, quase dando um salto quando a primeira rolha de champanhe 
bateu no tecto.
      Joe fez-lhe um daqueles sorrisos que lhe provocavam sempre uma sensao esquisita nos joelhos. - Querida, podes descontrair-te? Com um gesto magistral, encheu 
dois copos e depois ps outra vez a garrafa no gelo. Oferecendo-lhe um copo, disse: - Venha c, Senhora Lakota. Gostava de fazer um brinde nupcial.
      O estmago de Marilee deu um salto. Aquilo estava a p-la muito inquieta. Um brinde nupcial? De repente, ele pareceu-lhe ter um metro de largura de ombros 
e o dobro de pernas. Ps uma mo trmula na cintura. Em vez de aceitar o copo, queria sair do quarto a correr e ao gritos.
      O olhar dele cravou-se-lhe na cara, que ela receava que estivesse sem pinga de sangue. Tambm tinha o mau pressentimento de que ele conseguia ler-lhe, na sua 
expresso, todos os pensamentos e sentimentos, nenhuns dos quais eram muito lisonjeiros para ele. O sorriso dele desvaneceu-se e ficou com um ar preocupado. Olhou 
para os dois copos que segurava, franzindo pensativamente a testa alta. 
      - Eu fiz ou disse alguma coisa que te aborrecesse? - perguntou.
      - No! - disse ela em voz baixa. - Nada.
      Examinou-a prolongadamente. - Ento, porque  que pareces to nervosa como um gato de cauda comprida numa sala cheia de cadeiras de baloio?
      Limpou as palmas das mos, hmidas,  saia. - Eu... Pareo nervosa?
      Semicerrou-lhe um olho. Depois, ps de lado os copos de champanhe para se dirigir a ela. O corao de Marilee deu um salto quando as suas mos grandes e quentes 
assentaram nos ombros dela, tocando-lhe na pele nua dos braos. Ele flectiu ligeiramente os joelhos para a olhar nos olhos.
      - Deita c para fora. Ests aborrecida com alguma coisa.
      Dizer a verdade f-la-ia sentir-se pateta. Tinha vinte e oito anos, estava com o homem que amava, e devia encarar aquilo tudo com calma. - Estou apenas um 
pouco excitada, mais nada. - Baixou o olhar para um dos botes da camisa dele. -  isto da noite de npcias, acho eu. Faz-me sentir pouco -vontade.
      -  a nossa noite de npcias - salientou ele. - E eu estou  espera deste momento h vinte anos. Gostaria de a transformar numa noite que ambos recordssemos.
      - Sim. Eu apenas pensava que talvez... bem, sabes... esperssemos um pouco antes de assinalar a ocasio.
      Perpassou-lhe nos olhos castanhos um lampejo de compreenso e apertou-lhe delicadamente os braos, coisa que ela presumiu que tivesse um significado de consolao 
mas apenas conseguiu recordar-lhe a fora dele.
      - Eu no disse que a nossa noite de npcias tinha que ser convencional. - Pegou-lhe no queixo, os dedos a empurrar com delicadeza o maxilar inferior e a levantar-lhe 
a cara para a olhar profundamente nos olhos. - No acontecer nada entre ns que tu no queiras que acontea, Mari. Dou-te a minha palavra a esse respeito. - Virou-se 
para pegar nos copos e deu-lhe um. - Talvez uns goles de champanhe te acalmem um pouco os nervos. Ela precisava de alguma coisa que a acalmasse. O simples olhar 
para ele fazia a pulsao acelerar. Como se soubesse exactamente o que ela estava a pensar, sorriu e encostou o punho ao dela. Com um tom de voz enrouquecido, fez 
um brinde maravilhosamente romntico, cuja totalidade lhe escapou completamente. Quando chegou a altura de bebero champanhe, virou o copo de uma vez, sem respirar.
      Tendo bebido apenas um gole do seu, ele viu-a beber com uma sobrancelha erguida, os olhos a reflectirem um divertimento forado. - Sede?
      - Absolutamente a morrer de sede. Os cantos da boca dele reviraram-se.
      Ela forou um sorriso e estendeu o copo a pedir mais. - Agora  minha vez de fazer um brinde. Est bem?
      Ele disse que sim com a cabea e voltou a encher-lhe o copo.
      - A ns - disse ela sem prembulos, quase se esquecendo de tocar com o seu copo no dele antes de embocar o segundo copo de champanhe. Lambeu os lbios e estendeu 
o copo a pedir mais. -   a tua vez.
      Ele riu-se quando ela serviu mais uma dose de vinho a cada um.
      - Nunca pensei que apanhar uma bebedeira fosse uma experincia que quisesses repetir.
      - Talvez tenha mudado de opinio.
      - Ests a beber isto como se fosse gasosa. Pode no parecer, mas acredita que  forte.
      - Bom. De repente, achei que acalmar os nervos era um plano muito bom.
      Levantou o copo para o dela.
      -  minha Mari, que nunca pra de me surpreender.
      - V, v! - Acabou com o terceiro copo em trs goladas. Depois, ficou ali, a suster a respirao para evitar arrotar. Parecia que o champanhe estava a borbulhar 
l dentro e lhe vinha at a garganta. Engoliu, arrotou apesar dos seus esforos para no arrotar e disse: - Oh, desculpa.
      Os olhos dele piscaram maliciosamente quando ela lhe estendeu outra vez o copo. - De maneira nenhuma - disse ele. - No quero que fiques doente.
      Ela aproximou mais o copo. - No fico.
      - Mari - disse ele, baixinho -, no h nada que justifique que estejas to nervosa. - Inclinou-se para ela, olhando-a fixamente. - Olha para mim.
      Olhar para ele era parte do problema. Mas fez o que ele disse porque lhe tinha deixado pouca margem de manobra.
      - Que  que vs? - perguntou ele.
      - Um guerreiro Sioux, alto e meio crescido com um brilho perigoso nos olhos e muitos msculos. Corro o risco de ter um ataque cardaco. Uma mulher est  espera 
de encontrar homens como tu em romances histricos. Mas num quarto de hotel de Reno s um pouco perturbador.
      Deu uma gargalhada de espanto. - Esse guerreiro Sioux tem nome? 
      - Joe. - A terna repreenso que ele lhe deu com os olhos provocou-lhe um n na garganta. - Meu Joe - acrescentou, trmula.
      - Sim, o teu Joe - concordou ele -, o tipo que te ama de cada vez que respira. - Dirigiu-lhe um ar interrogativo - Quem  que te segurava o selim da bicicleta 
quando estavas a aprender a andar, para que no desses uma queda? 
      - Eras tu.
      - Quem  que no te deixava ir ao fundo quando estavas a aprender a nadar  co e a flutuar de costas?
      - Eras tu - sussurrou ela, baixinho.
      - Quem  que te deu a mo e foi contigo da primeira vez que deste um salto do trampolim?
      Os olhos encheram-se-lhe de lgrimas. - Foste tu - sussurrou ela, doces recordaes a percorrerem-lhe a mente enquanto olhava para ele.
      Aproximou-se para lhe beijar a ponta do nariz. - Quem  que deu uma tareia ao Danny Groves por te ter desapertado o suti no oitavo ano?
      Ela fez-lhe um sorriso lacrimejante. - Foste tu - conseguiu dizer, ainda que tivesse a garganta afogada em lgrimas. - Nunca precisei de um irmo para tomar 
conta de mim ou me defender. Sempre te tive a ti.
      - Ainda tens. - Aproximou-se ainda mais para lhe encostar os lbios sedosos  testa, onde sussurrou com uma rouca sinceridade: - Esta noite, nada de cambalhotas 
marotas, minha Mari. Nada de desagradvel. Por favor, no tenhas medo de mim. Parte-me o corao. Preferia morrer a magoar-te. Se no puderes acreditar em mais nada, 
acredita nisso.
      Ela fechou os olhos. - Oh, Joe, no s tu. No tem nada a ver contigo. Sou eu. Estou numa confuso.
      - No ests nada numa confuso, querida. Ests apenas... - Afastou-se e olhou-a com um olhar avaliador. - Bem, talvez estejas um pouco numa confuso - disse 
ele com uma piscadela, -  mas  uma confuso maravilhosa. Decididamente, uma confuso que vale a pena. - Fez-lhe uma festa no cabelo. - Se quiseres mais champanhe, 
mais tarde, muito bem. Mas, primeiro, vamos comer qualquer coisa. Est bem?
      - Est bem.
      Levantou as abas da mesa do servio de quartos, arranjou os lugares e depois comeou a destapar os pratos. - Encomendei-te um bife Nova Iorque.
      Com as borbulhas todas a agitarem-se dentro do estmago, no tinha a certeza de ser capaz de engolir. - Ah, obrigado. Bife! O meu preferido. Que bom!
      Ele foi buscar duas cadeiras  mesa redonda de madeira que estava no canto do quarto, ajudou-a a sentar-se e depois ajeitou-lhe o guardanapo no colo, cada 
passagem das pontas dos dedos no guardanapo fazendo-a saltar. Precisava de outro copo de champanhe. Pensando melhor, talvez fosse melhor inject-lo directamente 
na veia.
      Depois de acender as velas e de baixar as luzes, sentou-se em frente dela e atirou-se  sua refeio, enquanto ela depenicava a dela. O modo como o msculo 
do maxilar dele se mexia ao mastigar era fascinante, decidiu ela. Um mbar bruxuleante proveniente das velas brincava-lhe no rosto lustroso, delineando os ngulos 
bem definidos com sombra, o que tornava o jogo do tendo na bochecha magra o mais pronunciado possvel.
      - Que ? - perguntou ele enquanto servia mais um copo de espumante a cada um.
      - Nada.
      - Deve ser alguma coisa. Ests a olhar como se me tivesse aparecido um terceiro olho no meio da testa.
      - O teu maxilar - confessou ela, finalmente, apontando com o garfo para essa perturbante parte do corpo. - Sabes que se enruga e se contrai de cada vez que 
mastigas?
      Arqueou uma sobrancelha, habilidade dele que ela sempre lhe invejou. -  diabo! J ests bbeda - disse ele, baixinho. Olhou-lhe para o copo. - Se calhar, 
j bebeste o suficiente.
      Ela bebeu um gole rpido. - Estou ptima. A srio. Como  que fazes isso? - Fez uma careta, tentando levantar apenas uma sobrancelha, o que lhe provocou um 
riso abafado. - Que  que fizeste, andaste a treinar ao espelho?
      - No. Mas treinei o sacudir das orelhas. - Fez uma demonstrao e sorriu. - Aposto que no consegues fazer isto.
      - Aposto que consigo. - Ps o vinho de lado, agarrou nas orelhas pelos lbulos e deu trs puxes a cada um.
      - Cuidado com essas orelhas, minha senhora. Talvez eu as queira para a sobremesa.
      Ela quase derrubou o copo com o cotovelo. Ele agarrou-o, endireitou-o e dirigiu-lhe um olhar caloroso. - Mais champanhe?
      - Muito engraado. E, sim, obrigado, acho que sim.
      - Acho que atingiste o teu limite. O teu objectivo era descontrares-te, no ficares inconsciente.
      - Quem disse?
      - Eu. Ests a preocupar-te sem razo. Mesmo que tomemos unanimemente a deciso de fazer amor esta noite, no  nada que justifique que te sintas nervosa. - 
Pensou por um momento e encolheu os ombros. - Entre duas pessoas que se amam profundamente, fazer amor  uma experincia maravilhosa.
      - Talvez. Mas, mesmo assim, eu preferia adormecer, na primeira vez, e acordar mais tarde quando j tivesse passado essa provao.
      - O simples facto de usares a palavra "provao" para te referires ao sexo diz-me que no fazes a mnima ideia do que perdias. A sensao, por exemplo. Se 
tiveres bebido demasiado, as tuas extremidades nervosas estaro dessensibilizadas. No quer dizer que isso v acontecer esta noite - apressou-se a acrescentar quando 
viu a expresso dela. Terminado o bife, assentou os cotovelos em cima da mesa e olhou fixamente para ela por cima das chamas bruxuleantes. - Tens alguma noo de 
como  fantstico a pele nua ser acariciada ao de leve? Ou beijada?
      Foi-lhe para o goto um pedao de carne e ela engoliu para a fazer ir para baixo. - No, no posso dizer que tenha.
      - A dobra do brao, por exemplo, ou a dobra da perna. H centenas de extremidades nervosas sensveis nesses dois stios e reagem ao mais ligeiro toque. Com 
a ponta de um dedo... ou a ponta da minha lngua... era capaz de te provocar pele de galinha no corpo todo.
      Enquanto falava, percorria o rebordo do copo com a ponta do dedo. Incapaz de desviar o olhar, Marilee olhava fixamente e comeava a ficar com pele de galinha 
mesmo sem ele lhe tocar. Pior, quando, finalmente, desviou a ateno da mo dele e o olhou nos olhos, suspeitou de que ele sabia exactamente at que ponto estava 
a afect-la. Havia uma cintilao definida naquelas profundezas de chocolate. Ele sorriu preguiosamente e bebeu um gole de champanhe, lentamente - muito lentamente 
-, molhando, depois, os lbios com a ponta da lngua.
      Ela pegou na garrafa de champanhe para se servir de mais vinho mas descobriu que estava vazia. - J estou pronta para mais.
      - Primeiro, come o teu bife e o po. No bebes mais com o estmago vazio.
      Motivada como estava pela pele de galinha, Marilee fez o que ele disse, enchendo devidamente a boca de bife e po, enquanto ele olhava. Quando j tinha comido 
metade da carne e a maior parte do po, finalmente ele tirou a rolha de uma segunda garrafa e serviu-lhe mais champanhe, que ela bebeu avidamente. Ainda estava a 
quilmetros de distncia de se sentir entorpecida e aquele brilho nos olhos dele dizia-lhe que o tempo podia estar a esgotar-se rapidamente.
      Quando j no podia comer nem mais um pedao de comida, ele foi pr o carrinho no corredor para que viessem busc-lo. Quando voltou, ligou a televiso. Marilee 
ficou a agradecer a Deus, na esperana de que ele encontrasse um jogo de futebol americano para se entreter, quando o quarto se encheu de uma alegre msica romntica. 
Como se soubesse exactamente de que era que ela estava  espera, limitou-se a sorrir e baixou ainda mais as luzes.
      Enquanto atravessava lentamente o quarto em direco a ela, Marilee comeou por lhe olhar para a cara, uma escultura lustrosa de feies bem marcadas encimada 
por um reluzente cabelo castanho-escuro. Depois, o olhar fixou-se-lhe nos ombros, que se moviam debaixo da camisa com o andar, os msculos a contrarem-se e a descontrarem-se 
a seguir, produzindo um efeito global de fora controlada. Baixando ainda mais, foi parar-lhe  barriga lisa e  cintura estreita.
      Alto. Se se permitisse observar o modo como aquelas pernas longa e musculosas lhe esticavam as calas com o andar, ia mesmo ter um ataque cardaco.
      Quando parou  frente dela e lhe ps uma mo na cintura, sentiu-se paralisada. E depois arrastou-a para uma valsa, o seu corpo grande a conduzir o dela em 
suaves rodopios pelo quarto. Aps duas voltas completas, inclinou-se para lhe beijar o cabelo, murmurando: - Querida, confia em mim. No vai acontecer nada entre 
ns que no seja maravilhoso para ti. Nem esta noite, nem nunca. Prometo-te. Descontrai-te e goza. Est bem?
      As pernas dela quase cederam. - Eu confio em ti, sim, Joe.
      Os seus lbios sedosos passaram-lhe por cima dos caracis at lhe encontrarem a orelha. - Ento, dana comigo. Fecha os olhos e dana comigo.
      F-la descrever outro arco largo, encostando-lhe as ancas bem contra ele de modo que ela montasse a coluna acerada da sua coxa. Mesmo de saltos e com a cabea 
leve por causa do champanhe, foi-lhe fcil acompanh-lo sem tropear. E depressa se sentiu como se estivesse a flutuar. Nem sequer se importou que o vestido subisse 
uns centmetros para se ajustar  perna dele.
      A cano seguinte era lenta e lnguida. Largando-lhe a mo, envolveu-a com os dois braos, arqueou os ombros  volta dela e mal mexia os ps para acompanhar 
o ritmo. Vieram-lhe  memoria milhares de recordaes quando ela estava encostada a ele. Joe. H anos, tinha danado assim com ele no pavilho do jardim, numa noite 
de Vero que os envolvia num escuro abrao, ambos to apaixonados que o resto do mundo parecia a quilmetros de distncia. Joe. Embora os anos lhe tivessem aumentado 
a largura dos ombros e das costas, os ngulos e os planos do seu corpo no tinham mudado.
      Encostou a face ao peito dele e passou-lhe as palmas das mos pela camisa, recuperando a sensao de lhe tocar. A sensao era a mesma, pensou ela sonhadoramente, 
mas havia enormes diferenas. Ele j no era um mido. O Joe que agora a abraava era um homem maduro. Sentia a carncia masculina que emanava da sua estatura forte, 
um manto de calor e saudade que a engolia. Para sua surpresa, o calor dele derreteu alguma da tenso dos seus membros.
      A dado momento, ele soltou um dos braos que tinha  volta dela e comeou a percorrer com as pontas dos dedos a distncia entre o ombro e o pulso dela, carcias 
com a leveza de uma pena que lhe atormentavam a pele nua. Quando chegou  curva do brao e lhe torturou ali as extremidades nervosas, ela ficou mesmo com pele de 
galinha, que ele alisou um momento depois com uma carcia com a palma da mo. Da a segundos, passou-lhe para as orelhas, esfregando nelas o nariz ao de leve, o 
que lhe provocou um sorriso escondido na camisa dele. Sobremesa. Ele saboreava-a como se fosse uma iguaria deliciosa, mordiscando-lhe os lbulos e depois percorrendo 
a concha de cada orelha com a ponta da lngua.
      Sabia exactamente o que lhe estava a fazer, percebeu ela. Talvez fosse o champanhe que estivesse a p-la bem-disposta e a fazer com que no se importasse - 
ou talvez fosse apenas por ela o amar tanto -, mas no queria saber. Continuavam a danar... ou a fazer de conta. Enquanto se mantivessem de p, que poderia acontecer?
      Uns minutos depois, essa pergunta teve resposta. Ela ficou enjoada. Demasiado champanhe num estmago nervoso e vazio no ia bem com sucessivas danas, especialmente 
com um perito como Joe, que a levava em fluidos rodopios por todo o quarto. Depressa as paredes pareceram inclinar-se para dentro e, quando olhou para baixo, a carpete 
estava s ondas.
      - Joe?
      - Hummm? - Apertou-a mais com o brao  volta da cintura e executou outro rodopio.
      Em vez de lhe responder, Marilee engoliu para manter o jantar l dentro.
      - Que , querida? - Recolheu o queixo para olhar para ela. Depois, deixou de danar, abruptamente. - Ests bem?
      - Preciso de... - Vacilou. - Eu... sinto-me um pouco enjoada.
      - Ah, Ah! - Afrouxou o brao com que a envolvia e imediatamente a seguir voltou a agarr-la, para a impedir de cair para a frente. - Calma.
      Marilee fechou os olhos.
      - No faas isso - aconselhou ele. - M ideia.
      Realmente, foi. No momento em que as plpebras se fecharam, a cabea dela comeou a andar ainda mais  roda.
      Mantendo um brao  volta dela, levou-a lentamente para uma das camas e ajudou-a a deitar-se. - Mantm um p no cho - ensinou-lhe ele.
      - Porqu? - perguntou ela, com voz dbil.
      - Para que o quarto no ande  volta.
       - J passaste por isto?
      Ele deu uma gargalhada, baixinho. - Algumas vezes. Se ficares quieta durante um bocado, passa.
      Tentando manter um p no cho como ele sugerira, Marilee lutava com a saia direita que a impedia de afastar muito os joelhos. Joe olho para baixo, viu o dilema 
dela e resolveu prontamente o problema, puxando-lhe a bainha do vestido para cima das coxas. O raspar das mos duras dele em cima das meias de nylon disparou-lhe 
campainhas de alarme na mente cambaleante mas, antes que conseguisse protestar, ele puxou para baixo o outro lado da colcha e ps-lhe a coberta em cima das pernas.
      - Tudo tapado - garantiu-lhe, sentando-se depois ao lado dela a olhar-lhe, preocupado, para a cara. - Ests a ficar rapidamente com um tom interessante de 
amarelo-esverdeado - disse ele, com um sorriso delicado.
      Ela dobrou um brao por cima dos olhos. - Oh, Deus. No posso acreditar que fiz isto. Desculpa, Joe.
      - No h problema - garantiu-lhe ele. - S ainda no conheces o teu limite. Mais nada. Acontece aos melhores.
      - Que embaraoso.
      - No tem nada de embaraoso. Foste um bocadinho tonta, mas muito encantadora.
      - Sabes o que  pior? Com toda aquele champanhe, ainda estou nervosa.
      Ele riu-se e empurrou a colcha para debaixo da anca para a segurar. - Tambm no h razo para estares nervosa. Nunca me aproveitaria de ti neste estado. No 
 o meu gnero. Quando cortejo uma senhora, prefiro que ela esteja sbria.
      - "Cortejo" - repetiu ela. - Isso  uma palavra antiquada.
      - Eu sou antiquado.
      Marilee queixou-se. - Nunca mais volto a beber. Nunca, nunca. - Tentou respirar fundo e isso no ajudou. - Joe? Lembras-te de dizeres que querias ser a pessoa 
que me segurava a cabea quando eu estivesse enjoada?
      Silncio. E depois, num tom cauteloso, disse. - Sim, lembro-me.
      - Vais satisfazer o teu desejo.
      Ele tirou-a da cama com uma velocidade espantosa e levou-a para a casa de banho num pice. Depois, Marilee agarrou-se  sanita enquanto ele lhe molhava a cara 
com uma toalha hmida e depois lha pressionava contra a garganta.
      - Oh, Joe, desculpa. Esta experincia  extremamente humilhante. Lamento muito. Que  que hs-de pensar?
      Apoiando-se num joelho, ps-lhe um brao  volta da cintura para a ajudar a aguentar o peso dela. - Que, decididamente, manipular-te por meio da bebida no 
d. - Fez uma pequena pausa. - De algum modo, ver-te ajoelhada perante o deus de porcelana no era o que eu tinha em mente para esta noite.
      Marilee deu uma risada cujo som ecoou nela. Percebeu que estava  a sentir-se muito melhor. Livrar-se de algum do champanhe tinha ajudado.
      Joe ficou com ela at a nusea e a tontura terem passado. Depois, trouxe-lhe a bagagem para a casa de banho. - Vou ver um pouco de televiso enquanto te arranjas 
para te deitares. Se precisares de mim, no hesites em chamar.
      -  J estou ptima - garantiu ela. - Muito melhor, pelo menos. Mas obrigada por te ofereceres.
      
      Havia seiscentos e oitenta e oito ns no pedao de tapete que ficava entre os ps de Joe. Sentado na borda da cama, olhou irritado para eles, suspirou, olhou, 
preocupado, para o relgio e comeou a cont-los outra vez. Quando chegou a cem, perdeu a pacincia, praguejou em surdina e ps-se em p.
      - Mari? - chamou, enquanto se encaminhava para a porta fechada  chave da casa de banho. - Ests bem?
      - ptima - disse ela, com voz desmaiada.
      Suspirou e encostou-se  ombreira da porta. De mos nos bolsos, olhava para o manpulo da porta, desejando que ele se mexesse. Nada. Ela estava l dentro havia 
quase uma hora e j tinham passado quarenta minutos desde que ele ouvira fechar o chuveiro. Que poderia ela estar a fazer? Talvez a contar as protuberncias do reboco 
da parede, no?
      - Ests outra vez enjoada? Estou a comear a ficar preocupado - confessou.
      - No. Estou ptima. A srio.
      Joe ouviu, na esperana de escutar rudos que indicassem que ela ainda estava a fazer as suas ablues nocturnas. - Que  que ests a fazer?
      - Oh... a pensar.
      Pensar? Esfregou o queixo. Meteu outra vez a mo no bolso das calas. Enterrou o taco no pelo do tapete do toucador. - Em que  que ests a pensar, querida?
      Silncio. Um silncio muito longo. Depois: - Oh, Joe. Estou to infeliz. Fazes-me um enorme favor? 
      - Tudo o que quiseres. Diz.
      - Pe-me inconsciente.
      Ele deu uma gargalhada de espanto. Mari. O seu indmito sentido de humor era uma das coisas de que sempre gostara mais nela. Estava verdadeiramente assustada, 
mas ainda conseguia fazer uma brincadeira.
      - Porque  que no te fuzilo e acaba-se logo com isso?
      -  uma ideia. Mas depois ficarei morta e, cobarde como sou, realmente no quero morrer.
      - Ento, est bem. Eu tambm no me lembrei de trazer o meu revolver. - Suspirou e encostou a palma da mo  porta. - Mari?
      - Que ? - perguntou ela, parecendo frustrada.
      - Porque  que no vens c para fora para podermos discutir isso?
      - Mtodos para me tirar da minha infelicidade, dizes tu? - Ouviu o suspiro dela. - Oh, Joe. Desculpa. Isto  uma criancice estpida e imperdovel. Esta manh, 
o que devias ter feito era no parar. Estou numa confuso!
      Nesta ltima palavra, a voz dela subiu para um tom alto.
      - Vem c para fora que talvez possamos conversar sobre isso e ajudar-te a sair dessa situao.
      - De cada vez que me preparo para abrir a porta, o meu corao comea a bater e no consigo respirar. Se sair, vou ter um ataque.
      - Porqu? No acontecer nada desagradvel se abrires a porta.
      - Eu sei. No duvido. Mas eu no sou boa do juzo, Joe. Eu disse-te, lembras-te? Isto no  um problema razovel. Se abrir a porta, vou ficar doente, ponto 
final. Nem sequer sei porqu.
      Ele pensou um momento. - No podes ficar a noite toda a dentro.
      - Pois no. As minhas pernas j esto dormentes de estar sentada nesta estpida sanita.
      Ele passou a mo pela madeira. - H uma maneira.
      - Qual ?
      - Deixa-me abrir eu a porta. Tu limitas-te a destranc-la.
      - Bem, isso  uma parvoce!
      - Eu sei - disse ele, com um sorriso. - Foi por isso que achei que a ideia podia ser atraente para ti.
      - Oh, obrigada. Era s o que me faltava. Um espertinho.
      - Eia,  suficientemente parvo para funcionar. Experimenta. Levanta-te e corre o fecho.  fcil. Prometo que no entro sem convite.
      Nada de resposta. Ficou  espera. Depois do que pareceu uma pequena eternidade, ouviu rodar o ferrolho. Esperando ainda mais, deu-lhe tempo para voltar a sentar-se. 
Depois, entreabriu a porta um escasso centmetro. - Como  que vai isso?
      - Os meus ps ficaram roxos.
      Empurrou mais a porta e meteu a cabea pela fresta.
      - Ps roxos no  um bom sinal. Ela dirigiu-lhe um olhar infeliz.
      - No devamos ter feito isto, Joe. No consigo.
      - Pode-se corrigir.
      Ela pestanejou. - Deixavas-me voltar atrs?
      - No posso impedir-te. Se  isso que queres fazer, que opo tenho eu?
      - No  o que eu quero.
      - Eu sei. De outro modo, eu no aceitava.
      Ela riu-se falsamente e puxou os cabelos. Estava com um grosso roupo de banho cor-de-rosa, de tecido turco, por cima da saia, s se lhe vendo a cara, as mos 
e os ps. Atravs da fresta, chegava-lhe a cara um ar hmido.
      - Vais derreter. Que  que tens debaixo desse roupo, afinal? Um fio dental?
      - No tenhas ideias.
      - Ah-ah!
      - No tens essa sorte.  uma camisa de noite de flanela.
      - Querida, isso  uma loucura.
      - J discutimos esse assunto. Lembras-te? Sou louca. No podes dizer que no te avisei.
      - As pessoas loucas no fazem ideia de que o so.
      - No?
      - No. E isso significa que tu no s. O teu comportamento  irracional mas apercebes-te disso. Isso significa que s...
      - O qu?
      - Normalmente anormal.
      Ela agarrou-se outra vez ao cabelo, que, com o vapor, tinha ficado esquisito. Ele estava ansioso para sentir aqueles caracis entre os dedos. A humidade trazia 
at ele odores femininos - p de talco perfumado com ptalas de rosa, loo, um toque de colnia. Cheirava suficientemente bem para ser apetitosa.
      - Gosto disso. Anormalmente normal.  muito mais simptico do que maluca.
      Joe empurrou mais a porta com o dedo, abrindo-a mais, e, sem tirar o ombro da ombreira, virou-se para a ver de frente. - Ests apenas assustada, querida.  
uma coisa estranha, o medo. Quanto mais tempo o deixares medrar, maior ele se torna. Dez anos  tempo como o diabo. Tens que falar acerca disso. Arranja ajuda para 
lidar com isso. Tiveste todos esses sentimentos recalcados durante tempo de mais.
      Ela respirou fundo vrias vezes, com as mos assentes nos joelhos bem tapados. - Sabes que mais?
      - O qu? - perguntou ele baixinho, desejando de todo o corao poder abra-la.
      - No tomes isto como definitivo, est bem? Mas acho que os meus ataques de pnico so uma revivescncia.
      - Uma qu?
      Uma... - Interrompeu-se e engoliu. - No so verdadeiros ataques de pnico. Sabes?  mais uma revivescncia horrvel, uma recordao que no  apenas uma recordao, 
mas uma espcie de... talvez de reviver aquilo. Isto faz algum sentido?
      Ele supunha que era possvel. -  isso que sentes, como se estivesse a passar-se tudo outra vez, quando tens um ataque?
      - Sim, mais ou menos. E no consigo faz-lo parar, tal como ento. Naquela noite, um deles ps a... - Passou uma mo trmula pela cara e voltou a pestanejar. 
- Um deles ps-me a mo na boca e eu no conseguia... - Os dedos desceram-lhe lentamente at  base da garganta enquanto os ombros subiam e desciam em rpida sucesso. 
- o polegar, em cima do meu nariz. No conseguia respirar. Estavam a segurar -me. No conseguia tirar a mo dele. Ele no sabia e manteve-o ali a sufocar-me.
      Joe sentiu-se como se um cavalo lhe tivesse dado um coice nas entranhas. Eles? As pernas dele pareciam de gua. Mal conseguia proferi uma praga, a ira que 
se apoderou dele sendo to escaldante que se sentia como se estivesse a ser consumido num incndio.
      No podia fazer mais nada para recuperar o controlo. Mas sabia que se no recuperasse ela pararia de falar. Eles. Foi a primeira vez que ela lhe contou algo 
acerca daquela noite. No podia pr-se a fazer perguntas. Talvez ela nunca arranjasse coragem para lhe contar mais coisas, se o fizesse. Eles? Oh, Deus.
      De mos dadas, observava-a, consciente de que a respirao dela se acelerara. Ela olhava fixamente em frente, evidentemente absorta nas suas recordaes. Com 
medo de que ela tivesse mesmo um ataque se no travasse aquilo antes que fosse mais longe, quebrou a promessa de no entrar na casa de banho sem convite e foi agachar-se 
 frente dela.
      - Mari? Querida, olha para mim. - Nada. - Mari! - disse ele, mais alto.
      Ela estremeceu e concentrou-se, a cara com uma pelcula de suor e uma palidez fantasmagrica.
      - No est a acontecer agora - disse ele, baixinho, passando-lhe a ponta de um dedo pelo lbio superior, hmido. - Ests a ver? No h mo nenhuma. Podes respirar 
optimamente.
      Ela engoliu em seco e fechou os olhos, virando a cabea para o seguir quando ele comeou a retirar o dedo. Sorriu com tristeza e traou outra meia-lua debaixo 
do nariz dela. - No est ali nada - sussurrou. - Ests bem.
      Ela respirou fundo, trmula, e disse que sim com a cabea, a garganta ainda a funcionar enquanto ela lutava por se acalmar. Joe ps-lhe a mo no cabelo. At 
o couro cabeludo tinha gotas de suor. Um suo frio e pegajoso que ele no confundia com o ar hmido. Puxou-a para si e encostou a testa  dela.
      - No voltara a acontecer nunca - prometeu com voz rouca. Se algum se atrever a pr um dedo que seja em cima de ti, estarei l para lhe dar um pontap no 
rabo e lhe pedir satisfaes. Ests a ouvir? Ningum voltar a magoar-te.
      Ela acenou mais uma vez afirmativamente com a cabea e ps-lhe os braos sem energia  volta dos ombros, encostando-se mais pesadamente a ele, a testa estreita 
centrada na dele, a ponta do pequeno nariz achatada contra a cana do nariz dele. - Estou to cansada, Joe. To horrivelmente, to terrivelmente cansada. Ele bem 
ouvia a sua voz, de quem estava completamente exausto. 
      - Precisas de dormir. Nesta altura, j estamos os dois a funcionar a adrenalina.
      - No  esse tipo de cansao - sussurrou ela. - Estou apenas cansada. Sinto-me como se fosse um punhado de berlindes num cesto com buracos. Esto constantemente 
a cair pequenos pedaos de mim e, independentemente das minhas tentativas, no consigo tapar os buracos todos.
      - Eu tenho mais um par de mos. - Inclinou-se para trs para olhar nos olhos e, desta vez, no se importou que ela lhe visse as lgrimas nos olhos. O corao 
estava a partir-se-lhe por ela e talvez ela precisasse de saber disso. - Uma das vantagens de ter uma pessoa que nos ame muito. No quero perder nada de ti. Todos 
os teus pedacinhos so preciosos.
      - Mesmo os meios doidos?
      - Amo especialmente os meios doidos. - Tinha-se agarrado  bochecha dela um anel de cabelo. Ele afastou-lho para trs. - Se no quiseres as partes meias doidas, 
entrega-mas que eu trato delas.
      Ela fez um leve sorriso. - No posso dormir contigo esta noite.
      - Temos duas camas. - Ps-se em p e, sem a avisar, levantou-a da sanita e tomou-a nos braos. - Uma das quais vais ocupar dentro de cerca de trs segundos.
      Deu um guincho de espanto e abraou-se-lhe ao pescoo. - Oh, Deus. Esqueci-me.
      - De qu?
      - De como tu s forte. No admira que me d um ataque cardaco ao olhar para ti.
      Ele riu-se e levou-a da casa de banho, sustentando-a nos braos quando chegou a cama para a deitar rapidamente e puxar as cobertas. 
      - A ests tu. - Deitou-a em cima do refrescante lenol de baixo e, depois, ps-lhe a almofada debaixo da cabea. Os olhos dela fecharam-se enquanto ele passou 
um momento a arranjar-lhe o cabelo num leque dourado de caracis em cima da almofada branca. - Disse-te recentemente que s a mulher mais bela que jamais conheci? 
      - No, mas desta vez no me importo que me mintas. Ele sorriu e passou-lhe as costas da mo pelas faces, encantado com fragilidade das suas mas do rosto. 
- s a mulher mais bela que j conheci. E tambm s a pessoazinha mais excitante que jamais vi. O roupo tem que se tirar.
      - Realmente, acho...
      - No h discusso. - Desapertou o cinto e tirou-lhe a pesada colcha de cima dos ombros, esforo contrariado pelo modo frentico como ela a agarrou com as 
mos. Ele fingiu no reparar, pondo-lhe uma mo por trs do pescoo para a sentar e depois lhe puxar as mangas. Quando lhe tirou a colcha de debaixo da ndega, a 
camisa de noite enrolou-se e a bainha subiu-lhe s coxas. Antes que ela pudesse estic-la deitou-a outra vez na almofada. - s uma bela gomazinha, mas preferia no 
te pr a assar.
      Puxou o lenol para lhe tapar as pernas. Ela agarrou a borda de cima e puxou-a para cima dos ombros.
      - Sou um pouco como uma goma, no sou? Branca e salpicada.
      - Branca e macia - corrigiu ele ao endireitar-se. - Para no dizer doce.
      - Tu s como caramelo. Muito caramelo. Parcialmente derretido e ainda granuloso, depois arrefecido outra vez para te endurecer todo.
      - Hum. - Forou uma gargalhada, o olhar fixo no rosto dela. Eles. Apetecia-lhe matar. 
      - Espero que gostes de caramelo rugoso. Tanto quanto me lembro, preferes chocolate. Na realidade, a minha preferncia absoluta  uma mistura de chocolate e 
caramelo. Nunca como uma tablete de chocolate com caramelo que no pense em ti. O teu cabelo e os teus olhos so chocolate castanho.
      Joe desejava que ela provasse o verdadeiro produto. Suspirou e comeou a desabotoar a camisa.
      - Que ests a fazer?
      - Horas de apagar as luzes. - Despiu a camisa e atirou-a para cima de uma cadeira. - Posso trazer-te alguma coisa antes de ir dormir?
      Ela olhou-lhe para o peito por um longo momento. - Sabes o que  RCP1?
      Joe decidiu naquele momento exacto que era melhor ficar com as cuecas vestidas.
      
      
Captulo Onze
      
      
      No domingo  tarde, a primeira paragem que Joe e Marilee fizeram foi em casa dos pais dela. Karl Nelson no ficou supercontente com a notcia do casamento 
da filha com Joe. O homem recusou-se a apertar a mo de Joe e a dar os parabns ao casal. Embora Gerry no tivesse perdido tempo a contar aos pais que Joe no fora 
responsvel pelo fim do noivado dez anos antes, Karl ainda parecia responsabilizar Joe. Sendo esse o caso, Joe supunha que no podia criticar o velhote por ter reservas 
em relao ao casamento. Da forma como Karl via as coisas, Joe tinha destroado o corao da sua menina e agora tinha voltado para ter outra oportunidade.
      Depois de sair de casa dos pais dela, Joe foi  da me buscar o Zachary. Esperava que esta visita corresse melhor do que a anterior.
      Mal o Honda parou no caminho de acesso, o Zachary abriu a porta da frente e correu pelos degraus abaixo. - Ol, pai! Ol, Marilee! - gritou.
      Joe saiu do carro e dobrou-se para pegar no filho. Levantando-o no ar, disse: - Valha-me Deus! Cresceste uns centmetros.
      - No! - riu-se o Zachary.
      - Comeu o suficiente para crescer trinta centmetros - disse Faye, do alpendre. Os seus delicados olhos azuis poisaram em Marilee e abriu os braos. - Vem 
c, filha. Estou  espera deste dia h quinze anos. Finalmente, ele apanhou o peixe certo.
      Marilee ria-se enquanto atravessava o relvado e subia os largos degraus da frente. A casa rural, castanha, tal como a sua proprietria, apresentava sinais 
da idade, com as tbuas de madeira a ranger ligeiramente sob o peso dela. - Ento, acha que eu sou a certa?
      - Sei que s! Nunca tive dvidas. Este  um dos dias mais felizes da minha vida.
      - Obrigada. Isso  um elogio encantador.
      - Sincero. Ele pode ser um homem crescido, mas ser sempre o meu beb. Quero v-lo feliz e, agora, sei que ser.
      Saltaram lgrimas dos olhos de Marilee quando abraou a me de Joe. Faye sempre fora uma mulher elegante, com uma ptima estrutura mas a aco destruidora 
da m sade tinha-a deixado frgil. Marilee ficou chocada quando sentiu as costelas da senhora atravs do seu vestido estampado.
      - Hoje est com bom aspecto - mentiu Marilee. Inclinou-se para trs para estudar as feies da sogra. - Que  que fez? Cortou o cabelo?
      
            1 Reanimao cardiopulmonar. (N. do T.)
      
      - S cortei as pontas e fiz uma permanente nova. - Faye deu palmadinhas nos braos de Marilee quando se separaram. Depois, tocou no cabelo moreno, a ficar 
grisalho. - Ao contrrio de ti, no tenho caracis naturais.
      Com o Zachary ao colo, Joe subiu os degraus aos saltos. Quando passou pela me, a caminho de casa, parou para lhe dar um beijo na face. - O Zachary diz que 
h tarte de ma. Posso comer um bocado?
      Faye riu-se e virou-se para entrar atrs dos Lakotas masculinos. A Marilee, disse: -  uma forma segura de garantir que o rapaz fica c um bocado quando vem 
visitar-me, fazer-lhe uma tarte.
      Uns minutos depois, Marilee levantou os olhos da mesa de cozinha a que estava sentada com Joe e o Zachary, a comer tarte de ma, ainda quente, acabada de 
sair do forno. - Nunca comi uma crosta to macia.
      Faye acabou de servir um segundo copo de leite ao Zachary. De volta  mesa, disse: -  uma receita de famlia dos Lakota. A avo paterna do Joe deu-ma h quarenta 
anos. Se quiseres, posso passar-ta, agora que s oficialmente membro da famlia.
      - Adorava. - Marilee olhou para Joe. - Ele nunca gosta assim da minha tarte.
      Joe pestanejou para ela. - As tuas bolachas de chocolate so incomparveis.
      Faye sentou-se, sorrindo ao ver o Zachary beber o seu leite. - Ele vai dar um salto, Marilee. Prepara-te. Num abrir e fechar de olhos, as calas deixam de 
lhe servir. Comeu assim durante todo o fim-de-semana.
      Marilee recostou-se na cadeira. No conseguia esquecer-se de como Faye lhe parecera frgil quando a abraara. A vida humana era finita. Momentos como aquele 
- os quatro sentados na cozinha de casa rural, acolhedora mas ultrapassada, de Faye - eram poucos e preciosos de mais para se desperdiarem.
      Mais tarde, quando chegou a altura de se irem embora, Marilee prometeu a si mesma que asseguraria que ela e Joe voltassem em breve. Enquanto Joe recuava com 
o carro para sair do caminho de acesso  casa, atirou um beijo  me dele, que estava de p no alpendre a v-los partir.
      - Temos que voltar a fazer isto, Joe. Talvez possamos tornar o jantar de domingo aqui um ritual semanal.
      Ele dirigiu-lhe um olhar surpreendido. - Pensei que o domingo fosse uma coisa importante para a tua famlia. Um almoo a seguir  missa. No quero estragar 
isso.
      - Bem, talvez possamos c vir depois. Normalmente, comemos bastante cedo em casa da Gerry e do Ron. Podamos tomar outra refeio aqui, mais tarde. Acho que 
seria divertido. Tu e eu podemos cozinhar e fazer a limpeza enquanto a tua me supervisiona. Depois, podemos ver um filme ou jogar um jogo qualquer.
      Ele rolou os olhos. -  melhor algum supervisionar se for eu a cozinhar. Doutro modo, teremos um desastre.
      - Dos grandes! - concordou o Zachary, do assento de trs...
      - Tens a certeza de que queres assumir um compromisso desses? -  perguntou Joe. - Uma vez que a minha me fique  nossa espera todos os domingos  noite, ser 
demasiado tarde para voltar atrs.
      - Porque  que havia de querer voltar atrs? Adoro a tua me. Gosto de estar com ela.
      - Sim? - Sorriu e confirmou com a cabea. - O mesmo se passa comigo em relao aos teus. Sempre pensei muito bem deles e espero passar muito bons tempos com 
eles.
      Considerando o modo como o pai se tinha portado, Marilee achou que era generoso do Joe dizer aquilo. Apoderou-se dela um sentimento de culpa e concentrou-se 
no que se passava na rua, contornando o problema. Precisava de contar a verdade toda ao pai para que ele deixasse de guardar ressentimentos contra Joe. Mas como 
 que podia fazer isso? Estaria a abrir-se a dzias de perguntas cujas respostas podiam ser de longe mais penosas para Joe do que a reprovao do pai.
      
      Joe conseguiu arranjar uma consulta para Marilee numa psiquiatra de Baltimore na quarta-feira seguinte,  tarde. Imediatamente aps ter garantido a consulta, 
telefonou a Sarah Rasmussen a perguntar se poderia ajudar a me de modo que o Zachary l ficasse. Depois, pediu dispensa no emprego para poder ser ele a conduzir. 
Tinha medo de que ela ficasse to perturbada que no fosse seguro conduzir.
      Marilee estava branca como um lenol quando saiu da clnica. Observando-a quando se encaminhava para o carro, Joe notou os crculos escuros que lhe tinham 
aparecido debaixo dos olhos no curto espao de sessenta minutos. Quando se meteu no Honda, ele esticou o brao para lhe pegar na mo. Estava gelada.
      - Ei, ests bem?
      - ptima. A srio. - Mesmo ao falar, recusava-se a olhar directamente para ele. - Passou-me uma receita. Tenho que a aviar a caminho de casa e comear a tomar 
imediatamente. - Com as mos a tremer, desdobrou o papel. - Uma coisa chamada Paxil? Diz que tem sido usado com grande xito para tratar perturbaes de pnico e 
que, se funcionar comigo, pode ajudar a controlar ou a eliminar completamente os meus ataques.
      - Mari, isso so ptimas notcias, no so?
      Ela acenou afirmativamente com a cabea mas continuou sem olhar para ele. - Sim, se funcionar. Ela diz que demorarei umas trs semanas a sentir qualquer verdadeira 
diferena.
      - Trs semanas  suportvel. - Deu-lhe um aperto nos dedos. - Querida, porque  que no olhas para mim?
      Finalmente, dirigiu-lhe um olhar e fez um sorriso vazio. O corao de Joe apertou-se. Havia algo nos olhos dela - frieza e distanciamento Era como se se tivesse 
fechado por dentro e j no estivesse em contacto com ningum. Lembrava-se dos primeiros dias imediatamente aps ter-se confrontado com ela na varanda e no conseguia 
afastar a sensao de que ela tinha erigido outra vez um muro impenetrvel entre eles.
      - Quando estavas a falar com a mdica, o meu nome veio  baila? As faces dela coraram e ela afastou rapidamente o olhar. - No sejas tonto. Porque  que o 
teu nome havia de vir  baila? No tinhas nada a ver com nada.
      Agora, tinha. Joe engoliu a resposta. Pacincia. No era a altura de salientar a importncia do papel dele no seu futuro nem de lhe recordar que ele era o 
homem com quem ela acabaria por ter intimidade. Porque  que o nome dele no havia de vir  baila? Enquanto conduzia a caminho de casa, Joe rezou em silncio para 
que ela recuperasse e comeasse depressa a sentir-se melhor.
      No foi assim.
       medida que se aproximava a consulta seguinte, ela tornava-se cada vez mais introvertida e no s em relao a Joe. Havia alturas em que parecia no dar pelo 
Zachary e no ouvia quando a criana se lhe dirigia.
      Quartos separados, Joe conseguia aguentar temporariamente. Separao vinte e quatro horas por dia, especialmente quando afectava o filho, era outra coisa completamente 
diferente. Uma noite, sentou-se com Marilee, determinado a ter uma conversa com ela.
      - Mari, sabes como te amo?
      - Sim. Tanto quanto eu te amo, espero.
      - Mais - sussurrou ele. - E parte-se-me o corao quando tu deixas de pensar em mim. Lembras-te de como conversvamos quando ramos jovens? Acerca de tudo 
e de nada. Nada era tabu. Confiavas em que eu nunca te julgasse, que fosse sempre o teu melhor amigo.
      Os olhos dela perderam o brilho e desviou o olhar, com sentimentos de culpa.
      - Agora, tens que ser aberta para comigo - incitou-a ele delicadamente. - Fala comigo acerca daquela noite. Querida, como posso eu ajudar-te, como posso eu 
entender o que sentes se no me contas?
      - Isso no fazia parte do nosso acordo - disse ela. - Concordei em ir ao mdico mas nunca disse que falaria contigo acerca disso.
      - As pessoas que se amam no guardam segredos entre elas. Especialmente quando isso e destrutivo. Quero estar aqui para ti e, desde que foste ao mdico, tens-me 
posto  margem. Agora at ests a afastar-te do Zachary. Eu sei que foi dita alguma coisa a meu respeito durante a sesso que te perturbou. No queres dizer-me o 
que foi, de modo a podermos discutir isso?
      - Nada, Joe. J te disse.
      Sentiu os tendes da parte de trs do pescoo a criarem ns dolorosos. - Sim, bem, no te vou acusar de mentir. Mas acho que ests a contornar a verdade.
      O rosto dela perdeu a cor. - No sejas tonto. Se o teu nome tivesse vindo  baila, coisa que no aconteceu, eu dizia-te.
      - Ento, o meu nome no foi mencionado. - Joe esperou um instante, quase se sentindo culpado pelo que ia dizer. Conhecia-a bem de mais, assim como ela o conhecia 
a ele. No podia haver mentiras entre eles. - Ento, deixa-me adivinhar - murmurou. - Fui referido como teu marido, no foi? No exactamente pelo nome. Estou a ver. 
 uma escapatoriazinha engenhosa.
      Ela ps uma mo em cima do peito e comeou a respirar com dificuldade. Porque s tinha tido aquele ataque na presena dele, Joe no estava, honestamente,  
espera que fosse ter um agora.
      Estava errado.
      Antes que conseguisse perceber como aconteceu, Marilee caiu no cho, o corpo esbelto a dobrar-se em posio fetal, as mos agarradas  garganta. Joe ps-se 
de joelhos ao lado dela. Aquilo era mau. Mesmo mau. Os lbios ficaram roxos e, depois, de um azul assustador. E continuava sem conseguir respirar.
      Tomou-lhe o corpo em convulses nos braos, obrigando-a a sentar-se com as costas encostadas ao peito dele. Embalando-a como se fosse uma criana, passou-lhe 
a ponta de um dedo por baixo do nariz e sussurrou-lhe coisas tranquilizadoras, no estando muito certo do que dizia, mas tendo unicamente a ideia de a acalmar.
      Quando, finalmente, o ataque passou, estavam ambos to encharcados em suor que podiam espremer-se, o suor dele a escorrer-lhe em fios de humidade pelo corpo 
abaixo e o dela pegajoso e frio. Joe aconchegou-a nos braos e prometeu solenemente que nunca voltaria a pression-la para revelar o que tinha sido dito entre ela 
e a psiquiatra. S podia rezar para que a psiquiatra soubesse o que estava a fazer e Marilee comeasse em breve a fazer progressos.
      Na semana seguinte, quando a mulher se tornou ainda mais introvertida e menos conversadora aps a consulta, Joe disse a si mesmo que no se preocupasse. O 
maior medo de Marilee em procurar ajuda profissional sempre fora o de poder piorar antes de melhorar. Provavelmente, era uma ocorrncia vulgar e passaria. As sesses 
obrigavam-na a remexer em todas as recordaes, tornando-as frescas na sua mente Naturalmente, era um perodo difcil e qualquer pessoa podia ficar absorta por um 
momento. Ela havia de melhorar rapidamente.
      Rapidamente. A palavra tornou-se um mantra de Joe. Rapidamente comearia outra vez a sorrir. Rapidamente, as marcas de exausto por baixo dos olhos comeariam 
a desaparecer. Rapidamente se abriria para ele e, juntos, enterrariam os fantasmas dela. Rapidamente. Ficaria bem. Tinha que acreditar nisso. A alternativa, que 
ele a tinha empurrado para fazer uma coisa que a tinha deixado pior, era impensvel.
      Ento, reparou que ela tinha deixado de comer. O peso comeou a baixar a um ritmo alarmante. Cada vez mais preocupado, Joe telefonou do emprego  mdica. A 
conversa que se seguiu foi um alerta. A avaliar pelas coisas que a mdica disse, Joe concluiu que ela acreditava que Marilee tinha falado abertamente com ele, relatando-lhe 
em pormenor o que tinha acontecido naquela noite, fez anos antes.
      - Este  um momento difcil para ela, Senhor Lakota. A Marilee tornou-se muito vulnervel ao falar nisto consigo. Muitas mulheres tm um receio muito arraigado 
de que os homens que amam usem de algum modo este tipo de coisa contra elas, de que, embora nunca admita isso, o homem lhe atribua culpa e sinta um certo grau de 
repulsa. Entende o que estou a dizer? Julgamentos sociais. J todos ouvimos faz-los. Ainda hoje persiste esse tipo de pensamento.
      Joe balanou-se para trs na cadeira e fechou os olhos. No sabia o que Marilee tinha dito  mdica, mas precisava de corrigir a mulher. Partindo do princpio 
de que Marilee tinha conversado com ele, estava perigosamente perto de violar a confidencialidade mdico-paciente. Mas, e a confidencialidade marido-mulher? Se Marilee 
tivesse mentido  mdica, Joe detestaria denunci-la.
      - Doutora Patterson, estamos aqui com um problema - disse, finalmente, Joe. - E no tenho a certeza do que fazer.
      Silncio. Passado um momento, a mdica suspirou e disse: - Estou a ver.
      Joe percebeu pelo tom que ela tinha somado dois mais dois. Ficou aliviado. A astcia da mdica tinha-o salvado de ser obrigado a trair a mulher.
      - Bem, isso lana uma luz completamente nova sobre as coisas - disse ela. - Agradeo a sua franqueza, Senhor Lakota. - Do lado dela, ouviu-se barulho de papel. 
- Se a Marilee est a perder peso e aparentemente no dorme, devia v-la o mais depressa possvel. Tenho uma vaga amanh  tarde. Acha que lhe d jeito?
      Joe trataria de que desse. - Eu levo-a a.
      
      Quando Joe chegou a casa nessa noite e informou Marilee de que lhe tinha marcado consulta com a psiquiatra para o dia seguinte, o estmago dela deu um salto. 
Tinha estado a falar ao telefone com a mdica dela? Inicialmente, ficou consternada. Essa sensao foi rapidamente eclipsada pelo medo e pela ira.
      - Como te atreves? - gritou ela. - Ela  a minha mdica. Deixei claro desde o incio que no te queria envolvido. Como te atreves a contactar com ela nas minhas 
costas?
      Um terror construdo ao longo de dez anos cresceu no interior de Marilee, alimentando a sua indignao. Oh, Deus. O que  que a Doutora Patterson lhe teria 
dito? Oh, Deus, oh, Deus! Se Joe descobrisse, faria uma loucura qualquer. Ela sabia. Depois, que lhe aconteceria? E, pior ainda, que aconteceria ao filho que ele 
tanto amava?
      Frustrada, assustada e zangada de modo indescritvel por ele ter telefonado  mdica nas suas costas, Marilee estendeu o brao para cima do balco da cozinha, 
arrastando para o cho tudo o que apanhou pelo caminho. No ouviu o barulho do frasco de bolachas em forma de porco a cair. S se lembrava de o ver por terra. Quando 
caiu outra vez em si, o recipiente de cermica estava escaqueirado aos ps de Joe.
      Pestanejou e olhou fixamente, quase incapaz de acreditar no que os seus olhos viam. Depois, ouviu um som de choro e viu o Zachary a comprimir-se contra as 
portas de tabuinhas da arrecadao. O rosto da criana estava plido e os seus olhos grandes como moedas de 25 cntimos.
      Joe no lhe disse uma palavra. Dirigiu-lhe simplesmente um olhar capaz de pulverizar granito e foi buscar o menino. - Est tudo bem, filho. A Mari est apenas 
num dia mau. No tenhas medo.
      Espantada com o que tinha feito, Marilee limpou aquela confuso aps eles terem sado da cozinha. Depois, seguiu-os, esperando poder falar com o Zachary e 
melhorar as coisas. Encontrou pai e filho na sala de estar. Joe estava sentado no sof de costas para ela, com o filho nos braos.
      - Porque  que as mes gritam sempre e partem coisas, pai? - ouviu o Zachary perguntar.
      - A Mari no est a sentir-se muito bem. Mais nada - murmurou Joe.
      - Ela est a ficar doente, como a outra me?
      Joe hesitou antes de responder. - No  o mesmo tipo de doena filho. Mas no tem andado a sentir-se muito bem.
      - Vai melhorar?
      Joe estreitou mais o filho e respondeu com uma voz rouca de preocupao. - Espero que sim, Zachary. Espero que sim.
      - No gosto quando ela est doente.
      - Eu tambm no.
      - Assusta-me quando grita contigo, pai.
      - Eu sei.
      - Ficaste assustado?
      - No, por mim, no - disse Joe, baixinho. - Mas fico assustado por ela. Agora, ela est a sentir-se mesmo mal.
      - Se eu fizer uma coisa bonita ela melhora?
      - Talvez amanh. Esta noite, acho que apenas precisa de espao e provavelmente, no devemos incomod-la.
      Marilee tapou a boca com uma mo e escapou-se para o quarto, conseguindo abafar os soluos at fechar a porta. Depois, deixou-se cair na borda da cama e chorou. 
Que estava a acontecer-lhe? Amava tanto aquele menino. Tanto. Nunca faria nada deliberadamente para o fazer sentir-se assustado, mas tinha feito. O Zachary era frgil. 
Em que  que estaria a pensar? Sabia que ele estava na cozinha. Como  que podia ter-se comportado de um modo to tresloucado  frente dele?
      Tresloucado, tresloucado, tresloucado... oh, Deus... realmente era louca, e, agora, a sua insanidade estava a envenenar a vida dos que a rodeavam, como sempre 
receara que pudesse acontecer. Zachary. Era uma preciosidade, aquele menino. Ela assusta-me quando grita contigo, pai.
      Marilee nunca se sentira to envergonhada na vida.
      Uns minutos mais tarde, quando Joe lhe bateu  porta, recomps-se, pois sabia que ele estava furioso com ela e no podia critic-lo. Depois de limpar as faces, 
mandou-o entrar. Quando entrou no quarto s escuras, o seu rosto moreno parecia to cinzento como o crepsculo que se via pela janela.
      Fechou a porta e encostou-se a ela, olhando-a sem dar quartel ao seu olhar. - Mari, eu no tinha o direito de telefonar  tua mdica nas tuas costas e lamento 
ter tornado essa liberdade.
      Marilee no aguentava olhar para ele. Inclinou a cabea.
      - Estou preocupado contigo. Ests com o aspecto de algum que levou um murro em cada um dos olhos e ests magra como uma linha. Amo-te e no quero que este 
casamento seja a tua morte. Portanto, telefonei  Doutora Petterson e no devia ter telefonado. Teria sido melhor confrontar-te com as minhas preocupaes e insistir 
em que tu mesma lhe telefonasses.
      Dito isto, passemos a outra preocupao, nomeadamente o meu filho Eu sei que ultrapassei os limites e que tiveste todo o direito de te zangar comigo. Mas depois 
disto agradecia muito que esperasses at o Zachary estar deitado para discutires isto comigo.
      Ela disse que sim com a cabea.
      - Se discutirmos... e somos obrigados a discutir... f-lo-emos longe da vista e dos ouvidos dele.
      Sublinhou aquela ordem saindo do quarto. Ela quase desejou que ele batesse com a porta. Em vez disso, fechou-a to suavemente que ela mal ouviu o estalido 
do fecho.
      Depois de, finalmente, o Zachary estar na cama, Joe instalou-se no sof. No instante em que comeou a rever na sua mente as palavras que tinha dito a Marilee, 
ficou outra vez zangadssimo. Amava-a muito e queria desesperadamente aliviar-lhe a dor, mas como podia ele, se ela lhe mentia?
      Suspirou e esfregou a cana do nariz. Tinha-se-lhe posto uma maldita dor de cabea atrs dos olhos.
      - Joe?
      Quase saltou da pele ao som da voz dela. Virou a cabea de repente. Ela estava pouco atrs dele, de mos dadas  frente, com olhos enormes e suplicantes no 
rosto plido. Num relance, soube que ela tinha estado toda a noite a chorar. At as mas do rosto pareciam inchadas. Sentiu-se tocado nas cordas sensveis e quis 
que ela se aproximasse para lhe dar um abrao.
      Ela torceu as mos. - Sei que neste momento ests muito zangado comigo e que esta no  a melhor altura do mundo, mas eu... - A voz dela arrastava-se, permanecendo 
a ltima nota trmula no ar. - Preciso de falar contigo. - Olhou por cima do ombro. - Estava a pensar se no querias ir l fora comigo.
      - L fora?
      - Para o quintal. Tenho medo que esta conversa acabe de modo desagradvel e... no quero que o Zachary oua. Eu... fiz uma coisa, uma coisa pela qual vais 
ficar muito zangado comigo. Preciso de te contar agora.
      A avaliar pela palidez, no estava ansiosa por faz-lo, mas virou-se de qualquer modo, saiu primeiro da sala, aparentemente determinada a dizer o que tinha 
a dizer.
      Uma vez no quintal, comeou a andar num crculo errtico em torno dele, ora dando pontaps na relva, ora suspirando quando inclinava a cabea para trs para 
olhar para o cu, a seguir. Joe observou-a durante uns minutos, perguntando a si mesmo que diabo estaria ela para dizer.
      Ento, ela dirigiu-lhe um olhar luminoso. Mesmo apenas com o luar a iluminar-lhe a cara, conseguia ver que os olhos dela estavam cheios de lgrimas e que a 
boca tremia. Teve pena dela. Que tinha acontecido  Marilee que ele conhecera - a rapariga viva, nove partes de anjo e uma de diabinho, que nunca hesitara em estar 
com ele de igual para igual?
      Dirigiu-se a ela. - Querida, no h nada que possas ter feito que seja assim to mau.
      Antes de chegar ao p dela, ela virou-se para outro lado e comeou a fazer crculos noutra direco. - No  exactamente mau. S no sei como comear.
      - Talvez eu possa ajudar-te. Na tua primeira consulta, a mdica aconselhou-te a contar-me exactamente o que aconteceu naquela noite sendo a razo invocada 
por ela que eu podia desempenhar um grande papel na tua recuperao. Em vez disso, dissuadiste-a, mentindo e dizendo que me tinhas contado. - Fez uma pausa. - Que 
tal vou eu at aqui?
      - Lamento que tenhas descoberto pela mdica que tenho andado a mentir-lhe acerca do que te contei. - Deu uma pequena gargalhada nervosa. -  esse o problema 
de mentir, sabes? -se sempre apanhado.
      - Independentemente de como eu descobrisse, ficaria zangado. No tanto por me mentires, embora isso me magoe por no confiares suficientemente em mim para 
me fazeres confidncias. Mas o que realmente me aborrece  mentires  tua mdica. Como  que ela pode ajudar-te, Mari? Ela pensava que estvamos a falar abertamente.
      Joe esfregou o queixo, vendo-a voltar a andar para um lado e para o outro. - Mari, queres parar? Estou a ficar tonto de te ver.
      - Desculpa. - Puxou o cabelo e depois deu outro pontap na relva. - Oh, Joe... eu sei que tenho que te contar isto, mas  to difcil.
      - H mais coisas.
      - Muito mais.
      - Comea do princpio.
      - No posso! Esse  que e o problema, no vs? - Rodou para olhar para ele. - Lembras-te de quando fiz de porta-voz do Zachary e te fiz prometer que no explodirias 
nem farias nada estpido se ele se abrisse e conversasse contigo?
      Ele torceu a sola do sapato de corrida num grande arco, mal tocando nas folhas da relva. - Claro que me lembro. No foi h tanto tempo como isso.
      - Farias a mesma promessa a mim?
      Joe comeava a ter uma sensao desconfortvel. - Ests com medo de que eu expluda contigo?
      - No posso dizer mais nada enquanto no tiver a tua promessa solene, Joe.
      - Prometo.
      Ela comeou outra vez a andar em crculos, dando pontaps em tufos de relva com a ponta dos tnis. Depois de dar vrias voltas, disse, finalmente: - Lembras-te 
do ltimo jogo que disputaste entre Simon Benson e Pettigrove State?
      Essa noite estava indelevelmente gravada no crebro dele. Paul Myric, um dos seus colegas de faculdade e linebacker da Universidade de Simon Benson, placou 
o running back de Pettigrove, Keith Lesterson, depois de ter soado o apito. Myric nunca teve a inteno de ser desleal. Foi simplesmente um daqueles momentos em 
que o impulso de um jogador e a interveno do rbitro no estavam sincronizados e, como por vezes acontece num jogo to duro, o choque da resultante lesionou a 
espinha de Lesterson, paralisando-o do pescoo para baixo.
      - Claro que me lembro - disse Joe, baixinho. - Porque  que ests a falar nisso?
      Ela continuava a andar  volta dele, de cabea inclinada, a olhar-lhe para os ps. - Lembras-te de que, na semana seguinte, Stan Salisbury e outros quatro 
jogadores de Pettigrove foram a Eugene, esperaram  porta de um bar e saltaram em cima do Paul Myric quando ele ia a atravessar o parque de estacionamento, com a 
inteno de o ferirem gravemente, para se desforrarem do que ele tinha feito ao Lesterson.
      - Marilee, eu estava l. Meti-me naquilo para ajudar o Paul. Finalmente, ela olhou para cima. Uma sombra projectada pelo telhado da casa escondia-lhe as feies, 
s o brilho dos olhos dela conseguindo destacar-se da escurido e chegar at ele.
      - Esse  o meu Joe, sempre a meter-se nas batalhas dos outros, mais nas minhas do que nas de qualquer outra pessoa, acho eu. Nessa noite, deslocaste o ombro 
do Stan Salisbury.
      - Sim, bem, ele foi a Eugene  procura de sarilhos e encontrou-os. Nunca quis mago-lo. Sabes bem disso. No tive culpa de que ele estivesse bbedo. Quando 
o empurrei, caiu e bateu com o ombro na borda do passeio do parque de estacionamento. Porque  que ests a remexer nisso tudo? So aguas passadas.
      - No so inteiramente passadas - disse ela com voz rouca. - O Stan ainda vive c na cidade. Agora, vende propriedades, tem a sua prpria agenda. Sabias disso?
      Joe disse que sim com a cabea. - Sim, encontrei-o pouco depois de ter voltado. Paguei-lhe um caf. - Deu um puxo na orelha. - Agora que amadureceu um pouco 
 bom rapaz. Parece nervoso. Acabou por se casar com a Susan Holmes. Lembras-te dela. Estava na tua...
      Joe interrompeu-se, olhando para ela quando passou por um feixe de luar. Os msculos da face tinham-se-lhe contrado tanto sobre o osso subjacente que a cara 
dela tinha-se tornado uma caricatura distorcida - Estava na tua irmandade - concluiu baixinho.
      Ela levantou o queixo e endireitou os ombros, os olhos cheios de dor e de um dio subjacente que no lhe passaram despercebidos.
      - Tu e o Stan tiveram uma bela conversa, discutiram um pouco aquelas coisas dos homens? - perguntou. - Suponho que depois destes anos todos ele j deixou de 
te odiar.
      O estmago de Joe andava algures na vizinhana dos seus joelhos.
      - Aonde queres chegar com isso, Mari?
      - Joe Lakota, o rapaz de cabelo dourado. - Deu uma gargalhada frgil. - Durante todo o liceu, at acabares, o pobre do Stan nunca chegou a jogar como quarterback 
de primeira linha. S no seu ano de snior  que finalmente chegou a jogar e a ser notado pelos olheiros, e mesmo assim, a bolsa dele no foi grande coisa. Podes 
imaginar como deve ter ficado ressentido contigo?
      Joe mal podia olhar para ela.
      - Quando chegou  faculdade, jogava realmente bem. Finalmente, deixara de ter a tua sombra, era uma estrela como quarterback por direito prprio. Ento, repara, 
no seu ano de jnior em Pettigrove, que aconteceu? Estavam a ter uma poca vitoriosa at Lesterson, um dos principais jogadores deles, partir a espinha. Depois, 
na semana seguinte, derrubaste o Stan durante uma luta e deste-lhe cabo do brao com que fazia os lanamentos. Todos os seus sonhos de vir a jogar como profissional 
foram por gua abaixo. Com ou sem razo, podes imaginar como ele te detestava? Ou como se exasperava a ver-te a ti e ao Myric a caminho da glria, sabendo que provavelmente 
a tua equipa ganharia o jogo do ttulo?
      Joe sentia-se como se estivesse a gotejar gua gelada nas suas costas. - Ai, Jesus - sussurrou.
      A cara dela tinha o aspecto de se ter transformado numa escultura de sal.
      - O velho Stan.  bom rapaz. A nica coisa que quis sempre, na realidade, foi dar cabo da poca da Simon Benson garantindo que no pudesses jogar o jogo do 
ttulo. Sem ti, teriam perdido, com a vantagem acrescida de que, se te lesionassem com gravidade suficiente para te pr fora do jogo, provavelmente tambm no chegarias 
a profissional. Olho por olho, por assim dizer. Com uma pequena ajuda do Myric, destruste completamente a sua carreira no futebol americano. Porque no havia de 
fazer o possvel por arruinar a tua?
      Joe no tinha a certeza de que as pernas continuassem a aguent-lo. Levantou uma mo.
       - Espera um minuto. D-me s um minuto.
      - No posso - sussurrou ela, com um tom torturado. - Tenho que dizer tudo, Joe. O Stan e os amigos j tinham arranjado sarilhos em Eugene. A nica razo por 
que no foram metidos na cadeia foi o Myric no querer causar mais mal-estar entre as equipas apresentando queixa. Eles tiveram medo de voltar para lutar contigo. 
Para te atingirem, tinham que te atrair de algum modo ao terreno deles. Mas como  que podiam conseguir isso?
      Joe estava a tremer. Olhou bem para ela, com os punhos bem cerrados. - Meu Deus, que ests a dizer?
      - Tu sabes o que estou a dizer.
      Parecia que a terra estava a mover-se debaixo dele. Comeou a ouvir um batimento dentro dos ouvidos. - Eu mato-o. Juro por Deus e por tudo o que  sagrado, 
 um homem morto.
      Ela fechou os olhos. - No - disse, baixinho. - Prometeste e exijo que cumpras a promessa.
      Joe deu um passo em frente. - Escondeste-me isto? Todos estes anos, tu escondeste isto de mim? Oh, Marilee. Eu tinha o direito de saber! Sentei-me a beber 
caf com esse desprezvel filho-da-me! Devias ter-me contado! Nervoso? Agora sei por que razo estava to nervoso! Pensava que eu sabia.
      Ela recuou e abriu os olhos. - Olha para ti. Dez anos depois, Joe, e olha para ti. Se te tivesse contado imediatamente depois do que aconteceu, conseguia travar-te? 
No. Terias ido atrs deles e terias matado um deles. Toda a tua vida teria ficado destruda. Para qu? Para qu, Joe? Contar-te teria desfeito o que eles fizeram? 
Devolver-me-ia a integridade? No.
      - Como eu teria gostado? - gritou-lhe ele. - Como se o futebol americano fosse a nica coisa da minha vida? Eu amava-te! Eras a minha mida e os filhos-da-me 
usaram-te para me apanharem? Diz-me o nome de um nico tipo que no fosse atrs deles por essa razo e eu mostro-te um bandalho de um cobarde que no vale a plvora 
que seria precisa para o mandar para o inferno!
      - Tu prometeste - disse ela, agarrando-lhe o brao. - Prometeste-me, Joe!
      - Tu levaste-me ao engano! Pensava que era acerca de alguma coisa que tivesses feito!
      - E era, em parte. Eu no te contei!
      - No, e tambm nunca te perdoarei isso. Tinha o direito de saber. As unhas dela enterraram-se na pele dele? - Com que objectivo? Para que pudesses, agora, 
estar na priso? Ou no corredor da morte,  espera da execuo? Eles queriam que eu te contasse! Quando estavam despachados, disseram: "Vai a correr para o Joe, 
menina. Diz-lhe que estaremos  espera dele!" Os loucos. Eu conhecia-te! Um para cinco! No te terias importado e terias matado um deles! Que  que eu devia ter 
feito? Deixar que isso acontecesse? Bem, nem sempre tem a ver contigo!
      - Comigo? - sussurrou ele, incrdulo.
      - Sim, contigo. No s o nico com o direito divino de proteger pessoas que amas. Eu tambm te amava e protegi-te da nica maneira que sabia, guardando silncio. 
No dizendo aos meus. O pai ter-me-ia obrigado a apresentar queixa se tivesse descoberto e ento era o inferno  solta! Ento, no havia maneira de o esconder de 
ti! Achas que foi fcil para mim manter a boca fechada?
      Joe libertou-se dela e dirigiu-se para a casa. Salisbury ainda vivia na cidade. O seu endereo havia de estar numa lista telefnica. No conseguia pensar em 
mais nada.
      Marilee subiu os degraus a correr atrs dele. - Joe, por favor. No faas nada. Promete-me que no vais fazer nada! Se no for por mim pelo Zachary!
      Incapaz de tirar as imagens da mente, Joe forou o caminho para a casa. Fria. Uma fria assassina e insensata. Diz-lhe que estaremos  espera dele. Oh, Deus. 
Cinco. Estavam a segurar-me. Ai, Jesus. S animais fariam uma coisa assim.
      Joe foi direito ao telefone e pegou na lista. Marilee seguiu-o at  cozinha. - E agora? - perguntou com voz fina. - Pediste-me que te contasse e que  que 
acontece quando o fao? Joe, por favor. Pelo menos, espera uns minutos. S cinco. D tempo para te acalmares e pensares. Por favor...
      Ele virou-se. Quando ela se lhe atravessou no caminho, agarrou-lhe pelos ombros e afastou-a. - Tu trataste disto  tua maneira e, dez anos depois, ainda no 
acabou. Agora,  a minha vez.
      - Ento, foi tudo para nada? Tudo, tudo para nada! - gritou ela. - Assim,  tu vais dar cabo da tua vida.
      - No, vou devolver-te a tua!
      Com isso, Joe saiu de casa de rompante.
      
      
    Captulo Doze
      
      
       Joe foi directamente para a residncia de Salisbury. Uma vez l chegado, estacionou junto ao passeio, do outro lado da rua, e ficou sentado no carro, a coberto 
da escurido, as mos agarradas ao volante enquanto olhava para as janelas bem iluminadas da frente da bem arranjada casa de estilo rancho. Junto da porta da frente, 
por baixo da luz do alpendre estava pendurada uma grinalda de boas-vindas, alegremente decorada com rosas e fita cor de malva. Para Joe, aquela grinalda representava 
tudo o que Salisbury considerava adquirido - amor, alegria e normalidade, coisas que ele e os amigos tinham impiedosamente tirado da vida de Marilee.
      Ainda era cedo, nem sequer eram nove horas. Provavelmente, Salisbury estava instalado no sof a ver o programa favorito de televiso com a mulher. dio. Joe 
nunca tinha detestado ningum o suficiente para o matar. Agora, detestava. Tremia com a necessidade de disparar os punhos contra alguma coisa, de preferncia contra 
a cara do filho-da-me. Mari. Salisbury e os amigos tinham-na destrudo e para qu? Para exercer vingana, sabotar um jogo do ttulo e destruir o futuro de um concorrente 
no futebol americano? Joe j tinha visto toda a espcie de estupidez ao longo da sua carreira - jovens atletas a arriscar a sade injectando esferides para ganhar 
corpo, jogadores-chave a injectar cortisona em articulaes lesionadas para participarem num jogo, sem se importarem com a possibilidade de ficarem estropiados para 
o resto da vida. At tinha visto treinadores a perpetuar essa loucura, to consumidos pela necessidade de ganhar como os seus jogadores. No havia explicao nem 
se compreendia. O desejo de ganhar, de ser o centro das atenes, tomou-se um monstro. Mas, meu Deus, havia limites. Auto-sacrifcio era uma coisa e, pelo menos, 
perdovel. Vitimizar uma jovem e arruinar-lhe a vida no era.
      Agora, os que tinham vitimado Marilee tinham feito a sua vida sem que a sua vilania tivesse sido descoberta ou punida. Oh, sim, cidado destacado era Salisbury, 
o bem-sucedido agente imobilirio que tinha tudo, uma mulher bonita, trs midos lindos e um minivan novinho em folha. Era justo, isto? Mais, como  que um homem 
digno desse nome deixava passar isto em branco? Joe no podia. Com razo ou sem ela no podia.
      Sentia-se mal por ter sado a correr de ao p de Marilee. O ideal era ter ficado com ela, t-la estreitado nos braos e t-la ouvido. Dez anos. Ela escondera-lhe 
aquilo durante todo esse tempo e quando, finalmente, arranjou coragem para lhe contar, que fizera ele? Exactamente aquilo que ela sempre receara que pudesse fazer.
      Compens-la-ia, prometeu a si mesmo. Mas no teria utilidade nenhuma para ela enquanto estivesse a tremer de raiva e s havia um modo de se livrar dessa ira 
- enfrentar cara a cara o filho-da-me que a magoara. O simples ir  mercearia tinha de ser uma provao para ela. Mesmo depois de todos estes anos, devia preocupar-se 
por poder encontrar Susan ou o prprio Salisbury se fosse  cidade.
      Joe fechou os olhos por um momento, sentindo-se maldisposto. Formas de piza  frente das portas dela. Cordas com sinos pendurados por toda a casa para que 
ningum pudesse entrar atrs dela. Ela tinha chamado irracional ao seu comportamento passado e, no fundo, Joe concordara. Qual era a pessoa normal que vivia assim? 
Precisas de ajuda, Mari. Quantas vezes lhe dissera isso, incapaz de compreender a razo por que ela se recusava to teimosamente a obt-la.
      Fez uma jura em surdina e saiu do carro. Havia muitas maneiras de matar pulgas, meu Deus. Tinha prometido a Marilee que no faria nenhuma coisa estpida, mas 
isso no significava que no pudesse fazer nada.
      Joe atravessou a rua e foi at ao alpendre da casa de Salisbury. Bateu  porta com tanta fora que a estrutura abanou. Quando Salisbury atendeu e viu quem 
era, ficou plido. - Ol, Joe. Como vai isso? - disse, olhando nervosamente para trs dele, perscrutando a escurido. - Que  que te traz por c?
      Joe fuzilou o homem com o olhar. -  engraado perguntares como vo as coisas, Stan. A resposta  pessimamente. A Marilee e eu acabamos de ter uma longa conversa 
e nunca vais adivinhar o que ela me contou.
      Salisbury passou uma mo pela cabea num gesto que revelava nervosismo. Joe reparou com agrado que o filho-da-me estava a ficar careca prematuramente. Tambm 
estava a desenvolver barriga. Uma deteriorao muito merecida. Da a pouco tempo teria o aspecto da lesma  gorda que realmente era.
      - Vou direito ao assunto, Salisbury. s um bandalho desprezvel que nem merece que suje as minhas mos a matar-te. Dito isto, deixar-te vivo causa um problema. 
No serves para respirar o mesmo ar que a minha mulher.
      Susan, uma morena elegante, apareceu  porta por trs do marido. Os seus olhos verdes esbugalharam-se quando viu Joe no alpendre.
      - Que  que se passa?
      - O Stan e eu estamos a ter uma conversa que j est muito atrasada - disse Joe, de modo cortante. - Soube esta noite que ele e um bando de amiguinhos violaram 
a minha mulher h dez anos, pelo que me desculpars se eu levantar a voz e no tiver cuidado com a linguagem. Normalmente, no digo asneiras na presena de senhoras, 
mas, neste caso - dirigiu um olhar desdenhoso a Susan -, a definio no se aplica  companhia presente.
      | - Cuidado com a lngua, Joe. Ela no teve nada a ver com isso. Susan agarrou-se  manga da camisa de Stan.
      - De que  que ele est a falar? Stan ignorou a pergunta.
      - Volta para a sala, querida. Isto  entre mim e o Joe.
      Joe bufou. - A Susan atraiu a Marilee para a armadilha que lhe montaste. Eu diria que ela tem tudo a ver com isto. O simples facto de no ter ficado para a 
brincadeira no desculpa o que ela fez.
      Susan olhou de modo desconcertante para o marido.
      - Violar, Stan? Que  que ele est a dizer?
      Joe sustentou o olhar de Stan. - Ouve atentamente, Salisbury. S vou dizer isto uma vez. De manh, vais comear a fazer preparativos para te pores a andar 
daqui para fora. Vende a casa, fecha a empresa. Muda-te para onde quiseres, desde que no seja num raio de 800 quilmetros  volta de Laurel Creek. Dou-te trinta 
dias e, se tiveres desaparecido nesse prazo, deixo isto assim. Quando te fores embora, nunca mais voltes. Sei que tens famlia aqui. Tanto pior. Se quiserem ver-te, 
podem ir ter contigo, mas o contrario, no.
      Stan riu-se. - No podes obrigar-me a mudar-me. Ests louco? Tenho aqui a minha vida.
      - A vida, aqui, como sabes, acabou - disse Joe baixinho. - Desaparece ou eu arruno-te. Toda a gente da cidade saber. Ests a perceber bem? Os teus parentes, 
os teus midos, os teus amigos, os teus conhecidos dos negcios, as pessoas da tua igreja. Toda a gente. No conseguirs levantar a cabea nesta cidade. Eu tratarei 
disso.
      - Isso  difamao!
      - No,  apenas a suja verdade. - Joe permitiu-se sorrir. - Francamente, espero que sejas suficientemente estpido para ficar. Quero arruinar a tua vida, Stan. 
Dar-me- uma satisfao sem fim.
      - Ests a fazer bluff! A Marilee nunca contar o que aconteceu naquela noite. A reputao dela iria por gua abaixo juntamente com a minha.
      - Se eu for forado a revelar isto, lev-la-ei para um stio qualquer novo. A famlia dela continuara a am-la se souber a verdade. A pergunta : e a tua? 
Duvido. Nem uma me ama um violador.
      - Quer dizer que  verdade? - gritou Susan, os olhos cheios de repugnncia. - Oh, meu Deus, Stan. Disseste que ias apenas pregar-lhe um susto!
      - Cala-te! - Stan fixou o olhar em Joe. - No podes estar a dizer isso - disse ele, moderadamente. - No sei o que a Marilee te contou, homem, mas ela est 
a mentir.
      - A Marilee no mente e se voltares a dizer que ela mentiu, mato-te, desprezvel filho-da-me.
      - Est bem. Est bem. - Stan levantou as mos, o rosto a brilhar das gotas de suor. - No te descontroles, companheiro. Mantm-te calmo. Vejamos isto noutra 
perspectiva.
      - Eu no sou teu companheiro - disso Joe em voz baixa. - E qual , exactamente, a perspectiva, Stan?
      - De que por vezes d merda. Acontece e no se pode fazer nada. Eu tentei, homem. Tentei trav-los. Mas ela comeou a lutar. Arranhou um. Os temperamentos 
exaltaram-se. Garanto-te por Deus, Joe, que nunca tive a inteno de chegar to longe. Pergunta  Marilee. Ela dir-te-. No foi culpa minha.
      - Tentaste, hem? - Joe sentia vontade de vomitar. Respirando pela boca, mantinha os dentes cerrados, incapaz de afastar a ideia de que havia partculas de 
sujidade no ar. - Bandalho miservel. S olhar para ti d-me volta ao estmago.
      - Aquilo ficou feio, Joe. As coisas fugiram do controlo. Estavam todos bbedos, eufricos. Estavam dependentes de mim. Naquele momento, no tinha alternativa 
que no fosse ir com eles. Eh, j l vo dez anos. Est bem? Um punhado de rapazes bbedos. No vais destruir a reputao de um homem por causa de uma coisa que 
ele fez quando era mido. Acabou-se. J passou. Depois, todos nos arrependemos.
      - Rapazes? No. Tu eras um homem crescido e sabias exactamente o que estavas a fazer. E quanta a ter passado, talvez para ti, mas no para a Marilee. Quando 
uma mulher  violada, nunca lhe passa. Nunca!
      Salisbury cerrou os punhos e libertou a manga das mos de Susan.
      - Ento agora vais arruinar-me? Tantos anos depois? Tenho mulher e filhos e queres virar a vida deles de pernas para o ar?
      - H muitas famlias que se mudam - retorquiu Joe. - Tu ests a sair desta com facilidade. Tira o chapu e agradece a Deus. Se eu pudesse, eras um homem morto. 
Ela conhecia-te e confiava em ti, meu filho-da-me traioeiro. Como podes tu viver com uma coisa dessas? Ela tinha apenas dezoito anos, por amor de Deus, estava 
a iniciar o primeiro ano da faculdade e estava verde como a relva.
      - Sim, ns reparamos - disse Salisbury com um riso de escrnio. - Fiquei muito surpreendido. O craque Joe Lakota e a mida dele ainda estava virgem.
      Joe quase se descontrolou. A adrenalina espalhou-se-lhe pelo corpo, fazendo cada msculo ficar palpitantemente tenso. Estava pronto para saltar quando Susan 
gritou: - Oh, meu Deus! Oh, meu Deus. Como pudeste tu, Stan? Como pudeste tu? - Atirou-se ao marido, arranhando-lhe a cara e pontapeando-lhe as canelas. - filho-da-me! 
Mentiste-me, disseste que nunca lhe tocaste! Como pudeste tu fazer aquilo e depois vir para mim?
      Joe recuou, observando com descrena e espanto como Stan lutava para proteger a cara. Susan gritava quando o marido lhe agarrava os pulsos. Levantou o joelho, 
dando-lhe uma forte joelhada nos rgos genitais. Golo. Stan agarrou-se a si mesmo e cambaleou contra a ombreira da porta.
      - Depois, vieste para mim! - gritava ela, batendo-lhe com os punhos. - Estivemos juntos, mais tarde, nessa noite. Depois de teres estado com ela, vieste para 
mim?
      Joe saiu do alpendre, a abanar a cabea. No conseguia acreditar naquelas pessoas. Susan no estava aborrecida com o facto de ele ter violado uma jovem. Oh, 
no. O que lhe importava era que ele tinha estado com outra? Com? Era to doente como ele e, no que dizia respeito a Joe, aqueles dois mereciam-se um ao outro.
      - Faz as malas, Stan - disse ao sair do ptio. - Nesta cidade, ests liquidado.
      No caminho at ao carro, Joe ainda conseguia ouvir Susan gritar com o marido. Alguns dos nomes que lhe chamou eram to criativos que at puseram as orelhas 
de Joe a arder. Tinha dito a verdade. Ela no era uma senhora.
      Antes de entrar no Honda, parou um momento a observar o espectculo. Acendiam-se luzes nos alpendres por toda a rua e havia pessoas a abrir as portas da frente 
para ver o que se passava. Stan estava dobradoo pela cintura, os braos curvados por cima da cabea para se proteger dos golpes da mulher.
      Joe sorria cruelmente quando entrou no carro. Salisbury no precisava de ajuda nenhuma para arruinar a sua vida. J tinha feito um belo trabalho, sozinho.
      
      O Taurus de Marilee no estava l e a casa estava escura como um tmulo quando Joe entrou no caminho de acesso. Ficou ali sentado por um momento depois de 
desligar o motor e, a seguir, meteu as chaves no bolso e saiu do carro. De que  que estava  espera? De que ela ali estivesse de braos abertos? Quando se lembrou 
de algumas das coisas que lhe tinha dito naquela noite, no a criticaria se ela no voltasse a falar com ele.
      O seu olhar dirigiu-se para as janelas escuras daquela que era agora a casa de Zachary e, por um instante, ficou preocupado com receio de que ela tivesse deixado 
a criana sozinha em casa. To depressa como lhe veio  cabea, tirou essa ideia da mente. Marilee nunca faria isso nem com uma criana que no amasse. Fosse para 
onde fosse que tivesse ido, tinha levado o rapaz com ela e o bem-estar dele seria a sua primeira preocupao.
      O Boo foi ter com Joe ao passeio entre a casa e a garagem. Joe parou para coar as orelhas do co. - Ol, companheiro - disse baixinho. - Importas-te que durma 
esta noite na tua casota?
      O Boo farejou o antebrao de Joe, besuntando-lhe a pele com baba. Joe fez uma ltima festa ao co e depois foi sentar-se nos degraus laterais da varanda. Isso 
trouxe-lhe recordaes. Sentara-se exactamente ali na primeira tarde. O corao apertou-se-lhe quando se lembrou da precauo que vira nos olhos de Marilee nesse 
dia. E Deus lhe perdoasse, ficara zangado com ela. Est bem, tinha tido uma boa razo. Afinal, deixara que pessoas de quem ele gostava pensassem mal dele. Mas tambm 
tinha uma boa razo para ficar calada. Conhecendo-a como a conhecia, devia ter esperado at saber a verdade para fazer um juzo.
      Joe suspirou e olhou solenemente por entre os joelhos afastados para o cho iluminado pelo luar. Marilee, Marilee, onde ests tu, Marilee? Pensou que estivesse 
em casa dos pais, indubitavelmente to zangada que no queria v-lo naquele momento. No era grande surpresa. Achava que podia ir  procura dela. A despeito do facto 
de no aprovarem o casamento, os dela no o mandariam embora. Era muito antigos na sua maneira de pensar e no interfeririam se aparecesse  procura da mulher. Mas, 
e depois? Podia p-la ao ombro e lev-la para casa contra sua vontade, mas o que  que isso provaria? Que era maior do que ela?
      Joe passou uma mo pela cara e olhou para a faixa do cu que aparecia entre os beirais adjacentes da casa e da garagem. As estrelas cintilavam no manto azul-escuro, 
lembrando-lhe diamantes sobre veludo preto. Naquela noite, o stimo cu estava muito distante, pensou, melancolicamente.
      Invadiu-o a tristeza. Passar muito mais de metade da sua vida a formular desejos s estrelas e todos esses desejos tinham o nome de Marilee. Na realidade, 
nunca quisera outra coisa que no fosse ela. Oh, claro, tinha sido um apaixonado por futebol americano. Mas em comparao com o seu amor por Marilee, mesmo esses 
sonhos de um dia jogar como profissional eram secundrios. Ela estava primeiro. Sempre. Sendo assim, como conseguira ele falhar-lhe to completamente?
      Doa saber isso. Continuou a recordar as coisas que Ron lhe dissera. Que se isolara de toda a gente aps a ruptura. Que tinham ficado todos preocupados com 
a sade dela. Nessa altura, precisara de Joe e ele no estava l para ela. Se. As coisas podiam ter sido to diferentes... se. Se ao menos ele no fosse to impetuoso, 
sempre pronto a lutar para a defender. Se ao menos no tivesse sido to egocntrico na noite em que ela rompeu com ele, talvez lhe tivesse visto o medo nos olhos. 
Ento, teria ficado com ela - teria estado l para a ajudar naqueles momentos maus. Pelo menos, podia t-la levado a dar grandes passeios, de mo dada, ouvindo-a 
despejar o corao.
      Em vez disso, ela resistira sozinha  tempestade e nunca tinha regressado ao bem-estar. Para sempre, Joe. Ganhaste. Sabendo o que sabia agora, apetecia-lhe 
morrer quando se lembrava que ela dissera aquilo. Esta noite, olhara para ela e perguntara a si mesmo para onde fora a coragem dela. Ah, Deus. Abenoada fosse, tinha 
mais coragem no dedo mindinho do que ele no corpo todo.
      O peito de Joe apertou-se e ele prometeu a si mesmo que, se ela lhe desse uma segunda oportunidade, faria, de algum modo, recuar os ponteiros do relgio. Desta 
vez, lev-la-ia a esses longos passeios a p e contentar-se-ia em lhe dar a mo enquanto fosse necessrio. No posso jogar com as tuas regras - dissera-lhe ela. 
Dez minutos,  tudo de que preciso. Agora, perguntava a si mesmo como  que ela tivera coragem para correr atrs dele. Os seus sentimentos e os seus medos no se 
podiam apagar em dez minutos. Daqui em diante, p-la-ia em primeiro lugar, que se danasse o que ele sentia ou o que queria. S ela  que importava, e que sempre 
importara, e, de algum modo, ia provar-lho.
      Passariam por isto e sairiam do outro lado para realizar os sonhos que tinham outrora. Havia de ser. A alternativa, que se perdesse uma coisa to preciosa, 
era impensvel.
      Decidido a rectificar as coisas, Joe tentou concentrar-se na beleza da noite. Quando ela voltasse - se voltasse - queria estar calmo e de cabea limpa. Ao 
longo do passeio entre a garagem e a casa, as cameleiras de folhas brilhantes sussurravam com a brisa e, na escurido circundante, as vozes harmoniosas dos grilos 
cantavam um refro errtico, num lgubre efeito sinfnico.
      De repente, chegou-lhe a cintilao de uma luz brilhante. Inclinou a cabea para escutar. Vindo da rua, ouviu um motor de automvel parar e depois uma porta 
bater. Marilee estava em casa. Rezou uma orao de agradecimento em silncio, tentando pensar no que havia de lhe dizer, e decidiu que a primeira coisa era pedir-lhe 
perdo por lhe ter dito que nunca lhe perdoaria. Como podia ele ter-lhe dito uma coisa dessas? Isso ia persegui-lo durante o resto da vida. Ela tinha guardado silncio 
para o proteger.
      Marilee no lhe deu hiptese de falar, quanto mais de apresentar as suas sentidas desculpas. Em vez disso, dobrou a esquina da garagem numa corrida desenfreada, 
a bolsa a baloiar-se suspensa de uma mo pela correia e a enrolar-se-lhe nos tornozelos. Quando o viu, parou, titubeante.
      - Joe? Oh, meu Deus, Joe, desculpa. Vi o carro da polcia em casa do Stan! Perdoa-me, perdoa-me.
      Levantou-se e desceu do alpendre. - Carro da polcia?
      - Eu nunca te devia ter contado. Estpida, estpida, estpida. Eu sabia o que ia acontecer. Eu sabia.
      - Mari, eu...
      - Deixaste-o muito ferido? - Ps uma mo em cima da cabea. - Oh, Deus. Nem posso pensar. Tens que te ir embora. Vou  casa da me buscar o Zachary enquanto 
metes umas roupas numa mala, para foces os dois. Tens passaporte para ele?
      - Mari, queres meter traves por um minuto e ouvir-me? No magoei o Stan. Cumpri a minha palavra para contigo e no lhe pus a mo em cima. Se h um carro da 
polcia em casa deles,  porque a Susan armou uma zaragata to grande que algum vizinho chamou a polcia.
      Ela olhou para ele por entre as sombras com uma expresso de descrdito. - No o magoaste?
      - Cumpri a minha palavra. O Stan est ptimo. - To depressa quanto pode, Joe contou-lhe o que se tinha passado e que Stan Salisbury deixaria em breve Laurel 
Creek. - Quando sa de casa dele, a Susan estava a chegar-lhe a roupa ao pelo, mas eu nunca lhe toquei.
      Ela foi-se sentar no segundo degrau, como se no conseguisse estar de p nem mais um segundo. Joe viu que ela estava a tremer violentamente e o remorso provocou-lhe 
um n doloroso no fundo da garganta. Gemeu e agachou-se  frente dela.
      - Oh, querida, desculpa. No queria assustar-te. Nunca lhe pus um dedo em cima, juro.
      Ela continuava a olhar para ele, boquiaberta. - Achas mesmo que ele vai sair da cidade?
      Comeou a rir-se, um riso alto e histrico que se transformou rapidamente em soluos. Joe no suportava aquilo. Foi para ao p dela, no degrau, e estreitou-a 
nos braos. - Oh, querida, no. Est tudo bem agora, vai correr tudo bem.
      Ela continuou a chorar. Profundos solutos de choro faziam-na estremecer. Joe pegou-lhe, embalando-a e tentando sosseg-la com pancadinhas nas mos. Mesmo assim, 
continuava a chorar. Ele tinha a sensao de que isto estava atrasado dez anos, que ela precisava de deixar sair tudo.
      Quando, por fim, ficou sem lgrimas, encostou-se, hesitante, a ele, cujos braos pareciam ser a nica coisa que lhe mantinha alguma fora na espinha. Afastando-lhe 
madeixas molhadas de cabelo do rosto, Joe balanava ligeiramente, deixando que o silncio e o movimento oscilante os sossegasse. Havia tanta coisa que queria dizer-lhe, 
que precisava de lhe dizer, e nem sequer conseguia pensar na maneira de comear.
      - Vou ficar to contente por ele se ir embora - sussurrou ela. - To contente, Joe. Nem imaginas.
      Tinha uma vaga ideia.
      - Logo a seguir a ter comprado a minha casa - prosseguiu ela, debilmente - decidi ir ao psiquiatra. Sabia que naquela altura conseguia faz-lo sem que os meus 
descobrissem.
      - Foste ao psiquiatra?
      - Tentei. Andava a ter pesadelos... pesadelos terrveis... e estavam a piorar. Precisava de ajuda. Finalmente, percebi isso. Portanto, telefonei a marcar uma 
consulta no centro de sade mental. Naquela altura ainda no ganhava tanto como isso com as minhas histrias e o pagamento da casa tinha-me presa. Pagava em funo 
dos meus rendimentos, pelo que achei que podia l ir tratar-me.
      Joe no sabia aonde aquilo ia parar. Supunha que no tinha importncia. Ela estava a falar com ele, a contar-lhe coisas que nunca tinha contado. Isso  que 
era importante.
      - Dois dias depois - numa tarde de sbado -, estava eu no ptio a varrer folhas e, quando me virei, estava l o Stan. J ouviste pessoas dizerem que quase 
morreram de susto? Bem, foi o que me aconteceu. Juro que o meu corao parou. No me conseguia mexer, No conseguia gritar. Fiquei ali, Joe. Estava com um ancinho 
na mo. Podia ter-lhe dado com ele na cabea: Mas limitei-me a ficar ali, parada.
      Joe estreitou-a mais, imaginando a cena. Quase podia sentir o terror que ela deve ter sentido - uma frieza terrvel, metlica, na parte de trs da lngua. 
- Disse-me que tinha ouvido falar na minha consulta - sussurrou ela. - E no ia deixar-me l ir, de maneira nenhuma. A primeira coisa que um psiquiatra faria era 
insistir em que lhe desse os nomes dos seus agressores, disse ele. E depois seria incitada a apresentar queixa. Numa localidade pequena como Laurel Creek, a bisbilhotice 
propaga-se como fogo. No ia, de modo nenhum, deixar-me arrastar a sua reputao para a lama. 
      Joe fechou os olhos e cerrou os dentes.
      - Disse que iam acontecer duas coisas se eu o denunciasse; a primeira era que ele e os amigos testemunhariam todos contra mim e jurariam que fora de livre 
vontade. Tinha-se passado meses. Como  que eu ia explicar ter guardado silncio durante tanto tempo? Seria a palavra deles contra a minha. Quando tivessem acabado 
comigo, eu seria objecto de escrnio. E depois far-me-iam arrepender-me de no ter ficado de boca calada. Viriam os cinco visitar-me e seria como nos velhos tempos. 
      Joe precisou de todo o autocontrolo para continuar sentado. Queria voltar directamente  casa de Salisbury e, desta vez, mat-lo. Mas, no, aquilo era s o 
princpio, a primeira de muitas coisas que Marilee lhe contaria. Se queria que ela confiasse nele e lhe fizesse confidncias, tinha absolutamente que ultrapassar 
aquilo e manter-se calmo.
      - Como  que ele descobriu que tinhas marcado uma consulta? -  teve ele que perguntar.
      - Pela me. Ela fazia um trabalho social qualquer. No me lembro exactamente do que era. De algum modo, ela descobriu. Provavelmente, viu o meu nome no livro 
de marcaes, ou qualquer coisa assim. O Stan nunca disse e eu s podia imaginar, mas acho que ela lhe disse. Uma bisbilhotice interessante, a Marilee Nelson a ir 
ao psiquiatra. Quando fiz a chamada, nunca sequer pensei que ela trabalhava l.
      Joe respirou fundo e expirou lentamente. - Ah, Mari. No admira que pusesses formas de piza encostadas s portas. Deves ter andado to assustada.
      Secou a face na camisa dele. - Assustada? Assustada  quando o corao se pe aos pulos e os joelhos ficam como se fossem de gua, Joe. Eu fui muito mais longe 
do que isso. Nessa altura, o Stan tinha voltado para c. Ele e a Susan viviam a poucos quarteires de distncia. E ali estava ele, no meu ptio. No podes imaginar... 
No podes imaginar. Oh, Deus. Fiquei to aterrorizada que nem sequer conseguia pensar.
      - Oh, querida...
      - Olho para trs, para essa altura, e sabes o que sinto? Indignao. Por todo aquele absoluto descaramento. Ele sabia. Ests a ver? Ele sabia a razo por que 
eu no contara. A palavra deles contra a minha. Sempre fora esse o plano deles - atrair-te ao terreno deles, incitar-te a fazer uma loucura e, depois, jurariam todos 
que no tinham feito nada de mal, que eu tinha ido de livre vontade e que tu ficaste enraivecido de cimes.
      - Quando ele me apareceu no ptio, devia ter feito imediatamente qualquer coisa. Contado aos meus. Chamado a polcia. Naquela altura, as coisas tinham-se descontrolado. 
Descontrolado! Ele estava a ameaar-me de voltar e fazer aquilo outra vez! Em vez de chamar a polcia, sabes o que fiz?
      - No, que foi? - perguntou ele, com a voz a arranhar como uma unha em lixa spera.
      - Andei a correr pela casa. A trancar janelas. A barricar portas com mveis. "Ele vai voltar". No conseguia pensar em mais nada. Peguei numa faca de cozinha 
e escondi-me no armrio. No armrio, Joe. Como uma criana a esconder-se debaixo dos lenis. Aquilo era racional? No! Perdi a cabea.
      Joe meteu-lhe os dedos pelo cabelo sedoso e cerrou o punho.
      - Querida, l no ptio, o Stan fez alguma coisa? Para alm de te ameaar, quero eu dizer.
      Um estremecimento percorreu-lhe o corpo e esmagou o nariz contra a camisa dele. Silncio. Um longo e horrvel silncio. Quando finalmente falou, a sua voz 
era pouco mais do que um guincho. - Empurrou-me contra a garagem e... Oh, Joe, no perguntes. Ainda agora, sinto-me to envergonhada.
      - Envergonhada?
      - Ainda tinha o ancinho na mo. Estive sempre com o ancinho na mo. Toda a minha vida fora uma reguila, nunca me ficando. Se algum me empurrava, no pensava 
duas vezes e devolvia o empurro. E se fossem maiores do que eu, que importncia tinha? E de repente ali estava eu, to assustada que no conseguia fazer nada a 
no ser transpirar.
      - Mari... Mari. Tu no s cobarde. No  isso que ests a dizer, espero eu, porque, se , vamos entrar em choque.
      - Eu devia ter-lhe batido. Em vez disso, ele deitou-me as mos e eu... deixei!
      Por um momento, Joe no conseguiu respirar e, pela primeira vez, sentiu realmente o que Marilee devia sentir quando lhe dava um dos seus ataques. Quando, finalmente, 
os pulmes se encheram de oxignio, engoliu e expirou irregularmente. - Quando te deitou as mos,... compreendes... magoou-te?
      - H muitas formas diferentes de magoar - sussurrou ela. - S me apalpou, por cima da roupa. Mais nada. Estava a intimidar-me, tentar assustar-me, mais nada. 
E eu deixei. Alguma coisa quebrou dentro de mim, Joe. At quele momento, por mais doente e assustada que estivesse, tinha feito uma opo. Sabes? Estava determinada 
a no deixar que me usassem para te magoar e, l no fundo, por baixo de todo o medo, sentia-me corajosa. Depois disso, j no. Vi-me cara a cara com quem realmente 
era, uma cobarde choramingona.
      - No.
      - Sim! Escondi-me no armrio! Durante horas - lamentou-se. - Sabes o que percebi nessa altura? Sabes? Que nunca fora corajosa. Nunca! sempre te tive para travares 
as minhas batalhas. No fundo da minha mente, sempre soube que virias em meu socorro se tivesse um problema. Passei metade da minha vida a dar palmadinhas nas minhas 
prprias costas, pensando que tinha coragem. Que anedota. Quando fiquei por minha conta, tinha a espinha de uma alforreca.
      Telefonei-te nessa noite. Sabias? Quando finalmente arranjei coragem para me arrastar para fora do armrio, telefonei  Gerry e ao Ron da extenso do quarto 
e arranjei o teu numero.
      - Telefonaste-me? No me lem...
      - Respondeu o teu companheiro de quarto. Ele gritou para vires ao telefone. Ouvi-o dizer que achava que era eu. Pegaste no telefone e disseste "Est?" com 
uma voz estranha. Depois, disseste: "Mari, s tu?"
      - E tu no respondeste. - Joe fechou os olhos quando se recordou. - Estive  escuta durante muito tempo, a rezar para que fosses tu mas nunca respondeste. 
Finalmente, desliguei, pensando que era uma brincadeira.
      - Era eu - disse ela, com voz rouca. - Nunca desliguei, mesmo depois de teres cortado a ligao. Dormi toda a noite com o auscultador nos meus braos. Fazia-me 
sentir, de algum modo, mais prxima de ti. Mais segura. No  uma estupidez?
      Lgrimas encheram os olhos de Joe. - Ah, Deus, Mari, porque  que no disseste qualquer coisa? Podia ter apanhado um avio e estaria c em poucas horas. Por 
que diabo no me pediste que viesse? Posso ser temperamental. Mas amava-te tanto. Porque  que no disseste qualquer coisa?
      - Porque no. - Apenas isso, porque no. Mas transportava um mundo de desespero. Passado um tempo, acrescentou: - Havia demasiadas coisas entre ns. A histria 
do Stan no era tudo. Quando ouvi a tua voz e te imaginei a correr para casa para estares comigo, soube que no podia.
      - No podias o qu?
      - Estar contigo. Estava demasiado confusa, nessa altura. Era como andar  roda num labirinto de espelhos, Joe. No conseguia encontrar a sada e estava tudo 
distorcido. Sabes o que quero dizer? Olhando para trs, percebo agora que no estava a pensar correctamente desde o incio. Tomei decises estpidas e essas decises 
levaram a mais decises estpidas. No se pode permitir a ningum que tenha um poder desses sobre ns. Foi sempre um erro. Ao guardar silncio acerca daquela noite 
e esperar, prejudiquei a minha prpria credibilidade. Se tivesse avanado mais tarde e os tivesse acusado, quem ia acreditar em mim?
      Joe apoiou o queixo na cabea dela. Um labirinto de espelhos. Aquela descrio criou na mente dele uma imagem muito clara de como ela se sentia ento e ainda 
devia sentir-se agora. Confusa, em pnico, insegura quanto ao lado para onde se virar.
      - Oh, querida, tomara que eu estivesse c.
      Ela ps-lhe a mo magra no cachao. - Naquela altura, provavelmente no podias ajudar-me, Joe. Levou tempo e piorei antes de comear a melhorar. Pode pensar-se 
"E se?" Podemos dizer a ns mesmos que as coisas teriam corrido de modo diferente, se ao menos isto ou aquilo tivesse acontecido. Mas o facto  que as coisas aconteceram 
como aconteceram. Est feito. No se pode mudar. Estou grata por ter conseguido atravessar isso e manter a minha sanidade. 
      - Tambm eu.
      - Mas houve alturas em que juro que a senti a fugir de mim. Era como se chegasse  beira de um penhasco muito alto e olhasse para baixo, para o abismo escuro 
e horrvel. S pela graa de Deus  que conseguia dar um passo atrs para no cair. Quando comecei a melhorar, tinha um sonho favorito: pr-me completamente boa, 
ter a minha vida toda direita e, depois, tu voltares. No meu sonho, quando me viste, percebeste que ainda me amavas. - Ficou calada por um momento, os dedos a brincarem 
nervosamente com o colarinho canelado. - Mas quando realmente aconteceu e tu voltaste, eu no estava bem. Estava melhor, mas no estava bem, e tu ali estavas, pronto 
ou no. Pior ainda, tinhas adivinhado o meu segredo. Nem todo, mas tinhas adivinhado o suficiente para me assustar quase de morte. Estava aterrorizada com a possibilidade 
de fazer ou dizer alguma coisa que te fizesse perceber o resto.
      Joe suspirou: - No admira que fosse to fcil para ti entender o Zachary. Estavam ambos com o mesmo problema. Fiz uma quantidade de erros, Marilee. Contigo 
e, depois, com o meu filho. Talvez tenha aprendido um pouco tarde a lio, mas aprendi. No tens que te preocupar com a possibilidade de eu voltar a disparar em 
falso. Dou-te a minha palavra.
      Ela no disse nada.
      - Quanto a esse teu sonho favorito? Ainda aqui estou e no me vou embora. Estar contigo tambm  o meu sonho favorito, acordado ou a dormir. Que tal torn-lo 
realidade juntos?
      - No tenho a certeza de como. Quando penso que encontrei uma sada do labirinto, vou de encontro a mim prpria. Isso faz algum sentido?
       - Eu conheo a sada. Se confiares em mim, mostro-ta.
      - Tendo sexo, queres tu dizer?
      Apertou os braos  volta dela. - No, no  sexo. Acreditas mesmo que s penso nisso?
      - Sim.
      Ele riu-se. No conseguia parar. Realmente, pensava muito nisso, sempre que olhava para ela.
       - Ainda no ests pronta para fazer amor. Quando estiveres, chama que eu estou logo l. Est bem?
       - Acho que deves saber que comeo a perguntar a mim mesma se alguma vez estarei pronta. Sempre que penso nisso, fico gelada por dentro.
      - Porque  que pensas que isso acontece? - Esperou um instante. - Vou dizer-te porqu. No ests a pensar em como ser comigo. No podes saber porque s tens 
um ponto de referncia, e realmente mau. Tomara eu, agora, que no tivssemos esperado. Que tivssemos feito amor centenas de vezes. Ento, conseguirias olhar para 
trs e recordar coisas boas. Em vez disso, s tens recordaes horrveis.
      - Sim - confessou ela com voz rouca. - Realmente horrveis, Joe.
      - Gostava que partilhasses essas recordaes comigo.
      - Partilh-las contigo?
      - Exactamente. Esta noite. Conversa comigo, Mari, da mesma maneira que terias sido capaz de conversar comigo h dez anos. As ms recordaes perdem fora quando 
se partilham. No sabes?
      - Partilh-las com a Doutora Patterson no as fez perder forca. Ele sorriu com tristeza e deu-lhe um beijo na ponta do nariz.
      - Isso foi porque a Doutora Patterson no pode ajudar-te a substituir todas as recordaes horrveis por novas recordaes maravilhosas. Queres trocar? Exactamente 
o oposto, recordaes antigas por recordaes novas. Combinado?
      
    
    Captulo Treze
      
      
      
      Recordaes antigas por recordaes novas.
      O plano de Joe parecia uma loucura a Mari. Todos os pormenores relacionados com essa noite estavam indelevelmente gravados no seu crebro, e as recordaes 
no perderiam fora simplesmente por ela ter partilhado a experincia com ele. Joe conseguia ser muito persistente quando fixava a mente numa coisa qualquer e, durante 
o resto da noite, aplicou-se na tarefa de tirar de dentro dela a histria toda.
      A principio, Marilee resistiu, preferindo, em vez disso, dar descries vagas. As coisas que ela suportara eram vergonhosas e degradantes, e nunca tinha sido 
capaz de se livrar da sensao de que o incidente a deixara manchada. Pior ainda, era o tipo de sujidade que uma mulher nunca conseguia lavar. Deus sabia como tentara, 
esfregando a pele, em varias ocasies, at quase ficar em carne viva. Depois, ainda se sentia suja e, l no fundo do seu corao, receava que Joe pudesse sentir 
a mesma coisa.
      No tinha inteno de lhe contar, claro. Mas, nessa altura, tambm no tinha inteno de voltar a comear a chorar. Joe vira toda a espcie de insanidades 
ao longo da sua carreira. 
      - Desculpa - disse ela, batendo, irritada, nas bochechas. - No sei o que  que me deu esta noite. Acho que o dique est com um vazamento gigantesco.
      - Bom. Pra de pedir desculpa e deixa sair.
      Por alguma razo, aquilo s a fez chorar ainda mais. Embaraada mas incapaz de parar, ps uma mo trmula em cima dos olhos. - D-me... s... um minuto.
      - Dei-te dez anos. - Ps-lhe um brao  volta da cintura, os msculos tensos, a formarem um crculo rgido. - Vem c, querida...
      - No... No, s precise.
      - Disto  que tu precisas - disse ele, com uma voz que parecia um prolongado rugido. Antes que ela pudesse imaginar o que ele tencionava fazer, pegou-lhe ao 
colo. - E eu. Ah, meu Deus, Mari. Quando penso que passaste por aquilo sozinha, apetece-me chorar contigo. - Com um brao ainda  volta dela, comeou a tocar-lhe 
no cabelo e nas costas. - Devia l estar. Do fundo do corao, tomara que l estivesse. Devia l estar...
      - Oh, Joe...
      Marilee no tinha a certeza do que lhe dissera depois daquilo. Na-da... tudo. As palavras saiam em turbilho. Vinham aos molhos, sem fazer sentido. Exprimia 
pensamentos e sensaes que nem sequer sabia que tinha. Ouvia-se a si mesma a descrever coisas que tinham acontecido com todo o pormenor, parte dela horrorizada 
e envergonhada, outra parte, infantil, com necessidade de lhe contar.
      Sempre que vacilava, ele incitava-a com perguntas a continuar at que, finalmente, ela lhe contou tudo. Ento, apoderou-se dela a mais estranha das sensaes 
- um vazio interior, como se tivesse sido lancetada e drenada uma ferida ulcerosa dentro dela. Encostou-se a ele, encaixando um ombro debaixo do brao e encostando-lhe 
a face ao corao. A cavidade do corpo e o amplexo do brao dele criaram  volta dela um bero de fora e calor.
      - De algum modo, aguentei at depois de te ver - sussurrou ela. - Mais ou menos como durante um desastre, quando as pessoas fazem o que tem que se fazer e 
mais tarde caem. Comigo, foi assim. Sabia que, primeiro, tinha que fazer uma coisa: ver-te, devolver o anel e convencer-te de que estava acabado.
      - Oh, Mari. Agora, compreendo porqu, mas, oh, Deus, como desejava que no tivesses feito isso.
      Silncio. Um longo e pensativo silncio.
      - Depois de eu me ir embora... que aconteceu, ento, querida?
      -  tudo um espao em branco. Fui de carro para a escola, embalei as minhas coisas mas no me lembro de o ter feito. S sei que o fiz porque a minha famlia 
mencionava isso repetidamente. Agora, de certo modo, para mim,  assustador saber que conduzi sempre em piloto automtico. No me lembro de nada.
      - Jesus... podias ter tido um acidente.
      - A minha primeira recordao clara  de quando j estava em casa. Deitada na cama com o lenol a tapar-me a cara. Horas e horas a olhar para aquela brancura. 
Fingi que era neve. No  uma loucura? Tinha frio. Um frio horrvel, e no conseguia aquecer. At a minha mente parecia congelada. Enterrada debaixo da neve. Era 
assim que me sentia. E pedia a Deus que me deixasse ali ficar. Lembro-me de a minha me ter entrado e tirado o lenol. Foi como... Sabes aquela sensao que se tem 
quando se v um filme demasiado perto do ecr? O modo como tudo passa a correr na tua cara? Era assim que eu me sentia... como se tudo viesse em direco a mim. 
A minha me, as paredes e a moblia. Foi horrvel e s o lenol por cima da minha cara  que travava aquilo.
      - Oh, Mari. Devias ter estado sob superviso de um mdico. Choque, talvez. Ou um colapso nervoso. Meu Deus. Porque  que ela no chamou algum?
      - Chamou. Uma vez, chamou. Depois, o pai chegou a casa e eu pedi-lhe que no me obrigasse a ir. Sabia que descobririam. Que um mdico, mal olhasse para mim, 
saberia. Ainda tinha ndoas negras e arranhes e estava ferida por dentro. S a ideia de ser examinada e tocada fazia-me entrar em pnico. No queria um mdico estpido. 
S queria que me deixassem em paz.
      - E o teu pai desistiu? - perguntou ele, em tom incrdulo.
      - Disse  me que eu era uma rapariga crescida e sabia se estava doente ou no. No tinha febre, nem nada. Se No queria ir ao mdico, no tinha que ir. S 
mais tarde, quando viu que tinha perdido muito peso,  que me obrigou a ir.
      - E, nessa altura, j tinham desaparecido as provas reveladoras - concluiu por ela.
      - Sim, tinha desaparecido tudo. E, nessa altura, no precisava do lenol em cima da cara. Tinha-o dentro da cabea.
      - O qu?
      - Dentro da cabea... a brancura. No consigo explicar. Mas durante algum tempo, foi assim que me senti... como se o lenol ainda estivesse l dentro da cabea. 
Via e ouvia. Mas, na realidade, no sentia nada. Podia sair do meu quarto. Falar com pessoas. Comer. Ver televiso. Ir  igreja, se me obrigassem. J no sentia 
nada, e precisava disso. Mantive tudo afastado de mim at eu estar pronta. Sabes? Depois disso, deixei regressar lentamente os meus sentimentos e comecei a melhorar. 
Isso foi quando comecei a fazer esboos e desenhos, a fazer histrias para os midos da Gerry. Toda a gente disse que eram suficientemente boas para serem publicadas 
pelo que fiz uma apresentao e, sem dar por isso, estavam a pagar-me para tratar dos meus sentimentos.
      Sentiu a boca curvar-se num ligeiro sorriso.
      - Tratares dos teus sentimentos?
      - As histrias infantis eram a minha catarse. Reflexos de mim, da minha vida e do que tinha acontecido. Alegorias simplistas, basicamente. Nas minhas histrias, 
conseguia fazer acontecer as coisas como eu desejava que acontecessem. - Marilee fechou os olhos, sentindo-se subitamente desconfortvel. - Proporcionava-me uma 
fonte de rendimento e tambm me ajudava a aguentar. Era o emprego perfeito para mim. No muito tempo depois, tive a brilhante ideia de comprar esta casa e, ento, 
os meus pesadelos pioraram. Telefonei a marcar uma consulta para o psiquiatra, o Stan apareceu e fui outra vez por a abaixo. Ataques de pnico, agorafobia, parania. 
Demorei muito tempo a melhorar.
      - Foi preciso muita coragem. Isso  que foi preciso.
      Marilee surpreendeu-se por se rir baixinho. Era a mais incrvel das sensaes, ser capaz de se rir to pouco tempo depois de falar daqueles anos negros da 
sua vida. Sentia-se como se Joe tivesse aberto umas pesadas cortinas que havia dentro dela e deixado entrar o sol. - No vejo que tenha sido particularmente corajosa.
      - Sim, bem, somos sempre os nossos piores crticos. Por exemplo tu pedires-me que no fizesse um juzo diferente de ti. Como se o que aconteceu fosse, de algum 
modo, culpa tua! Ainda por cima, eu ia pensar pior de ti?
      - No me lembro de ter dito isso.
      - Disseste, sim - garantiu-lhe ele. - E parte-me o corao saber que pensas assim. Podes explicar porqu, Mari?
      Ela passou-lhe a mo pela camisa, ouvindo o rudo spero da sua respirao e o baque mudo do seu corao a bater. -  uma estupidez. No  importante, na realidade.
      - Para mim,  importante.
      - Tu esperaste - sussurrou ela.
      - Esperei?
      - At podermos casar-nos, esperaste.
      - E isso  significativo?
      Marilee retraiu-se interiormente, cerrando o punho. - Estiveste  espera at nos casarmos, e eles... estragaram isso. Sei que era importante para ti. Por favor, 
no mintas e no digas que no era. Eu bem sei. Tinhas estado com outras raparigas, mas nunca me tocaste dessa maneira. Querias que nos casssemos primeiro.
      Quando finalmente ele respondeu  acusao, o seu tom foi severo.
      -  Pensas que eu... Mari, doce e tonto amor. - Meteu-lhe os dedos no cabelo, fazendo muita presso no couro cabeludo com a palma da mo.
      - No estive  espera da nossa noite de npcias por me importar, desta ou daquela maneira, que fosses virgem. - Interrompeu-se e praguejou em surdina. - Esperei 
por tu seres assim.
      - Era como? - perguntou ela, confusa.
      - Antes de sairmos, aos sbados  noite, tinha que te levar  igreja,  confisso. Lembras-te? Que tipo de homem  que desflora uma virgem no assento de trs 
do seu calhambeque Chevrolet quando ela ainda nem terminou a penitncia.
      Marilee no percebia como era que a sua penitncia no liceu tinha fosse o que fosse a ver com ela ser virgem na noite de npcias.
      - Tu gostavas que eu fosse como era - guinchou ela - e depois, fui... mudada.
      - No. - Beijou-lhe a ponta do nariz. - Quando saste daquela irmandade, eras to pura e doce como quando entraste.
      - Como podes tu dizer isso?
      - Porque  verdade. O problema era deles, Mari, no era teu. Quanto a esperar pela noite de npcias? Querida, como poderia eu ter feito de outra maneira e 
perdoar-me a mim mesmo? Independentemente de te amar como amava... ou de as coisas entre ns serem maravilhosas, sabia que serias consumida pelo sentimento de culpa. 
Na tua mente, at acariciarmo-nos era pecado. - Suspirou e apoiou mais o corpo na almofada, arrastando-a com ele. - Trazias um rosrio e um pequeno frasco de gua 
benta na bolsa, por amor de Deus. Eu queria fazer amor contigo, mas sabia que, se fizesse, alteraria as coisas todas que mais amava em ti. Isto faz algum sentido? 
Fazer amor deve ser uma coisa maravilhosa e eu sabia que para ti no seria maravilhoso enquanto no te metesse uma aliana no dedo.
      - Oh, Joe...
      - Lembras-te de quando escapamos para passar uma noite sozinhos na floresta? - perguntou ele de repente. - Disseste  tua me que ias dormir  casa da Patti. 
S tnhamos o meu saco-cama e uma almofada e l fomos. Tnhamos acabado de fazer dezasseis anos.
      Ela voltou-se a sorrir, acalmada pela dureza musculosa do corpo dele e pelo rudo surdo da sua voz. - Lembro.
      - O meu plano era fazer amor contigo nessa noite.  
       - Era?
      Ele riu-se baixinho. - Tinhas dezasseis anos. Tinha metido na cabea que a idade de dezasseis anos era um marco. Finalmente, tinhas idade suficiente. Pedi-te 
que te escapasses comigo e tu nem sequer hesitaste em dizer que sim. Durante toda essa semana, andei to excitado que mal conseguia pensar direito e contava os minutos 
que faltavam para te poder pr as mos em cima!
      - No fazia ideia.
      - Marilee - disse ele, num tom entrelaado com uma terna exasperao -, quando um tipo de dezanove anos convida a rapariga que adora para se escapar com ele 
para um interldio na floresta, o que , exactamente, que supes que ele tem em mente? Assarem as gomas de ambos no mesmo pauzinho?
      - Bem... suponho que se fizesses agora essa sugesto, eu podia suspeitar altamente das tuas intenes.
      - E devias ter suspeitado naquela altura, mas, Deus me ajude, no suspeitaste. A nica coisa que te preocupava naquela noite era a mentira que tinhas dito 
 tua me. Mentir, informaste-me tu, era um pecado mortal, e, se fosses comida por um urso antes de amanhecer, ias direita para o Inferno. - Deu uma gargalhada, 
alto. - Com dezanove anos e a transpirar testosterona, percebi que talvez tambm pudssemos divertir-nos se amos direitos para o Inferno, significando divertir-nos 
ter sexo apaixonado no meu saco de dormir. No. Quando te apanhei l dentro enfiaste-me um dedo no olho a fazer o sinal da cruz e, depois, disseste as tuas oraes 
da hora de deitar. As tuas oraes, por amor de Deus! O meu estado, que durara uma semana inteira, educadamente designado como de prontido constante, fracassou 
e mordeu a poeira. O que sei  que a seguir andei no porta-bagagem  procura do diabo das gomas e acabei por te trazer de volta  cidade de modo a poderes passar 
a noite em casa da Patti, como tinhas dito  tua me que ias fazer. Marilee riu-se. No pde evitar. Ele parecia to desapontado.
      - Achas graa, no achas? - Ele tambm se riu e depois resmungou. - Se pedires  maioria dos rapazes que indiquem o momento em que deixaram de ser rapazes 
e passaram a ser homens, normalmente citam-te uma experincia sexual ardente. Mas eu, no. Eu tornei-me um homem naquela noite, algures entre "Ave Maria" e "reza 
por ns, pecadores". S nesse momento  que percebi.
      - Percebeste o qu?
      Chegou-a mais para si. Durante um longo momento, no disse nada e, quando finalmente falou, a sua voz tinha-se tornado numa voz enrouquecida e vibrante de 
tenor. - Que valia a pena esperar pela minha mida para sempre. - Deu-lhe um beijo no cabelo. - E sabes que mais, minha Mari? Ainda vale a pena esperar por ti.
      Depois de Marilee se ir deitar, Joe foi direito ao quarto que ela usava como escritrio. Todos os livros que ela tinha escrito estavam na prateleira de cima 
da estante. Joe reuniu a coleco inteira, num total de quase trinta livros, na curva do brao e levou-a para o seu quarto, onde planeava fazer uma maratona de leitura. 
Depois de verificar as datas dos copyrights, determinou que a primeira publicao se intitulava O Meu Amigo Moe.
      Com um vago sentimento de culpa, Joe despiu-se, ficando apenas com as boxers, e depois estendeu-se na cama com a cabea e os ombros apoiados em duas almofadas. 
Recordou a si mesmo que no era a mesma coisa que estar a ler o dirio pessoal dela. Podia comprar qualquer daqueles livros na cidade. Se o contedo da histria 
reflectisse os seus pensamentos e as suas sensaes e ela no quisesse que ele os lesse, devia ter comeado por no a deixar publicar. No tinha razo para se sentir 
um bisbilhoteiro.
      Ainda s tinha lido umas linhas quando comeou a ficar com comicho na cabea. A histria era acerca de uma rapariga chamada Bethany cujo maior amigo no mundo 
era o seu fiel co, Moe, um grande e turbulento rafeiro castanho-escuro com tendncia para jogar  bola, perseguir o carteiro e virar as latas de lixo do vizinho. 
Um maroto intratvel, Moe tinha uma graa salvadora, a sua absoluta devoo a Bethany. A rapariga e o co eram quase inseparveis e o nico tempo que passavam separados 
era quando ela estava na escola.
      Joe franziu o sobrolho. O nico tempo em que ele e Marilee alguma vez tinham estado separados, enquanto eram midos, fora quando estavam na faculdade. Moe? 
Mude a primeira letra e fica com qu? Joe. Aquilo era a histria deles.
      Um malandro travesso? Ao menos, podia t-lo representado por um co de raa pura - talvez um belo golden retriever. No entanto, tinha representado Joe perfeitamente 
ao contrrio. Uma paixo por jogar  bola. Grande e turbulento. Cheio de travessuras. Aquelas frases descreviam-no perfeitamente enquanto adolescente e jovem.
      Suspirando, continuou a ler e depressa comeou a sorrir. Por muito malandro que fosse, Moe era um grande co, sendo a sua principal caracterstica a feroz 
capacidade de proteco de Bethany. Quando o vizinho empurrava Bethany, Moe mordia-lhe na perna e rasgava-lhe as calas de ganga. Quando Bethany acordava dos seus 
pesadelos, Moe estava deitado entre ela e o armrio de modo que no pudessem entrar monstros imaginrios e apanh-la. Quando as coisas corriam mal na escola e Bethany 
chegava a casa lavada em lgrimas, era Moe que sempre lhe lambia a cara e lhe fazia voltar o sorriso. Moe, sempre Moe, o felpudo prncipe canino de Bethany.
      Vieram lgrimas aos olhos de Joe quando chegou  parte negra da histria. Uma manh, a caminho da paragem do autocarro, Bethany no ia com as outras raparigas, 
como os pais lhe tinham dito que fizesse. Em vez disso, decidiu ir por um caminho diferente e rapidamente se viu num bairro estranho. Grandes arbustos cresciam ao 
longo dos passeios e altas rvores projectavam sombra sobre ambos os lados da rua, fazendo o caminho parecer escuro e fantasmagrico. Bethany comeou a ficar com 
medo e, por isso, caminhou mais depressa, ansiosa por voltar para ao p dos amigos.
      Mais ou menos a meio do quarteiro, um enorme co desmazelado saltou do meio dos arbustos sobre Bethany. Para fugir, ela dirigiu-se para uma viela e escondeu-se 
atrs de um caixote de lixo. O enorme co, demasiado largo de ombros para a seguir, farejava e rosnava-lhe, mordendo o ar  frente da cara dela com os seus dentes 
enormes. Passado um bocado, o caixote do lixo deslocou-se ligeiramente sob a forca do co e Bethany percebeu que ia ser comida.
      Fartou-se de gritar ao animal para se afastar. Ele s se aproximava, o seu rosnado a aterroriz-la. Os minutos passaram, transformaram-se em horas e ela continuava 
ali presa, sabendo a cada momento que o co podia mago-la se se aproximasse mais.
      Finalmente, um polcia ouviu o tumulto e entrou na viela. O co ouviu-o chegar e fugiu. Bethany foi salva e levada para a esquadra, aonde o pai foi chamado 
para a ir buscar. Quando finalmente chegou  casa e o seu fiel amigo Moe veio a correr cumpriment-la, Bethany olhou fixamente para o seu enorme corpo felpudo e 
para os seus dentes enormes. Ficou assustada e agarrou-se  perna do pai.
      Bethany tinha ficado aterrorizada com o seu melhor amigo no mundo.
      A garganta de Joe apertou-se-lhe quando leu aquela passagem, pois sabia que era o reflexo de como Marilee se sentia. Passou com as pontas dos dedos por cima 
da pgina,  procura de uma ligao com a rapariga que tinha escrito aquelas palavras. Mari, a sua doce Mari. Lendo aquilo, podia, finalmente, perceber o tormento 
dela naquela altura.
      Joe suspirou e voltou a concentrar-se na histria. Bethany - Marilee.  medida que avanava na leitura, as duas tornavam-se uma s na sua mente e j no via 
Moe como um co felpudo. Em vez disso, via-se a si mesmo aos vinte e um anos - um jovem alto com um pescoo de touro, ombros largos e um corpo esculpido com msculos 
do trabalho com pesos.
      Bethany tentou no ter medo de Moe. L no fundo, sabia que, afinal, ele nunca a magoaria. Era muito grande e tumultuoso e, quando tentava lamber-lhe a cara, 
para a cumprimentar, Bethany no podia deixar de reparar que os dentes dele eram compridos e afiados, como os daquele co que quase a comera.
      Joe suspirou e passou uma mo pelos olhos. Recordaes. Tentara cumprimentar Mari com um beijo quando a vira naquela noite, nunca sonhando que ela pudesse 
ter medo dele. Ela tinha-lhe empurrado o peito e evitado a sua cara. Que  que se passa?, perguntara ele. No ests contente por me ver? Ela nunca respondera e, 
antes que ele conseguisse prosseguir, entregou-lhe o anel. Daquele momento em diante, ficara cego para tudo menos para a sua prpria dor.
      Joe obrigou-se a continuar a ler. Uma vez que o medo que a Bethany tinha de ces no passava, o pai arranjou noutra famlia uma boa casa para Moe. Moe estava 
infeliz com os seus novos donos e, apesar do medo de ces, Bethany tinha umas saudades terrveis do Moe. Nunca mais brincou com o vizinho porque o Moe j l no 
estava para a defender. Nunca mais foi dar passeios a p porque receava que o co mau lhe saltasse dos arbustos. Precisava do Moe para lhe dar outra vez segurana, 
mas tinha medo de pedir ao pai que trouxesse o co de volta.
      Finalmente, o Moe fugiu da sua nova casa e, uma tarde, apareceu como por magia  porta de casa da Bethany, arranhando para entrar. Muito assustada quando viu 
o co, Bethany foi a correr esconder-se no quarto. Os sentimentos do Moe ficaram muito feridos quando a Bethany fugiu dele, mas gostava demasiado dela para deixar 
que isso o desencorajasse. Conseguiu abrir a porta de rede com o focinho e entrou na casa. Depois, servindo-se dos seus dentes grandes e afiados, que a Bethany tanto 
temia, rodou o puxador da porta do quarto dela. Uma vez dentro do quarto, Moe deitou-se entre ela e o armrio.
      A Bethany percebeu ento como tinha sido tola. Mesmo agora, quando estava a trat-lo to mal, o Moe estava a tentar faz-la sentir-se segura. Saltou da cama, 
abraou-se ao pescoo do Moe e comeou a chorar, dizendo-lhe como lamentava t-lo mandado embora. No era culpa do Moe que ela tivesse ido por um caminho diferente 
naquela manh terrvel, e s porque tinha sido perseguida por um co mau, isso no significava que todos os outros ces tambm fossem maus, especialmente o Moe, 
que gostava tanto dela.
      O Moe compreendeu e no ficou zangado com a Bethany. Era o seu melhor amigo no mundo, afinal, e os grandes amigos compreendem aquilo que mais ningum poderia 
compreender. Tal como sempre fizera quando a Bethany ficava triste, o Moe lambeu-lhe a cara e f-la sorrir outra vez.
      Depois de ler o fim, Joe fechou o livro e ps um brao por cima dos olhos. Ah, Mari. No havia nada que ele quisesse tanto como faz-la sorrir outra vez.
      Tal como o Moe, tinha aparecido como que por magia no alpendre dela, uma tarde, e tinha-a seguido pela casa dentro. O mundo para l dessas paredes era o armrio 
dela, cheio de monstros muito reais, e tinha feito os possveis e os impossveis para a fazer sentir-se segura desde ento.
      Pondo o livro de lado, Joe esticou-se para apagar a luz. Quando a escurido o envolveu, sorriu. No estava na cama dela, mas estava apenas a duas portas de 
distncia, que era o mais perto que se podia arranjar de momento. No havia monstros, nem reais nem imaginrios, que se aproximassem mais de cem metros dela, isso 
era seguro, e da a trinta dias, o co mau que morava trs quarteires acima estaria a sair da cidade.
      Por nunca ter lido aquela histria at agora, tinha-se portado tremendamente bem a corresponder s expectativas dela, decidiu. Agora, era s uma questo de 
tempo e de esperar por ela. J estava quase l. Via-o nos olhos dela sempre que ela olhava para ele. No demoraria muito at carem os ltimos obstculos que existiam 
entre eles. Uns dias. Talvez, no mximo, umas semanas. Na realidade, no importava.
      A sua mida para sempre valia a espera.
      
      
    Captulo Catorze
      
      
      Ainda vale a pena esperar por ti. Para Marilee, aquelas palavras soaram como uma litania, uma frase que ela sussurrava para a tranquilizar quando se sentia 
perturbada - o que, ao p de Joe, parecia acontecer na maior parte do tempo. Era to exasperantemente macho. At o simples acto de dar um passeio a p  noite a 
levava a ver os contrastes entre eles.
      Para Marilee, um passeio pelas margens do Laurel Creek ao pr do Sol era uma oportunidade para admirar a natureza. Era Setembro, j adiantado, e as encostas 
estavam resplandecentes com as primeiras pinceladas de Outono, os laranjas e os amarelos a darem brilhantes salpicos de cor ao cenrio do verde da floresta. Adorava 
o vigor fresco do ar da noite que anunciava a aproximao do Inverno. Vises de abboras iluminadas, perus do Dia de Aco de Graas e de luzes de Natal enchiam-lhe 
a mente. Enquanto via o Zachary a brincar com o Boo ao longo da borda de gua, imaginava como ia ser divertido decorar a casa este ano e como os olhos do menino 
chispariam de excitao.
      Numa dessas excurses, Marilee olhou referencialmente para o que a rodeava e disse: - Oh, Joe, isto no  a vista mais maravilhosa que alguma vez viste?
      - Sim - concordou ele. - Absolutamente maravilhosa, sem dvida nenhuma.
      Algo no seu tom de voz f-la olhar para ele. Em vez de admirar a encosta, estava a olhar directamente para ela com um brilho especulativo e maroto nos olhos.
      - Joe! - disse ela, completamente exasperada. - Nem sequer ests a olhar.
      - Estou, sim, estou a olhar e adoro o que estou a ver - foi a resposta dele.
      Marilee comeou ento a impacientar-se, com medo de que um boto da blusa pudesse abrir-se ou que o fecho de correr das calas de ganga se tivesse aberto. 
Enquanto ela fazia inspeces ansiosas  roupa, Joe ria-se.
      - Que  que ests a fazer?
      - A certificar-me de que ainda estou composta.
      Ai, ele piscou o olho e disse. - Confia em mim, ests to bem composta como nenhuma mulher que alguma vez tenha visto.
      E assim continuou, com as suas rplicas provocadoras a deix-la desconcertada e desequilibrada durante o resto do passeio.
      - Ests a fazer-me isto de propsito - acusou-o ela, uma noite.
      - Hum-hum - foi a resposta dele, com o olhar afectuoso fixo no dela e a boca inclinada num ligeiro sorriso. - Lembra-te do que te disse. Quando estiveres pronta, 
chama e eu vou imediatamente.
      - Porque  que tenho esta sensao de que no ests a falar de assarmos as nossas gomas no mesmo pauzinho?
      Deu uma gargalhada estrepitosa. Quando a hilariedade passou, disse. - Porque s uma senhora inteligente que sabe quando est a ser atacada?
      - Como se tu fosses subtil e eu precisasse de ser particularmente astuta? - Quando ele se limitou a rir outra vez, Marilee beliscou-lhe o brao, a brincar. 
- Ests a pr-me muito nervosa.
      Ele ps-lhe um brao por cima dos ombros e puxou-a para o seu lado. - No devias estar nervosa. Eu sou o teu melhor amigo no mundo, lembras-te?
      Por alguma razo, aquelas palavras e o seu tom de voz tocaram-lhe numa corda sensvel, mas antes que ela pudesse prosseguir no seu pensamento, ele inclinou-se 
para lhe mordiscar levemente a orelha. Encheu-se de pele de galinha ao primeiro toque dos dentes dele. Olhou ansiosamente  sua volta, semidesejosa de que estivessem 
mais perto do jardim, onde havia mais pessoas. Estupidez. Se fosse para tentar alguma coisa, ele tinha muitas oportunidades em casa. No ia esperar que andassem 
a passear ao longo do Laurel Creek, especialmente com o filho a brincar por perto.
      A voz dele era um rudo baixo e prolongado que corria, ntida, atravs dela quando ele sussurrou: - Vale a pena esperar para sempre. No te sintas nervosa, 
est bem?
      A despeito dessa tranquilizao, Marilee sabia que a pacincia dele para com ela estava a diminuir e, na realidade, no podia critic-lo por isso. Que se passava 
com ela? Ele era lindo de morrer. Era doce e maravilhoso. Ainda por cima, realmente era o melhor amigo dela no mundo e ela amava-o tanto que doa. Ele apenas queria 
o que milhes de outros homens tinham como adquirido, que milhes de outras mulheres davam livremente. Porque  que ela no conseguia ser o que ele precisava que 
fosse?
      Na sesso semanal seguinte com a Dr.a Patterson, Marilee queixou-se amargamente da tenso constante sob a qual estava. - Ele, agora nunca deixa passar. Independentemente 
do que estivermos a fazer, h sempre insinuaes. Faz-me saber de centenas de maneiras diferentes que est a pensar naquilo. Honestamente, Joan, os homens nunca 
pensam em mais nada?
      Joan sorriu e recostou-se na cadeira para pr os ps em cima da secretria. - H estudos que dizem que no.
      Marilee achou aquela revelao espantosa. - Oh, Deus. Nunca?
      - A maioria dos homens diz que pensa em sexo o dia todo, mesmo que estejam concentrados noutra coisa.
      - Isso deve tornar a vida ligeiramente complicada.
      - Parece que eles lidam bem com isso. Indubitavelmente, tem algo a ver com a oposio entre crebro direito e crebro esquerdo. - Patterson encolheu os ombros. 
- Os homens so criaturas sexuais. No me parece que tenha razo para estar alarmada. Joe est, obviamente, disposto a esperar. Est apenas a faz-la saber que est 
ansioso e que a espera no  fcil, e tudo.
      - Oh, Joan. Que vou fazer? Eu amo-o. Honestamente, amo-o. Mas ainda no estou sequer perto de estar pronta para uma relao ntima. E no sei quando estarei.
      Joan voltou a sorrir. - Vou fazer-lhe uma pergunta, Marilee. Que  que acha que deve acontecer antes de estar pronta? Que  que exige que o Joe faa antes 
de estar pronta?
      - No tenho a certeza.
      Olhou para o relgio. - Pense nisso. Talvez encontre algumas respostas. Retomaremos esta conversa na prxima semana.
      Uma tarde, Joe veio do treino de futebol americano pouco depois de Marilee chegar de uma sesso de psicoterapia. - Pareces exausto - disse ela. - Que se passa?
      Ainda com as calas e a T-shirt cinzenta do fato-de-treino da escola vestidos, deambulou pela cozinha, estreitou-a nos braos e enterrou a cara no cabelo dela. 
- Um dia difcil - disse ele, cansado. - Como  que esto a progredir as coisas?
      - Bem. Hoje trabalhei cerca de trs horas e fiz muita coisa. - Sentindo que ele precisava de um abrao, Marilee ps-lhe os braos  volta da cintura. - Queres 
falar nisso?
      - Na sexta-feira a noite h um jogo importante. Vamos levar nas lonas e, se assim for, a administrao da escola no vai ficar contente. Bedford j ganhou 
a esta equipa com que vamos jogar. Se perdermos, est escrito nas estrelas que perderemos quando jogarmos com Bedford. Estou preocupado com a possibilidade de perder 
o emprego.
      - Tiveste uma poca bastante boa. No foi fenomenal, mas foi muito melhor do que no ano passado. Este jogo  mesmo to importante assim?
      - No fiz nenhum milagre. Eu sou o Joe Lakota, no ? Esto  espera que o faa.
      - Isso  absurdo.
      - Diz isso  administrao. Querem uma vitria na sexta-feira  noite. - Suspirou. - Ah, Mari. Hoje, atirei-me a um mido. Admoestei-o muito severamente. Descontrolei-me, 
praguejei, atirei um capacete pelo vestirio fora. Estou aborrecido com isso. Jurei que nunca me portaria assim e agora a est, deixo a presso tomar conta de mim.
      Ela percorreu-lhe as costas com as mos e sentiu os msculos aos ns ao longo da espinha. - Ests to tenso.
      - O meu nvel de frustrao ultrapassou, claramente, tudo. Nada corre bem.
      Especialmente em casa, pensou ela, com um sentimento de culpa.
      - Oh, Joe.
      - E se perco o emprego? Que diabo vai ser de mim? Ela estreitou-o nos braos.
      - No vais perder este emprego. Mas, se perderes, o que  que tem? Tu s o Joe Lakota. No te esqueas disso. Podes sempre arranjar outro emprego. Melhor, 
at. - Estalou os dedos. - Assim, aposto.
      - No em Laurel Creek.
      - Ento, mudamo-nos.
      Levantou a cabea para olhar para ela. - Farias isso?
      O corao de Marilee partiu-se um pouco porque ela viu nos olhos dele que, na realidade, duvidava que ela se mudasse para estar com ele. - Claro que fazia.
      - E a tua casa?  por isso que temos a minha  venda, em vez desta, porque gostas tanto dela.
      Ela devia detestar sair da sua casa. Durante muito tempo, fora o seu refgio e o simples pensamento de viver noutro stio perturbava-a. - Eu adapto-me.
      - No quero virar a tua vida toda de pernas para o ar.
      J tinha virado. Ela dirigiu-lhe um sorriso. - Sabes o que eu acho?
      - No, o que ?
      - Acho que perdeste o contacto com todas as coisas de que gostas no futebol americano. No  s ganhar, pois no?
      A boca dele contraiu-se. - No, minha senhora.
      -  essa a mensagem que queres transmitir queles midos?
      - No, minha senhora.
      - Que  que queres ensinar-lhes?
      - Quero ensin-los a fazer parte de uma equipa. A ter orgulho em ser o melhor possvel. A dar tudo o que tiverem e a divertirem-se com o jogo, ganhem ou percam.
      Acenou afirmativamente com a cabea. - Vai telefonar a esse rapaz com quem gritaste e pede-lhe desculpa. Enquanto tratas disso, eu fao umas sanduches e vamos 
fazer um piquenique no parque. Podemos brincar na relva com o Zachary. Podes estender-te em cima de uma manta a olhar para as nuvens. Isso ajudar-te- a relaxar. 
Que te parece?
      - Melhor do que possas imaginar, mas sanduches, no. Dou ali um salto e vou buscar um frango.
      O Zachary entrou nessa altura na cozinha aos saltos.
      - Hum, frango! - disse ele, excitado.
      Joe pegou no filho para lhe dar um abrao apertado.
      - Apetece-te ir fazer um piquenique no parque, mido?
      - Sim! Posso ir apanhar salamandras no ribeiro, pai?
      Joe olhou para Marilee. - No achas que est frio de mais l fora para isso?
      Ela olhou pelas portas envidraadas para o fim de tarde de Vero de S. Martinho. Quando voltou a olhar para o Zachary, piscou os olhos. - No, desde que leves 
uma muda de roupa.
      - Vou buscar! - O Zachary contorceu-se para ir para o cho e foi a correr para o quarto. Em menos de um minuto, voltou a cozinha com os braos carregados de 
roupa. - O Boo tambm pode ir, pai?
      Joe suspirou e disse que sim com a cabea. Para Marilee, sussurrou: -  melhor dois frangos. O diabo do co come como um cavalo.
      Trinta minutos depois, Joe e Marilee estavam a caminhar de mos dadas ao longo da margem do Laurel Creek, enquanto o Zachary e o Boo brincavam, na gua. Estava 
um fim de tarde absolutamente perfeito, com o pr do Sol a listrar o cu por cima das montanhas com incrveis tonalidades de coral.
      - Que local maravilhoso - disse ela, sonhadoramente.
      - Sim, incrivelmente belo. To belo que tenho a certeza de que no queremos sair de c.
      Marilee procurou o olhar dele, que estava fixo no horizonte.
      - Ainda ests preocupado com o emprego?
      - Sim, acho que sim.
      - No procuremos problemas.
      - Se fosse s eu e o Zachary, no seria to mau. Ele j est melhor e h dezenas de pequenas cidades no Oregon, a maioria das quais suficientemente prximas 
para poder vir ver a minha me. Tenho a certeza de que conseguia arranjar outro lugar de treinador numa escola um pouco menos centrada nas vitrias e mais no desporto 
em si. S no quero perturbar mais a tua vida do que j perturbei, sabes?
      - Eu fico bem, Joe.
      Ele disse que sim com a cabea. - Porm, aquela casa  a tua zona de conforto. Um pequeno mundo que criaste cuidadosamente e  o nico stio onde te sentes 
realmente segura, mesmo agora.
      - A minha bolha?
      A sua ma-de-ado andava para cima e para baixo quando engolia.
      - No estou a fazer fitas, Mari.  s... Que diabo, no sei. Quando  que apareci na tua casa, em Julho? Em pouco mais de dois meses, confisquei a tua vida. 
Ainda nem sequer nos recompusemos do casamento. Seria uma coisa dos diabos se, ainda por cima, tivssemos que nos mudar.
      Ela pensou na sua casa, com o papel de parede cuidadosamente seleccionado e as bugigangas de estimao, as suas pinturas e fotografias a decorar todos os espaos 
disponveis. Talvez fosse a sua zona de conforto, como ele dizia. Mas tambm tinha sido muito vazia e solitria at ele e o Zachary irem para l.
      - Eu ganho bastante dinheiro - recordou-lhe ela. - Se perderes o emprego, posso assegurar as nossas despesas at arranjares outro. Se isso significar mudarmo-nos, 
faremos, simplesmente, uma coisa de cada vez. - Olhou-o nos olhos. - Juntos.
      - Ah, Mari.
      - A srio - insistiu ela. - Deixa de te preocupar com esse estpido emprego. Para onde fores, eu vou e no tenho problema nenhum nisso. No treines segundo 
as regras deles. Tu adoras o futebol americano e, para ti, nunca foi exclusivamente uma questo de ganhar. As vitrias so maravilhosas, e  muito divertido, mas 
no  por isso que s apaixonado. Se te trares a ti e ao jogo que amas por causa desse estpido emprego barato, sers infeliz. Amanh, quando entrares no campo, 
diz aos membros do conselho de administrao que se lixem e treina a tua equipa  tua maneira.
      Ele coou por baixo do nariz e inclinou a cabea. O vento chicoteava-lhe o cabelo castanho e, quando voltou a levantar os olhos, tinha preguiosas madeixas 
castanho-escuras na testa alta. - Aqueles rapazes esto a dar tudo por mim. No acreditas como melhoraram desde o inicio da poca.
      - Diz-lhes isso.
      Sorriu levemente. - Vou dizer. - Esticou-se para lhe tocar na face, com os olhos a danarem de gozo. - No acredito que me tenhas mandado dizer aos membros 
do conselho de administrao que se lixassem. Andas comigo h demasiado tempo.
      - Nem de perto nem de longe o tempo suficiente. Estava a apontar para uma vida inteira.
      O Zachary encontrou por acaso, nessa altura, uma poa cheia de salamandras. Gritava, deleitado, misturando-se os seus gritos com os latidos excitados do Boo.
      - No tens lagostins nessa lata? - gritou Joe.
      - Sim.
      - Tens que escolher! - respondeu Joe. - Salamandras ou lagostins. No podes p-los juntos.
      - Porqu?
      - Os lagostins podem aleijar as salamandras.
      O Zachary foi a lata tirar um lagostim e tirou rapidamente a mo. - Ai!
      Joe riu-se. - Vs? Eles so uns malandrecos.
      Sorrindo, Marilee foi sentar-se num montculo de relva com vista para a gua. Passado um momento, Joe juntou-se-lhe. Uma vez instalado no cho, ps-lhe um 
brao por cima dos ombros. Viram o Zachary ir at  margem, onde esvaziou a lata na borda de gua. O Boo ladrou e foi atrs de um lagostim que fugiu. Um instante 
depois, o co conseguiu apanhar o crustceo, o que lhe valeu uma dentada no nariz. Latiu e recuou a toda a velocidade para junto de Joe e Marilee, que desviaram 
a cara e disseram ao mesmo tempo: - Vai-te embora, Boo.
      O cobarde do co no foi nisso. Foi direito a Marilee, a sua protectora. Ao chegar ao p dela, abanou-se, enchendo os dois de gua do ribeiro e de salpicos 
de lama. Joe praguejou em surdina. - Conta-me l outra vez porque  que o salvaste do corredor da morte.
      Marilee deu uma risada. - Porque  irresistivelmente bonito?
      Joe estudou o focinho grosseiro do co. Aps um longo momento, disse: - Talvez ainda haja esperana para mim.
      Esperana para ele? Marilee j tinha perdido a guerra mas no conseguia pensar numa maneira de lho dizer. Chama quando estiveres pronta que eu vou logo, tinha-lhe 
dito ele. Mas no tinha dito como devia cham-lo.
      Ele ps-lhe a mo debaixo do queixo e limpou-lhe delicadamente os salpicos de lama da cara, as pontas firmes dos seus dedos passando-lhe to ligeiramente pela 
pele que at os dedos dos ps se encaracolaram. Olhou-a nos olhos por um momento e depois disparou-lhe um daqueles sorrisos marotos que lhe enfraqueciam sempre as 
pernas e a faziam perguntar a si mesma como seria quando finalmente se beijassem outra vez.
      - Como  que eu tive tanta sorte? s a coisa mais bela em que alguma vez pus os olhos, mesmo toda salpicada do co.
      Ela riu-se. Ele voltou a envolv-la com o brao. Voltaram a observar o Zachary que chapinhava na gua para apanhar salamandras e meter as escorregadias criaturas 
dentro da lata de caf.
      Joe no disse mais nada. Mas no precisava. A mo em cima do brao dela dizia tudo. Desenhava ligeiros crculos em cima da manga dela, as pontas dos seus dedos 
incendiando-lhe a pele atravs do algodo. Marilee fechou os olhos, hipnotizada pelas carcias. Quando ele veio mais para baixo e comeou a torturar a pele sensvel 
da curva do brao, tentou imaginar como seria se lhe tocasse assim em toda a parte. Pele de galinha por toda a parte, sem dvida. Oh, sim.
      - Joe?
      - Hum?
      Pela primeira vez desde que o Paxil tinha comeado a fazer efeito, Marilee sentia-se como se a traqueia estivesse a comear a fechar-se. - Acho que talvez 
esteja pronta - disse ela com voz desmaiada.
      Sem nunca tirar os olhos do filho, disse que sim com a cabea. - Sim, eu tambm. - Em voz mais alta, chamou: - Ei, Zachary. So horas de vir embora e vestir 
roupa seca. A Marilee e eu estamos prontos para comer.
      Marilee dirigiu-lhe um olhar espantado, convencida de que ele s podia estar a provoc-la. No estava. Honestamente, no percebera o que ela tinha tentado 
dizer-lhe.
      - , pai!
      - , Zachary - imitou-o ele. - Nada de lamrias. No tarda que fique escuro. Precisamos de voltar para o parque e comer o nosso jantar.
      
      Na noite de quarta-feira seguinte, Marilee no estava quando Joe chegou a casa, o que o surpreendeu por no ser habitual. A maioria das vezes, quando chegava, 
depois do treino, encontrava-a na cozinha, atarefada a preparar o jantar. Naquele dia, a nica prova de que ela tencionava cozinhar era um pacote de carne picada 
que ela tinha posto a descongelar ao lado do lava-louas. Depois de procurar em vo um recado, Joe lembrou-se de que ela tinha consulta com a Dr.a Patterson naquela 
tarde. Provavelmente foi s compras, decidiu ele. Por vezes, parava em Bedford, quando vinha para casa, para ir comprar artigos de mercearia.
      Tomou um rpido banho de chuveiro, enfiou um par de calas de sarja e uma camisa de algodo e depois voltou para a cozinha, determinado a surpreend-la por 
ter a refeio da noite quase pronta quando ela chegasse. Depois de olhar para a carne durante vrios segundos, decidiu avanar pelo lado da simplicidade. Pastelinhos 
de carne picada, batatas assadas e uma salada verde servia para jantar. At um bronco da cozinha conseguia preparar uma refeio como aquela sem contra-tempos.
      Vinte minutos depois, quando Marilee entrou pelas portas envidraadas, a cozinha cheirava a carne picada esturrada e Joe teve de abanar uma mo  frente da 
cara para a ver claramente atravs do fumo. - Que diabo, Mari, desculpa. Afastei-me s por um minuto para lavar uma alface. Quando dei por isso, os pastelinhos estavam 
queimados.
      Plida e de olhos esbugalhados, fechou a porta atrs de si e dirigiu-se  mesa para poisar a carteira e dois sacos, um, pequeno e castanho, o outro, grande, 
branco-sujo, com o nome de um grande armazm local.
      Preocupado com o aspecto dela, Joe disse: - Querida, passa-se alguma coisa?
      - No, nada.
      Joe olhou para a porta, no viu sinais do filho no ptio e perguntou: - Onde est o Zachary?
      - Passa a noite com a tua me. A Senhora Rasmussen est l para a ajudar no jantar e, depois, vo jogar jogos de mesa. - Fez um sorriso tenso. - Esta noite, 
tu e eu temos a casa por nossa conta.
      - Queres ir jantar fora?
      Ela abanou a cabea. - No. Comemos aqui qualquer coisa.
      - Eu cremei a carne. Outras ideias?
      - Uma coisa rpida e simples. - Com as mos a tremer, abriu o pequeno saco castanho e tirou duas coisas que ps  vista em cima da mesa. - Estava... a pensar 
que podamos passar sem fazer uma grande refeio esta noite e... bem, sabes... ser criativos. - As faces dela coraram. - A Doutora Patterson achou que talvez te 
chamasse a ateno com isto.
      O olhar de Joe fixou-se na lata de natas batidas sem gordura e no pequeno frasco de cerejas em marrasquino que estavam ao seu lado. Durante alguns interminveis 
segundos, mal conseguia pensar, quanto mais falar.
      - Joe? - disse ela, nervosa. Como ele no respondia, acrescentou rapidamente. - No dizes nada?
      Ele engoliu em seco, numa tentativa para recuperar a voz. Depois, desviou o olhar da lata para os grandes olhos azuis dela, onde leu uma quantidade de emoes, 
a mais evidente das quais era puro medo. Voltou a engolir em seco e, finalmente, conseguiu murmurar: - Sim, sabes fazer RCP?
      Ela deu uma gargalhada de espanto e depois abafou o som mordendo o lbio inferior. - Eu... acho que te apanhei de surpresa.
      - Oh, sim. Estou surpreendido, sim. - Joe deu um passo em direco a ela. - Posso perguntar o que  que provocou isto?
      Desviou o olhar dele e comeou a brincar com a correia da mala. - Penso que talvez esteja pronta, e tudo. A Doutora Patterson diz que sim.
      Joe deu mais um passo. - Ah, estou a ver. - Esperou um instante. - E que diz a Marilee? Ou no tens direito a voto?
      - Ah, claro.
      - Claro, o qu?
      - Que tenho direito a voto. - Tirou o que parecia ser lingerie de renda do saco do grande armazm. - Estive para trazer vermelho ou preto. Porm, finalmente, 
fiquei com o branco. Ar de sedutora, realmente, no  comigo, acho que no. - Levantou a pea. - Gostas?
      Conseguia contar os botes da blusa dela atravs das duas camadas de nylon e, por um momento, achou que, na realidade, podia ter um ataque cardaco. Mas no 
lhe disse nada. - ... bonito. Muito bonito. - Estava to admirado que no conseguia pensar em mais nada para dizer.
      Amassando a camisa de noite nas mos, deixou cair os braos e suspirou. - Estou a dar cabo disto, no estou? No  a partida para os cem metros. Aos seus lugares, 
prontos. Tinha tudo preparado. A maneira como correria. O que diria e o que tu dirias e... oh, Joe! Porque  que no hei-de ser como as outras mulheres? Isto no 
 nada romntico, pois no?
      - Que  que eu devia dizer, querida? Conta-me que eu digo.
      - Deixa l. Foi uma m ideia.
      Apeteceu-lhe agarrar nela e nas natas batidas e ir para o quarto mais prximo. - No  m ideia.
      - , sim. Eu devia ter esperado.
      - O qu?
      - Que tu... bem, tu sabes. No, no sabia.
      - Mas tu no o fizeste! - gritou ela com uma voz que denunciava frustrao. - No  que te possa culpar, nem nada. Sei que s te contiveste por considerao 
para comigo.  que... bem, eu tentei dizer-te. L em baixo, no parque. Para que tomasses a iniciativa. Mas tu pensaste que eu queria comer.
      Joe recordava-se vagamente desse momento.
      - Estavas pronta naquela altura?
      - Na incerteza, mas a querer experimentar.
      - E agora?
      - Ainda estou na incerteza. Mas no podemos continuar nisto para sempre. Ests a fazer a minha pele virar-se do avesso.
      - Estou?
      - Sabes muito bem que sim. Todos aqueles toques e carcias. Fazes de propsito.
      - Funcionou?
      Ela semicerrou os olhos.
      Era a resposta de que Joe precisava. Avanou para ela. Ela atirou o neglig para cima da mesa. - Todavia, na realidade, no posso vesti-lo. Era apenas uma 
espcie de bandeira branca.
      E foi uma doce rendio. Se no tivesse nada vestido, seria um homem feliz.
      - E as natas batidas, tambm - acrescentou rapidamente.
      Ela era to doce que tambm podia passar sem a cobertura. Joe aproximou-se o suficiente para a agarrar pelos braos. Quando lhe tocou, ela deu um salto, e 
o olhar atento fixou-se no dele. - Mari, descontrai-te. No  a prova dos cem metros, lembras-te? Estou nas nuvens por teres tomado esta deciso. Honestamente. Mas 
fazer amor no  coisa que se faa quando toca o apito. Espera pelo momento certo.
      - Se esperares pelo meu momento certo, temos problemas. E, para ser verdadeira, em vez de arrastar a tortura, prefiro acabar com ela.
      Ele sorriu. No podia deixar de sorrir. Acabar com ela?
      - No ests para te submeter a uma grande operao sem anestesia.
      -  bom saber isso. Temos vinho?
      Ele riu-se e puxou para ele. - Oh, no, no. J aprendi a minha lio nessa matria. E no vou meter-me nisso. Que tal arranjarmos queijo e bolachas de gua 
e sal, irmos para a cama e falarmos enquanto comemos? Se depois ainda estiveres assim nervosa, deixamos o sexo para mais tarde, quando te sentires bem.
      - Queijo e bolachas na cama? No ser uma confuso?
      - No, no  confuso nenhuma. - Imaginou-se a tirar-lhe migalhas do umbigo com a lngua.
      - Joe? - Ps uma mo no peito e engoliu em seco, com um som que parecia uma estridncia rouca sada do fundo da garganta. - S para avisar. No estou pronta 
para fazer downhill sem traves. Est bem?
      Joe no tinha sequer a certeza se ela estava pronta para fazer downhill numa mudana reduzida. 
      - Querida, confia em mim, est bem?
      
      
    Captulo Quinze
      

      Enquanto arranjava os petiscos numa travessa para levar para o quarto, Joe esfregava as mos e assobiava. Marilee no achava que o entusiasmo dele fosse inspirado 
pelas bolachas Ritz.
      Oh, Deus. Ela quase deixou cair o frasco dos picles quando o tirou do frigorfico. Depois, quando comeou a cortar endros, as mos tremiam-lhe muito. Joe tirou-lhe 
a faca. - Vais cortar-te. - Partiu um picle em quatro e ps os pedaos na travessa. - No so autorizados ferimentos. - Piscou-lhe o olho. - Nada... e quero dizer 
mesmo nada, vai estragar isto.
      Por outras palavras, ela ia dar o salto do trampolim mais alto, perdesse a coragem ou no.
      Uma vez no quarto, Marilee ficou pouco -vontade ao lado da cama. Joe arranjou espao na mesa-de-cabeceira para a travessa. Depois, serviu a cada um um copo 
de Borgonha. Feito isso, desabotoou a camisa e despiu-a. Marilee olhava fixamente, perguntando a si mesma se todos os homens tinham msculos abdominais e peitorais 
to definidos. Ele at tinha msculos que ondulavam na parte inferior das costas.
      - Que ? - perguntou ele baixinho, os seus olhos castanhos a interrog-la.
      - Umm... nada.
      - Vais tirar os sapatos e as calas de ganga?
      Ela pedia aos cus que no. - Na realidade, Joe, sinto-me um pouco estranha. Normalmente, estou completamente vestida quando vou para o queijo com bolachas.
      Os dentes dele brilharam num lento sorriso. - No  com o queijo com bolachas que ests preocupada. - Abriu as mos para o lado. - Pensa nisto assim: se eu 
ficar com as minhas cuecas vestidas e tu ficares com a blusa, juntos faremos uma pessoa completamente vestida.
      - Roupa suficiente para um de ns, graas a Deus somos s dois?
      Ele riu-se e coou a cabea. Depois, apoiou-se numa perna e ps as mos nas ancas, numa posio to completamente masculina que ela quase saiu do quarto a 
gritar. - Mari, sabes qual  que penso que  o problema? Isto, para ti, no esta a vir com naturalidade.
      - Isso  uma meia verdade.
      Voltou a rir-se. - O que quero dizer  que ests a fazer disto uma grande coisa.
      O olhar dela desceu. No pretendia olhar para ali. Era mais como se a sua anatomia masculina tivesse propriedades magnticas e os seus olhos fossem aparas 
metlicas. Um olhar foi o suficiente para a convencer de que no estava a exagerar as dimenses daquilo e de que tinha comeado a contagem decrescente.
      - No - sussurrou ele.
      - No o qu?
      - No me olhes para a. - Mudou outra vez o peso para a outra perna, aparentemente para minimizar a proeminncia daquela parte do corpo, mas no funcionou. 
Ento, suspirou e passou a mo pelo queixo. - Mari, podes parar? No consigo control-lo, sabes?
      - Quem?
      Piscou-lhe o olho. - O Joozinho. E nada de piadas espertas. Praticamente, todos os rapazes lhe do um nome.
      - Porqu?
      - Porque... santo Deus. - Beliscou a cana do nariz e inclinou a cabea por um momento. - No posso acreditar que estejamos a ter esta conversa. Se tivesses 
algum que andasse sempre contigo no lhe davas um nome? No sei porqu, est bem? Dei-lhe um nome, mais nada. No tens um nome para a tua...
      - No! - Fungou e desviou o olhar para vinho. - Preciso de uma bebida.
      - No precisas de uma bebida. Bebes um ou dois golinhos, e, pronto. Estou a cont-los.
      - Por favor, Joe, no me digas de que  que preciso.
      Passou uma mo pela barriga e deixou-se cair no colcho, virando-se, quando se sentou, para encostar as costas aos ps da cama. Dobrando uma perna, assentou 
um p descalo na cama, escondendo com essa posio o Joozinho do olhar dela.
      - Sabes, querida, estou assim noventa e nove por cento do tempo que estou contigo. Atravessas a sala... ou sorris para mim... ou olho para esses maravilhosos 
olhos azuis e estou perdido.
      - Pela maneira como sorrio?
      - E por outras coisas, tambm. - Deu uma palmada na cama. - Tira os sapatos e senta-te. Tu naquela ponta e eu, aqui. Vamos conversar.
      Com os dedos de cada p, descalou os tnis. De meias, sentou-se relutantemente no colcho encostada  cabeceira da cama. Abraada aos joelhos, olhava solenemente 
para ele.
      - De que  que vamos conversar?
      - Que diabo, no sei. Vamos brincar s perguntas e respostas. Comeas tu. Uma coisa qualquer a meu respeito que estejas morta por saber. - Inclinou-se para 
a frente para agarrar na travessa que estava na mesa-de-cabeceira e p-la em cima da colcha, entre eles. Antes de voltar a sentar-se, meteu uma fatia de queijo e 
uma bolacha na boca. - V, pergunta.
      - Como  que foste arranjar o nome Joozinho?
      Semicerrou um olho, meteu a bolacha meio mastigada na bochecha e disse: - Podemos deixar o Joozinho fora disto?
      - Mas eu gostava de saber.
      O olho dele cerrou-se ainda mais. Mastigou durante um momento. - Est bem. Queres mesmo saber? O termo "Joozinho"  o mesmo que a assinatura de uma pessoa. 
Quando era mido e nevava, costumava escapar-me para a cerca do quintal e escrever o meu nome.
      - Onde?
      - Na neve.
      - Com o Joozinho? Isso devia ser uma experincia enregeladora. Bufou e quase se engasgou. Quando, finalmente, conseguiu que a bolacha fosse para o tubo certo, 
sorriu e abanou a cabea. - As diferenas intrnsecas entre rapazes e raparigas so espantosas. Um rapaz saberia exactamente o que eu quero dizer porque teria feito 
a mesma coisa quando era mido. Eu fazia chichi na neve, Mari. Os rapazes fazem coisas dessas.
      - Fazem? Porqu?
      Pegou noutro pedao de queijo. - No fao ideia.  uma coisa que os rapazes fazem. Aos dez anos, era de primordial importncia para mim conseguir fazer chichi 
a uma distncia maior do que o Bobby Miller. Sempre que brincvamos um com o outro, escapvamo-nos para ir fazer um concurso. - Subiu-lhe um rubor pelo pescoo. 
- Foste tu que perguntaste. Foi assim que arranjei o nome de Joozinho, a escrever o meu nome na neve.
      - Pobre Zachary.
      Ele levantou uma sobrancelha. - Porqu "pobre Zachary"?
      - Tambm so muitas letras. Nunca conseguira escrever o nome dele na neve e quando for homem ter um complexo.
      Joe riu-se. - Pode abreviar para Zach e, quando eu apanhar o malandreco a fazer isso, tenho a certeza de que lhe direi que estou impressionado. E mais uma 
letra do que as que eu tinha que escrever.
      Ela riu-se e foi buscar uma bolacha.
      -  a tua vez de fazer uma pergunta.
      Pensou por um momento. Quando, finalmente, olhou para ela, os seus olhos tinham-se tornado graves e interrogativos.
      - Porque  que me amas?
      O corao de Marilee apertou-se. Pensou na resposta e, finalmente disse: - Porque nunca fizeste chichi na neve  minha frente.
      - No, a srio.
      - Aquilo era uma resposta a srio. - Olhou para a marca dos seus dentes na bolacha. - Havia sempre um lado teu que era competitivo. Tinhas uma marca agreste. 
Conduzias demasiado depressa. J bebias antes de ter idade para isso. Sei que tinhas uma boca porca porque s vezes distraias-te e praguejavas  minha frente. Passavas 
metade do tempo em apuros. Mas comigo foste sempre um cavalheiro. Quando eu estava no carro, nunca conduzias  louca e, quando eu estava contigo, nunca bebias e 
nunca me levavas a lado nenhum onde outros midos estivessem a beber.
      - Era um mestre do embuste e, ento, apaixonaste-te por mim?
      Marilee sorriu. - Tu protegias-me. Sempre. Fazias-me sentir to especial. E no eras embusteiro. Eu sabia que eras arruaceiro e nunca tentaste esconder nada 
do que fazias quando no estavas comigo. Seguias, simplesmente, um conjunto diferente de regras quando estvamos juntos. - Ps outra vez a bolacha no prato e abraou-se 
aos joelhos. - Assaste-me uma goma em vez de me forares a ter sexo. Na altura, no apreciei esse sacrifcio especfico, mas agora aprecio e esse  exactamente o 
tipo de coisa que me faz amar-te. E a razo por que ainda te amo. - Tinha uma sensao abrasadora nos olhos. - Neste momento, ests a comer bolachas e queijo e eu 
sei que preferias estar a fazer outra coisa.
      Ele sorriu e tambm ps a sua comida na travessa. - Acho que tenho que limpar a minha boca. Hoje em dia praguejo muito.
      - Eu gosto de ti como s. Eu  que preciso de modificar algumas coisas. - Abraou-se mais s pernas. - Desculpa. Estou a ser to difcil. No queria ser.  
que... - Interrompeu-se  procura das palavras. - Para mim, na sua maioria, as coisas esto bem. Sabes? E a nvel intelectual, sei que no h nada que recear. S 
l no fundo  que h uma parte de mim que no consegue esquecer como foi doloroso. No acabei depressa. A dor foi terrvel e parecia-me, na altura, que nunca mais 
parava. No consigo tirar isso da cabea.
      Ele ps outra vez a comida na mesa-de-cabeceira e veio sentar-se ao lado dela. Pondo um brao por trs das costas dela, esticou as pernas e sussurrou: - Anda 
c.
      Marilee, mal se instalou no colo dele, disparou-lhe um olhar espantado: - Ests ptima - garantiu-lhe ele.
      - Tens a certeza?
      Piscou-lhe o olho. Depois, caiu subitamente contra a madeira, arrastando-a com ele. A sua ereco bateu-lhe na perna como se fosse um tubo de metal aquecido. 
- Quando chegar a altura, no te causarei qualquer dor - sussurrou ele, esfregando-lhe o queixo no topo da cabea. - Se sentires algum desconforto, ponto final. 
Dizes-me e eu paro. Dou-te a minha palavra.
      - Eu sei, Joe. A srio, eu sei. S estou nervosa.
      - Bem, deixa de te sentir nervosa. No vamos fazer nada que te ponha nervosa. Agora, no. S quando nos parecer bem e no antes. Tem que vir naturalmente. 
No podes apenas decidir comear. Mais tarde, quando j estivermos habituados, sim. As pessoas arranjam uns minutos de privacidade sem os midos e decidem fazer 
amor. Mas isso no funciona para uma mulher nas primeiras vezes, quando ela est constrangida. S tirar a roupa j  uma coisa complicada. Preciso de pr a disposio 
adequada e de te fazer sentir despreocupada para chegarmos a esse ponto.
      - Despreocupada?
      Ele sorriu e beijou-lhe a testa. - H-de acontecer e, quando acontecer, a intimidade no  desconfortvel. No te sentirs embaraada.  como que flutuares 
nela e tudo sabe perfeitamente bem.
      - Oh, espero que sim.
      - Eu sei que sim. - Apertou-lhe o ombro. - Agora... desculpa que te diga isto... se no como, a minha barriga vai comear a resmungar.
      - Imagino que estejas cheio de fome. Na realidade, eu tambm estou.
      - Fora com as calas de ganga. Prometo que no toco, mas, pelo menos, deixe-me ter o gozo de olhar.
      Para alvio de Marilee, ele no olhou quando se ps ao lado da cama a tirar as calas. Antes de voltar a sentar-se ao seu lado, ele levantou as ancas para 
empurrar as cobertas para baixo. Quando ela voltou a juntar-se a ele, puxou o lenol para cima das pernas de ambos.
      - No consegues ver grande coisa com as cobertas em cima das minhas pernas.
      Ele sorriu e meteu um pedao de queijo na boca. - Dou umas espreitadelas furtivas. Coma, minha senhora. No quero que esses joelhos encantadores percam as 
covinhas.
      - Os meus joelhos no so s covinhas.
      - Queres apostar? As covinhas mais bonitas que jamais vi. Equilibrou a travessa no colo de ambos e entendeu-lhe um copo.
      Comeram a sua refeio de recurso, sendo o barulho que faziam a mastigar a nica coisa que quebrou o silncio entre eles. Quando, finalmente, a fome estava 
saciada, encostaram-se s almofadas, o ombro dele servindo de apoio  cabea dela. Ento, falaram do que lhes veio  ideia, com voz que era pouco mais do que um 
sussurro e os olhos a ficarem pesados do vinho quando, finalmente, desceu l fora o crepsculo e escureceu o copo de vinho.
      Quando o torpor os arrastou para o sono, escorregaram para a escurido nos braos um do outro.
      Marilee acordou pouco depois da meia-noite com os sentidos a vacilar, mas no do sono. Tinha formigueiro nas costas. Tinha formigueiro no pescoo. E havia 
uma grande mo quente a trabalhar afanosamente, provocando-lhe formigueiro na anca. Pestanejou e olhou para as sombras, desorientada, mas a sentir-se deliciosamente 
lnguida. Joe. A mo era dele. Reconheceria o seu toque em qualquer parte. Dedos grandes, ligeiramente calejados. Uma palma da mo dura que se movia em cima da pele 
como o lado mau da seda, irritando-a ligeiramente do modo errado.
      Rolou sobre as costas e meteu o ombro contra o peito dele. - Joe?
      Ao luar que entrava atravs das cortinas de renda da janela, as feies dele estavam ornamentadas de prata, a boca a desenhar lentamente um sorriso quando 
lhe afastou o cabelo da cara e depois se ergueu por cima dela.
      - Ol, minha Mari.
      Ela devolveu-lhe o sorriso e pestanejou, sonolenta. - Que  que ests a fazer? - perguntou, mesmo quando as pontas dos dedos dele se passeavam em cima da sua 
coxa nua, incendiando-lhe a pele.
      - Nada.
      No parecia no ser nada. Parecia... bom. Sem antecipao. Sem nervosismo. Acordar simplesmente nos seus braos, j com formigueiro por causa do toque dele, 
era divinal. Tinha estado a fazer amor com ela enquanto dormia, percebeu ela. A atormentar-lhe as extremidades nervosas. A faz-la querer. Esperto. Arqueou-se, adorando 
a sensao da mo dele na sua perna. Furtivo. Tinha ultrapassado a sua defesa, excitando-a secretamente. Oh, Deus. As pontas dos seus dedos desenhavam um caminho 
elctrico, delicioso, subindo ao longo do elstico que mergulhava entre as coxas. O roar leve dos ns dos dedos naquele local to sensvel quase lhe tirava a respirao.
      - Joe?
      - Estou aqui. - Inclinou a cabea morena para lhe mordiscar a garganta. Ela deixou cair a cabea para trs para o receber, sentindo-se segura, porque ainda 
estava com a blusa e a roupa interior. Estava ela a pensar nisso quando ele lhe abriu um boto e comeou a descer com os lbios. - E aqui - sussurrou junto  sua 
pele excitada. Rendeu-se outro boto. - E aqui - murmurou ele enquanto lhe abria a blusa, os lbios acompanhando o afastamento do tecido.
      Quando meteu um dedo por baixo do elstico da frente do suti, ela firmou-se e agarrou-se aos cabelos. - Joe?
      - Sim, eu no me esqueo. Continua a dizer o meu nome. Sou eu. No  mais ningum.
      Encolheu-se quando ele puxou a copa do suti para baixo e fez sair o peito do escudo de renda elstica. O tecido retraiu-se quando ele o largou, o delicado 
aperto da elasticidade mantendo a sua macieza elevada e saliente. O ar fresco banhou-lhe o mamilo nu, endurecendo a ponta e tornando a aurola rugosa.
      Inclinou-se para trs e olhou para ele. - Ah, Mari.  exactamente como imaginava, macio e cor-de-rosa como um boto de rosa.
      Ela tapou com uma mo, embaraada no s por ele estar olhar mas tambm por fazer comentrios. Ele riu-se e puxou a outra copa para baixo. - Ficas com essa. 
Eu fico com esta.
      Baixou a cabea morena e tocou no mamilo latejante com a ponta da lngua para o deixar molhado. Depois, soprou suavemente, o bafejo da sua respirao espalhando-se 
por cima da carne e fazendo-a endurecer. Ela arquejava. Apertou a pequena salincia inchada com os dentes e puxou delicadamente. Um gemido de choque ficou-lhe na 
garganta. Depois, a sua boca quente e sedosa fechou-se-lhe em cima. Ela soluou, paralisada pelas sensaes que se estendiam dos seios  barriga.
      - Oh, Mari - sussurrou ele, com a boca encostada ao corpo dela e o prprio movimento dos lbios a constituir uma seduo. - s to doce. Esperei uma vida inteira 
por isto.
      Os soluos dela tomavam-se gemidos quando a carne endurecia e se encarquilhava, retesando-se em direco aos seus lbios sedosos, a pedir mais. Ele voltava 
a dar-lhe uma leve pancada com a lngua.
      - Entrega-te a mim - incitava ele num sussurro tremulo. - Por favor. - Deu-lhe outra vez pancadinhas leves com a lngua, provocando a carne sensvel e levando-a 
a uma ereco palpitante que se salientava indefesa em direco a ele. - Diz.
      Marilee arqueou o corpo como se estivesse presa a ele por um fio invisvel. No conseguia pensar, quanto mais dizer o que ele precisava de ouvir. - Oh, Joe... 
oh, Joe... oh, Joe...
      Roou nela os dentes - ao de leve, de modo torturante. - Diz. "Sou tua, Joe." Preciso de te ouvir dizer isso.
      - Sou tua - sussurrou ela. - Sempre fui tua. Sempre.
      Nessa altura, a boca dele fechou-se sobre a dela, puxando com tanta forca que lhe esvaziou os pulmes. Ela gritava, a espinha a arquear enquanto ele a amava 
ali com percia de mestre, os lbios, os dentes e a lngua a marcarem uma concesso irrevogvel. Provocou-a com a lngua at todo o corpo estremecer a cada passagem. 
Depois, de repente, recuou, despachando com as suas grandes mos a blusa, o suti e as cuecas dela com uma velocidade que Marilee mal percebeu o que ele estava a 
fazer. Estava completamente nua quando voltou a inclinar-se por cima dela, com os dentes a brilharem nas sombras enquanto o rosto moreno se enrugava num sorriso.
      - Ests bem?
      Marilee no tinha a certeza se "bem" descrevia o modo como se sentia. Mas antes que ela conseguisse articular um pensamento, ele inclinou a cabea e chupou-lhe 
o outro mamilo, que nunca tinha passado por uma tortura to deliciosa nem sabia o que pensar. No  que tivesse a capacidade de pensar.  que parecia ser o centro 
do seu ser naquele momento. Isso explicava, sem duvida, a razo pela qual ela se entregara to facilmente a Joe, que parecia saber o que estava a fazer, pelo menos. 
Por mais que tentasse, no conseguia lembrar-se do seu nome.
      Ele continuou aquele delicioso assalto, passando-lhe dos seios para a barriga, depois voltando atrs, a boca a conquistar cada extremidade nervosa que havia 
pelo caminho, at ela ser pouco mais do que uma confuso de carne trmula, de pele de galinha e de murmrios estendida debaixo dele.
      - Como ests?
      Ela esperava que ele soubesse. Esforou-se por respirar fundo e limpar suficientemente a cabea para responder. Quase tinha recuperado a voz. Quase. E ento 
ele tocou-lhe no umbigo com a ponta da lngua.
      - Oh... Joe, pra! - gritou ela. - No consigo pensar.
      - Isso  bom - garantiu ele, roucamente. - Adoro a tua mente, Mari. Juro por Deus que sim. Mas no a tragas para a cama.
      Contornou-lhe o umbigo outra vez com leves pancadas da lngua, o que resultou numa vertigem irracional que a convenceu que j no tinha mente com que se preocupasse.
      - Mari, no tenhas medo, agora vou beijar-te aqui. Est bem? Fez-lhe ccegas e provocou uma sensao de que tinha o umbigo preso  espinha, mas gostou. Espantoso. 
At ento, nunca imaginara como o umbigo podia ser sensvel. - Sim, bem.
      Ele suspirou e inclinou a cabea.
      Falhou completamente o umbigo.
      Os ombros de Marilee levantaram-se do colcho. Ele estava... oh! J tinha ouvido falar naquela prtica. Afinal, tinha vinte e oito anos. Mas nunca tinha acreditado 
que pessoas normais se envolvessem em tais actividades. Mais uma vez, podia ser que o Joe no correspondesse  mdia. Sempre fora um maroto turbulento que desafiava 
as regras e pisava o risco.
      Apoiou-se num cotovelo e agarrou uma madeixa de cabelo com a inteno de pr termo aquilo. Mas a boca dele j estava a tapar a dela e as passagens provocadoras 
da sua lngua naquele local muito sensvel tornaram o nico brao que suportava o seu peso da consistncia de um macarro cozido de mais.
      Caiu redonda de costas e fixou o olhar no tecto, em absoluta estupefaco, com algum ponto distante do seu crebro amedrontado. Um ponto muito distante do 
seu crebro. Essa parte dela queria ficar chocada. Escandalizada. Ofendida. O resto, queria apenas fundir-se com a boca dele e deixar de se importar. Oh. Aquilo 
era to... Joe. Era... tinha que... oh, meu Deus... que  que ele estava a fazer-lhe?
      Ento, chupou-a a srio. O homem tinha a capacidade de suco de um aspirador Hoover. Ela tinha um desejo histrico de dar uma risada. Depois, todos os pensamentos 
lhe desapareceram da cabea. As ancas elevaram-se como se tivessem vontade prpria. O outro punho agarrou-lhe o cabelo para o puxar para mais perto. No precisava 
de ter feito o convite. Ele estava ali - o mais perto que um homem podia estar, a tomar posse de uma maneira que no lhe deixava parte nenhuma inviolada.
      E ela rendeu-se, permitindo que ele tivesse e lhe desse prazer. Ia para alm da sua imaginao, a sensao a aumentar continuamente, a necessidade do seu corpo 
a transformar-se numa urgncia frentica.
      - Joe, por favor! Por favor! - gritava ela, sem sequer ter a certeza do que queria.
      Ele sabia e deu-lhe, aumentando a presso e o ritmo, at o relaxamento lhe provocar ondas de estremecimento.
      Depois, ergueu-se por cima dela, os dentes a brilharem nas sombras enquanto desapertava as calcas. Marilee conheceu um instante de terror, pois aquilo era 
o que sempre receara, o impulso brutal e a tortura invasiva.
      - No tenhas medo de mim - sussurrou ele roucamente enquanto se baixava sobre ela. - Preferia morrer a magoar-te. No sabes disso?
      Ela sabia. Mas ele nunca tinha estado do outro lado. Ela sentiu o fuste duro e palpitante da sua virilidade contra a coxa. No podia deixar de sentir. Sentiu-se 
meia enjoada de terror, sabendo que ele tencionava meter aquela coisa enorme dentro dela. Quase conseguia sentir a dor dilacerante e, depois, a agonia que nunca 
mais terminava.
      Para sua consternao, ele f-la agarrar-lhe com a mo. Ela tentou recuar mas ele manteve-lhe os dedos presos. - Faz - sussurrou. - S o que aguentares. Mantm 
a mo em mim de modo que no possa entrar de mais e magoar-te.
      Ele queria que ela o fizesse? Quase fugiu, mas ele estava em cima dela e tinha a sensao de que ele a agarraria por um tornozelo para a puxar outra vez para 
trs se tentasse correr.
      - V. Mete s um bocadinho. V como te sentes. Juro, Mari, que no te magoo.
      Ele nunca tinha quebrado uma promessa que lhe tivesse feito. Saber disso dava-lhe coragem, naquele momento. Orientou-o para ela, sentindo-se como se estivesse 
para enterrar uma espada em si mesma. Ele deu um ligeiro empurro para a frente com as ancas. A cabea sedosa entrou nela.
      Ela suspirou e retesou-se, a espera da dor. Nada. Atravs das sombras, o olhar dela procurou o dele. Ele dirigiu-lhe um sorriso tenso. - Confia em mim, minha 
Mari. Tira a mo e deixa-me tratar disto a partir daqui.
      Ela tirou a mo, e ele assumiu o comando. Com um suave impulso para a frente, penetrou-a. Marilee deu um grito e empurrou-lhe os ombros com as mos. Ele parou, 
os olhos cheios de interrogaes.
      - Ests bem?
      Miraculosamente, parecia estar. Nada de dor. Nem sequer qualquer desconforto. Apenas uma sensao de completude. Aliviou o peso sobre ela, sendo o apoio de 
um brao o que o impedia de a esmagar. - Amo-te, minha Mari. - sussurrou ele, avanando depois para a beijar. Longos e profundos beijos. Marilee sabia que ele estava 
a tentar excit-la outra vez, que a queria irracional. Mas a irracionalidade no era estado que se atingisse, pelo menos quando se estava to tenso como ela.
      - Acaba - pediu ela.
      Ele suspirou e tirou o peso de cima dela, os seus braos a brilharem como uma escultura polida banhada pelo luar e os ombros musculosos a encresparem-se quando 
ele pressionava cautelosamente para a frente. Ela arquejou com a sensao a que no estava habituada.
      - Se doer, diz-me que eu paro.
      - No, no. Estou ptima.
      E estava. Maravilhosamente, incrivelmente bem. Ele voltou a avanar delicadamente, desta vez sorrindo quando ela arquejou. - Bom? - perguntou.
      Ela s conseguiu dizer que sim com a cabea.
      Ele aumentou o ritmo ligeiramente, o fim de cada impulso fazendo-a sentir exploses de sensao l no fundo. O seu corpo despertava em torno dele e ele, evidentemente, 
sentia a mudana.
      - Vem comigo - sussurrou-lhe.
      - Aonde? - perguntou ela, confusa porque pensava que ele estava a falar em sentido fsico.
      - Ao stimo cu - sussurrou ele. - So seis voos acima do cu normal, o stio aonde s os amantes podem ir. Vens comigo?
      A garganta apertou-se-lhe. - Oh, Joe, estou nervosa.
      - Vem comigo e deixars de estar.
      - Como?
      Inclinou-se para a beijar e sussurrou-lhe junto aos lbios: - Agarra-te ao meu pescoo que eu levo-te.
      Ela abraou-se bem, confiando nele como nunca tinha confiado em ningum, e no instante em que os braos se fecharam ele penetrou-a a fundo e com rapidez, sem 
conteno. Um impulso, dois. A mente de Marilee estilhaou-se. Levantou os joelhos, acompanhando-o, sacudida pela fora com que ele entrava dentro dela, mas exultante.
      Stimo Cu... pensara que ele estivesse a exagerar. No estava. Seis voos acima do cu normal, era o local aonde s podiam ir amantes, e Joe Lakota tinha-lhe 
proporcionado uma visita guiada pessoal.
      
    
    Captulo Dezasseis
      

      Quando a Dr.a Joan Patterson chegou ao consultrio, s nove e meia da manh seguinte, a enfermeira recebeu-a com um braado de botes de rosa encantadores, 
rosa-velhos, com longos ps.
      - Oh, meu Deus! - gritou Joan, quando pegou nas flores. - No so encantadoras? Quem  que as ter mandado?
      Helen sorriu e encolheu os ombros. - Algum que a ama. Eu no li o carto.
      Quando entrou no seu gabinete, Joan inalou o perfume dos botes de rosa, suspirou de apreo e abriu o carto que os acompanhava.
      
      Uma por cada ano perdido. Merece o seu peso em ptalas de rosa. Joe Lakota
      
      Joan riu-se baixinho e disse: - Parabns, Marilee.
      
      Joe j se tinha ido embora quando Marilee acordou, s dez horas.
      Sonhadoramente, passou a mo pela concavidade da almofada dele, ansiando por voltar a sentir o seu corpo grande e quente contra o dela. A ideia f-la dar uma 
risada. Que mudana. No via a hora de fazerem amor outra vez. Mas como, diabo, haviam de fazer com uma criana de quatro anos em casa?
      Zachary. Marilee endireitou-se e olhou para o relgio. Valha-me Deus! J passavam uns minutos da hora. Tinha que tomar um duche rpido, enfiar uma roupa qualquer 
e ir buscar o filho. O filho. Oh, como ela adorava o som daquela palavra. Sabia que ele estava bem em casa da av e, provavelmente, a divertir-se, mas j devia estar 
a perguntar a si mesmo quando  que a Marilee ia busc-lo. Alm disso, no queria sobrecarregar Faye.
      A bocejar e a esfregar os olhos, foi aos tropees pelo corredor at  casa de banho, abriu o chuveiro e depois esticou-se para tirar a roupa de dormir. Ento, 
percebeu que no tinha nenhuma. Espalhou-se-lhe nos lbios um sorriso tolo. Tinha acabado de percorrer o corredor nua e nem tinha reparado.
      gua quente. Precisava de se meter debaixo do chuveiro e acordar. Desviou a cortina e meteu-se debaixo do jacto de gua. Ah. Virou a cara para a gua quente 
e esfregou os olhos. Depois, procurou s apalpadelas o champ na caixinha. Um segundo depois, quando passava os dedos pelo cabelo comprido, tentando fazer espuma, 
algo na mo esquerda agarrou-se-lhe aos caracis encharcados. Deu um puxo e fez uma expresso de dor. Depois, foi apalpar com a outra mo. Um anel? Curiosa e j 
a sorrir, porque sabia que Joe devia ter-lhe enfiado o anel no dedo enquanto estava a dormir, desprendeu os cabelos. Que maneira doce de a surpreender, pensou.
      Pondo-se de lado para ver o anel, ficou surpreendida. Por entre flocos de espuma, olhou para o diamante solitrio que brilhava agora de modo to maravilhoso 
ao lado da aliana de casamento. Oh, Deus. Encostou-se aos azulejos e ficou a olhar, com o corao apertado. No era um anel qualquer. Era o anel dela. O que devolvera 
a Joe h dez anos. Marilee teria reconhecido aquele solitrio em qualquer parte.
      - Oh, Joe! - gritou ela.
      No instante seguinte, deixou-se escorregou pela parede de azulejos at ficar sentada na banheira e ficou ali abraada a si mesma, sem conter as lgrimas e 
a sufocar com a gua que continuava a entrar-lhe para a boca, pois no parava de bocejar. O anel dela. Ele guardara-o. Todos aqueles anos, ele guardara-o. No podia 
acreditar. Tinha-se casado com outra mulher. Tivera um filho. Mesmo assim, porm, guardara o anel. Se alguma vez tivesse duvidado do amor que tinha por ela, aquilo 
provava, para alm de qualquer dvida, que o seu corao sempre lhe pertencera. Sempre.
      
      Joe abriu a porta envidraada, deixando entrar o Zachary e o Boo  frente dele. Enquanto vinha atrs dos dois, despenteava o cabelo do filho e chamava: - Mari?
      No obteve resposta. Depois de encomendar as flores para a Doutora Patterson e de dizer no trabalho que estava doente, Joe tinha ido buscar o Zachary pessoalmente, 
querendo deixar a mulher dormir e recuperar da sesso de amor da noite anterior. No estando habituada quelas actividades, Marilee tinha continuado a dormir, apesar 
do barulho que ele tinha feito de manh, aos tropees pelo quarto para encontrar uma muda de roupa. Mas com certeza que j estava acordada.
      Joe sorria enquanto percorria a casa  procura dela. Ia ficar contentssima quando descobrisse que tinha feito gazeta e tinha todo aquele dia, mais o dia seguinte 
e o fim-de-semana para passar com ela. Ao longo da poca de futebol, tinha de dar aulas de Histria de segunda a quarta-feira, havendo outro professor que se encarregava 
da turma na quinta e na sexta para libertar Joe para a agitao que antecede um fim-de-semana de jogo. Felizmente, no havia jogo marcado para aquela semana, pelo 
que o seu treinador-adjunto, Ted, s tinha de substituir Joe durante o treino. A equipa estava a portar-se bem. Joe duvidava que ganhassem o jogo com Bedford. Para 
isso era preciso, pelo menos, um milagre. Todavia, tinham melhorado imenso e iam dar gua pela barba  Bedford High.
      Ted tinha-se rido cordialmente quando Joe lhe telefonara a dizer numa voz perfeitamente normal que estava com uma laringite terrvel.
      - J eram horas de teres a tua lua-de-mel! - disse Ted. - No te preocupes. Vi que andaste rouco a semana toda e dou-te cobertura. S h uma coisa que um treinador 
pode fazer quando fica sem voz, que  tirar quatro dias de descanso.
      - s um campeo, Ted - disse-lhe Joe com sentida sinceridade. - Agradeo-te muito.
      - No te esqueas de retribuir o favor quando chegar a poca dos veados. Gostava de tirar uma semana inteira, se conseguires aguentar as coisas sem mim.
      Joe riu-se. - Podes contar, companheiro.
      - Diverte-te com a tua mulher - foi o conselho de Ted antes de desligar. - S so recm-casados uma vez, como sabes.
      Da maneira que estavam as luas-de-mel, quatro dias no era muito, mas Joe planeava aproveit-los ao mximo. Depois de falar com Ted, telefonou ao mdico da 
me a perguntar se tomar conta do Zachary durante quatro dias seria de mais para ela. - Eu sei que j deu luz verde para ele l passar a noite se ela tiver quem 
a ajude, mas pensei que era melhor falar consigo antes de l deixar o Zachary por um perodo mais prolongado.
      - A vizinha ajuda-a? - perguntou o Dr. Petrie.
      - Ajuda, sim.
      - Ento, no h problema. - garantiu-lhe o Dr. Petrie. - De facto, provavelmente far muitssimo bem  sua me t-lo. Ela j est muito mais forte e, desde 
que tenha a certeza de que no faz esforos fsicos excessivos, ficar ptima. Actividade normal, razovel.
      A me de Joe ficou encantada quando soube que podia ficar com o neto numa visita prolongada. - Quatro dias inteiros? O circo est na cidade. Decididamente, 
vamos a isso. Vou j telefonar a Sarah. Ela vai querer alugar uma quantidade de vdeos para crianas. No sei quem gosta mais deles, se ela ou o Zachary.
      Quatro dias. Joe esperava levar Marilee a acampar no Holt Reservoir, o mesmo local aonde a tinha levado doze anos antes imediatamente aps ela ter feito dezasseis 
anos. Ron tinha uma tenda que podia pedir-lhe emprestada. Joe assaria umas gomas para ele e para ela no mesmo pauzinho, namorando com a noiva  luz da lua e de uma 
fogueira bruxuleante e, depois, lev-la-ia para a cama. Depois de ela fazer as suas oraes da hora de deitar, mostrar-lhe-ia para que serviam os sacos-cama.
      Quando ia no corredor, a caminho do quarto, Joe ouviu o chuveiro a correr. Voltou para trs e foi para a casa de banho. Quando entrou e fechou a porta, sorriu, 
desaparecendo-lhe da cabea todos os pensamentos acerca de escapadelas com saco-cama ao contemplar os prazeres de interromper o duche matinal da sua bela mulher. 
Provavelmente, ela ficaria toda embaraada, gritar-lhe-ia que se fosse embora e pegaria numa toalha para se tapar. Por cima do cadver dele. Na noite anterior, no 
tinha tido a oportunidade de a admirar. Estava demasiado envergonhada e ele, demasiado preocupado com certas partes no descobertas dela para apreciar o panorama 
geral.
      Agora, no. Dado o facto de o Zachary estar acordado e ser todo ouvidos, Joe sabia que no podia fazer nada que no fosse mostrar-se muito entusiasmado com 
o programa. Mas, v l. No fazia mal olhar. Pois no? E era um privilegio que lhe tinha sido negado durante demasiados anos.
      Daqui em diante, tencionava compensar o tempo perdido e, se pudesse escolher, seria sempre downhill sem traves.
      Quando ia discretamente abrir a cortina, Joe ouviu um som estranho. Quando meteu a cabea l dentro, os seus pensamentos lascivos desmoronaram-se e, em seu 
lugar, ficou preocupao. Marilee estava agachada debaixo do chuveiro, a soluar.
      - Querida? Meu Deus, que se passa?
      Parecia o Primo It da Famlia Adams. O cabelo caa-lhe por cima da cara e as madeixas encharcadas quase a afogavam. Joe deu um murro na torneira para fechar 
a gua e depois ajoelhou-se ao lado da banheira, afastando-lhe o cabelo molhado numa tentativa de lhe encontrar a cara. Em vez de se agarrar a uma toalha, como imaginara 
que ela fizesse, agarrou-se a ele.
      - Oh, Joe! - Ps-se de joelhos e lanou-lhe os braos molhados  volta do pescoo. Uma grande madeixa de cabelo a pingar bateu-lhe na camisa. - O meu anel. 
Tu guardaste-o. Estes anos todos. Oh, Deus. Parte-me o corao. Amo-te. Mesmo. Amo-te tanto!
      Aquilo era tudo por causa do anel? Pensava que tivesse morrido algum. - Mari, querida, no estejas triste. No o fiz para ficares triste. Cabelo molhado veio 
bater-lhe na cara e sentiu gua a correr-lhe pelo pescoo abaixo. - No estou triste. Estou to f-f-feliz!
      Aquilo era felicidade?
      Uma boca quente e molhada procurou a dele. Pequenos soluos passaram o ar da respirao dela para dentro dele. A lngua dela fez uma incurso exploratria 
pelos seus dentes de cima, encontrou uma abertura e entrou por ali dentro para namorar e se meter com ele. Ser feliz era bom. Oh, sim. As mos dele estavam cheias 
de uma carne quente, molhada e sedosa. Passou uma perna por cima do rebordo da banheira para se aproximar mais e, ao mesmo tempo que se apoiava na barreira de porcelana, 
a sua boca livrava-se  fora da dele. Ele mal reparou porque estava um mamilo cor-de-rosa a danar-lhe  frente do nariz, com gotinhas de gua a ornamentar a ponta. 
Dado o facto de a sua boca j estar aberta, como, diabo, podia ele deixar passar aquilo?
      Joe no tinha a certeza de como acontecera, mas o que sabia era que a seguir apareceu deitado de costas com os joelhos fincados no armrio das toalhas e os 
ombros entalados entre a banheira e a sanita. Normalmente, talvez no gostasse de ficar to perto e to ntimo com a pia. A tampa estava a bater-lhe na orelha. Mas 
havia compensaes. Dois mamilos rosa-velhos estavam ali com ele e estavam agarrados a uma das mais maravilhosas mulheres molhadas que alguma vez haviam de pr as 
pernas  volta das ancas de um homem.
      Santo Deus.
      Ser feliz era ptimo.
      Se um diamante obtinha uma reaco daquelas, ia arranjar-lhe um camio deles.
      Joe meteu-lhe uma mo na plvis, encaracolou um dedo e encontrou-a escorregadia e escaldante. Marilee estremeceu, gemeu e fez-se penetrar pelo dedo, com o 
cabelo encharcado a cair-lhe sobre a cara como uma cortina enquanto ele cultivava uma paixo pelo rosa do boto de rosa.
      - Pai? - chamou o Zachary, do lado de l da porta trancada. Joe parou e susteve a respirao.
      - Pai, o Boo e eu podemos ir ver o Barney?
      Joe esforou-se por dobrar um brao entalado e bater no cabelo molhado de Marilee para o tirar da cara. - O Barney? - disse, atabalhoadamente, parecendo um 
menino de coro cuja voz estivesse a mudar. - Claro, filho. Vai ver o Barney.
      Enquanto falava, os lbios mexiam-se em cima da ponta palpitante do mamilo de Marilee e a respirao dela continuava a vir em suaves e pequenos arquejos.
      - Podes vir c pr-mo? No consigo funcionar com o vdeo. Marilee sentou-se, o balano ertico das suas ndegas rechonchudas a preocupar Joe pelo facto de 
o Joozinho ir deixar-lhe a sua assinatura na braguilha.
      - Claro. J vou pr-te o Barney - conseguiu resmungar.
      A engolir em seco e a estremecer, Marilee ps uma mo sobre os olhos. Joe ficou ali um segundo a ver os maravilhosos seios dela a tremer enquanto ela tentava 
acalmar a respirao. - No sabia que ele estava c - sussurrou ela. - Oh, que horror. Estou uma depravada.
      - Estou preso.
      - Desculpa, Joe. Eu no...
      - Mari, estou preso.
      Ela baixou a mo e piscou-lhe o olho de forma trocista atravs das garatujas molhadas de cabelo louro. - Ests o qu?
      - Preso. Tens que sair de cima de mim para eu poder tentar levantar-me.
      Ela saiu-lhe de cima com uma pirueta de uma perna que deu a Joe uma viso panormica do cenrio mais doce em que alguma vez tinha posto os olhos. De maneira 
nenhuma. Tinha um filho l fora com umas orelhas do tamanho das do Dumbo. O Joozinho estava sem sorte nenhuma.
      Marilee ps-se em p e inclinou-se por cima da sanita para olhar para ele. - Cus! Ests mesmo preso. Como, diabo,  que te meteste a?
      Tinha sido atacado por uma ninfomanaca molhada, encantadora, soluante e muito doce. - O que quero saber  quem foi o luntico que ps a porcaria da sanita 
to perto da banheira.
      - Pai. Ele arrancou sozinho quando eu desliguei e voltei a ligar. Joe resmungou. Karl Nelson estava vingado, finalmente. - Podes dar-me a mo?
      Marilee estendeu o brao, ele agarrou-se e seguiu-se uma breve luta, com cinquenta quilos de mulher molhada a tentarem desalojar mais do dobro desse peso em 
homem seco do espao de trinta centmetros entre a sanita e a banheira.
      Aps duas tentativas, ela disse: - Oh, Joe! Achas que chame os bombeiros?
      S essa ideia deu fora a Joe e, servindo-se dos msculos abdominais, fez um esforo hercleo para se sentar, acabando por conseguir tirar os ombros do espao 
estreito. Quando se ps em p e viu bem a medida do espao onde estivera deitado, decidiu que as escapadelas com saco-cama talvez fossem muito mais seguras.
      O Zachary passou os noventa minutos seguintes a ver as cambalhotas do Barney no vdeo. Joe certificou-se de que o volume ficasse com decibis suficientes para 
despedaar ouvidos. Depois, levou em segredo Marilee para o quarto para lhe mostrar como imaginava que se fizessem cenas de amor nos tempos do cinema mudo.
      Pouco depois da hora do almoo, nesse mesmo dia, foi entregue no consultrio de Joan Patterson outro ramo de botes de rosa rosa-velhos.
      Desta vez, no precisou de ler o carto. Deu uma vista de olhos s flores e desatou a rir-se.
      
      Luar e luz da fogueira.
      Sentada num tronco ao lado do marido, Marilee aconchegou-se mais a ele, com a cabea apoiada no ombro e o olhar fixo, de modo sonhador, na dana das chamas. 
Embora ligeiramente fria, a noite estava perfeita, o cheiro dos abetos e dos pinheiros a ser delicadamente transportado pela brisa. Em toda a sua vida, nunca tinha 
estado to feliz. Joe. Amava-o desde a infncia e agora podia esperar um futuro com ele.
      - Em que  que ests a pensar? - perguntou ele.
      - Em bebs e na nossa casinha no cimo de um monte com vista para o vale. Lembras-te de quando sonhvamos juntos com a casa que havamos de construir?
      Ele beijou-lhe o cabelo. - Esquece a casa. Falaste em bebs?
      - Uuum. Molhos deles.
      - Tens a certeza de que queres uma molhada de indiozinhos Lakota para te atravancarem a vida?
      - Quando tivermos mais ou menos meia-dzia, logo vejo como vo as coisas. Se forem maadores, talvez repense a situao e no queira ter mais.
      Sentiu os lbios dele curvarem-se num sorriso. - S seis? Uma boa catlica como tu? Uma vez ameaaste-me com uma dzia. Pensei que querias mais.
      - Valha-me Deus! Ests a pensar em quantos?
      - Vamos aos dez, um por cada ano que perdemos.
      Ela suspirou. - Lembras-te da Mandy e do sabo? Ests doido. Tens a certeza de que consegues tratar de dez bebs?
      - Queres a verdade? - Ficou calado um segundo. - Acho que dois midos  suficiente e estou convencido de que o Ron est doido ao ter oito. S para comprar 
sapatos, uma pessoa ia  bancarrota.
      - Oh, querido.
      - Que ?
      - A est o nosso primeiro gro de areia na engrenagem. Eu no concordo em usar meios artificiais de controlo da natalidade.
      - No h outras maneiras?
      - A Gerry diz que a abstinncia  o nico mtodo seguro. Prolongado silncio. - Abstinncia? No admira que o Ron tenha oito midos.
      - Desgosto?
      - No - disse ele enfaticamente. -  E depois no creio que alguma vez tenhas pensado na possibilidade de te tornares luterana?!
      Ela deu uma risada. -  uma religio maravilhosa. Infelizmente, sou catlica de gema.
      - Talvez tenhamos que criar ovelhas e tecer a nossa prpria l se fizermos dez bebs.
      - Qual  a tua soluo?
      Inclinou a cabea para junto da dela e, em tom baixo, baliu-lhe aos ouvidos como uma ovelha. Marilee ainda estava a rir-se quando a levou para a tenda. Ajoelharam-se 
em cima do saco-cama de frente um para o outro.
      - Estamos muito atrasados - sussurrou Joe enquanto lhe despia o corta-vento e o atirava para o lado. - Se quiseres dez Lakotazinhos,  um trabalho talhado 
para mim. - Inclinou-se para lhe dar um beijo no nariz e comeou a desabotoar-lhe a blusa. - No h tempo a perder.
      Tinha deixado a porta da tenda levantada e a luz da fogueira projectava-se sobre eles. Marilee sentiu-se, de repente, inibida. - Podes baixar a porta, por 
favor? Est um bocado iluminado aqui dentro.
      - Est perfeito.
      - Est muito iluminado.
      Enquanto ele lhe tirava a blusa, sussurrava: - No te importes comigo. Diz as tuas oraes. Uma vez que te tenha tirado as calas de ganga, Deus fica em suspenso 
e o resto da noite  meu.
      Desapertou-lhe as calas e puxou o fecho de correr para baixo. As suas grandes mos roaram-lhe nas ancas quando lhe puxou as calas para baixo. Quando j 
estavam pela curva dos joelhos, foi por trs dela, desapertou-lhe o suti e puxou as alas para os braos enquanto se sentava nos calcanhares.
      Marilee arfava quando o ar fresco da noite lhe banhava os seios nus.
      - No posso rezar contigo a fazeres isso. Ps-lhe as mos no corpo.
      - Eu posso - disse ele, com voz rouca e trmula. - Estou a agradecer a Deus por te ter devolvido a mim.
      - Oh, Joe. Tu dizes coisas to doces. - Cruzou os braos  sua frente. - Adoro os teus msculos.
      Ele sorriu e empurrou-lhe os braos para baixo. - No sejas tmida - sussurrou. - s to bela, Marilee. Podia passar a noite inteira s a olhar para ti.
      - Beija-me, em vez disso. - Inclinou-se para ele na esperana de que, assim, ele no conseguisse ver tanto. - Pes-me nervosa quando olhas.
      Ele agarrou-a pelos ombros e afastou-a de si. - De maneira nenhuma, minha senhora. Vou ver isto toda a noite. Estou  espera deste momento h dez anos e vou 
sabore-lo. - Sentou-a para lhe tirar os sapatos e as calas. Depois, com um empurro delicado, deitou-a de costas e tirou-lhe as cuecas. Quando estava nua, disse:
       - No te mexas. - Recuou e percorreu-a lentamente com os olhos.
      Marilee tapou os seios com as mos e fechou os olhos. - Isto  torturante.
      - Porque  essa timidez toda?
      - Tenho as pernas gordas.
      - As tuas pernas so rolias e macias, no so gordas. Acho que so perfeitas, e a minha opinio  que conta.
      - Quando estou deitada de costas, os seios caem para o lado, para cima dos sovacos.
      Ele riu-se. - A srio? Tenho que ver isso. - Ela ouviu um movimento arrastado e, no instante seguinte, o corpo comprido dele estava estendido ao seu lado. 
- Ah, Mari. Esse anel parece to perfeitamente bem, outra vez no teu dedo.
      Marilee abriu os olhos para ver. O solitrio cintilava a luz bruxuleante como s um diamante pode cintilar. Deu-se-lhe um n na garganta e perdeu toda a modstia 
quando levantou a mo para o admirar. -  to belo, Joe. Sabes o que  que o faz cintilar desta maneira.
      Ele desviou o olhar para o anel. - No. Que ?
      - Promessas. E desde que nunca as quebremos, cintilar sempre.
      - Eu nunca quebrarei as promessas que te fizer - sussurrou ele, inclinando-se para lhe beijar os lbios. - Nunca, minha Mari. Quando te der a minha palavra, 
 garantido. Nunca te esqueas disso.
      Marilee entregou-se ao beijo e ao marido, alegre como nunca tinha estado nem esperava estar. Joe. Ele era tudo o que sempre quisera e agora, ao fim de tanto 
tempo, era seu.
      
      Na noite de quarta-feira seguinte, Joe chegou tarde do trabalho. Marilee foi ter com ele quando chegou  porta envidraada. Lanando-lhe os braos  volta 
do pescoo, lanou-lhe um olhar reprovador. - Est bem, deita c para fora. Como  que ela se chama?
      Ele sorriu e inclinou-se para a beijar. - Chama-se Marilee, pergunta se a vi e digo-te j aqui. Fui a Bedford, esta noite, ver o treino deles. O nosso jogo 
com eles est a aproximar-se rapidamente e achei que podia apanhar alguns dos pontos fracos deles. Lamento dizer, mas no tm muitos.
      - Estou surpreendida por os treinadores no te untarem com alcatro e te cobrirem com penas, para depois correrem contigo da cidade. Infiltrao no campo inimigo? 
Traioeiro, muito traioeiro.
      - Fui disfarado. - Levantou o bon de basebol que tinha na mo esquerda. - Puxei-o para cima dos olhos e vesti o casaco de bowling do Ted. Fui para a arquibancada 
e ningum me reconheceu.
      - Isso  mesmo traioeiro. Que divertido! Da prxima vez, tambm quero ir. Vou de peruca e culos escuros.
      Joe riu-se. - E com um vestido vermelho provocante? Oh, sim. Qualquer dia, levo-te numa misso de espionagem. Provavelmente, no recolheria muita informao 
a ver a outra equipa jogar, mas um tipo tem que se sacrificar de vez em quando por uma causa mais importante, no ?
      - . Vai-te lavar para jantar, 007. Lombo de porco com batatas.
      - E para sobremesa?
      Marilee afastou-se e depois estalou os dedos. - Quase me esquecia. Hoje, estive com a Joan. Mandou-te uma mensagem. - Levantou as sobrancelhas para ele de 
forma inquisitorial. - Por alguma razo, quer que eu te diga que no  gorda.
      Joe franziu o sobrolho, confuso. - No  gorda? Era essa a mensagem?
      Marilee foi ao fogo ver o lombo de porco. - Bem, no  ipsis verbis. Na realidade, disse: "Diga ao Joe que s peso 59 quilos e, se isto continuar, posso ficar 
ofendida."
      Joe riu-se.
      Marilee olhou para trs por cima do ombro. - Bem, qual  a graa?
      Ele dirigiu-lhe um olhar inocente que no a enganou. Quando ela semicerrou os olhos, ele levantou as mos: - No vais querer saber.
      - Vou, sim.
      - Nos cartes, disse que ela valia o seu peso em ptalas de rosa e acho que ela est a tentar dizer-me que j mandei mais do que o peso dela. - Fungou. - Um 
pequeno exagero. No mandei assim tantas.
      - Aquelas rosas todas? Foste tu que as mandaste?
      Ele encolheu os ombros. - A ttulo de agradecimento, mais nada.
      - Agradecimento porqu, exactamente? So tantas rosas que ela j no tem vasos e est a usar frascos de fruta de litro.
      - Essa  a parte que, realmente, tu no queres saber.
      - Quero, sim.
      - Isso  o que tu dizes mas eu conheo-te e ficas toda zangada. No tem nada de especial. Est bem?  a minha maneira de fazer a Joan saber que o tratamento 
dela foi um xito fantstico e que lhe estou muito grato.
      Marilee virou-se com o comprido garfo ainda na mo. - Tu no... - Pensou, viu quantas vezes tinham feito amor desde que vira Joan na quarta-feira anterior, 
e gritou: - Foi isso mesmo Ela tem onze ramos de rosas no consultrio.
      - V l, Mari. A Joan no sabe que lhe enviei um sempre que tivemos se...
      - No digas! - Apontou para a sala de estar, onde o Zachary estava a ver um vdeo educativo - Temos um mido de quatro anos em casa.
      - Tambm no usei essa palavra nos cartes. Um obrigado com bom gosto, mais nada. Estava realmente grato por tudo o que...
      - No posso acreditar que mandaste rosas  minha mdica sempre que tivemos...
      - No digas!
      Marilee estava ali parada, a pronunciar a primeira letra da palavra com uma sibilao prolongada, como a de uma serpente. Finalmente, disse: - Ela sabia. Foi 
por isso que quis ouvir todos os pormenores. "Grandes progressos", disse ela. Andavas a mandar-lhe rosas sempre que ns...
      - No digas.
      - Estou to embaraada. Porque  que no publicas um anncio pessoal a dizer a toda a gente?
      - Nunca faria isso. Mari, v l. A Joan no  uma pessoa qualquer. As rosas pareceram-me uma maneira perfeita de lhe agradecer sem... sabes... sem realmente 
lhe agradecer. No estava a ver-me muito bem a telefonar para dizer: "Ol, Joan, nem adivinha." Portanto, fi-la saber dessa maneira. Tens que admitir que as rosas 
dizem tudo. Fizeste uma reviravolta fantstica e s fiz isso durante a primeira semana. Amanh no h rosas, prometo.
      - Como  que sabes se terias ocasio de mandar amanh?
      Ficou com um olhar vazio. Depois, franziu o sobrolho e passou a mo pelo queixo. - No ests zangada a esse ponto, pois no? Que diabo! Vejamos as coisas como 
elas so.
      Marilee esforava-se, em vez disso, por manter uma cara impassvel. - Se foi to fantstico, porque  que eu no recebi nenhumas?
      - Nenhumas qu?
      - Rosas.
      - Queres rosas? Querida, se queres rosas, terei todo o prazer... - Olhou para o garfo que ela estava a manejar. - Marilee Nelson Lakota, nem sequer penses 
nisso.
      Ela deu uma risada e precipitou-se para ele. Mesmo com um joelho deficiente, Joe era rpido como um raio. Agarrou-lhe o pulso e depois virou-a, pondo-a de 
costas para ele, e apertou-a contra o peito com um brao de ao. - Agora o que  que vai fazer, Senhora Lakota?
      Ela inclinou a cabea para trs. - Nada. Estou exactamente onde quero estar.
      Ele resmungou e mordiscou-lhe o pescoo. - Desculpa se te embaracei - sussurrou ele, finalmente. - Estou to feliz, Mari. Precisava de lhe dizer obrigado por 
te ter ajudado e foi a nica maneira que inventei de o fazer.
      - Eu entendo. - Um formigueiro percorreu-lhe a espinha quando os dentes dele lhe roaram na pele. - Mas continua a bajular-me. Gosto mesmo disso.
      - Quando apanharmos o Zachary deitado, mostro-te umas bajulices a srio. E, prometo, nada de rosas para a Joan. Depois disto, tambm tas mando a ti.
      - Eu no quero rosas. Preferia que fizssemos horas extraordinrias.
      - Vais ser uma amante exigente?
      - Sim.
      - Umm. - Inclinou-se, contornando-a para lhe dar um beijo. Quando os seus lbios se separaram, sussurrou: - Talvez mande rosas a Joan mais uma vez.
      Uma hora depois, Joe e o Zachary estavam a ajudar Marilee a arrumar a cozinha, Joe a raspar e enxaguar pratos, entregando-os depois ao filho, que os punha 
na mquina de lavar loua de um modo to criativo que Marilee teve de morder a lngua.
      Sorriu e encolheu os ombros. Estavam a divertir-se demasiado para ela estragar tudo com mincias. Joe estava a cantar a sua verso de "Baa-baa, O Sheep", criando 
a sua prpria letra  medida que avanava, metendo de vez em quando um verso que recordava a Marilee que tinham encontro marcado no quarto, mais tarde, para trabalharem 
no primeiro daqueles bebs que ela queria.
      Baa-baa, black sheep, give me all your wool. We're going to need that, and ten bags full!1 Dirigiu-lhe um sorriso preguioso e piscou-lhe o olho.
      Marilee corou e inclinou-se para virar uma chvena. Deu um beijo na testa do Zachary. 
      - Meu Deus, Zachary, s um grande ajudante na cozinha. No fazia ideia de que conseguisses carregar a mquina de lavar loua. Agora ests metido num sarilho!
      O Zachary respondeu, radiante:
       - Foi o meu pai que me ensinou.
      Marilee acreditava. Ah, bem. Ela ensinaria o pai. Podiam ver aquilo como uma troca: Joe ensinava-lhe tcnicas de cama e ela ensinava-lhe as artes da cozinha. 
Finalmente, acabariam os dois por ser perfeitos peritos em todas as divises da casa.
      Nessa altura, tocou  campainha da porta. Marilee limpou rapidamente as mos e correu a atender. O Boo teve o cuidado de ficar um degrau atrs dela, desempenhando 
o seu papel de co de guarda da casa, emitindo um latido baixo de tantos em tantos passos. 
      
            1 Baa-baa, ovelha negra, d-me toda a tua l. Vamos precisar disso e de dez sacos cheios! (N. do T.)
      
      Atravs dos painis de vidro das portas duplas da frente, Marilee viu dois agentes da polcia uniformizados no alpendre.
      - Que diabo? - Quando chegou  entrada de ardsia, ouviu as unhas das patas do Boo rasparem no cho quando ele meteu traves.
      Por razes que estavam para alm de Marilee, qualquer pessoa fardada, mesmo um escuteiro lobito de palmo e meio a vender biscoitos, assustava de morte o pobre 
co. O Boo correu na direco contrria quando ela abriu a porta. - Sim, faam o favor de dizer.
      O mais velho dos polcias, um homem de bochechas rechonchudas com cerca de trinta anos, cabelo moreno e olhos amveis cinzentos, fez-lhe continncia. - Boa 
noite, minha senhora. Vimos  procura de Joe Lakota. Est c?
      O corao de Marilee apertou-se. Depois, censurou-se em silncio por ser tola. A vida no era, na realidade, uma roleta gigantesca e as ansiedades que tinha 
mencionado a Joan nessa tarde eram uma patetice. A polcia podia querer falar com o Joe por variadssimas razes. Podia algum dos rapazes da equipa dele estar em 
sarilhos - ou desaparecido. Ou talvez a Polcia estivesse a fazer uma angariao de fundos e quisesse pedir a Joe um donativo, ou que fosse o porta-voz deles. Para 
l do mundo de Laurel Creek,. O marido era uma celebridade, afinal.
      - Sim, o Joe est.
      Marilee estava a preparar-se para ir busc-lo quando ele falou mesmo atrs dela. - Ol, Pete! - disse ele calorosamente. - Como vai isso? - Pondo uma mo no 
ombro de Marilee, Joe parou ao lado dela. - Esta  a minha mulher, Marilee. - A ela, disse: - Lembras-te do Pete Mueller, querida. Os pais dele tinham uma loja de 
fruta na Old Highway, 99. Andvamos na mesma turma.
      Marilee sorriu. - Oh, sim. - Apontou para o chapu dele. - O uniforme. No o reconheci, Pete. Desculpe.
      - No h problema. - Pete balanava-se para um lado e para o outro, parecendo desconfortvel. O agente mais jovem, que estava ao lado dele, um ruivo esbelto, 
com sardas, parecia igualmente tenso. - Isto no  uma visita social, Joe. Temos que te levar para interrogatrio.
      O sorriso de Joe desapareceu. - Sobre qu?
      Pete virou o olhar para Marilee. - A que horas  que o seu marido chegou hoje a casa, Senhora Lakota?
      Marilee dirigiu a Joe um olhar surpreendido. - Eu... Meu Deus, cerca das sete e um quarto, acho eu. Porque  que pergunta?
      Pete Mueller olhou Joe nos olhos. -  um pouco tarde para chegar, no , Joe? Tiveste que ficar at mais tarde no liceu?
      - De vez em quando, o meu trabalho implica mais do que apenas treinar. - Um msculo da face de Joe comeou a palpitar. - Que  isto, Pete?
      - Onde  que estiveste esta noite? Quando passamos pela escola para falar contigo, o Ted disse-nos que faltaste ao treino. No  um pouco invulgar?
      - Fui a Bedford, esta tarde, ver a equipa deles. O grande jogo  daqui a duas semanas.
      - Estou a ver. - Pete acenou com a cabea e olhou para se certificar de que o colega estava a tomar notas. - E foi l que apanhaste toda aquela lama vermelha 
que tens no carro, l em Bedford?
      - No, fomos acampar no Holt Reservoir este fim-de-semana.
      - Quando estavas em Bedford, falaste com algum que possa confirmar que estiveste l?
      A mo de Joe apertou o ombro de Marilee. - No vou responder a mais nenhuma pergunta enquanto no me disserem o que  isto.
      A expresso de Pete tornou-se glacial. - Stan Salisbury foi assassinado. A mulher, Susan, afirma que fizeste ameaas  vida dele h trs semanas. Isso  verdade?
      A cara de Joe ficou cinzenta. Marilee sentia-se como se fosse desmaiar.
      - Sim,  verdade - disse Joe, em voz baixa. - Mas estava chateado. No queria dizer isso. Assassinado? Oh, Santo Cristo.
      
      
    Captulo Dezassete
      
      
      Uma roleta gigantesca. Na hora seguinte, Marilee esteve a tentar tranquilizar-se. No tinha sado o nmero de Joe. Da a umas horas, ele voltaria para casa, 
a rir-se do mal-entendido. A polcia pediria desculpa e sentir-se-ia muito mal por os ter feito passar por isto. Homicdio. Oh, por favor, meu Deus.
      Aninhada no sof, Marilee segurava Zachary ao colo enquanto a polcia fazia uma busca  casa. At despejaram o Creme de Trigo, sabe-se l  procura de qu. 
Se continuassem assim, o que  que ia dar ao Zachary ao pequeno-almoo?
      - De que  que andam  procura? - perguntou Marilee, na esperana de poder acelerar as coisas localizando o que quisessem. Ignoraram a pergunta. Uns minutos 
depois, quando um agente comeou a desmontar todas as molduras de fotografias, ela gritou: - Faam o favor de parar! Algumas dessas fotografias so insubstituveis. 
No tenho negativos! - O pedido dela foi ignorado.
      Uns minutos depois, entrou outro agente que vinha de revistar o carro de Joe. Dirigiu um olhar significativo ao Zachary, que estava encolhido de medo nos braos 
de Marilee. - Senhora Lakota, eu sei que o menino est muito perturbado e detesto pedir-lhe que o deixe. Mas poderia vir ali ao alpendre da frente por uns minutos, 
sem ele?
      Quando Marilee tirou o Zachary do colo, ele enrolou-se em posio fetal e cobriu a cabea com os braos. - Ei, docinho - sussurrou ela. - Vou ali s por uns 
minutos, est bem? Fica aqui que eu vou a correr ao alpendre e volto a correr. Quase no dars pela minha falta.
      - Quero o meu pai! - disse o Zachary, furioso. - F-los traz-lo de volta, Marilee. Desta vez, ele no bateu em ningum! Porque  que o levaram outra vez num 
carro da polcia.
      Marilee quase tapou a boca da criana com uma mo para a calar. Olhava, nervosa, para o agente que esperava por ela. Quando viu a expresso dela, disse: - 
Verificamos o cadastro policial do Senhor Lakota. O menino no est a dizer nada que eu no saiba j.
      Marilee ficou sem fora nas pernas. - Que  que isso significa?
      A boca do agente endureceu: - Que nos conhecemos a histria de comportamento violento do seu marido - disse ele, em voz baixa.
      Oh, Deus... oh, Deus. Era o melhor que Marilee podia fazer a ttulo de orao enquanto se apressava a ir para a frente da casa. Quando saiu para o alpendre, 
estava outro polcia no primeiro degrau  espera dela. Na mo enluvada, segurava cuidadosamente o que parecia ser um taco muito pequeno de basebol pela ponta do 
cabo.
      - Que diabo  aquilo? - sussurrou Marilee, de olhar fixo.
      - J tinha visto isto alguma vez, Senhora Lakota? Encontramo-lo debaixo do assento da frente do Honda do seu marido. Vulgarmente, chama-se um cassetete, entre 
outras coisas. Aqui no Oregon, legislao recente probe o cidado vulgar de os trazer nos seus veculos.
      Havia coisas por toda a superfcie do cassetete, uma substancia viscosa vermelho-escura com plos ou cabelos pretos agarrados. A garganta de Marilee denunciou 
um sobressalto. Pontos negros danavam-lhe  frente dos olhos. Stan tinha cabelo preto.
      - Senhora Lakota?
      A voz do agente parecia vir de muito longe. Marilee cerrou os punhos, lutando para ter autocontrolo. No podia ir-se abaixo de maneira nenhuma. Isto no estava 
a acontecer na realidade. Estava a ter um pesadelo horrvel. Acordaria rapidamente e nunca falaria neste sonho a Joe porque o magoaria saber que ela o julgara capaz 
de um acto daqueles, mesmo em sonhos.
      - Eu... - A voz dela soava fraca e gaguejada. - No, nunca tinha visto essa coisa horrvel e no pertence ao meu marido.
      - Talvez ele a guardasse debaixo do assento do carro sem o seu conhecimento.
      Marilee piscou os olhos e tentou ver melhor. Queria dizer que tinha espreitado debaixo dos assentos do Honda de Joe uma centena de vezes e nunca tinha visto 
aquele taco horrvel. Mas a verdade  que nunca tinha tido razo nem vontade de fazer buscas ao carro. - No  dele! - limitou-se a dizer. - Ainda este fim-de-semana 
levamos o Honda quando fomos acampar. Acho que saberia se ele ali trouxesse uma coisa dessas.
      - Espreitou debaixo do assento do condutor?
      Marilee olhou para os olhos do polcia e nesse momento soube que aquilo no era um sonho mau. Stan Salisbury tinha sido morto  cacetada e a arma do crime 
fora achada no carro de Joe. Que Deus lhe perdoasse. Isto era culpa dela. Durante dez anos, tinha guardado silncio, nunca dizendo a Joe o que Stan fizera porque 
sabia como ele ficaria irado. Agora, os seus piores receios tinham-se concretizado.
      Joe no tinha conseguido aguentar e matara Stan Salisbury.
      - Sim - disse finalmente, com voz firme e duma altura que no era natural. - Espreitei mesmo debaixo do assento do condutor. E tambm debaixo de todos os outros 
assentos. E no porta-bagagens! Essa coisa horrvel no estava no carro do meu marido.
      O agente acenou com a cabea. - Posso perguntar-lhe de que  que andava  procura, Senhora Lakota? Normalmente, as pessoas no andam a espreitar debaixo dos 
assentos dos automveis.
      - Andava  procura da lata de insecticida! - Marilee no fazia ideia nenhuma de donde aquilo tinha vindo. S sabia que tinha de mentir para proteger Joe e 
que tinha de ser convincente. - Conhece aquelas coisinhas que zumbem durante a noite e nos picam atravs da roupa? Vulgarmente chamadas mosquitos, entre outras coisas. 
O Oregon no aprovou recentemente nenhuma lei a proibi-las e, sendo esse o caso, precisava do pulverizador.
      - Eu no estava a pr em causa a sua palavra, Senhora Lakota.
      - No? - Marilee comeou a abraar a cintura mas parou. Uma postura defensiva. Clssico. A recordao f-la desejar ajoelhar-se e soluar.
      -  Eu acho que estava a pr em causa a minha palavra, senhor agente.
      -  Ouviu o Zachary choramingar na sala de estar. - Quero que saiam todos da minha casa. Esto a perturbar o meu filho. No basta terem levado o pai para a 
cadeia?
      - No foi para a cadeia, minha senhora. Apenas estamos a interrog-lo. - Ele arrastava os ps, parecendo pouco  vontade. -  verdade que Stan Lakota e mais 
quatro homens a violaram h dez anos, Senhora Lakota?
      O mundo  volta dela deu uma volta rpida, o cho subiu, o cu desceu, as rvores do ptio lanaram-se numa dana louca. Ela esforou-se por corrigir a vista 
e por limpar a cabea.
      - Sabemos que contou recentemente ao seu marido esse incidente e indicou Stan Salisbury como sendo um dos seus violadores. Depois, o seu marido foi  residncia 
de Salisbury. Houve uma acalorada discusso, durante a qual o seu marido disse a Salisbury que sasse da cidade e, a certa altura, ameaou que o matava.  verdade?
      - Recuso-me a responder a mais qualquer pergunta at arranjar um bom advogado de defesa para o meu marido. - Marilee olhou para o cassetete. - Pode dizer o 
que quiser a respeito de s o terem levado para interrogatrio. Tenho a sensao de que no vai demorar a aparecer uma acusao oficial de homicdio.
      - Obstruo  justia  crime - recordou-lhe ele. - Se sonegar provas, isso pode levar a uma deteno ou a uma condenao, pode ser processada. Alm disso, 
se acredita que o seu marido est inocente, que tem a esconder? Ao recusar-se a responder s minhas perguntas, apenas o faz parecer mais culpado.
      - O que o senhor acha  irrelevante. A opinio do jri  que h-de contar e cada palavra que eu lhe disser pode ser usada contra o meu marido. No  assim?
      - No essencial, sim.
      - No posso ser obrigada a testemunhar contra ele.  meu marido.
      - Isso  verdade.
      - Sendo esse o caso, mesmo que eu esteja a sonegar provas, coisa que no estou a dizer que faca, duvido que possa levantar-me um processo por obstruo  justia. 
Tambm acho que eu prpria tenho direito a aconselhamento jurdico, uma vez que fez meno de deduzir acusaes contra mim.
      Ele suspirou. - Est a cometer um erro grave, Senhora Lakota.
      - Estou a exercer o meu direito a ficar calada at ter recebido aconselhamento jurdico.
      - Ao recusar-se a responder as minhas perguntas, s est a convencer-me de que as alegaes de Susan Salisbury so verdadeiras.
      - Estou a exercer o meu direito de ficar calada at ter recebido aconselhamento jurdico - disse outra vez Marilee.
      O agente resmungou de descontentamento e depois sorriu afectadamente para ela. - Primeiro,  melhor arranjar aconselhamento jurdico para o seu marido, minha 
senhora. - Muito cuidadosamente, meteu o cassetete num saco de plstico que j tinha sido marcado como prova. Quando tirou as luvas de borracha, olhou para Marilee. 
- Enquanto isto no passar pelo laboratrio mdico-legal, em Bedford, no teremos a certeza. Mas eu diria que achamos o cassetete usado para matar Salisbury. E estava 
no carro do seu marido.
      Imediatamente aps a sada da polcia, Marilee ps-se no meio da sua casa destruda, abraando apertadamente um Zachary soluante.
      - Est tudo bem, fofinho. Por favor, no chores. Est tudo bem.
      - Eles levaram o meu pai! Levaram-no! Quero-o de volta. Quem  que me vai ler a minha histria e enxotar o papo do meu armrio?
      Foi a primeira vez que Marilee ouviu falar da batalha nocturna de Joe com o papo do Zachary. Mas isto era mesmo do Joe. Quase conseguia v-lo a fazer o exorcismo 
ritualista, abrindo de repente a porta do armrio e expulsar de l os fantasmas. Tolice? Absolutamente. Mas Joe no era o tipo de pessoa que se importasse com a 
tolice. Reais ou imaginrios, os medos do filho seriam importantes para ele. Independentemente do cansao com que estivesse depois de um longo dia. Independentemente 
de ainda ter trabalho a fazer nesse dia. Conversaria com o Zachary, depois, leria para ele, fazendo-o sentir-se seguro e amado, porque o Joe Lakota era assim, um 
grandalho com um ntimo que punha sempre as pessoas que amava em primeiro lugar.
      As lgrimas queimavam os olhos de Marilee. Joe. Como podia aquilo estar a acontecer? Ele era to maravilhoso e to bom. Fechou os olhos e respirou fundo vrias 
vezes. No podia ir-se abaixo. Por causa do Zachary, tinha de se manter calma.
      - Eu sou boa a enxotar papes - disse ela, injectando uma nota de alegria na voz.
      - No! Tu no s grande e forte como o meu pai.
      - Isso  verdade. Uuum. Talvez recrute o Boo para me ajudar. Que tal?
      - O Boo  um grande medricas. Est escondido debaixo da tua cama. No gosta de polcias e eu tambm no!
      Marilee tambm no podia dizer que gostasse muito deles. Criticou acerbamente o estado de destruio da sala. Ia levar dias a arrumar outra vez a casa. Ainda 
a ideia no tinha ganho razes j ela estava a perguntar a si mesma a que propsito estava a pensar naquilo. A casa? Quem queria saber da casa? O marido estava na 
cadeia. E no era por um pequeno crime sem importncia, mas por homicdio. Oh, meu Deus. Que havia de fazer? Joe precisava dela. Tinha de fazer alguma coisa, mas 
o qu? Telefonar a um advogado. Sim. Seria isso a primeira coisa. Mas que advogado? Precisava de arranjar um realmente bom, realmente esperto.
      Sentou-se na cadeira de balano e aconchegou bem o Zachary. Era o que o Joe quereria, ela sabia. Primeiro, as coisas mais importantes. Passando uma mo pelo 
cabelo macio do Zachary, beijou-lhe a testa e sussurrou: - Posso no ser forte e grande como o teu pai, mas sabes que mais? Amo-te com um amor do tamanho de uma 
montanha, Zachary Lakota. Nada no mundo vai magoar-te enquanto eu c estiver.
      Zachary abraou-se-lhe ao pescoo com tanta fora que estremeceu.
      -  Estou assustado, Marilee. Estou to assustado! Eles vo pr o meu pai na cadeia. Ele no fez mal quele homem. Eu sei que no fez. Ouvi os polcias a falarem. 
Disseram que o meu pai lhe amachucou os miolos com um cacete. O meu pai no fez isso! Sei que no fez.
      Oh, Zachary. S tinha quatro anos, era de longe demasiado novo para saber essas coisas, quanto mais para se preocupar com elas. Como  que aqueles homens puderam 
fazer acusaes to cruis  frente dele? Marilee estreitou-o mais contra ela. - Claro que o teu pai no fez isso -  sussurrou ela. - O teu pai nunca faria uma coisa 
dessas. Tens toda a razo.
      Quando Marilee lhe deu essa garantia, encheu-se de uma sensao de justeza e percebeu que acreditava verdadeiramente no que dissera ao filho de Joe. Que  
que tinha se tivessem achado a arma do crime dentro do carro dele? Que  que tinha ele ter arranjado - oh, to convenientemente - uma desculpa para ter desaparecido 
durante algumas horas durante aquela tarde? L no fundo, aonde o medo no conseguia chegar e a razo no tinha influncia, no podia acreditar que Joe tivesse feito 
uma coisa daquelas. Nunca quebrarei as promessas que te fizer - tinha-lhe jurado ele na outra noite, na tenda. Nunca, minha Mari. Quando te der a minha palavra, 
 garantido. Lembra-te sempre disso.
      Agora, aquelas palavras pareciam quase profticas. Tambm confortavam Marilee, na medida em que mais nada podia confort-la. Joe Lakota tinha os seus defeitos, 
sendo um dos principais um temperamento exaltado quando se tratava de defender as pessoas que amava, mas no era mentiroso. Tinha-lhe dado a sua palavra de que no 
poria as mos em Salisbury. No tens que voltar a preocupar-te com a possibilidade de eu disparar em falso. No fazia sentido Joe fazer promessas daquelas para depois 
as quebrar.
      Marilee lembrava-se do primeiro dia em que tinha visto o Zachary. Diz-lhe que eu telefono de hora a hora, sussurrara Joe antes de se ir embora. E, tal como 
tinha prometido, telefonou ao filho de hora a hora, pontualmente. Na altura, ficou surpreendida com aquela coisa extraordinria. Mesmo preocupado como Joe estava 
com a me, no se tinha esquecido e, apesar de todas as suas limitaes de tempo, passara preciosos segundos a ensinar o Zachary a ver no relgio quando ele voltaria 
a telefonar.
      Voltou a respirar fundo e a expirar lentamente. Vamos ao essencial. Quem  que estava acima de tudo na sua vida? Joe. Nunca a tinha deixado ficar mal. Nem 
uma vez. Quando nada mais restasse, podia contar com ele. Sempre. Que fosse do seu conhecimento, ele nunca lhe tinha mentido, nem sequer disfarado a verdade. E 
no se conseguia lembrar de um nico exemplo de que tivesse agido sem ser no melhor do seu interesse. O mesmo se aplicava ao filho.
      Matar um homem e acabar na priso no era do melhor interesse dela e tambm deixaria o Zachary terrivelmente vulnervel. Simplesmente, Joe nunca faria nada 
que pusesse qualquer deles em perigo.
      - Zachary - disse Marilee, mais alto -, tens toda a razo. O teu pai no fez aquilo!
      - Eu sei - concordou a criana.
      Marilee encostou-lhe a cara ao cabelo e riu-se. Alvio. No sabia onde andara com a cabea - possivelmente a rolar naquela roleta imaginaria chamada vida de 
que tinha falado a Joan. Ansiedade, outra fase da recuperao. Estava  espera que acontecesse alguma coisa horrvel e foram favas contadas, aconteceu. Isso no 
era desculpa para ter tirado concluses apressadas, claro, e lamentava t-lo feito. Mas os erros podiam ser rectificados e ela dera por este bem cedo.
      Joe estava inocente. Tinha de estar. Deu uma pequena cotovelada ao Zachary para lhe chamar a ateno. - Ordens da tua nova me, rapago. Deste momento em diante, 
no  permitido estar assustado. O teu pai pode estar na cadeia, mas no vo ficar l com ele. Tu e eu vamos tir-lo de l.
      O Zachary recuou, esfregando um olho com o punho fechado.
      - Vamos?
      - Podes apostar. - Marilee ajudou-o a secar as bochechas. - Mas vou precisar de imensa ajuda para isso. Posso contar contigo?
      - Sim. Gosto muito do meu pai!
      Marilee pestanejou para afastar as lgrimas. - Eu tambm. E, juntos, vamos meter a polcia de Laurel Creek na ordem.
      Zachary disse que sim com a cabea. Depois, ps-se a olhar para os ns dos dedos e disse: - Como?
      Deu-se um n no estmago de Marilee. - Primeiro, damos um aperto de mo. - Estendeu-lhe a mo direita. - Prometo ser corajosa e lutar como um soldado para 
tirar o teu pai da cadeia. Prometes ser mesmo, mesmo corajoso e ajudar-me?
      - Sim. - O Zachary ps a mozinha na dela. - Em que  que tenho que ser corajoso?
      Marilee apertou-lhe a mo. - Primeiro que tudo, se o teu pai tiver que ficar algum tempito na cadeia, tens que me ajudar a enxotar o papo do teu armrio, 
 noite.
      Os olhos de Zachary esbugalharam-se.
      - Servimo-nos da vassoura e da tampa da minha panela grande. No h problema. Quando ele sair, eu dou-lhe uma sova e tu tambm podes bater-lhe na cabea com 
a tampa. No precisas de ser grande para bater no papo. S tens que ser criativo.
      - Tomara eu que pudssemos deixar o pai fazer isso.
      Marilee acenou afirmativamente com a cabea. - Eu sei. Mas fazemos o melhor a seguir a isso e falaremos com o teu pai ao telefone acerca do assunto. Ele pode 
dizer-nos exactamente como tratar do papo. J anda a correr com ele h um tempo.
      - Sim.
      - Bem, e agora? Problema resolvido. O teu pai  um grande treinador.
      - Sim. - O Zachary dirigiu um olhar atento a Marilee. - Que mais tenho eu que fazer?
      - Bem. - Respirou fundo. - Tens que ser mesmo corajoso e segurar-me na mo para me ajudares a ser corajosa enquanto fao uma chamada telefnica. Acho que  
altura de convocar a cavalaria.
      - Quem  a cavalaria?
      - A minha famlia.
      Os olhos do Zachary abriram-se ainda mais. - Aquela senhora com luzes nas orelhas e cabelo cor-de-rosa vem c?
      - A tia Luce. - Marilee sorriu. - Na realidade, Zachary, ela  a mais simptica de todos. Eu sei que tem um ar realmente esquisito, mas  a melhor amiga que 
jamais tive. Bem, na realidade, a terceira melhor amiga. O teu pai  o meu melhor amigo.
      - Quem  o segundo?
      Marilee agarrou-o para lhe dar um abrao. - s tu, tontinho.
      Depois de fazer uma chamada para Gerry, Marilee telefonou a Sarah Rasmussen, contou-lhe as noticias horrveis e pediu-lhe que as desse delicadamente a Faye 
Lakota. - Por favor, diga-lhe que, logo que possa, passo por a para lhe contar as ltimas novidades. Est bem?
      Sarah suspirou. - No posso acreditar que o Joe fizesse uma coisa dessas.
      - Ele no fez - afirmou calmamente Marilee -, e tenho a certeza de que voltar rapidamente. A polcia apenas cometeu um erro terrvel. Por favor, diga  Faye 
que garanto que o Joe estar em casa amanh.
      Depois de desligar, Marilee contactou com a esquadra. A mulher que a atendeu inicialmente no demorou a passar a um agente snior que era grosseiro e evasivo 
e s lhe explicou, depois de ser pressionado, que era impossvel Joe falar com o filho ao telefone.
      - J o registamos e est na cela. De manha, ter direito a uma chamada telefnica. Se optar por a desperdiar a falar com o filho, por mim, tudo bem. Mas no 
tem direito a mais nenhuma.
      - Desculpe - disse Marilee educadamente -, no pretendo criar dificuldades. No pretendo mesmo. Compreendo que tem regras a cumprir mas esta no  uma situao 
vulgar. O Senhor Lakota  que tem a guarda exclusiva do filho e o menino est muito perturbado.
      -  pena, minha senhora.
       pena? Marilee comeou a ficar zangada. Em vez de revelar isso, decidiu tentar seduzi-lo com falas mansas. - Tem filhos?
      - Sim, minha senhora.
      - Ento, sabe como  fcil as crianas ficarem perturbadas e que certas experincias, se forem tratadas de modo incorrecto, podem ser emocionalmente devastadoras 
para elas durante anos.
      - Isso, na realidade, no  problema meu, minha senhora. Tenho muita pena que o mido esteja perturbado. Mas, olhe, o pai dele devia ter pensado nisso antes 
de ter amachucado a cabea do Salisbury.
      Marilee no perdeu tempo a contar at dez. Mas contou at trs, aps o que disse: - J ouviu a frase "inocente at se provar que  culpado"?
      - Sim, minha senhora.
      - Partindo desse princpio, no consegue arranjar no seu corao maneira de abrir uma excepo para uma criana pequena?
      - No, minha senhora. No podemos abrir excepes para o primeiro que aparece. Isto transformava-se num jardim zoolgico.
      - Percebo que as instalaes da vossa cadeia provavelmente no esto equipadas com telefones. Porem, acho muito difcil acreditar que no tenha um telemvel 
a.
      - E depois?
      - Devo entender isso como existindo a um telemvel?
      - O nosso sistema telefnico no lhe diz respeito.
      - Como  que se chama? - perguntou Marilee.
      - Brandt.
      Perguntou-lhe como  que se escrevia.
      - Porqu? - perguntou Brandt.
      - Quero ter o seu nome correctamente escrito quando o der ao advogado do meu marido.
      - Est a ameaar-me com um processo?
      Marilee olhou para os olhos esbugalhados e preocupados do Zachary. - Sabe quem  o meu marido, agente Brandt?
      - Sim, minha senhora.  Joe Lakota, o jogador de futebol americano. E depois?
      Marilee endireitou os ombros. - Imagine, por favor, o circo que em breve vai montar tenda em Laurel Creek. Uma figura do desporto presa por homicdio? Oh, 
homem. Sero os cabealhos de todos os jornais por esse pas fora. Para comear, reprteres a aparecer de todo o lado. A primeira coisa que tenciono gritar aos quatro 
ventos quando me entrevistarem  que o agente Brandt, um dos melhores de Laurel Creek, recusou-se a permitir que um rapaz assustado de quatro anos falasse com o 
pai, que, poderei acrescentar, est inocente. Vai fazer figura de parvo quando isso vier  luz do dia. Portanto, em resposta  sua pergunta, no, no estou a amea-lo 
com um processo, agente Brandt. Estou a prometer-lhe que, se no deixar o meu marido tranquilizar o filho, destruirei pessoalmente a sua carreira. Ele tem o melhor 
que h no pas e eu vou dizer-lhe duas palavras. "Atira-te a eles."
      Longo silncio e, depois: - Talvez o capito Croise possa ajud-la.
      - Muito bem. Croise, disse? Como  que se escreve isso?
      Dez minutos depois, Joe telefonou ao filho de um telemvel que lhe tinha sido entregue miraculosamente por um agente chamado Brandt. Marilee foi para a extenso 
do quarto ouvir.
      - Hei, rebento. Como est o meu rapaz favorito?
      - Estou assustado, pai. Como  que te levaram num carro da polcia?
      Joe riu-se. - Bem,  simples. Cometeram um grande erro. Marilee meteu-se nessa altura na conversa. - Ol, Joe.
      - Hei, minha Mari. - A voz dele passou a um tom rouco. - Desculpa isto. Eu sei que te ps numa roda-viva e que no sabes ao certo o que hs-de pensar.
      A garganta de Marilee apertou-se-lhe. - Sim, bem, eu estou bem. A razo por que consegui esta chamada  que o Zachary precisa de uma opinio tua.
      - Hei, rebento, de que espcie de opinio precisas?
      - Esta noite, no vais estar c para enxotar o papo, pai.
      - Ah! - Marilee quase conseguia ver Joe a coar a cabea. - Isso  um problema.
      - Sim.
      - Sabes, Zachary, eu no estou l para enxotar o papo quando passas a noite em casa da av.
      - L no h papo.
      - No? Porqu?
      - No lhe digo que vou l passar a noite.
      A avaliar pelo silncio do outro lado, Joe estava a tentar acompanhar o raciocnio do filho. Para sua surpresa, Marilee deu consigo a sorrir. Era um triste 
testemunho do seu estado mental que os processos de raciocnio de Zachary fizessem perfeito sentido para ela.
      - Tcticas de evaso - disse ela, a ttulo de explicao. - O papo  enganado, ficando em casa.
      - Ah! - Joe parecia perplexo. Outro breve silncio. - Claro. Muito inteligente da tua parte, Zachary.
      - Que  que hei-de fazer, pai? - perguntou Zachary com voz trmula. - A Marilee no  suficientemente grande para o afugentar.
      - Ela no  muito grande. Isso  verdade.
      Marilee ouviu durante alguns momentos pai e filho discutirem a sua inaptido fsica. O Zachary queixava-se de que ela tinha braos fininhos sem msculos e 
um pescoo ossudo. Ouviu riso na voz de Joe quando concluiu: - Sim, tens razo,  um bocado magricela.
      - Sim, e acho que tambm  um bocado medrosa. Diz que tenho que a ajudar a enxot-lo.
      Joe riu-se. - Bem, decididamente, vocs precisam de um bom plano de ataque.
      - O Boo no serve de ajuda - esclareceu Marilee. - Os polcias assustaram-no e ainda est escondido debaixo da minha cama.
      - Maldito co. - Joe voltou a rir-se. - Hei, Zachary, s vezes, a Mari consegue ser bastante assustadora, at para mim.
      - Consegue?
      - Devias v-la com aquele garfo comprido na mo. Marilee sorriu ainda que estivessem a pingar-lhe lgrimas do queixo. - Ah, sim, o garfo. Porque  que no 
pensei nisso?
      - O garfo resolve o problema - garantiu Joe ao filho. - Nenhum papo no seu juzo perfeito se mete com ela nessa altura, e tu no ters que a ajudar a enxot-lo.
      - Que  que dizes, Zachary? - perguntou Marilee. - Se eu o enxotar com o meu garfo, sentes-te seguro?
      - Sim, se o meu pai diz...
      - Confia em mim, Zachary, ela at me assusta a mim com aquele garfo. - Joe suspirou. - Ests bem, rebento?
      - Sim - respondeu a criana, numa voz hesitante. - S quero que venhas para casa.
      - Eu tambm, e hei-de ir. Estou com o meu fio mgico. Nada me pode fazer mal. Lembras-te?
      - No o tires, pai.
      - Pois no. - Joe ficou em silncio por um momento. - Hei, rebento, lembras-te de quando eu te mandava abraos pelo telefone? Agora, vou mandar-te um dos grandes. 
Ests pronto?
      O Zachary riu-se. - Estou pronto.
      Joe faz um prolongado som de gemido. No instante seguinte, Marilee afastou o telefone do ouvido porque o Zachary deixou cair a extenso. - Deitaste-me ao cho! 
- gritou a criana, com voz desmaiada.
      - Eu disse-te que te preparasses.
      O menino pegou outra vez no telefone, dando risadas como s uma criana sabe. - Foi mesmo grande, pai.
      - Os meus abraos para ti sero sempre dos grandes, independentemente da distncia a que estiver.
      Ao ouvir, Marilee sabia que aquilo era um jogo frequentemente jogado no passado por pai e filho. Quase lhe partiu o corao pensar que talvez Joe nunca mais 
voltasse, na realidade, a abraar o filho. No. No permitiria a si mesma pensar assim. A vida no era uma roleta gigantesca.
      - Que histria  que vais pedir esta noite? - perguntou Joe ao filho.
      - No sei.
      - Quando for dormir, esta noite, quero imaginar estar a ler para ti na minha cabea. Vai a correr ao teu quarto e procura nos teus livros. No voltes enquanto 
no tiveres escolhido uma.
      O telefone voltou a fazer rudos e Marilee ouviu o Zachary a correr pela casa. Sorriu. - Muito dissimulado, Senhor Lakota.
      - Sim, bem, h umas coisas que no quero que ele oua. Estou num sarilho dos diabos, minha Mari. No tenho a certeza se consigo resolver isto.
      - No fales desse modo. Assustas-me.
      - No quero assustar-te, mas temos que enfrentar os factos. Isto no tem bom ar. O Salisbury foi assassinado por volta das cinco horas em Laurel Bend. Encontraram 
o corpo no ribeiro e, do que consigo perceber, estava feio. Quem fez aquilo estava muito chateado e no parou de lhe bater at no restar muito onde bater.
      - Oh, meu Deus.
      - H l lama vermelha, Mari, e eu tenho lama vermelha de Holt Reservoir pelo carro todo. H trs semanas, fui  casa do Stan todo inflamado e a certa altura 
ameacei-o  frente da mulher. Junta-lhe a arma do crime e estou arrumado.
      - Algum plantou aquele cassetete no teu carro - gritou ela.
      - Sim, mas quem? Algum que sabe que eu ameacei o Stan. A quem  que isso nos leva? A Susan. Uma mulher no podia ter feito aquilo, Marilee. Pelo menos, uma 
mulher do tamanho da Susan.
      Marilee levantou-se da cama para se pr a andar para trs e para a frente, funcionando o fio do telefone como uma pequena trela. - Porque  que eles no fazem 
testes? Se o tivesses matado, havias de ter sangue nalgum stio. Quando chegaste a casa no estavas ensanguentado.
      - Podia ter-me lavado, mudado de roupa, ter-me desfeito das provas.
      - E ficar com o cassetete? Que sentido  que isso faz?
      - No faz, mas um assassino pode ficar perturbado e fazer uma coisa estpida. Quanto ao laboratrio de polcia criminal, estamos em Laurel Creek, no em Los 
Angeles. Aqui, nem sequer tm um mdico-legista a tempo inteiro.
      Marilee voltou a sentar-se no colcho. - Bem, tanto pior para eles. Falta de provas  uma grande defesa. Vou arranjar um advogado fantstico... um realmente 
bom, Joe. No te preocupes. Vou tirar-te da.
      - Querida, os advogados realmente bons custam uma fortuna. Quanta  que tens? Sessenta, talvez setenta mil? E eu tenho cinco mil. H as despesas mensais a 
considerar. Comigo aqui, ters que usar esse dinheiro para viver. Pode levar meses, talvez mais de um ano, at receberes outro cheque.
      Marilee no queria saber disso. - Eu c me arranjo. Posso tirar dinheiro dos cartes de crdito. Talvez pedir um emprstimo sobre a casa.
      - Jesus! No. No faas isso. Temos que ser racionais a este respeito. Nem um advogado fantstico consegue fazer milagres. Algum armou isto para mim e, do 
modo como as coisas correram at agora, podia pegar. Ningum da Bedford High reparou em mim na arquibancada, esta noite. No tenho libi. Podes perder todo o teu 
dinheiro.  provvel que eu no esteja l para repor o capital.
      - No digas isso!
      - Tenho que dizer. Que diabo! Mari, podias estar grvida. Achas que quero a minha mulher, o meu beb e o meu outro filho na misria enquanto eu dou com os 
ossos na priso?
      Grvida. Marilee ps uma mo na cintura. Essa ideia podia t-la aterrorizado, mas, em vez disso, rezava para que fosse verdade. Um beb. O beb de Joe. No 
livro dela, seria uma ddiva do cu. - No fico na misria. Tenho famlia para me ajudar, no te esqueas, e uma carreira bem-sucedida de escritora para finalmente 
restaurar o capital que gastar.
      - E o Zachary? Ainda temos o problema da custdia a pender-nos sobre a cabea. Perde a casa e a Valerie cai-nos logo em cima. - Silncio. Depois: - Oh, Cristo! 
No tinha pensado nisso. Se ela sabe disto, vem atrs do meu filho.
      Marilee fechou os olhos. - Vai-se arrepender. No penses nisso. O teu filho no ir a parte nenhuma.
      - Oh, Deus, Mari.
      Marilee nunca tinha sentido Joe to assustado. O corao apertou-se-lhe e ela agarrou-se muito ao telefone. S ele  que podia estar na cadeia, preocupado 
com ela, com o Zachary e com um beb que nem sequer tinha a certeza de ter sido concebido? - Ouve o que te digo - disse ela encarniadamente. - Eu protejo o Zachary 
com a minha vida. Se ela vier c meter o nariz, tentando lev-lo, usarei todos os meios legais ao meu dispor para a destroar e, se isso falhar, fujo com ele. Quanto 
a esta casa e ao dinheiro, que se trame. Sem ti, para que  que serve? Farei o que tiver que fazer e ficarei alegremente falida, ponto final.
      - Marilee, espero que sejas racional.
      - Olha, sou louca, no te esqueas. No tenho que ser racional. Amo-te. Acabou-se. Se for preciso, vivo dum saco de papel.
      - Oh, querida.
      - Eu trato disto. J telefonei  minha famlia. Estaro aqui a qualquer momento. Conto com eles para me ajudarem a tomar boas decises. Por favor, no te preocupes. 
Est bem? - Ouviu o Zachary a correr outra vez pela casa. - Logo que tenha as coisas a andar, farei tudo o que for possvel deste lado. Talvez possa ir ver-te amanh.
      - No. No te quero c.  um inferno.
      O outro telefone fez rudos no ouvido de Marilee e depois o Zachary gritou: - J escolhi a minha histria, pai!
      - Isso foi em tempo recorde. Qual  que escolheste?
      - Boa-noite, Lua.
      - Ests a brincar. Outra vez?
      
    Captulo Dezoito
      
    
      Famlia. A cozinha de Marilee estava a rebentar de gente. Os pais, a irm e o cunhado e a tia Luce e Charlie correram a dar apoio moral logo que souberam da 
deteno de Joe. Felizmente, Marilee conseguira adormecer o Zachary antes de eles chegarem e, apesar do alvoroo, o menino continuava a dormitar no sof da sala 
de estar.
      Gerry, que estava a sair do chuveiro quando Marilee telefonou, ainda tinha o cabelo molhado e estava sem maquilhagem quando l chegou. Os seus olhos azuis 
eram redondos como panquecas. - Pedi  minha vizinha que tomasse conta dos meninos, Marilee. Posso ficar enquanto precisares de mim. - Empurrou para trs uma madeixa 
encaracolada de cabelo loiro molhado quando olhou para o beb que tinha nos braos. - Tive que trazer este atleta comigo. Neste momenta, sou uma tasca ambulante 
e falante de fast food.
      Carregado com os pertences do beb, Ron entrou atrs da mulher, de constituio frgil. O olhar verde dele cruzou-se com o de Marilee por cima da cabea inclinada 
de Gerry. O seu rosto sardento parecia plido em comparao com o cabelo ruivo-acastanhado, e as feies estavam marcadas por um solene sobrolho carregado. - No 
te preocupes, querida, eu conheo um advogado bastante bom. Vamos tirar de l o Joe sob fiana e, amanh  tarde, isto estar tudo esclarecido.  uma loucura total. 
O Joe nunca mataria ningum.
      Marilee sentia-se estranhamente entorpecida. - Na realidade, Ron, no estou a pensar num advogado bastante bom. Isto  uma situao feia e o Joe vai precisar 
do melhor patrocnio que eu conseguir arranjar. - Conseguiu fazer um sorriso aos pais, que tinham entrado logo a seguir a Ron e Gerry. - Ol, me, ol, pai. Obrigado 
por terem vindo.
      Karl avanou para dar um abrao  filha mais nova. - Lamento muito, querida. Por tudo o que aconteceu. Esse diabo desse homem s te trouxe dores de cabea.
      Marilee libertou-se dos braos dele. - Isso no  verdade, pai. Por favor, reserve um pouco o seu julgamento e no diga mais nada. H coisas que preciso de 
lhe contar e, uma vez que o tenha feito, arrepender-se- de tudo o que disser.
      Marilee virou-se para abraar a me, que era a imagem perfeita de uma avozinha de sitcom da dcada de 1950 com o seu vestido pudico azul-marinho e gola branca, 
o cabelo prateado aos caracis perfeitamente penteados. - Oh, me.
      Emily deu umas palmadinhas no ombro de Marilee. - V, v, filha, vai correr tudo bem. Tem f.
      Marilee recuou, desejando ter mais disso do que tinha. F. Naquele momento, o que sentia, acima de tudo, era um medo terrvel.
      A tia Luce entrou nessa altura pela porta dentro, com Charlie a segui-la como um cozinho bem treinado. Trazia um berrante vestido carmesim que parecia um 
expositor de lenos de cabea ao vento. Semforos em miniatura pendiam-lhe das orelhas, o que fez Marilee sorrir e pensar no Zachary. Tinha chegado a senhora das 
luzes nas orelhas. Naquela noite, o efeito eram luzes vermelhas de paragem a piscar e, ou Marilee estava muito enganada, ou o atento Charlie estava permanentemente 
preso no trnsito.
      Lucy atravessou, vacilante, a cozinha, em cima dos seus stiletti pretos, em direco a Marilee. - Ah, querida!
      Quando a tia a abraou, Marilee foi envolvida por uma nuvem flutuante de nylon vermelho e Chanel. - Ol, tia Luce.
      - Minha pobre querida! - murmurou a tia Luce. - Recuperaste-o e agora voltaste a perd-lo. Bem, no te preocupes. Mal deres por isso, est em casa a armar 
confuso e a dizer que tem fome. Espera e vais ver.
      - Oh, espero que sim.
      - Eu sei. Os homens so como ndoas de gordura. Pensamos que nos vimos livres delas e elas aparecem outra vez.
      Marilee deu uma risada e limpou as faces. - Tia Luce, isto  horrvel.
      - No entanto, tenho-te a rir, no tenho? - Apertou as bochechas de Marilee. - Confia em mim: provavelmente, ele come de mais para que eles pensem em ficar 
l com ele. Um tipo daquele tamanho tem que ser bem alimentado.
      Ainda a sorrir com os disparates da tia, Marilee fez toda a gente sentar-se  mesa, serviu caf a todos e, depois, sentou-se atrs da me com uma caneca a 
fumegar entre as mos. - H uma coisa que preciso de contar a todos - anunciou ela.
      Mais tarde, Marilee nunca conseguiu recordar-se exactamente do que dissera  famlia. S sabia que fora o suficiente para que, quando caiu em silncio, todos 
os rostos a volta da mesa eram uma mascara de descrena e espanto.
      - Porque  que no nos contaste? - foi a primeira pergunta do pai. Marilee sentia os olhos secos e irritados quando cruzou o olhar com o dele. - Gostava de 
ter uma resposta pronta para lhe dar, pai, mas houve muita coisa que influenciou as decises que tomei nessa altura. Estava assustada e envergonhada, confusa e intimidada. 
Quando se est de fora, no se consegue perceber como uma mulher se sente numa situao daquelas e eu era muito jovem quando tudo aconteceu.  difcil encontrar 
palavras para explicar. Havia uma sensao de culpa que no consigo descrever. E um sentimento de que era muito estpida. E aterrorizada. Estava absolutamente aterrorizada. 
Havia tantas pessoas que ficavam magoadas se eu contasse. O Joe, especialmente, e talvez at o Ron e a Gerry, se o Ron tivesse ido com o Joe atrs daqueles tipos. 
- Marilee encolheu os ombros, com dificuldade de explicar. - Talvez fosse um daqueles casos em que s se tomam decises erradas pelo que pareciam ser boas razes. 
No sei. Magoei o Joe. Quase me destrui. Na altura, no via sada.  tudo o que posso dizer. Olhava para todos vocs... as pessoas que me amavam tanto... e pareciam 
estar todos a um milho de quilmetros, de distncia.
      Karl inclinou a cabea e olhou durante um longo momento para dentro da sua caneca de caf. Quando finalmente voltou a olhar para ela, a sua expresso era cheia 
de dor. - Sinto que eu e a tua me te falhmos.
      - Oh, pai. - Lgrimas encheram os olhos de Marilee. - Aprendi uma coisa na terapia: foi que a culpa e a auto-reprovao so infrutferas e destrutivas. Como 
se costuma dizer, " a vida". E  bem verdade. Eu fui uma vtima. Reagi  dor. Talvez estivesse em estado de choque. Sei que no estava a pensar direito. Podemos 
passar a noite a analisar isso. Posso culpar-me a mim. Vocs podem culpar-se a vocs mesmos. Para que  que isso serve? Eu fiz o que fiz, certo ou errado. Agora 
acabou e j no tem remdio. O que podemos fazer  seguir em frente e deitar isso para trs das costas.
      A tia Luce interveio, dizendo: - Acho que a Marilee tem razo. No podemos fazer mais nada. - Olhou para Karl. - Tu e a Em foram bons pais, Karl. Fizeste o 
melhor que sabias. Agarra-te a essa ideia e esquece o resto. Agora,  de longe mais importante para todos ns concentrarmo-nos no presente. Parece-me que o nosso 
Joseph est metido num sarilho e talvez tenhamos que ser ns a tir-lo dele.
      - Sim - disse Marilee numa voz tensa. - Um sarilho terrvel, tia Luce. Como disse, tinha medo que o Joe descobrisse o que acontecera e s h trs semanas  
que finalmente lhe contei. - Ela relacionou rapidamente os acontecimentos dessa noite. - A Susan estava presente quando o Joe ameaou o Stan, nessa noite, e foi 
a Susan que disse  polcia que o Joe podia ser o assassino do marido.
      - E o cassetete foi encontrado no carro do Joe? - perguntou Ron.
      - Sim, e, depois de o ver, tenho todas as razes para pensar que foi o objecto usado na agresso. Havia manchas de sangue e cabelo na sua superfcie.
      - Oh, Senhor - sussurrou Gerry. - Ento o Joe matou-o? Marilee ia protestar, mas a tia Luce poupou-lhe esse incmodo. - No sejas palerma, Gerry. Se o Joe 
fosse matar um deles, achas que usaria um cassetete? - Abanou a cabea. - No  o estilo dele. Numa ira cega, o Joe avanava de corpinho bem feito. Nunca pensaria 
em pegar numa arma.
      Voltou um pouco de cor s faces de Ron. - A tia Luce tem razo, querida. Eu conheo o Joe.  um tipo terra-a-terra. No estou a dizer que  um santo, ou que 
no podia ter-se deixado levar pela ira, mas nunca usaria um cacete.
      - Ento, como  que foi parar ao carro dele? - perguntou Gerry. A tia Luce levantou-se da cadeira. - Meu Deus, meu Deus, isto  um enredo fascinante. Realmente, 
como? Algum o deve ter posto no carro do Joe, obviamente para lanar suspeitas sobre ele. - Comeou a andar  volta da mesa, uma ruga de perplexidade a atravessar-lhe 
a testa. - Talvez a Susan?
      Marilee evitou um encolher de ombros. - O Joe diz que uma mulher no podia ter matado o Stan, que tinha que ter sido um homem. Os golpes levavam muita fora.
      Emily tirou o rosrio do bolso. - Santa Me - sussurrou.
      - A Lucille e eu somos leitores vidos de mistrio - disse Charlie. - Eu sou um s a resolver quebra-cabeas. - Pensou por um momenta. - A Susan  o denominador 
comum e o ponto de partida lgico.
      - Ponto de partida para qu? - perguntou Karl.
      - Resolver o crime - disse Charlie, com os olhos a brilhar.
      - Isso no  funo da polcia? - salientou Emily. - S pode dar mau resultado fazer justia pelas prprias mos.
      - Oh, Em - disse a tia Luce, resmungando. - Pra, esta bem? No estamos a fazer justia pelas nossas mos, estamos a tentar ajudar o Joseph. A polcia acha 
que j apanhou o assassino. Talvez nos compita a ns faz-los perceber que no.
      - Oh, meu... - Emily desfiava as contas por entre os dedos com o olhar preocupado fixo na irm gmea. - Isto  terrvel. O marido da Marilee na cadeia por 
homicdio. No posso acreditar que estejamos sentados  volta da mesa dela a falar de um assassnio como se fosse uma ocorrncia vulgar, do dia-a-dia.
      Era um pensamento sbrio. Marilee esfregou-lhe os braos.
      - Temos que tentar ajudar o Joe, me.
      Emily deu umas palmadinhas na mo da filha mais nova. - Eu sei, boneca. S estou horrorizada. Estamos em Laurel Creek. Nunca acontecem aqui coisas ms.
      Tinha acontecido agora uma coisa m, pensou Marilee com tristeza, e a menos que se desse um milagre, Joe podia ser responsabilizado por ela. Fez uma inspirao 
reparadora e olhou para a tia idosa. - A Susan foi a nica pessoa que assistiu  discusso entre o Stan e o Joe. Talvez o Charlie tenha razo. Seja quem for que 
tenha plantado o cacete no carro do Joe, devia saber que ele ameaara o Stan e a nica maneira que essa pessoa tinha de saber isso era se a Susan lhe tivesse contado.
      - O que nos diz exactamente o qu? - disse Gerry. - V l. Nesta cidade? A Susan podia ter dito a uma ou duas pessoas e, da a meio dia, toda a cidade saberia. 
Concedo que a informao veio da Susan, e algum a usou para desviar as suspeitas de si e as lanar para cima do Joe, mas quem? Gostava de salientar que o Stan era 
um patife e que, provavelmente, havia muita gente que quisesse mat-lo. Acho que ele enganou um quarto da populao em negcios desonestos de imobilirio e, antes, 
vendia carros usados.  preciso dizer mais alguma coisa?
      - Deus tenha a sua alma em descanso - murmurou Emily. Beijando o rosrio.
      - Me, por favor - censurou Gerry. - Se vai rezar um tero por alma do Stan Salisbury, no o faas na cozinha da Marilee.
      - O pobre homem est morto. Algum lhe devia rezar pela alma. Gerry rolou os olhos.
      - Sim, bem, mas no tu, me. A srio. O filho-da-me violou a minha irm! Se rezares por ele aqui  nossa frente, nunca te perdoarei.
      Emily deitou um olhar espantado para o marido. Karl tirou-lhe o rosrio das mos e meteu-o no bolso. - A Gerry tem razo, querida. Reza mais tarde por alma 
desse filho-da-me, se isso te d muito gozo.
      - Karl! - disse Emily, com uma voz horrorizada. - Tem vergonha nessa cara!
      Marilee fez um esforo para no se rir e percebeu vagamente que estava a aproximar-se da histeria. A famlia dela! Tomara que o Joe ali estivesse. Naquele 
momento, estaria a olhar para ela com uma sobrancelha levantada e os olhos castanhos a cintilarem. Oh, que saudades tinha dele!
      O pai de Marilee ignorou o ralhete da mulher e levantou uma mo. - A concluso a que se chega  que o Joe ameaou mesmo o Stan e tinha um motivo para querer 
que o homem morresse. No s a arma do crime foi encontrada no carro dele, mas tambm ele no tem libi para provar onde  que estava a hora do crime. - Olhou para 
Marilee. - Tens razo, querida. O teu marido precisa de um grande advogado e no de um pacvio qualquer de Laurel Creek.
      - Quem? No conheo nenhum advogado realmente bom - disse a tia Luce. - E contratar um vai custar muito dinheiro.
      - Tenho isso sob controlo - disse Marilee. Olhou para o pai. - Estava a pensar, pai. O Joe tem amigos bastante famosos. Um deles talvez possa recomendar um 
advogado.
      - Entrar em contacto com jogadores profissionais da bola pode ser um engano - disse Karl.
      - Mas no com o livro de endereos do Joe  tua disposio. J passei os olhos por ele, mas no sei o nome de nenhum dos jogadores. Para piorar as coisas, 
o Joe s anotava iniciais e alcunhas. - Olhou para Ron. - Esperava que tu conseguisses reconhecer alguns.
      - Porque  que no havemos de perguntar ao Joe quem contactar. Marilee suspirou. - Porque ele no quer que eu contrate um advogado pomposo. Diz que no tenho 
dinheiro para isso.
      - E tens?
      Marilee endireitou os ombros. - Sim. Vou vender a minha casa.
      Para sua surpresa, ningum objectou ao plano, nem sequer o pai. Karl s olhou para ela com tristeza. - A maior parte do nosso dinheiro est investida. Preciso 
de uns dias, mas posso vender algumas aces.
      - No, pai. Tu e a me precisam dos vossos investimentos para viverem deles. Deixe-me vender primeiro a casa. Se acabar esse dinheiro e o que tenho no banco, 
ento talvez lhe pea um emprstimo. Est bem?
      - Eu disse umas coisas horrveis ao Joe quando vocs regressaram de Reno. Emprestar-lhe algum dinheiro para um advogado seria uma boa maneira de me sentir 
menos culpado por isso.
      - Oh, pai. O Joe no queria que se sentisse culpado. Se fosse a culpar algum pelas coisas que lhe disse, culpava-me a mim e no culpa. Mas agradeo muito 
a oferta.
      Ron localizou o livro de endereos de Joe junto ao telefone e voltou para a mesa com ele. Durante os trinta minutos que se seguiram, a famlia tentou perceber 
as notas de Joe, que eram, na maioria dos casos, meras iniciais com nmeros de telefone  frente.
      Finalmente, Marilee viu um nome que reconheceu. - Mac. Lembro-me perfeitamente de o Joe falar nele. No sei em que posio joga, mas est nos Bullets.
      Ron ps um crculo  volta do numero de telefone. - Seja o Mac. Importas-te que lhe telefone?
      Marilee abanou a cabea. - Na realidade, preferia mesmo que fosses tu a falar com ele. Estou to perturbada que posso esquecer-me de metade do que ele disser.
      Dez minutos mais tarde, Marilee estava a falar ao telefone com um homem chamado John Swenson, que Mac afirmara ser um dos mais astutos advogados de defesa 
da Costa Oeste. Perto do fim da conversa, Marilee perguntou-lhe se lhe podia pagar j setenta e cinco por cento do adiantamento e o restante da a uns dias. O advogado 
concordou e disse a Marilee que chegaria a Laurel Creek ao fim da tarde do dia seguinte ou na outra manh, dependendo da disponibilidade de voos. At l, no devia 
falar com ningum, especialmente reprteres.
      - Reprteres? - repetiu ela, recordando-se da sua conversa com o agente Brandt. - Isto  uma cidade muito pequena, Senhor Swenson. Normalmente, no somos assolados 
pela Imprensa.
      - Acredite em mim: amanh de manh, estaro a aos molhos - garantiu-lhe o advogado. - Prepare-se. As nicas palavras que quero que diga so: "No comento." 
Isto que fique claro.
      - Sim, senhor.
      - Logo que a chegue, amanh, vou falar com o seu marido. No se preocupe, Senhora Lakota. Perdi s quatro processos em vinte anos. No estou inclinado para 
um quinto.
      Depois de desligar, Marilee virou-se para a famlia. Procurou o olhar do pai. - Pai, quanto tempo demorarias a arranjar-me vinte e cinco mil?
      - Vinte e cinco mil - disse Gerry, incrdula. - Ests a brincar, no?
      Marilee ps uma mo no estmago. Joe ia ficar furioso com ela por causa daquilo. -- Tenho que vender depressa a minha casa. Swenson quer cem mil a cabea.
      Depois de a famlia ir para casa, Marilee pegou no Zachary e levou-o para o quarto de Joe. Tontice. Mas sentia uma ligao a Joe, deitada na cama onde tinham 
feito amor. Aconchegou o filho dele a ela, beijou-lhe o cabelo e adormeceu a sussurrar preces ansiosas, o temor pelo marido a persegui-la nos seus sonhos emaranhados.
      Na manh seguinte, quando Marilee deixou o Boo sair para ir fazer as suas necessidades, o co desatou imediatamente numa algazarra e voltou a correr para a 
varanda, ansioso por que o deixassem entrar. O co passou por ela disparado quando abriu a porta envidraada. Confusa, saiu de roupo para ver o que se passava.
      -  a senhora de Joe Lakota? - gritou algum.
      Marilee sentiu os ps nus colados ao cho. Olhou horrorizada, sem querer acreditar, para as pessoas que se dirigiam para ela, algumas a subir a correr as escadas 
da frente da varanda, outras pelas de trs. Pessoas escondidas no ptio dela? Algum lhe empurrou um microfone para a cara. Ela estendeu um brao e gritou.
      - Acha que o seu marido matou Stan Salisbury? - gritou um homem.
      - Porque  que ele fez isso, Senhora Lakota? Salisbury e o seu marido eram inimigos?
      Marilee foi apanhada to desprevenida que a sua mente ficou vazia. No conseguia mexer-se, nem conseguia responder. Olhou de soslaio, numa tentativa ansiosa 
de ver alguma coisa para l dos microfones que tinha  frente da cara, o corao a galopar descontroladamente.
      - Vo-se embora! - O Zachary precipitou-se para a varanda e deu-lhe a mo. - Vo-se embora e deixem a minha me em paz!
      A voz do Zachary fez Marilee cair de novo em si. Olhou para baixo, pronta para envolver o menino com os braos e dar uma corrida louca para dentro de casa. 
Mas, nessa altura, um reprter aproximou-se de mais e o Zachary passou por ela para se plantar entre ela e o intruso.
      - V-se embora da nossa varanda! - gritou Zachary, com as mozinhas cerradas. - J! Ponha-se a andar. Est a assustar a minha me.
      - Zachary? s o Zachary Lakota? - gritou um reprter, empurrando um microfone para a cara da criana. - s o Joe Lakota, rapaz?
      Zachary afastou o microfone com uma palmada. - Saia da nossa varanda ou fao com que se arrependa!
      Marilee agarrou o Zachary pelos braos. Estava hirto e a tremer de indignao. O seu primeiro instinto foi pegar nele e fugir. Mas, no. Nesse momento, percebeu 
que o Zachary no estava s a enfrentar os seus prprios demnios, mas estava a defend-la deles. Joe tinha-lhe contado o terror que ele tinha dos reprteres. Ele 
estar ali agora, a gritar com eles, era uma enorme transformao e algo lhe dizia que o devia deixar fazer o que quisesse naquele momento, que era uma coisa que 
ele precisava de fazer e que ela arruinaria se interviesse.
      Portanto, em vez disso, Marilee ficou atrs dele, mais uma vez a desempenhar o papel de mulher indefesa enquanto um Lakota se batia por ela. O Zachary era, 
decididamente, o filho de Joe Lakota. As lgrimas quase a cegavam ao observ-lo. Sempre lhe fizera lembrar muito Joe, mas nunca como naquele momento. Parecia pronto 
a atirar-se queles reprteres com uma mo atrs das costas - um pequeno guerreiro Sioux de pijama do Barney.
      - O teu pai matou Stan Salisbury? - perguntou uma mulher.
      O Zachary dirigiu-lhe um olhar to indignado que ate a Marilee sentiu o choque. - Saiam do nosso ptio ou vou chamar a polcia. Fiquem no passeio! Se voltarem 
a assustar o Boo, vo arrepender-se.
      O Zachary virou-se e empurrou Marilee  sua frente para dentro da cozinha, aps o que bateu com a porta envidraada e se virou para a trancar. - Reprteres 
estpidos - murmurou. - No te assustes, Marilee. Eles No te fazem mal. Disse o meu pai.
      Marilee sentou-se numa cadeira, consciente, num ponto recndito da mente, que estavam a correr-lhe as lgrimas pela cara abaixo. O Zachary foi ter com ela. 
Esticou-se para lhe limpar a cara, com os dedos curtos e grossos, delicados mas desajeitados, que faziam lembrar a Marilee os do pai. - Est tudo bem. Eles s se 
escondem para poderem falar contigo. Eles no saltaram para fazer maldades, como numa festa ou qualquer coisa assim. Depois disto, no saias sem mim. Est bem? Eu 
fao-os ir embora.
      - Oh, Zachary. - Marilee tomou-o nos braos. - Graas a Deus, vieste salvar-me. No sabia o que havia de fazer! - Encostou-lhe a cara  blusa do pijama, com 
manchas prpuras a nadarem-lhe  frente dos olhos. Joe ficaria muito feliz quando lhe contasse aquilo. Muito feliz. O seu menino estava a sair da casca, a cerrar 
os dois punhos. - Foste to valente, Zachary. Exactamente como o teu pai. Ele ficaria muito orgulhoso de ti.
      Abraou-se-lhe ao pescoo. - No tenhas medo. Estava montes de vezes com o meu pai quando eles vinham. Sei o que fazer. Ficaremos bem at o pai vir para casa 
e, depois, ele com certeza que os enxota.
      Ficaremos bem at o pai vir para casa. Marilee devolveu-lhe o abrao ansioso, convencida de que ele tinha absoluta razo. Iam conseguir ultrapassar aquilo 
e, dentro em breve, estariam outra vez os trs juntos. Pura e simplesmente, no podia ser de outra maneira.
      Era a vez deles de serem felizes.
    Captulo Dezoito
      

      Marilee sentia-se como um macaco numa gaiola, rastejando para se esconder das pessoas que a espreitavam enquanto corria todas as cortinas e persianas de todas 
as janelas da casa. John Swenson, o grande advogado, no exagerara. A imprensa tinha vindo para Laurel Creek aos molhos, atrada pelas notcias palpitantes de que 
Joe Lakota tinha sido preso por homicdio.
      A primeira coisa que Marilee fez foi telefonar a Faye Lakota para a prevenir. A simples ideia de a velha senhora ser surpreendida pela imprensa e ter um ataque 
cardaco gelou-lhe o sangue.
      - Estou com tanto medo por ele - confessou Faye, trmula. - Como diabo  que aquele cassetete foi parar dentro do carro dele, Marilee? Algum est a tentar 
fazer parecer que o meu menino  culpado.
      - Eu sei. - Marilee queria ser capaz de pensar nalguma coisa tranquilizadora para dizer, mas ela prpria estava to assustada que era difcil virem-lhe pensamentos 
positivos. - Contratei um excelente advogado que um amigo do Joe recomendou. Vamos ganhar isto. Prometo-lhe. Entretanto, temos que manter a calma e fazer o que tem 
que ser feito.
      - Tens dinheiro para pagar a um grande advogado?
      - Talvez tenha que vender a casa. - Marilee olhou  sua volta para a cozinha destruda, consequncias da visita da polcia, na noite anterior. - Logo que desligar, 
vou chamar um agente imobilirio e marcar uma reunio para a pr a venda.
      - A casa? Oh, querida, no nos precipitemos. Tu no queres vender a casa. Onde diabo vais tu viver?
      Marilee suspirou. - Bem, na realidade, Faye, estava de algum modo  espera que nos convidasse para viver consigo. Os meus pais so o sal da Terra, mas a minha 
me  um bocadinho complicada e cheia de regras. No tenho a certeza se saberia lidar com uma criana de quatro anos e um co lamecha na sua casinha muito arrumada. 
E a minha irm Gerry tem oito filhos. No  preciso dizer mais nada.
      Faye riu-se. - Adorava que vocs se mudassem para c. Mas provavelmente no  necessrio venderes a tua casa. O Joseph sempre foi muito generoso quando fazia 
aqueles grandes contratos. Tenho algum dinheiro de parte.
      Marilee imaginou que Joe mandasse umas centenas de dlares  me de vez em quando. - Este advogado  mesmo caro, Faye, quase fora do meu alcance.
      - Talvez possa cobrir isso.
      Marilee sorriu. Provavelmente, Faye no podia conceber que um advogado quisesse cem mil dlares  cabea. -  muito simptico da sua parte. Mas pode precisar 
do dinheiro que ps de parte para a sua velhice.
      - Tu pareces o Joseph - protestou Faye. - Para o caso de no teres reparado, querida, j estou na minha velhice. No preciso daquele dinheiro todo que ele 
me mandou. Razo pela qual lhe disse ainda este Vero, quando estava a comprar a outra casa, que podia dispor do que precisasse ou quisesse. Ele recusou-se a tocar-lhe 
e, em vez disso, deu uma entrada mnima.
      Marilee j sabia que Joe pouco iria receber da casa que estava a tentar vender. S esperava que a dela se vendesse mais depressa e que lhe dessem montes de 
dinheiro pelo negcio. - Vou-lhe dizer o que vamos fazer - disse ela, desencorajando Faye ao dizer: - Se me vir em apertos, vou para o seu alpendre de mo estendida. 
Mas deixe-me tentar resolver isto sozinha, primeiro. Est bem?
      - Gente nova. - Faye solto um suspiro de grande pacincia. - Parece-me uma estupidez o Joe estar com pouco dinheiro se fica com o meu todo quando eu morrer, 
de qualquer modo.
      - O que s acontecer daqui a muitos, muitos anos, espero eu. Mal Marilee acabou a conversa com Faye, o telefone tocou outra vez. Quando pegou no auscultador, 
uma mulher disse: - Ol, Marilee.  a Valerie, a ex-mulher do Joe.
      O corpo de Marilee ficou instantaneamente gelado. Por um instante, no conseguia pensar no que dizer. Depois, recomps-se. - Ol, Valerie. - Olhou por cima 
do ombro, para verificar se o Zachary no estava na cozinha. - Se quer falar com o Joe, ele no est aqui de momento.
      - Eu sei onde o Joe est. As grandes notcias correm depressa.
      - Estou a ver. - Marilee virou-se para olhar para a torneira que ficava por cima do duplo lava-louas e que estava a pingar lentamente. Na realidade, precisava 
de arranjar aquilo, pensou, descuidadamente. - No quero ser desagradvel, Valerie, mas se no telefonou para falar com o Joe, a que devo esta honra?
      - Vou a buscar o Zachary. Chego amanh  tarde. Por favor, tenha a roupa dele na mala.
      O pulso de Marilee acelerou. Engoliu em seco, com dificuldade, e enrolou o fio retrctil do telefone nos dedos, fazendo presso nos ns doridos. - O Joe est 
temporariamente na priso por causa de um mal-entendido - conseguiu, finalmente, dizer. - Corrija-me se estiver errada, mas at deciso em contrrio dos tribunais, 
ele continua a ter a custdia do filho. No vai levar o Zachary para parte nenhuma.
      - O Joe est na cadeia por homicdio! - gritou Valerie. - No pode manter o meu filho afastado de mim.
      - Quer apostar? O Joe tem a custdia e, at isso ser alterado, o Zachary fica exactamente aqui.
      - Obterei uma ordem especial do tribunal. No deixo o meu mido com um assassino, e nenhum juiz no seu perfeito juzo esperar que eu o faa.
      Marilee sentia o corao como se o tivesse na boca. - Nenhum juiz no seu perfeito juzo presumir que o Joe  culpado at que se prove que . A lei  assim. 
Claro que pode requerer ao tribunal. Se quiser perder tempo e dinheiro, o problema  seu. Mas enquanto no vier  minha porta acompanhada por um representante do 
tribunal ou pelo xerife e no me apresentar documentos, o Zachary no vai a parte nenhuma.
      Marilee desligou-lhe o telefone na cara e depois ficou ali, a tremer. "Que mais podia correr mal?", perguntava a si mesma. Come cava a sentir-se como se se 
tivesse metido numa montanha-russa descontroladamente errtica. Joe. Precisava de o ver. S por uns minutos. Ele tinha-lhe pedido que no fosse visit-lo a cadeia 
e talvez ficasse zangado com ela se ignorasse os seus desejos. Mas tinha que correr esse risco.   
      
      Quando j tinha conseguido furar por entre os reprteres que estavam em frente da sua casa para chegar ao carro, Marilee j comeava a desejar ter ficado em 
casa. Tinha as mos hmidas de suor mesmo antes de recuar com o Taurus e de chegar  rua. Na sua opinio, aquela gente dos jornais era louca, saltando para a frente 
do carro, quase se encostando s janelas, tirando fotografias atravs do vidro.
      Em vez de ficar na cadeirinha de segurana, o Zachary sentou-se no banco de trs, virado para a frente, para apoiar os cotovelos nos descansos centrais, que 
estavam baixados, ao lado de Marilee - No pares! - gritou ele quando os reprteres correram para a rua  frente do carro. - Finge que vais atropel-los, que eles 
saem do caminho.
      Marilee imaginou um reprter esmagado, ensanguentado, deitado no cho, depois de ela o ter derrubado. Buzinou e baixou o vidro da janela uns centmetros para 
gritar: - Saiam do meio da rua!
      - Senhora Lako...
      Cortou abruptamente a pergunta do reprter voltando a subir o vidro.
      - S tens que andar - gritou o Zachary. - O meu pai faz sempre assim. Avana, Marilee. No tenhas medo. Eles saltam para fora do caminho.
      - Oh, meu Deus! - Marilee olhava para os homens que estavam encostados ao cap do carro. Buzinou uma ltima vez, a avisar, fechou os olhos e carregou no acelerador. 
- Oh, meu Deus!
      O Zachary deu uma risada.
      - Mexe-te! Assim  que , Marilee. Exactamente como o meu pai. Estava a imaginar miolos mexidos. Abriu um olho. Miraculosamente, os reprteres tinham saltado 
para ambos os lados e no tinha atropelado nenhum. Respirou de alvio. O Zachary riu-se outra vez e esticou-se pelo banco fora para apontar o dedo do meio a um jornalista 
que estava a tirar-lhe a fotografia atravs do pra-brisas.
      - Zachary! - gritou Marilee em tom escandalizado. - Onde, diabo, viste algum fazer isso?
      A criana recolheu o dedo, dirigiu-lhe um olhar de espanto e disse:
      -  o que o meu pai faz sempre.
      - Ah! - Marilee olhou para o espelho retrovisor, com medo de que pudessem estar a ser seguidos. Ficou aliviada ao ver que no vinha nenhum reprter a correr 
pela rua atrs deles. - Bem, tenho que falar com o teu pai a esse respeito. - Parou o carro no sinal de stop da esquina para ver se vinha algum carro antes de entrar 
no calmo cruzamento. - Isso  um gesto obsceno e um menino da tua idade no devia fazer essas coisas.
      -  melhor andares depressa - disse o Zachary, endireitando-se para olhar para trs. - Eles ho-de vir atrs de ns de carro.
      - Sim?
      Quando Marilee virou  esquerda, viu um carro a acelerar pela rua acima. Para sua consternao, o carro nem sequer abrandou na esquina. O condutor ignorou 
o sinal de stop e ps-se atrs do Taurus em apertada perseguio. - Porque  que eles esto a fazer isto?
      - Para tirarem mais fotografias. Conduz depressa, Marilee. Mete-te por todos os caminhos que aparecerem. E o que o meu pai faz sempre. Tens que os enganar.
      Marilee carregou mais no acelerador. - Zachary James, aperta o cinto.
      Uns minutos depois, Marilee entrou com o Taurus em marcha atrs no caminho de acesso  casa de algum e estacionou debaixo do telheiro deles.
      - Quem  que vive aqui? - perguntou o Zachary.
      - No fao ideia nenhuma.
      - As pessoas que vivem aqui vo ficar zangadas?
      - Espero que no.
      - Porque  que estamos debaixo do abrigo deles?
      Marilee deixou sair uma expirao trmula. - Para enganar os reprteres  moda das senhoras. O teu pai acelera e mete-se por qualquer caminho. Eu conduzo um 
pouco mais devagar e limito-me a servir-me do telheiro de algum. S aqui ficamos at todos os reprteres passarem e, depois, levo-te  casa da tua av por um caminho 
diferente.
      O carro passou na rua como um projctil nessa altura. O Zachary deu uma risada e voltou a espetar o dedo do meio. - s mesmo boa nisto, Marilee. Espera at 
eu ensinar este truque ao meu pai.
      A criana estava a divertir-se tanto que Marilee no pde deixar de sorrir. Era um truque bastante bom, por sinal. Tipos das grandes cidades no chegavam para 
uma rapariga de Laurel Creek. Quando passou outro carro, Marilee no resistiu. Mostrou-lhes o dedo, juntamente com o Zachary.
      Marilee teve que passar por tantas formalidades na cadeia municipal que estava pronta para abrir caminho  dentada atravs das grades das celas quando finalmente 
conseguiu ver Joe. Tal como nos filmes, sentaram-se em bancos frente a frente, num balco dividido a todo o comprimento por uma grossa chapa de vidro. Para falarem 
um com o outro, tinham que usar telefones pretos cheios de manchas. Foi horrvel.
      - Oh, Joe, pareces exausto - disse ela abruptamente.
      Era verdade. Trazia um fato-macaco cor de laranja engelhado com uma etiqueta cinzenta de lavandaria cosida no bolso esquerdo, por cima do peito. Tinha o cabelo 
despenteado, como se tivesse estado a pentear-se com os dedos, e tinha manchas negras debaixo dos olhos.
      - Mari, que diabo ests tu a fazer aqui? - perguntou ele, com uma voz que soava como granito a ser raspado num ralador de queijo.
      Queria tanto tocar-lhe. Espalmou a mo contra o vidro, inclinando-se para ele. - Ests aqui.
      - Oh, Mari, Mari... - Suspirou e tambm ps a mo no vidro, como que para tocar com a palma da sua mo na dela. Mas no se podiam tocar. Um grosso vidro e 
uma acusao de homicdio separavam-nos. - No te quero neste stio. Por favor, querida, vai para casa. Receio que te cruzes com algum patife, ou alguma coisa assim.
      - No cruzo. Laurel Creek no tem grandes patifes. Por aqui, s h criminosos baratos.
      - Laurel Creek tem, pelo menos, dois grandes patifes. Um est na morgue e o outro anda por a com sangue nas mos. No me fales de como isto  seguro e idlico.
      - Eu tenho cuidado, Joe.
      - Ficas em casa. - A mo dele apertou o auscultador. - A srio, Marilee. No quero que sejas tocada por isto.
      No queria que ela fosse tocada por isto? Sentia-se como se lhe tivessem arrancado as entranhas. V-lo assim, sabendo que podia nunca dali sair como um homem 
livre, oh, Deus, como  que podia deixar de ser tocada por aquilo?
      - Amo-te, Joe. O que te acontece a ti, acontece-me a mim.
      O msculo do maxilar dele comeou a palpitar. As pestanas baixaram sobre os olhos. - Se me amas, fica em casa, olha pelo meu filho e espera que isto passe.
      - Espero que passe o qu?
      - Esta confuso. A uma certa altura, isto resolve-se. J me arranjaram um defensor oficioso. Vou estar com ele depois do almoo. Isto resolve-se.
      Atravessou-a uma frieza terrvel quando procurou o olhar dele. Naquele momento, soube que Joe no acreditava que conseguisse vencer. - Joe, ouve-me. Eu sei 
que, neste momento, as coisas tm mau aspecto, com a arma do crime encontrada no teu carro e tudo isso, mas, a partir de agora, s podem melhorar. O pior j aconteceu. 
Certo? Agora, vamos provar a tua inocncia, mais nada.
      - Como, Mari? Eles j me julgaram e j me fritaram. No esto  procura do assassino. Eu sou o homem deles.
      Isto no tinha nada a ver com ele. Sempre fora um optimista, a faz-la sorrir, a dar-lhe esperana. Pela primeira vez, que se recordasse, parecia derrotado. 
Ela empurrou os dedos contra o vidro com mais forca.
      - Oh, Joe, no. Por favor, mantm o animo.
      - Vo transferir-me para a cadeia do condado de manh - disse ele, como se no a tivesse ouvido. -  onde pem os assassinos. O tribunal municipal no se ocupa 
de grandes casos de homicdio.
      - Ouve - disse ela com firmeza. - No sei o que te tem dito neste stio, mas os factos so estes: o Ron telefonou a noite passada ao teu amigo Mac, que recomendou 
um fantstico advogado de defesa, um tipo chamado John Swenson. Ele estar c esta tarde ou amanh de manh para falar contigo. Diz que s perdeu quatro causas em 
toda a sua carreira e que a tua no vai ser a quinta. Vai meter esta esquadra de polcia de meia tigela na ordem.
      - Contrataste o Swenson? - A cara dele contorceu-se de ira, dando a Marilee razes para agradecer que ele estivesse limitado pelo vidro. Tinha a sensao de 
que ele queria muito deitar-lhe as mos ao pescoo. - Que diabo, Mari! Eu disse ou no disse especificamente que esquecesses isso de contratar um advogado, que no 
tnhamos dinheiro para isso? Foste deliberadamente contra as minhas ordens!
      Mesmo com o vidro a separ-los, Marilee afastou-se ligeiramente quando disse: - As tuas ordens? Desculpa. Tu no s meu superior nem nada disso.
      A mo que ele tinha encostada ao vidro transformou-se num punho cerrado.
      
      
      
       -  claro que sou. Ests a ver essa aliana que tens no dedo? Quando nada funciona e  preciso fazer alguma coisa, tu s a red shirt1 e eu  que determino 
as jogadas.
      Ela pestanejou. J tinha visto Joe zangado algumas vezes, mas nunca to zangado.
       - Desculpa?! O casamento no  um jogo de futebol americano e, mesmo que fosse, eu no sou uma principiante para fazer o que tu mandas e andar s tuas ordens. 
Eu casei contigo. No fiz contigo um contrato de aprendizagem. Esta operao, como tu lhe chamas,  uma parceria.
      - S  uma parceria quando eu disser. - Recostou-se, fechou os olhos e expirou lentamente. Ela teve a sensao de que ou ele estava a contar at dez ou a pensar 
em maneiras de dar cabo do vidro para a estrangular. Quando voltou a olhar para ela, disse: - Eu disse-te que no contratasses um advogado. Sou teu marido. No te 
esqueas. Onde est, afinal, a tua educao catlica? Convenientemente em casa, na gaveta da cmoda? Em questes importantes, uma mulher obedece ao marido e deixa-o 
tomar as decises.
      - Esta mulher ama-te e defende-te contra tudo e contra todos. Est em causa a tua vida.
      - Mas  a minha vida.
      - No,  a nossa vida.
      - No vais gastar todas as tuas poupanas numa hiptese de um para um milho de me safar disto. Fui claro?
      - Como lama.
      - Marilee Sue - disse ele, com ar de advertncia.
      - Diz, Joseph Henry.
      Os olhos dele semicerraram-se. - Que  que isso significa?
      - Que neste momento no ests a pensar com o crebro que Deus te deu. Eu contratei o Swenson. Podes gritar  vontade mas ele  o teu advogado, ponto final, 
e, at sares daqui, no podes fazer nada a esse respeito.
      - O Swenson cobra uma fortuna.  como que o Lamborghini dos advogados de defesa. No tens dinheiro para ele, querida. Por favor, no faas isso. A nica coisa 
boa nesta confuso toda  que sei que tu e o Zachary esto bem e que no vais ter problemas financeiros. 
      - J arranjei o adiantamento para ele.
      - Como?
      - O meu pai empresta-me vinte e cinco para juntar aos nossos setenta e cinco.
      Olhou para ela como se estivesse para lhe rebentar um vaso sanguneo. As veias das fontes saltaram c para fora. Os olhos comearam a faiscar. - Mil?
      - Joe, por favor, no te preocupes.
      - Que  que vais comer? Dentes-de-leao apanhados no terrao? Vais telefonar imediatamente ao Swenson a dizer que mudaste de ideias.
      - No vou, no. Ele  a tua nica hiptese.
      - Se fazes uma segunda hipoteca sobre a tua casa, ponho-te em cima dos joelhos e bato-te.
      Marilee foi arranjar foras l ao fundo de si mesma e sorriu com doura. - Prometes? Isso parece-me que pode ser divertido. Primeiro, claro, tens que sair 
daqui. - Suspirou com desapontamento fingido. - Provavelmente, nessa altura j no te apetece.
      Ps-se-lhe um olhar espantado na cara. Depois, os cantos da boca contorceram-se. No instante seguinte, comeou a rir-se. Quando lhe passou a alegria, inclinou 
a cabea e inclinou-se para o vidro, olhando-a nos olhos. - Querida, estou sensibilizado. A srio. Por quereres fazer uma segunda hipoteca sobre a tua casa por mim. 
Uau. Sei o que aquela casa significa para ti.
      - Joe, serei a mulher mais feliz do mundo quando sares daqui e tu admitiste que podias sair, com a ajuda do Swenson.
      
            1 Red shirt  uma expresso usada no meio desportivo acadmico norte-americano para designar um estudante-atleta que opta por fazer o seu curso universitrio, 
normalmente de quatro anos, em cinco anos, o que lhe permite treinar e jogar durante cinco anos na equipa da sua escola, embora possa no jogar no quinto ano. Pode 
ser o treinador a decidir tomar um estudante-atleta red shirt. (N. do T.)
      
      - s vezes, consegues ser a pessoa mais teimosa, mais cabea-de-burro, mais difcil que h! No podes pr toda a tua vida em risco num jogo. O Swenson  bom. 
Concedo-te isso. Mas, Mari, as provas amontoam-se contra mim. No vs isso?
      Sim, ela via isso mas nunca o admitiria. Pelo menos, perante ele. Ele precisava que ela fosse forte, nesta altura. - No acho que as provas sejam to avassaladoras 
como isso, na realidade. No tm nada conclusivo. Colheram amostras de ADN, ou esta esquadra insignificante nem sequer sabe o que  ADN?
      - Fizeram raspagens debaixo das minhas unhas e levaram todas as minhas roupas, incluindo os sapatos e a roupa interior. - Suspirou e passou uma mo pelos olhos. 
- Tambm me observaram a pele com uma espcie de luz. No sei que diabo era aquilo. Acho que sob aquela luz aparecem vestgios de sangue.
      - Oh, Joe, isso  maravilhoso. No vs? Verificaro que ests completamente limpo.
      Levantou o olhar ao encontro do dela e, naquele momento, Marilee sentiu-se como se ele tivesse fechado um daqueles punhos grandes e brutais em torno do seu 
corao. - Acreditas mesmo que no fiz aquilo - sussurrou ele.
      - Oh, Joe, eu sei que no fizeste.
      - Vi o olhar no teu rosto. Quando foram l a casa. - Engoliu em seco e desviou o olhar por um momento. Quando voltou a olhar, o seu rosto estava to tenso 
como uma pele de tambor. - Pensaste que eu o tinha matado. Mesmo antes de eles encontrarem o cacete, pensaste que eu o fizera.
      Marilee ficou para morrer. Aquele curto perodo de dvida. Oh, Deus, como desejava voltar atrs e voltar a viver aqueles sessenta minutos de insanidade. Tinha-o 
magoado. At quele momento, ele nem sequer tinha deixado perceber isso. Mas agora via a verdade escrita na cara dele. - Sim, pensei que o fizeras - confessou ela, 
baixinho. - Durante cerca de uma hora, pensei que o tinhas feito.
      - O que  que te fez mudar de ideias?
      - Tu. - Lgrimas encheram-lhe os olhos e ansiava por atravessar o vidro para o abraar. - Tu, Joe. Conhecer-te como te conheo. Sem dvida, durante alguns 
minutos, apoderou-se de mim um completo terror. Sempre tivera medo do que farias se te contasse, de que naqueles primeiros minutos no fosse capaz de argumentar 
contigo e de te impedir de fazer alguma coisa estpida. Quando os polcias chegaram, a primeira coisa que pensei foi: "Oh, Deus, isto  culpa minha!" Realizara-se 
o meu pior receio. Uma reaco de pnico. Lamento. Logo que a minha cabea ficou suficientemente limpa para pensar, arrependi-me.
      - Talvez no me tivesses impedido de fazer alguma coisa estpida, afinal. Talvez, depois, eu tivesse ido mat-lo nas tuas costas.
      - Tu tens defeitos, e esse teu temperamento  o principal. - Abanou a cabea e riu-se por entre as lgrimas. - Cometes erros. Mas sabes que mais? Todos o fazemos. 
Em suma, no s perfeito. Mas sabes que mais? Uma coisa que nunca fizeste foi quebrar a palavra que me deste. Nunca. E eu sei que no foi agora que comeaste a faz-lo. 
Juraste-me que no tocarias no Stan e, uma vez passado aquele primeiro acesso de ira, sei que no o fizeste.
      Ele fechou os olhos. Um msculo da face teve uma convulso, fazendo contorcer-se o canto da boca. Ela viu os msculos da garganta voltarem a ter convulses 
quando ele tentava engolir. Quando levantou as pestanas, sussurrou: - Estava em pulgas para o matar, naquela noite, Mari. Sabes disso. Tinha um motivo.
      - Sim.
      - Talvez o Stan me tivesse telefonado e me tivesse pedido para se encontrar comigo. Talvez esperasse convencer-me a desistir de o fazer sair da cidade e eu 
tivesse ido encontrar-me com ele a Laurel Bend. Ele disse qualquer coisa, eu fiquei a ferver, perdi a calma. - Voltou a engolir em seco. - A nica coisa que sei 
 que, depois, estava morto.
      - Pois, pois. E, claro, pegaste no teu cassetete quando saste do carro para ir falar com ele. Isso  muito teu. No te esqueceste de arranjar um cacete porque, 
na realidade, s um cobarde.
      Os olhos dele semicerraram-se.
      Marilee abanou a cabea. - No voltas a abalar a f que tenho em ti, Joe. Deus me perdoe por ter duvidado de ti mesmo uma nica vez! Se tivesses ido encontrar-te 
com o Stan, e se tivesses perdido a calma, ter-lhe-ias batido com os punhos e no com um cacete. Mesmo assim, terias parado antes de o matar. Podias t-lo magoado, 
muito, mesmo, mas uma vez que ele casse, terias parado. Tu no s um assassino. Nem sequer num acesso de raiva. s um bom homem com bom corao e, acima de tudo 
o mais, s um homem leal. Nunca continuarias a bater numa pessoa quando ela j no pudesse defender-se.
      - Ests convencida disso?
      - Est gravado no meu corao. A pouco e pouco, ao longo de toda a minha vida, tens vindo a gravar l isso. Convencida, Joe? No. Para mim,  um facto indiscutvel. 
Acho que o odiavas o suficiente para lhe fazeres mal, se me dissesses, agora, que tinhas perdido a calma, lhe tinhas batido com toda a fora e, acidentalmente, o 
tinhas matado com um ou dois golpes, ento, sem dvida, acreditaria em ti. s um homem grande, um homem forte, e isso podia ter acontecido. Mas um cacete? A morte 
do Stan no foi um acidente, acontecido num acesso de ira. Seja quem for que o fez, bateu-lhe repetidas vezes. Isso no tem a tua marca e nada neste mundo de Deus 
alguma vez me convencer do contrrio, nem mesmo tu.
      Apontou para o que estava  volta deles. - Eles acreditam nisso. Foi o cenrio com que vieram. A Susan contou tudo. Sabem do incidente de h dez anos e que 
eu estava a obrigar o Stan a ir-se embora daqui. At tu duvidaste de mim, Mari. Conheces-me desde sempre e, por momentos, at tu pensaste que eu o tinha feito. Que 
 que vai fazer estes tipos mudar de ideias? A minha cara de pessoa honesta? - Assentou outra vez a mo no vidro. - Isso no vai acontecer. No ests a ver? Eles 
esto convencidos de que me encontrei com ele l em baixo, entramos no assunto e eu matei-o. Nem sequer andam  procura do verdadeiro assassino, por amor de Deus. 
Que  que pensas que vai acontecer para me salvar, um milagre? Ou o Swenson, talvez? No deites fora todo o dinheiro que tens nem corras o risco de perder a tua 
casa a longo prazo.
      -  disso que se trata? - Furiosa, esqueceu-se de que estava ligada ao balco pelo fio do telefone e ps-se em p de um salto. Quando o fio j no podia esticar 
mais, desequilibrou-se. Joe semiergueu-se do banco como que para a impedir de cair. Quando ela recuperou o equilbrio, olharam um para o outro. - Faz-me comear 
a pr em causa a tua inocncia e talvez ento eu veja a razo e desista de contratar o Swenson.
      - Um de ns tem que ser razovel.
      - Eu, no. Nunca sou razovel.  a minha marca.
      - Marilee, acalma-te. Ests a perder a calma, querida.
      - Tens toda a razo, estou a perder a calma! Quase me partiste o corao com essa fita, fazendo-me sentir um verme por duvidar de ti! E para qu? Para salvar 
aquela estpida casa?
      - Aquela casa pe um tecto por cima da tua cabea.
      - Que se trame a casa. Vou vend-la. Esquece a segunda hipoteca. No consigo arranjar tanto dinheiro  cabea dessa maneira.
      - No ouses vender a casa!
      - A deciso j foi tomada. A casa  minha. Se me apetecer, incendeio-a.
      - Ouve, tu...
      - No, tu  que vais ouvir. Vamos opor-nos a esta priso. Mesmo que seja preciso tudo o que tenho at ao ltimo cntimo e, depois, eu tiver que comear a pedir 
dinheiro emprestado a todos os parentes, vamos opor-nos a isto e vamos ganhar. Pra de fazer beicinho e de sentir pena de ti mesmo, Joe Lakota. Nunca foste pessoa 
de desistir facilmente e eu no te vou deixar s-lo agora.
      Ele poisou o telefone, os olhos a reluzirem para ela atravs do vidro. Quando ele lhe virou as costas, ela teve a certeza de que o seu corao estava a partir-se. 
Encaminhou-se para a porta com ar arrogante e ergueu o punho para bater e chamar o guarda. Imediatamente antes de os ns dos dedos tocarem no metal reforado, olhou 
para trs. Depois, deu umas voltas e encaminhou-se de novo para o balco com passos largos e ar zangado. Pegou no telefone, os dentes a cintilarem quando encolheu 
os lbios num trejeito.
      - No sou pessoa de desistir! - disparou. - E no estou a fazer beicinho nem a sentir pena de mim mesmo! Estou a tentar fazer o que  melhor para ti porque 
te amo, que diabo!
      - Eu tambm te amo - disse ela, com voz trmula. - E o melhor para mim  ter os teus braos  minha volta  noite. Isso  que  o melhor para mim. Podemos 
viver na tenda, Joe. Tenho a certeza de que o Ron no-la empresta a longo prazo.
      Ele apoiou um brao no balco e inclinou a cabea. Aps um longo momento, suspirou e disse: - Est bem, ganhaste. - Brilharam-lhe lgrimas nos olhos quando 
procurou o olhar dela: - Se no consigo convencer-te a desistir dessa loucura, no me resta outra alternativa que no seja lutar com todas as minhas foras para 
sair daqui, de modo que no desperdices o teu dinheiro.
      O corao de Marilee ganhou nova vida.
      - Isso  que  falar. Vamos a isso, Joe. Eu sei. Dentro em breve estars em casa.
      - Espero que tenhas razo. - Sorriu ao de leve e dirigiu-lhe um olhar ardente. - No posso esperar para te pr as mos em cima.
      - Oh, Joe, eu tambm no.
      
      
    Captulo Vinte
    
      
      John Swenson era um homem magro, com solenes olhos azuis, cabelo castanho a ficar grisalho e feies vulgares. Apareceu  porta de Marilee com calas de ganga 
desbotadas e um velho casaco desportivo de tweed castanho por cima de um plo amarelo, de malha, tudo completado com uns sapatos de tnis brancos manchados de marca 
indeterminada. O corao de Marilee caiu-lhe aos ps. Este  que era o grande advogado? Fora a este que concordara pagar cem mil  cabea? Oh, Deus. O Joe ir mat-la.
      - A situao no parece boa - disse-lhe Swenson uns minutos depois, enquanto tomava um caf. Suspirou e olhou  sua volta para a sala de estar, com os olhos 
semicerrados enquanto via fotografias desmontadas, bugigangas de pernas para o ar e outros sinais de caos. - Que diabo aconteceu  sua casa.
      - A polcia. Fizeram uma busca ao local ontem  noite.
      - Mandato?
      Marilee olhou para ele. - Bem, acho que sim.
      - No perguntou?
      - No.
      Tirou do bolso um pequeno bloco de notas e p-lo ao lado do caf para tomar um apontamento.
      -  importante, um mandato?
      - Podia ser - disse ele, ausente. - Acharam alguma coisa?
      - A arma do crime, no carro do Joe.
      - Ah, sim. - Acenou com a cabea e sorriu. - Mais alguma coisa?
      - Eu... acho que no. A menos que o prmio dos cerais do Zachary conte.
      Riu-se baixinho. - Chegaram a esse ponto? Ah, bem, provavelmente no esto habituados a uma excitao destas. - Meteu o bloco no bolso, tomou outro rpido 
gole de caf e, depois, apoiou os cotovelos nos joelhos e friccionou as palmas das mos. - A notcia sensacional  a seguinte: o seu marido no tem testemunhas que 
provem que estava em Bedford, ontem. A mulher da vtima ouviu-o ameaar de morte o marido. Ainda por cima, tinha motivo... ving-la... e a arma do crime foi encontrada 
no carro dele. No  bom.
      A Marilee, apetecia-lhe chorar. - Vai conseguir ajud-lo?
      Swenson sorriu. - Gostava de o ter em casa esta noite?
      - Oh, adorava... - Interrompeu-se. - Est a brincar, no est?
      - No. Enquanto falamos, estou a trabalhar para o tirar de l sob fiana.
      - Eles deixam sair assassinos sob fiana?
      - Suspeitos de homicdio - corrigiu ele. - E, em resposta  sua pergunta, depende de at que ponto forem conclusivas as provas que existem. Se o juiz se sentir 
seguro de que o indivduo  um perigo para a sociedade, no h fiana. Se no estiver convencido, h uma possibilidade de fixar uma fiana. A minha funo  assegurar 
que o faa.
      Marilee estava a gostar a srio de John Swenson. Podia no ter grande aspecto, mas ela tinha a sensao de que isso s tornava a sua personalidade dinmica 
mais poderosa, porque apanhava as pessoas de surpresa. - Consegue fazer isso?
      - Para que  que pensa que me est a pagar, Senhora Lakota? Pelos meus bonitos olhos?
      - Mas h uma quantidade de provas danadas, no h?
      - Eu no diria uma quantidade. - Tomou um ltimo gole de caf e levantou-se. - Onde est o sangue? Mate um homem daquela maneira e fica coberta de sangue. 
O seu marido veio a casa tomar banho? No. Tomou banho na escola? No. Ento, onde  que tomou banho? Tem uma cara muito conhecida. Foi identificado num motel local 
onde tivesse tornado banho? No. Ento, como podem eles explicar que no tenham encontrado vestgios de sangue nele, nem sequer no cabelo?
      Onde esto as roupas que trazia quando cometeu o crime? No podia estar com as que trouxe para casa quando cometeu o crime, porque estavam limpas. Foram feitos 
testes para provar que a lama do carro dele veio de... qualquer-coisa Bend?
      - Laurel Bend.
      - Ah, sim, Laurel Bend. O rasto dos pneus do Honda do seu marido coincide com os rastos de pneus encontrados no local do crime? Havia vestgios de sangue em 
cima ou dentro do carro dele? As impresses digitais dele esto na arma do crime? Seno, onde esto as luvas que usou, que tambm estariam cobertas de sangue? - 
Encolheu os ombros. -  preciso continuar? Penso que pode ter esperana de que o seu marido venha para casa esta noite. Se no for esta noite, amanh.
      - Oh, Senhor Swenson, obrigada!
      - No me agradea.  fiana, no  absolvio. O seu marido est num grande sarilho. O reverso da medalha  que j vi homens serem condenados com menos provas 
do que isto.
      Marilee acompanhou-o at  porta da frente. Depois de sair para o alpendre, Swenson olhou pensativamente para os reprteres que estavam para l do ptio e 
cercavam o seu carro alugado cinzento. - Maldita Imprensa. Graas a eles, s por sorte  que arranjei quarto nesta santa terrinha.
      - Tenho muito gosto em que fique c em casa. Fiz bifes com salada e gostaria muito que nos acompanhasse.
      Virou o olhar para ela e sorriu. - Agradeo a oferta, mas nunca confraternizo com os meus clientes. Corre-se o risco de nos tornarmos amigos deles.
      - Isso  um inconveniente?
      - , quando lhes entrego a conta.
      Marilee deu uma gargalhada de espanto. - Oh, Deus.  assim to mau? Diga-me uma coisa, Senhor Swenson, depois de pagar a conta, terei o meu marido em casa? 
D-me a sua melhor opinio. No lhe peo mais nada. H alguma possibilidade de tirar de l o Joe?
      - Do que preciso  de outro suspeito. Acredito que o seu marido esteja inocente, Senhora Lakota. Mas provar isso pode ser difcil. - Coou a cabea e semicerrou 
os olhos para se concentrar. - Tem que haver mais algum... um ou mais indivduos que tivessem razes para querer Salisbury morto. Algum que o odiasse o suficiente 
para lhe desfazer a cabea. Temos que descobrir quem podem ser essas pessoas. No preciso de juntar muitas provas para os condenar. S tenho que lanar suspeitas 
sobre eles. Doutro modo, Joe ser a nica atraco deste circo e as atenes continuaro centradas nele. Entende o que estou a dizer?
      Marilee disse que sim com a cabea.
      - Consegue lembrar-se de algum para alm do Joe, que pudesse querer o Salisbury morto?
      - Eu.
      Ele riu-se. - Alm de si. O Salisbury media dois metros e pesava cerca de cento e vinte quilos. No creio que pudesse t-lo matado, sobretudo com um cacete 
curto. Com um comprido, talvez.
      Marilee no conseguia lembrar-se de ningum. Mordeu o lbio inferior. - Sei de algum que talvez pudesse dar-me boas indicaes se conseguir que ela fale comigo. 
Algum que provavelmente conhecia a maioria dos amigos e conhecidos de negcios do Stan.
      - Quem?
      - A mulher dele.
      - Conhece-a?
      - Sim. No somos aquilo a que se pode chamar amigas, mas conheo-a.
      - Acha que consegue convenc-la a abrir-se consigo? Marilee no falava com Susan havia dez anos.
      - Posso tentar. Swenson franziu o sobrolho.
      - S preciso dos nomes das pessoas que podiam ter uma razo muito boa para estar chateadas com ele. Posso partir da, fazer algumas investigaes. - Acenou 
com a cabea. - Experimente. Veja o que consegue sacar-lhe. Claro que mal no lhe faz. Se chegar a um beco sem sada, eu prprio posso dar-lhe um abano para ver 
o que sai dali.
      Depois de telefonar para saber se Faye no se importava de ficar com o Zachary de noite, Marilee telefonou a Susan Salisbury.
      - Porque  que havia de concordar em encontrar-me contigo num stio qualquer? - perguntou Susan, com ar azedo. - Tu s indirectamente responsvel pela morte 
do Stan. Porqu, Marilee? Guardaste silncio acerca daquilo durante dez anos. Porqu essa sbita necessidade de abrir a alma ao Joe? Espero que te tenha feito sentir 
melhor, mulher, porque, agora, os meus filhos no tm pai! Pior ainda, nem sequer podem record-lo com orgulho. Um violador? J viste os jornais?
      - No. - Marilee fez tudo para manter a calma. - Nunca desejaria a morte do Stan, Susan, e  claro que teria preferido que ningum soubesse da violao. Lamento 
muito que isto tenha acontecido. Sei que deve ser duro para as crianas.
      - Sim, aposto que tens o corao a sangrar. Achas que eu te armei a cilada para eles te violarem, naquela noite.
      O estmago de Marilee deu uma volta. - Armaste?
      - Que gnero de pessoa pensas tu que eu sou? Eles queriam assustar-te, fazer-te passar um mau bocado. Que gnero de mulher  que arma uma cilada a outra para 
ser magoada daquela maneira?
      - S uma mulher realmente m.
      Silncio. - Fiz algumas asneiras na minha vida - disse, finalmente, Susan - mas nunca uma coisa to baixa. Meu Deus! Eu prpria tive vontade de matar o Stan 
quando descobri. Aquele filho-da-me miservel! Dormiu comigo nessa mesma noite. Podes acreditar? Violou-te e depois pediu-me em casamento e tirou-me a virgindade. 
Como  que achas que isso me faz sentir-me? Pensei que era muito romntico... algo muito especial. Diabos o levem. Posso perdoar todas as outras mulheres com quem 
ele andou depois de nos casarmos, mas nunca lhe perdoarei isso. Fazer uma coisa to vil como essa e depois vir para mim com ar de quem est muito apaixonado e se 
preocupa muito comigo? - Interrompeu-se e soluou. - O filho-da-me sem corao. Nunca gostou de ningum a no ser dele mesmo. Mas isso no significa que os midos 
tenham que pagar! Eu, talvez, por ser to estpida. E o Stan, claro. Mas os meus filhos, no.
      Marilee tapou os olhos com uma mo, sentindo-se mal at ao tutano. Por alguma razo, nunca tinha parado para pensar no lado de Susan nisto, nem em como ela 
devia sentir-se. Que descoberta horrvel saber que se entregou o corao e o corpo a um tipo que tinha acabado de violar outra rapariga. Marilee odiaria ser tocada 
por um homem que tivesse estado recentemente com outra mulher, ponto final, mesmo que fosse com o consentimento da parceira. O acto sexual era to... ntimo. To 
invasivo. Se o Joe alguma vez a procurasse vindo directamente dos braos de outra mulher, sentir-se-ia conspurcada at pelos beijos dele.
      - Oh, Susan, lamento... muito. - Precisava de informaes daquela mulher, mas a que preo? Sabia que se Joe participasse naquela conversa no teria coragem 
para fazer sofrer Susan mais do que j estava a sofrer. - Eu... Isto foi uma m ideia. No devia ter-te telefonado. O Joe no quereria isto. O teu marido est morto 
e no consigo pensar em mais nada que no seja salvar o meu. Desculpa. No sei em que  que estava a pensar. Nunca pensei nos teus filhos. Tenho a certeza de que 
agora no podes afastar-te. Precisas de estar com eles.
      - Eles esto com a minha me, no Norte. Ela e o meu pai vieram c e levaram-nos esta manh - disse Susan, falando intermitentemente. - Estou aqui completamente 
sozinha. - Fez um som baixo de queixume. - Ainda no quer que eu saia da c-cidade. Para o caso de precisar de me fazer mais perguntas. Portanto, estou a-aqui completamente 
sozinha! Onde esto todos os meus a-amigos? As nicas pessoas que telefonaram foram os curiosos. No se i-importam comigo.
      - Oh, Susan... - Marilee ps uma mo no cabelo. - Queres que eu a v?
      - Tu? - gritou ela. - Oh, isso seria excelente. A mulher do a-as-sassinado a confortava a viva enlutada?
      - Bem, pelo menos sabes que no vou  pesca de bisbilhotices. Conheo as coisas por dentro.
      Entre soluos, Susan riu-se um pouco histericamente. - Os reprteres iam adorar, no? So como abutres, l fora. Fui buscar o jornal ao alpendre e tiraram-me 
uma fotografia ao rabo quando me dobrei para o apanhar.
      - Eu tenho uma melhor. Fui  varanda de roupo e no tinha o cinto apertado. Tiraram-me fotografias com a minha T-shirt do Snoopy e cuecas.
      - Oh, Deus - Susan riu-se e, depois, comeou a soluar a srio. Marilee ouviu a outra mulher a chorar como se se lhe estivesse a partir o corao. Finalmente, 
disse. - Que  que fazemos? Tu detestas-me e eu no gosto particularmente de ti.
      - No sei. Acho que vamos as duas pela borda fora.
      Susan fungou. - Porque  que querias encontrar-te comigo num stio qualquer?
      - Para obter informaes. Para tentar salvar o meu marido. O Joe no matou o Stan, Susan. No estou a dizer que no fosse suficientemente louco para o fazer, 
mas o Joe no  o tipo de pessoa que usasse um cacete. T-lo-ia feito com as mos.
      - Gostarias de acreditar nisso.
      - Eu sei isso.
      - V l, Marilee. Quem mais lhe poria os miolos  mostra? No me venhas com essa. Indica outra pessoa.
      - Era por isso que queria conversar contigo, porque acredito, se quiseres, com muita convico, que sers capaz de me dar o nome dessa pessoa.
      - No. O Stan no prestava mas ningum queria mat-lo. Excepto eu, de vez em quando.
      - Tem que haver algum, Susan. Algum que realmente detestasse o Stan. Algum que pudesse estar suficientemente zangado com ele por qualquer motivo para o 
matar. Estou a dizer-te... e juro-te pela minha vida... que no foi o Joe.
      - Presumo que te tenha olhado nos olhos e dito que no. - Riu-se amargamente e voltou a fungar. - Deus. No somos patticas, ns, as mulheres? Eles mentem 
e ns acreditamos naqueles idiotas. Quando  que nos tornaremos mais espertas?
      - Acho que no posso criticar-te por pensares assim.
      - Experincia, Marilee. Arranja muita e tornar-te-s cnica. - Deu um suspiro de quem est deprimido. - Tenho aqui algum usque. Queres vir c embebedar-te 
comigo? Tenho todo o gosto em te dar todas as informaes.  um beco sem sada e provavelmente devia dizer-te que te fosses lixar, mas a verdade  que preferia embebedar-me 
com o meu pior inimigo a estar sozinha nesta altura.
      - Na tua casa? E os reprteres?
      - Eu dou a bebida. Os reprteres so problema teu.
      Marilee no estava preparada para o espectculo que a esperava quando finalmente conseguiu abrir caminho entre os jornalistas, em frente da casa de Susan, 
e bateu  porta da frente. A outra mulher estava com um aspecto terrvel, os olhos inchados de chorar, o cabelo castanho a cair-lhe s farripas em cima dos ombros 
frgeis. Pior ainda, ao longo de uma das mas do rosto, tinha uma ndoa negra.
      - Meu Deus, Susan! - Marilee entrou e fechou a porta, aliviada por fugir s perguntas que os da Imprensa faziam aos gritos. - Pareces pior do que eu me sinto. 
Que aconteceu  tua cara?
      - O Stan e eu tivemos uma grande discusso h uns dias. - Os olhos verdes de Susan encheram-se de lgrimas e ela encolheu os ombros. - A est uma coisa que 
posso agradecer ao Joe. O meu homem nunca mais andar por a a bater-me.
      Virou-se para ir  frente, atravs de uma sala de jantar aberta para a cozinha, falando por cima do ombro enquanto caminhava. As calas pretas unissexo e a 
tnica ondulavam graciosamente com os movimentos dela. Marilee observava-lhe a figura esbelta, incapaz de imaginar como se poderia ter sentido ao ser esmurrada por 
um homem do tamanho de Stan Salisbury. Pobre Susan.
      -  o que arranjas quando te casas com um violador - disse Susan com um sarcasmo amargo. - Um patife de um marido. - Parou no bar para deitar usque em dois 
copos. - Queres gelo?
      Marilee dirigiu um olhar de espanto aos copos. Realmente, no tinha planeado ir beber, mas parecia ser esse o nico objectivo de Susan. - No, eu... no preciso 
de gelo. Seco est ptimo.
      Susan empurrou um copo para ela. - Aos homens! - disse ela com azedume, levantando o copo. - No consegues viver com eles, nem consegues viver sem eles.
      Marilee concordava com a ltima parte daquela afirmao. Bebeu um gole de usque, detestando o gosto, enquanto lhe escorregava pela garganta abaixo como fogo 
lquido.
      Susan tocou na ndoa negra da face. - Continuas a olhar. Presumo que o Joe Lakota nunca sonharia bater numa mulher.
      - No.
      Susan riu-se. - Sim? Oh, querida, espera um par de anos. Se ele se vir livre desta acusao de homicdio, acabar por dar cabo de ti. Qualquer tipo que consegue 
fazer aquilo ao Stan tem isso dentro dele. Acredita em mim.
      - O Joe no fez aquilo - disse Marilee, baixinho. - J te disse, Susan. Tu no conheces o Joe. Ele no  um assassino.
      - Vi o suficiente quando ele c veio para me convencer de que . - Susan serviu-se de mais usque e dirigiu-se para a sala de estar. Dobrou uma perna por debaixo 
dela e sentou-se no sof turquesa. A seu lado, em cima de uma almofada, estava o jornal da tarde, que estava como se tivesse sido amachucado para ir para o lixo. 
Olhou para ele e encurvou o lbio. - J viste as paginas centrais? Somos famosas. No  ptimo? No sei o que pensamos que estamos a fazer. Par mais improvvel no 
h. - Fez um gesto para a janela da frente: - Pergunto a mim mesma o que  que eles vo dizer disto. "Esposas Juntam Foras", talvez. Ou "Mulher do Assassino e Mulher 
da Vtima Consolam-se Uma  Outra". - Riu-se e suspirou. - Deus, vo dar  lngua a propsito disto durante anos. Laurel Creek, o local onde nunca acontece nada.
      Marilee sentou-se numa cadeira em frente do sof e rolava o copo entre as mos. - Isso  uma ndoa negra muito feia, Susan. Por que diabo estavas tu a discutir 
com o Stan?
      Susan bebeu outro gole de usque, claramente inclinada para ficar bbeda. Na opinio no especializada de Marilee, aquela mulher desesperada no estava longe 
disso. Era evidente que tinha estado a beber sozinha antes de Marilee chegar. - Eu estava a arengar com ele - confessou. - Termos que nos mudar, tirar os midos 
da escola nesta altura do ano, deixar os nossos amigos todos. - Sorriu com tristeza. - H uns dias, parecia a pior coisa do mundo, ter que sair daqui, e detestava-o 
por ser a causa disso. - Mordeu o lbio inferior. - Ele... tentou ser carinhoso. Eu no suportava que ele me tocasse, sabendo o que te tinha feito. Podia perdoar-lhe 
as infidelidades. Sabes? Habituas-te a isso e j no di. Mas depois de ter sabido de ti, a simples viso dele dava-me voltas ao estmago.
      - Estou a ver.
      Susan bebeu o que tinha no copo e ps-se em p para ir buscar outra dose. - Naquela noite, quase provei do meu prprio remdio. Ele no aceitava um no como 
resposta. - Uma vez no bar, deitou uma dose de usque, engoliu-a e depois serviu-se de mais, com as mos a tremer com tanta violncia que a garrafa e o copo tilintavam. 
- Graas a Deus, os midos tinham ido patinar. As coisas puseram-se feias. Muito feias. Bati-lhe por ter tentado forar-me. Ele ficou furioso e esmurrou-me. Um verdadeiro 
senhor, aquele meu Stan.
      Marilee sentiu-se como se fosse ficar maldisposta. - Susan, nunca te desejaria uma coisa dessas. Francamente.
      - Sim? - Voltou para a rea da conversa, trazendo o garrafo de dois litros de usque sem tampa. Parou para deitar mais no copo de Marilee. - Ah, bem, fui 
salva pela campainha da porta e ele parou. Acho que teria sido um caso de justia potica, se no tivesse parado.
      Voltou a sentar-se, agitando o lcool que tinha no copo, o olhar fixo no turbilho mbar. - Aposto que pensaste que no me importei nada com o que te aconteceu. 
Estavas errada. - A boca tremia-lhe. - Sentia-me mal s de pensar que eles te tinham dado encontres e pregado um susto. Sabia que me odiavas. Uma vez, no supermercado, 
viste-me e desapareceste como gato escaldado. Depois, senti-me mal durante uns dias e nem sequer sabia at que ponto tinham ido as coisas naquela noite. Agora... 
- Ergueu um ombro frgil e engoliu mais bebida. - Agora, sei e odeio-me a mim mesma. Tento apaziguar-me atribuindo aquilo ao facto de ser to jovem, j para no 
dizer ingnua. Ele disse que no te fariam mal e, como uma idiota, acreditei nele. S queriam irritar o Joe. Zangavam-te o suficiente para ires a correr ter com 
ele a tremer. Foi tudo. Ou foi o que o filho-da-me me disse.
      Marilee fechou os olhos, sentindo-se curiosamente entorpecida. - Se no sabias, Susan, no tinhas que te culpar. ramos jovens. Tu tinhas quantos, dezanove? 
Uma mulher sensata e mais velha da minha irmandade. No eras mais informada do que eu.
      - Hoje, nunca me envolveria numa coisa daquelas, isso  certo - disse Susan, baixinho. - A minha menina, a Annie, tem seis. Desde que o Joe c veio e espalhou 
as brasas, dou comigo a olhar para ela e a sentir-me aterrorizada. Morreria se lhe acontecesse alguma coisa na faculdade. Morreria... E  l, no fundo da minha mente, 
que v-la magoada assim pode ser a minha paga.
      - Acho que j pagaste o suficiente, Susan. Lamento o que o Stan fez.
      - No sabes tu da missa a metade. Foi um patife desde o primeiro dia. - Estremeceu e tomou outra bebida. - Ah, bem, o nosso ltimo assalto foi interrompido. 
Pelo menos, nunca me fez isso. Um amigo nosso apareceu... um antigo companheiro do futebol americano do Stan. - As feies dela suavizaram-se. - Ele  padrinho da 
Annie, de facto. Um tipo muito simptico... um dos poucos amigos decentes que o Stan alguma vez teve. Foi o meu apoio vezes sem conta.
      - Ainda bem que tiveste algum para te apoiar.
      - Sim. - Suspirou, saturada. - Tambm digo. Ele foi ptimo. Quase desde o princpio, foi o ombro em que eu chorava. Um caso de casamento com o tipo errado, 
no sei se ests a perceber. Desejei milhares de vezes ter tido naquela altura o juzo que tenho agora. Vou-te contar. Ele pediu-me que obtivesse o divrcio. Sei 
que se teria casado comigo. Mas no podia fazer isso aos meus filhos. Com todos os seus defeitos, Stan era um bom pai e eles amavam-no.
      - Esse amigo vive aqui em Laurel Creek?
      - No, em Bedford. - Rodou as alianas de casamento no dedo e, depois, baixou a mo. - Quem sabe? Talvez agora tenha a minha oportunidade com o Senhor Certo. 
Realmente, ele  uma doura. Deus, na outra noite, ficou to furioso quando viu o que o Stan fizera... Pensei que ia haver uma discusso. Estava furioso a esse ponto. 
Mas, em vez disso, tirou o Stan daqui e concentrou-se em cuidar de mim.
      Marilee forou-se a tomar outro gole de usque. - Passaste por muito. Sinto-me um verme por tentar sacar-te informaes.
      - Saca. No creio que te possa dizer seja o que for. Mas sabes que mais? Tomara poder. - Dirigiu a Marilee um olhar que brilhava como esmeraldas. - Adorava 
descobrir que no foi o Joe que fez aquilo. No por me importar com ele. Seria bom saber que as coisas corriam bem para ti. Falas do que eu passei. Corrige-me se 
estiver errada, mas no creio que a tua vida tenha sido um piquenique.
      Marilee pensou na questo. - No, decididamente, no foi um piquenique. - Contou a Susan dos ataques de pnico e das muitas vezes em que pensou que podia morrer 
por falta de oxignio. - No teve graa, mas sobrevivi - concluiu. - Agora que fiz terapia, estou muito melhor. Daqui em diante, quero olhar em frente em vez de 
olhar para trs e ter a possibilidade de ser feliz. Tambm h o menino do Joe, o Zachary. - Marilee relatou rapidamente a Susan a situao com Valerie. - Receio 
que ela recupere a custdia do filho se o Joe for considerado culpado.
      Susan fez uma careta. - Isso  duro. Deus, porque  que ho-de ser sempre os midos a sofrer? Eles so to inocentes e a porcaria cai-lhes sempre em cima.
      Marilee no teria posto as coisas exactamente assim, mas concordou, apesar de tudo. - Eu gostaria, sendo possvel, de impedir que isso acontecesse ao Zachary.
      Susan acenou com a cabea. - Est bem. Deixa-me pensar. Inimigos do Stan. Deus, tens bloco de apontamentos e uma caneta? Duvido que qualquer deles o odiasse 
o suficiente para o matar, repara, mas havia muita gente que no gostava dele. - Foi buscar um bloco de apontamentos e uma esferogrfica ao louceiro. Depois de os 
entregar  Marilee, comeou a dizer nomes e a relatar razes pelas quais esses indivduos podiam guardar rancor ao marido. - Que tal vamos at agora? - perguntou 
ela uns minutos depois.
      Marilee olhou para os seus apontamentos com o corao a cair-lhe aos ps. - H tantos. Quase vinte, acho eu. Tinha esperana em que pudssemos reduzir a lista. 
Nenhuma destas pessoas gostava do Stan?
      - Metade da cidade no gostava dele. Essas pessoas so aquelas que ele tramou em grande nos negcios, as que seria concebvel que pudessem desejar-lhe uma 
morte prematura.
      Marilee pegou no copo para beber um gole.
      - Acho que podes acrescentar o Don Albin a essa lista - disse Susan com uma gargalhada tinida. - No  que ele alguma vez matasse o Stan, mas estava decididamente 
furioso com ele naquela noite, o suficiente para o espancar.
      Marilee entornou o copo meio cheio no tapete. Espirrou lcool por toda a parte, em cima do tapete castanho claro e em cima das suas calas de ganga. Susan 
deu um salto, pegou nuns toalhetes e comeou a limpar a confuso. Quando olhou para Marilee, parou.
      - Meu Deus, que  que se passa? Parece que acabaste de ver um fantasma. - Mal falou, os olhos escureceram-se-lhe. Os toalhetes caram-lhe esquecidos dos dedos 
e, num sussurro torturado, disse: - O Don?
      Marilee s conseguiu olhar para ela.
      - No - gritou Susan. - No! O Don, no. Ele no fazia parte daquela confuso. Ele nunca violentaria uma mulher. Eu sei que no. - Ps uma mo no peito. - 
Por favor, diz-me que ele no esteve l.
      Marilee desejava de todo o corao poder faz-lo. - Oh, Susan, desculpa. Eu nunca...
      - No! - disse ela, bruscamente. - C'os diabos! Ele nunca faria uma coisa dessas!
      - Susan, acalma-te.
      Susan ps-se em p. - Sai. J. J conversamos o suficiente. Agora quero ficar sozinha.
      Marilee pegou na carteira, arrancou a folha de cima do bloco de apontamentos e correu para a porta. Oh, Deus, oh, Deus. Don Albin era o ombro em que a Susan 
chorava, o amigo que tinha estado sempre  disposio dela?
      - Ele no matou o Stan! - disse Susan, atrs dela. - Ests a ouvir, Marilee? Eu sei que no. Ele  um homem bom e amvel. Nunca faria uma coisa dessas. Ele 
 um bom homem, j te disse!
      Marilee saiu sozinha para o alpendre e fechou a porta. Nem sequer os reprteres que vieram ao encontro dela enquanto corria para o carro descortinaram a confuso 
horrorosa que tinha na mente. Don. Tinha que entrar em contacto com John Swenson imediatamente. Achava que sabia quem tinha matado Stan Salisbury.
      
      Numa cidade to pequena como Laurel Creek, Marilee no demorou muito a descobrir onde estava Swenson. Infelizmente, o advogado no estava no seu quarto do 
motel e no pde fazer mais nada seno deixar-lhe uma mensagem.
      Depois de fazer isso, pensou em telefonar ela prpria a polcia para lhes dar o nome de Albin, mas decidiu rapidamente no o fazer. Swenson  que era, afinal, 
o guru jurdico, e no ela. A informao acerca de Albin podia ser usada com mais eficcia se o advogado de Joe escolhesse o momento certo para a revelar.
      Para passar o tempo, Marilee deu de comer ao Boo e, depois, comeou, sem entusiasmo, a endireitar os aparadores que a polcia tinha deixado num rebolio. De 
vez em quando, sempre que ouvia bater a porta de um carro, corria para a porta da frente para espreitar para a rua, na esperana de ver Joe sair de um txi. Se ficasse 
com fiana, em vez de lhe telefonar para o ir buscar, talvez quisesse fazer-lhe a surpresa.
      Cada corrida at  porta da frente terminava num desapontamento. A Imprensa ainda estava acampada  frente da casa. Os sons que ouvia eram invariavelmente 
feitos por jornalistas a entrar e sair dos respectivos carros. Imaginava-os ali sentados no escuro, a ouvir as suas aparelhagens e a beber caf para se manterem 
alerta. Que trabalho horrvel. Pior ainda, no conseguiam mais nada com o incmodo do que umas fotografias e uns zangados "No comento". Perguntava a si mesma se 
eles tinham famlia. Provavelmente. Sem dvida, preferiam estar em casa com os seus, tal como ela desejava estar com o marido.
      s oito horas, Marilee perdeu a esperana de que Joe conseguisse obter a fiana naquela noite. Talvez de manh, se tivessem sorte. Afinal, Swenson no lhe 
tinha dado nenhuma garantia.
      Para evitar a sua sensao esmagadora de desapontamento, concentrou-se no facto de pelo menos ter alguma informao para o advogado que poderia levar  libertao 
definitiva de Joe. Nisso  que precisava de pensar, pensamentos positivos, pensamentos felizes. Por mais difcil que tudo isso fosse, pelo menos tinha a esperana 
de que talvez houvesse um fim a vista. Susan Salisbury, no.
      Que pessoa trgica ela era - uma mulher que tinha amado insensatamente, no uma mas duas vezes. No parecia justo. Marilee tinha cometido um erro realmente 
catastrfico na sua vida e esse tinha-a levado, assumidamente, a fazer uma srie de outros erros que tinham magoado no s ela prpria, mas tambm Joe e, por extenso, 
a famlia dela. Mas pelo menos nunca tinha amado insensatamente, entregando o seu corao a um homem que tivesse um lado negro que ela desconhecesse alegremente. 
Apesar de tudo o que ela e Joe tinham suportado, havia honestidade entre eles, e o seu amor um pelo outro era genuno. Joe nunca lhe bateria nem a trairia nos braos 
de outra mulher.
      Ao pensar nele, Marilee ansiava por sentir os braos dele  sua volta. Amanh  noite, dizia a si mesma. Talvez estivesse em casa a tempo de jantar. Compraria 
vinho para celebrar. Podiam passar uma grande noite com o Zachary e, uma vez que ele estivesse despachado, o resto da noite era deles. Com essa ideia em mente, Marilee 
decidiu pr roupa lavada na cama de Joe. E porque no algumas velas estrategicamente colocadas  volta do quarto? Amanh  noite, podiam fazer amor  luz das velas.
      Marilee tinha acabado de tirar os lenis da cama de Joe quando pensou ter ouvido abrir e fechar a porta envidraada. Parou  escuta. Da a um segundo, o Boo 
ladrou baixinho. Marilee sorriu. Joe. S ele tinha as chaves da casa, pelo que no podia ser mais ningum. Uma alegria estonteante apoderou-se dela enquanto corria 
pelo corredor para se lhe lanar nos braos.
      
      - Fico em dvida para consigo para sempre - disse Joe quando apertou a mo a John Swenson. - Vai saber endiabradamente bem estar em casa esta noite com a minha 
famlia. Nem imagina. Talvez, aqueles honorrios astronmicos.
      John sorriu e acenou com a cabea. - Esperemos que nos deixem em paz e que nunca mais tenha que voltar aqui.
      Joe tirou os trocos da bandeja que estava em cima do balco, meteu-os no bolso e, depois, reclamou a sua carteira.
      - Tenciona telefonar  sua mulher, ou quer que eu lhe d uma boleia para casa?
      Joe combinou com o advogado quando saiam lado a lado da esquadra local que esperava no voltar a ver e rezava para que assim fosse. - Fica-lhe fora de mo? 
Realmente, gostaria de a surpreender.
      - Talvez eu lhe tenha estragado essa possibilidade. Disse-lhe que talvez o tirasse da cadeia esta noite sob fiana.
      Joe sorriu. - Ah, bem, agradecia uma boleia, de qualquer modo. Ela s saber que vou para casa quando me vir, no ?
      
      Quando Marilee dobrou a esquina para entrar no pequeno vestbulo que levava  cozinha, parou to repentinamente que os tnis agarraram-se ao cho de madeira 
e chiaram. Don Albin estava do lado de dentro da porta envidraada, a seguir ao armrio das antiguidades. Os seus olhos cinzentos fuzilaram os dela quando lhe devolveu 
o olhar.
      - Como  que entraste aqui? - perguntou ela, com voz desmaiada. Ele sorriu e mostrou um carto de credito. - Realmente, devias instalar uma fechadura melhor 
nesta porta - disse ele, em voz baixa.
      Oh, Deus. As portas envidraadas. Todas as outras portas da casa tinham duplos trincos, mas nunca tinha tratado de instalar uma fechadura de segurana nas 
novas portas envidraadas.
      Pelo canto do olho, viu o Boo meter a cabea de fora da porta do seu quarto. O grande co foi, deu um pequeno latido e desapareceu outra vez, cobarde como 
sempre. Estava por sua conta.
      Comeou a transpirar entre as omoplatas. Recuou um passo com o olhar fixo num dos rostos que a tinham perseguido nos seus pesadelos durante dez anos interminveis. 
- Que ests tu a fazer aqui dentro, Don?
      Ele meteu o carto de crdito no bolso. Foi ento que Marilee reparou que trazia luvas. O estmago apertou-se-lhe de terror e quase conseguiu ouvir Swenson 
dizer: Onde esto as luvas que ele deve ter usado? Oh, Deus, oh, Deus. Aquele homem ia mat-la. Viu isso nos olhos dele.
      A sua mente corria descontroladamente. Mediu a distncia at  porta da frente, perguntando a si mesma se tinha alguma hiptese de conseguir. Os reprteres. 
Se conseguisse chegar ao ptio, estava salva. Don no ousaria tocar-lhe  frente de todas aquelas testemunhas.
      - No vais fazer isso, Don - disse ela baixinho. - Pensa. A Imprensa est l fora. Algum deve ter-te visto entrar.
      - No - disse ele, ainda a sorrir. - Estacionei a uns quarteires de distncia e cortei caminho pelos ptios para vir pelas traseiras. Os reprteres esto 
todos sentados dentro dos carros, a olhar para a frente da casa. No sabem que eu estou aqui.
      Marilee preparou-se para correr. Ele precipitou-se para ela. Ela esperneou e gritou o mais alto que pode, durante o mximo de tempo que pode. A correr, a correr. 
Como se tivesse sido apanhada num sonho, sentia que os passos cambaleantes no a levavam a parte nenhuma. Ento, um forte brao agarrou-a pela cintura, com uma fora 
que lhe esvaziava o ar dos pulmes. Ela agarrou-se-lhe descontroladamente  manga do casaco, tentando fugir. Depois, fez uma pirueta e atirou-se-lhe a cara. O seu 
grito de aflio abortado pelo abrao esmagador dele, tinha ficado reduzido a uma pattica lamria que ela sabia que ningum l fora conseguiria ouvir.
      Ele gemeu e largou-a por um instante para lhe agarrar os braos que se agitavam. Marilee tentou gritar outra vez mas o som foi rapidamente abafado quando ele 
voltou a pr-lhe o brao  volta, prendendo os dela de lado. Uma grande mo enluvada tapou-lhe a boca. Ali estava ela pendurada, contra o forte corpo dele, de costas 
encostadas ao seu peito, os ps suspensos acima do cho. O polegar dele estava a esmagar-lhe as narinas, impedindo-a de respirar.
      - Que tal? Hem? - perguntou ele baixinho. - Lembras-te disto, Marilee?
      Ela torceu-se com violncia, tentando desfazer a presso dele. Oh, meu Deus. Oh, meu Deus. Procurava freneticamente, inutilmente respirar, o peito a estremecer 
espasmodicamente. No tinha ar. No conseguia arranjar ar. Ele ia sufoc-la.
      Deslocou o polegar, rindo-se baixinho enquanto ela gemia para inspirar oxignio pelas narinas subitamente desbloqueadas.
      - No podias ficar de boca calada, pois no? - sussurrou ele. - Primeiro, disseste ao Joe e arranjaste sarilhos ao Stan. Depois, foste choramingar para a Susan. 
Ela era a nica coisa boa da minha vida danada e, em dois segundos, destruste-a. Porqu? Gostaste, Marilee? Finalmente, tiveste uma vingana. Bem, adivinha, querida: 
no me vo despachar por homicdio.
      Levou-a para a sala de estar. Marilee dava pontaps, cravava-lhe os calcanhares nas canelas, mas os tnis no causavam grandes danos que o fizessem libert-la. 
Pensa. Tinha de pensar. De algum modo, tinha de se libertar. Que chegar  porta.
      Para seu horror, ele ajoelhou-se no tapete da sala de estar com ela ainda presa. Que iria ele fazer-lhe? O terror transformou-lhe os ossos em gua. A mo enluvada 
dele continuava a tapar-lhe a boca.
      - Nunca pensei em fazer-te mal naquela noite - sussurrou ele. - amos todos fingir que sim. Mas, na realidade, ningum tencionava ir at ao fim com aquilo. 
Ento, tu transformaste-te em gata, arranhaste a cara do Buckley e toda a gente ficou um pouco louca. Eu sabia que era um mau negcio. No minuto em que comeou a 
acontecer, eu soube que todos havamos de nos arrepender. Que tu havias de gritar aquilo aos quatro ventos e que nos meterias em sarilhos.
      Foi por isso que te tapei o nariz. Continuaste a olhar para mim. Lembras-te? A tentar dizer-me com os olhos que estava a sufocar-te? Como se eu no soubesse. 
Tentei garantir que nunca falasses, cabra estpida! Os outros tipos pensariam que o tinha feito acidentalmente e ajudariam a encobrir-me. Rapariga de irmandade, 
com excesso de lcool, morre sufocada, virada para baixo. Fcil. Eu podia ter tirado, mas tu continuavas a virar a cabea, a arranjar um bocadinho de ar, a prolongar 
a situao. E antes que eu conseguisse acabar contigo, o Stan comeou a gritar que era a minha vez. Meu Deus, eram todos uns palermas. Como se pudessem fazer aquilo 
a algum e deix-la ir-se embora. Eu sabia que havias de ser um problema. E sabes que mais? Tinha razo. Aproveitaste o teu doce tempinho para comear a gritar.
      Marilee encolheu os ombros perante as recordaes. Oh, por favor... Deus.
      - Bem, desta vez, s ests a lidar comigo e eu vou garantir que nunca mais abras a boca. No vou ser morto por nada disto. De maneira nenhuma.
      O polegar voltou a ir para cima do nariz dela. Ele riu-se quando ela comeou a espernear.
      - V. Luta. Assim, acaba mais depressa. Assim  que s uma rapariga bonita. Lutas com todas as tuas foras e queimas uma quantidade de oxignio realmente depressa.
      O pior pesadelo dela. O medo enjoativo de sufocar que a perseguira durante tanto tempo. No conseguia respirar... Oh, meu Deus...
      - Vo pensar que tiveste um daqueles ataques de pnico - sussurrou ele. - Oh, sim, a Susan falou-me deles antes de eu sair para c vir. De como por vezes quase 
morrias. Perfeito. No deixo nenhuma marca em ti. Encontrar-te-o aqui no cho, morta. Pobre Marilee. Um ataque de pnico acaba por te liquidar.
      Pontos negros. Marilee pestanejava freneticamente, o latejar da falta de ar dentro da cabea comeando a ensurdec-la. Ele ainda estava a falar. Nada do que 
dizia fazia qualquer sentido. O que estava a fazer no fazia sentido. Nunca se safaria disto. Nunca. No  que ele ser apanhado lhe fizesse alguma diferena. Ela 
estaria morta.
      Ao longe, Marilee ouviu um som estranho. Boo. A ladrar e a uivar. De repente, Don tirou-lhe a mo do nariz e da boca. Ela ali estava suspensa, apertada pelo 
brao dele, procurando freneticamente respirar.
      - Cala-te! Toma! - gritou ele, torcendo o brao para fora. - V, estpido co vadio! Cala-te, j te disse!
      Ainda  procura de oxignio, Marilee pestanejava, tentando ver. Uma mancha castanha a correr, primeiro para um lado e, depois, para o outro. Quando o ouvido 
ficou mais apurado, os barulhos tornaram-se distintamente reconhecveis como sendo o ladrar e o uivar do Boo. Boo? Marilee ficou boquiaberta. Era um grande cobarde, 
e a sua reaco fosse ao que fosse era esconder-se debaixo da cama dela. No podia acreditar que ele tivesse arranjado coragem para sair de l e ladrar, quanto mais 
para se aproximar suficientemente de Don para ele tentar dar-lhe um soco.
      De repente, o co atirou-se a ele, agarrando a manga do casaco de Don com os enormes dentes caninos que, at quele momento, nunca tinham mordido nada a no 
ser comida de co.
      - Filho de uma cabra!
      Miraculosamente, Don aliviou a presso sobre ela para enxotar o co. Marilee cambaleou, a soluar. Quando se ps em p, desatou a correr.
      - Oh, no, no fazes isso! - Don agarrou-a pelo tornozelo e derrubou-a. - No vais... filha de uma cabra!
      O Boo atacou a srio quando Don a agarrou, transformando-se os seus uivos num choro fnebre, alto e frentico, o choro de um co que vai para a caada. Marilee 
ps-se outra vez em p e correu. Correr, correr. A porta da frente. Se conseguisse chegar  porta da frente, todos aqueles maravilhosos reprteres saltariam dos 
seus carros para lhe tirarem fotografias com as suas mquinas. Oh, sim. A porta da frente.
      Projectou-se pelo corredor fora, fugindo num pnico cego.
      Pum! Foi de encontro a uma parede de tijolo. Caiu para trs. Umas mos grandes e quentes fecharam-se-lhe nos braos para a apanhar.
      - Mari?
      Joe. Marilee viu a mancha da sua cara morena. Agarrou-se-lhe  camisa com toda a fora e tentou, literalmente, subir-lhe pelas pernas acima, to assustada 
estava. No conseguia falar. No conseguia dizer-lhe. Joe. Oh, obrigada, meu Deus. Joe. Agarrou-se-lhe ao pescoo, o peito ainda a queixar-se da falta de ar.
      - Que diabo? Aquilo  o Boo? - perguntou ele. - Filho de uma cabra! - Afastou-a de si. - Fora. Vai l para fora, Marilee!
      Ela caiu contra a parede do corredor, as pernas to moles de terror que no se conseguia mexer. Joe correu para a sala de estar, com o som das rosnadelas do 
Boo a gui-lo infalivelmente para a desordem.
      - Boo! - gritou Joe. No instante seguinte, Marilee ouviu Don rugir de raiva. Ouviu-se um grande baque. Depois, vidro a partir-se. Joe. Oh, Deus. Foi a cambalear 
at  sala de estar, aterrorizada por ele. E se Don o magoasse? Joe tinha um joelho em mau estado. Podia no conseguir aguentar-se. Oh, meu Deus... oh, meu Deus.
      Quando Marilee dobrou a esquina do vestbulo, o Boo passou por ela a correr, as unhas a perderem apoio na madeira lisa. Escorregou e bateu contra a parede, 
depois recuperou o equilbrio para retomar a corrida de regresso ao quarto. Quando Marilee viu os dois homens envolvidos numa luta brutal na sua sala de estar, quase 
foi atrs do co para se esconder debaixo da cama.
      Venceu a preocupao com Joe. Correu por entre os restos estilhaados do seu candeeiro de cristal, que estava como ornamento no cho. Incapaz de pensar noutra 
coisa que pudesse fazer, pegou numa cadeira da sala de jantar, pensando em espancar Don com ela.
      Correndo em socorro de Joe, levantou a cadeira e apontou a cabea de Don. Quando comeou a executar o movimento descendente, Joe atirou o homem por cima do 
ombro. Don caiu ao comprido de barriga para baixo. Joe atirou-se para cima dele, assentou-lhe as pernas e executou um full nelson1.
      J a meio caminho com a cadeira, Marilee quase bateu em Joe. Na hora H, conseguiu desvi-la do alvo por estreita margem e bateu no cho, o impacto provocando 
grande estrondo.
      Joe dirigiu-lhe um olhar espantado, percebeu como ela tinha estado perto de o atingir e sussurrou: - Nossa Senhora.
      
            1 Tcnica de imobilizao do adversrio que consiste em passar-lhe os braos por debaixo das axilas e dar as mos por trs da nuca, fazendo fora para 
cima.
      
      Duas horas depois, Marilee e Joe estavam sentados de pernas cruzadas no cho da cozinha. Joe tinha uma bandeja com o jantar equilibrada em cima das perdas 
cruzadas. Estava repleta de pedaos de lombo da melhor qualidade que tinha descongelado no microondas. - Est bem, Boo? Devo-lhe isto. Quando penso na quantidade 
de vezes que lhe chamei "aquele diabo de co", sinto-me muito mal. Esta noite, salvou-te a vida. Dizem que o sinal da verdadeira coragem  enfrentar uma coisa mesmo 
quando se est assustado de morte. O pobre Boo estava muito assustado.  testemunho do seu amor por ti o facto de ter sado de debaixo da cama para te ajudar.
      Marilee sorriu e ficou com os olhos hmidos. - Foi qualquer coisa,  verdade. Nunca fiquei to surpreendida, na realidade. Ou contente. Se no fosse ele, o 
Don ter-me-ia sufocado. Estive a centmetros de morrer. - Coou as orelhas do co. - Minha doura. Vieste salvar a me. No foi? Foi, sim.
      Joe inclinou-se e ps-se na brincadeira com o Boo. Ao ver o seu belo marido, Marilee desejou que ele lhe fizesse aquelas coisas. Tinha um aspecto maravilhoso. 
Grande e moreno como um ndio, o cabelo preto despenteado a cair-lhe sobre a testa em preguiosas ondas. O seu nico verdadeiro amor, pensou ela melancolicamente. 
Por mais grata que estivesse ao Boo, queria-o todo para ela durante um momento.
      A excitao da noite acabara finalmente, graas a Deus. A polcia j se tinha ido embora e ela e Joe tinham, pelo menos, a casa por conta deles, embora destruda, 
facto que parecia estar a escapar quele grande ignorante. No dia seguinte, estaria de regresso  vida, como habitualmente, com a criana de quatro anos no caminho. 
Era a grande oportunidade que tinham de fazer amor louco, apaixonado, sem medo de serem ouvidos, e Joe estava a fazer o qu? A dar bife ao Boo.
      Ah, bem. Pelo menos, tudo tinha acabado bem. O nome de Joe estava limpo e a polcia tinha metido o Don na cadeia, com boas perspectivas de ser por muito tempo, 
acusando-o do homicdio de Stan Salisbury e da tentativa de homicdio de Susan Salisbury. Segundo as ltimas noticias que tinham recebido do hospital, salvo complicaes 
inesperadas, Susan recuperaria do ferimento provocado pelo tiro no peito. Quando Don percebeu que ela tinha descoberto e ia entreg-lo, dera-lhe um tiro com a pistola 
que tinha para sua proteco na gaveta da mesa-de-cabeceira.
      Segundo a polcia, Don tinha tentado fazer parecer suicdio - a viva desesperada, vencida pela dor e incapaz de suportar o escndalo, que tinha posto termo 
 vida. Depois de alvejar Susan, tinha sado pelas traseiras, deixando-a  morte, plano que podia ter funcionado se os reprteres que estavam c fora no tivessem 
ouvido o tiro e pedido ajuda. Felizmente, Susan tinha sido encontrada rapidamente e levada de ambulncia para o hospital, onde uma operao de emergncia lhe salvou 
a vida.
      Agora, parecia que Susan sobreviveria para educar os filhos e voltar a amar, de preferncia com mais sensatez, da prxima vez. Era a vez de ela ser feliz, 
achava Marilee. Era boa pessoa. Verdadeiramente uma boa pessoa.
      - Que suspiro foi esse? - perguntou Joe baixinho, enquanto dava ao Boo outro pedao de carne.
      - Oh, estava s a pensar.  sua maneira retorcida, o Don deve ter amado mesmo a Susan. Basta no ter conseguido suportar o que o Stan lhe fez e t-lo matado 
por causa disso. Que se passa na mente humana que algo que podia ter sido to doce e to bom tornou-se to horrvel e desarranjado?
      Foi a vez de Joe suspirar. - Querida, provavelmente, at uma cascavel ama,  sua maneira. No entanto, se a encurralares, ela atacar  sua maneira num pnico 
cego. O Don no amou a Susan do modo que eu te amo a ti, nem do modo como tu me amas a mim. Era um tipo de amor perturbado e retorcido. Provavelmente, sempre foi. 
Algo est errado no tipo. Ele no funciona bem.
      - Eu sei. E  isso que me d arrepios. O Don e o Stan. Os outros trs tipos envolvidos na cena de h dez anos. Que lhes aconteceu a todos, Joe? Eram bastante 
atraentes, bons no desporto, andavam na faculdade com bolsas de estudo. Tanta coisa a favor deles e, mesmo assim, fizeram-me uma coisa to horrvel que  inconcebvel 
para a maioria de ns.  como que uma espcie de loucura contagiosa que tivesse atingido todos eles.
      - Conheces aquele velho ditado francs, "Les beaux esprits se rencontrent". Havia em todos eles, desde o princpio, algo que no estava bem e foram atrados 
uns para os outros por causa disso, penso eu. - Abanou a cabea. - Isso v-se nos bandos e, por vezes, em tempo de guerra... um grupo de tipos que, de repente, se 
torna violento e comete atrocidades. Quando se ouve falar nisso, perguntamos a nos mesmos: "Como  que isso pode acontecer? No havia ningum so no grupo?" A minha 
teoria  de que acabam todos juntos naquela situao especifica porque sentem a crueldade uns nos outros.
      Ela encolheu os ombros. - Acho que talvez nunca entenda e que devia tirar isso da cabea.
      - Sim, pois deves - disse ele, com voz rouca. - Tiraram-te dez anos da tua vida, os danados. Os prximos cinquenta so meus.
      Ela sorriu. - Gosto do modo como isso soa. Isto , realmente gosto do modo como isso soa. Cinquenta anos. Quando os polcias acharam aquele cassetete no teu 
carro, perguntei a mim mesma se voltaramos a ter mais um segundo juntos, quanto mais meio sculo.
      - Culpa minha. Isto ensinar-me- a no ameaar a vida de uma pessoa, por mais zangado que esteja com ela. Deixei a boca escapar-me e tornei-me um bode expiatrio 
perfeito. O que  realmente assustador  que o Don podia ter passado impune se no tivesses ido ter com a Susan.
      Marilee mordiscou o lbio inferior por um momento, olhando preocupada para Joe. 
      - Sabes, Joe, com o estatuto das prescries a proteg-los, os outros trs nunca pagaro pelo que fizeram. Eu... - Encolheu os ombros e suspirou. - J aceitei 
h muito que nem sempre  feita justia, mas sei que te incomodar saber que eles andam por a, vivendo a sua vida como se nunca tivessem feito nada errado.
      Ele sorriu ligeiramente. - No  verdade. No saram impunes, minha Mari. Acredita em mim. Esto a pagar, e bem. - A boca dele contorceu-se e estreitou-se. 
- Naquela noite em que confrontei o Stan fui l ansioso por lhe dar cabo da vida. Na altura em que sa, percebi que ele no precisava de ajuda para isso. Tinha feito, 
sozinho, um ptimo trabalho para arruinar tudo. No se pode magoar uma pessoa como eles te magoaram e depois, simplesmente, passar  frente, intacto. Talvez  primeira 
vista parea que no se fez justia, e talvez nem sempre sejam os tribunais a faz-la, mas todos ns temos que responder a uma autoridade superior. - Piscou-lhe 
o olho. - No fim, Deus apanha-os e podes ter a certeza de que, entretanto, eles so infelizes, com tudo na sua vida envenenado pela sua prpria maldade.
      - Acho que nunca pensei nisso exactamente dessa maneira.
      -  a nica maneira de pensarmos nisso. A justia suprema  infligida pelo Senhor. Eu estou em paz ao saber disso e estou determinado a construir contigo, 
a partir daqui, uma boa vida, saudvel, que no seja tocada pelo passado. Aqueles tipos esto condenados. Tu e eu estamos muito abenoados. Concentremo-nos nisso.
      Marilee sorriu e acenou afirmativamente com a cabea, pois acreditava que ela e Joe estavam abenoados. Por causa de acontecimentos incontrolveis, a vida 
deles tinha sofrido um desvio de dez anos, mas agora tinham fechado um grande crculo e regressado aos braos um do outro, e nada poderia voltar a separ-los.
      O Boo rosnou ao pegar noutro pedao de lombo. Segurou levemente aquele pedao entre os dentes. Estava claramente cheio de mais para mastigar ou engolir mais 
fosse o que fosse. Dirigiu a Joe um olhar taciturno. Joe riu-se. - Chega? Tens a certeza, companheiro? S mais um bocadinho. Este  o teu jantar da vitria.
      O Boo deitou a cabea com o lombo ainda preso entre os dentes. As mandbulas molhadas assentaram no cho, fazendo-o parecer ainda mais tonto e grosseiro do 
que o normal. Joe suspirou. - Bem, acho que no consegue comer mais. - Dirigiu um olhar cintilante a Marilee. - Agora, vamos a outro assunto.
      Finalmente. Marilee sorriu quando ele se levantou com a travessa de bife. Depois de a pousar no balco, lavou rapidamente as mos e limpou-as. A seguir, virou 
o olhar para ela com aquele sorriso preguioso e maroto que lhe fazia sempre sentir os joelhos enfraquecer. Ofereceu-lhe uma grande mo e depois p-la delicadamente 
em p, sempre com o olhar misterioso fixo no dela.
      Marilee esperou que ele a beijasse. Ele aproximou-se. E depois, com movimentos rpidos como relmpagos, agachou-se, pegou-lhe pela altura dos joelhos e endireitou-se. 
E pronto, a estava ela apoiada no seu ombro rijo extremamente excitada.
      - Que diabo ests a fazer?
      - H uma pequena coisa que temos que resolver, Senhora Lakota. Quem  o red shirt da famlia e quem  o chefe. Lembras-te?
      Marilee resmungou. - Oh, Joe...
      - Oh, Joe - imitou-a ele. - A palma da minha mo tem estado todo o dia em pulgas para entrar em contacto com essa coisinha bonita que tens atrs de ti. Agora, 
chegou finalmente o momento do ajuste de contas.
      Foi pela casa fora com ela. Marilee ali estava, a dar risadas. Ele ia para o quarto. Oh, sim.
      - No s contrataste o Swenson contra a minha vontade, que te manifestei em termos perfeitamente claros, mas tambm me desafiaste quanto  venda da casa. Depois, 
para piorar ainda mais as coisas, numa situao de vida ou morte, quando te disse que fosses l para fora, onde estarias segura, em vez disso, meteste-te no centro 
da refrega. E o que  que fizeste? Pegaste numa cadeira e estiveste quase a acertar-me na cabea com aquela coisa danada. Senti o vento quando passou ao lado da 
minha orelha.
      Assentou-lhe uma grande mo na ndega e deu-lhe um belisco.
      - Agora, tal como vejo as coisas, isto significa que temos um grave problema. Parece que no entendes que eu  que digo quais so as jogadas. Quando se trata 
de coisas importantes, tens que fazer o que eu digo, quando te digo, e como te digo. At isso estar gravado na tua cabea, no vou ser um tipo feliz. Percebes?
      - Hum.
      Depois de chegar ao quarto, inclinou-se por cima da cama, que no tinha roupa, e deixou-a cair. Marilee guinchou ao tocar no colcho. Antes que ela pudesse 
sequer saltar, ele tambm se deitou, sustentando-lhe o peso com os braos. O peito dele prendeu-a debaixo de si, a sua cara morena a pairar a uns escassos centmetros 
da dela.
      - Ento, que  que tem a dizer em sua defesa, Senhora Lakota? Quer entregar os pontos e concordar em ser a red shirt nesta operao? Ou preciso eu de ir marcar 
o ponto?
      Ela ps-lhe os braos  volta do pescoo. - Sou decididamente uma principiante, quando se trata desta operao. Diga o qu, quando e como, Senhor Lakota. O 
seu desejo  uma ordem, para mim.
      - Tira essa blusa - disse ele com um grunhido.
      Marilee tirou rapidamente a blusa pela cabea e atirou-a pelo ar. Ele dirigiu-lhe um olhar escaldante ao peito.
      - Agora, o suti - disse ele, com voz rouca.
      Ela desapertou a parte da frente e as copas de renda caram.
      - Que tal sou eu a cumprir ordens?
      - No est mal. - Baixou a cabea morena. - No est nada mal. D-me cinquenta anos para trabalhar nisso e talvez consiga treinar-te.
      A sua boca quente fechou-se sobre a dela. Um sobressalto de sensaes fez Marilee arquejar. Arqueou-se em direco a ele e agarrou-lhe os cabelos. Cinquenta 
anos. Oh, sim. Podia trabalhar  vontade no treino dela o tempo que quisesse. Entretanto, ela adoptaria uma abordagem mais subtil quando ele a treinasse.
      Para red shirt, mostrava-se muito prometedora.
      
      
    Eplogo
      
      Joe ps Marilee em cima do joelho, a mo ao de leve em cima da sua barriga inchada. Era um fim de tarde de domingo e iam passar a noite com a me de Joe, como 
era habitual nos ltimos meses. Na mesa de carvalho, com cicatrizes, que tinham  sua frente, Joe estendeu os projectos da sua casa de sonho, uma moradia no topo 
de uma montanha com vista para o vale de Umqua. Tinha-se tornado o passatempo favorito deles, imaginar como seria a casa e discutir como decorariam cada diviso.
      - Diz l outra vez qual  o meu quarto - pediu o Zachary, inclinando-se por cima do brao do pai para ver.
      Joe apontou. - Ali, rebento. Aquela  a porta do teu quarto, que d para o vestbulo. E aqui  o teu armrio. E ests a ver aquelas coisinhas quadradas?  
a tua rea embutida de escritrio, uma secretria e estantes e um centro de computador.
      - Para quando eu comear com a escola, no ?
      - Exactamente. Agora que ganhamos o processo da custdia, estamos presos a ti at acabares o liceu. - Joe piscou o olho ao filho. - At mais tarde se eu puser 
um cadeado na porta do quarto de modo a no poderes deixar-nos para ir para a faculdade.
      - Eu nunca me irei embora. Vou viver contigo e com a minha nova me para sempre! - exclamou o Zachary. - Quando  que vais construir a casa, pai?
      Joe deu um beijo no ombro de Marilee. Era outra vez Vero e, dado o calor que estava, ela usava vestidos de pr-mam sem mangas. - Constru-la-emos logo que 
pudermos, mido. J temos quase o dinheiro necessrio.
      - A tempo do novo beb, achas?
      - No, provavelmente no  to cedo como isso.
      De p junto da sua tbua de po e a preparar massa de empada, Faye olhou por cima do ombro. - Podias constru-la amanh se no fosses to cabea-de-burro.
      - Ah, me - disse Joe, distraidamente. - Que  que se passa? Est a sentir-se mal-humorada, hoje?
      Faye resmungou e acenou com a mo. - Mal-humorada? Frustrada, mais precisamente. Sei que a Marilee adoraria ter a sua casa nova quando chegar o beb. No  
a mesma coisa governarem-se com o outro stio. Ela gostaria de decorar aquele novo quarto do beb e de levar o beb para aquela nova casa bonita, tal como sempre 
sonharam.
      - Eu no me importo de ficar no outro stio, Faye - disse Marilee. - No me importo mesmo. Temos um quarto a mais. C nos governaremos.
      - Quando o prximo beb Lakota aparecer, levo-o para a nossa nova casa, me. Prometo. - De repente, o beb mexeu-se debaixo da mo de Joe, e ele estremeceu 
de surpresa. - Que diabo, querida, isso di? Esse rapaz vai ser um rematador.
      - No, ela vai ser campe de futebol - corrigiu Marilee. Joe deu uma risada e, desta vez, mordiscou-lhe o ombro.
      - Prometeste-me uma equipa de futebol americano.
      - Bem, o sexo  determinado pelo pai e, segundo os ultrassons, o pai estragou tudo. Definitivamente,  uma rapariga. Suponho que consegues ensin-la a jogar 
futebol americano, se quiseres. Mas ser terrivelmente difcil para todos os jogadores masculinos serem envergonhados daquela maneira.
      Ele riu-se e passou-lhe uma mo por cima da barriga, os dedos a curvarem-se quando sentiu o beb mexer-se outra vez. - Se for uma rapariga,  bom que seja 
parecida com a me.
      - Ser parecida contigo - garantiu-lhe Marilee. - Vi a semelhana na imagem.
      - Aquela imagem era uma mancha.
      - No era to mancha como isso. Reconheceria aquele teu nariz em qualquer parte.
      - Morde a lngua. Se a minha beb tiver o meu nariz, choro.
      - Meninos! - interrompeu Faye. - Podemos continuar a conversa? Joseph, ouve a tua me. No vejo razo para no poderes usar algum do dinheiro que me deste 
para construir uma casa  Marilee. Disse-te na altura que no precisava dele e que o tinha posto no cofre. Tu disseste: "Investe-o, me. Torna-nos ricos, os dois." 
Assim, telefonei quele rapaz que conheces... aquele jovem simptico que trata de aces e dessas coisas... e investi-o. Agora, No lhe tocas. Que sentido  que 
isso faz?
      - Me,  que eu dei-lhe aquele dinheiro para si. Para comprar coisas. Para investir, para a sua reforma. H-de precisar dele na velhice.
      - A que idade  que pensas que vou chegar? Valha-me Deus, Joseph, poupa-me a viver esse tempo todo. - Faye suspirou de frustrao e abriu uma funda gaveta. 
Enquanto tirava papis, disse por cima do ombro: - Investi-o, tal como disseste, e agora est l parado. Porque  que se h-de fazer sofrer a famlia?
      - Nos no estamos a sofrer - garantiu Marilee  sogra. - O Joe arranja-nos uma casa em breve. J temos quase a entrada de parte.
      Joe remexeu o cabelo de Zachary. - Estamos suficientemente felizes onde estamos, me. Mas vou dizer-lhe uma coisa. Mantenha esse dinheiro investido e, quando 
tiver uns dois milhes, eu fico com metade.
      -  Fez um trejeito com as sobrancelhas para o Zachary. - No , rebento? Vamos comprar um gerador de campismo e um barco lacustre e uma...
      - Bicicleta de montanha? - perguntou o Zachary.
      - Absolutamente. A primeira coisa que vou comprar  uma bicicleta de montanha para ti. Logo que a av esteja multimilionria.
      - Depressa, av! - gritou o Zachary. - Trata de ser milionria para o pai me comprar uma bicicleta de montanha!
      Faye estava a abrir sobrescritos e a ver papis que tinha tirado.
      - Quantos algarismos  isso?
      Joe j tinha retomado o estudo do projecto da casa.
      - Quantos algarismos  o qu?
      - Um milho - perguntou Faye. - Seis ou sete antes dos cntimos? Tenho uma quantidade de nmeros com seis e dois com sete. Porque  que no ho-de pr-me tudo 
num nico papel? No consigo entender-me com estes extractos todos. Assim como entra, sai. Era o que te acontecia, naqueles tempos. A ganhares tanto dinheiro que 
no sabias o que lhe fazer! Eu fico, com todo o gosto, com algum, mas no o quero todo. Tu  que aleijaste um joelho para o ganhar. Tal como vejo as coisas, o problema 
 teu. Todos estes papis representam mais problemas do que o valor que tm. Daqui a pouco, j no me cabem na gaveta da tralha.
      Joe tirou Marilee de cima dos joelhos, levantou-se da cadeira e aproximou-se da me.
      - Me, eu no me importo de ver isso, se est confusa.
      Faye franziu o sobrolho para o filho, que parecia um enorme guerreiro Sioux, muito mais alto do que ela. - Cada dia me fazes lembrar mais o teu pai. Pareo-te 
confusa, Joseph?
      - No, me, parece-me louca.
      Ela acenou afirmativamente com a cabea. - J estou farto de que no me ds ouvidos. Tenho um problema cardaco, no um problema mental! - Juntou uma molhada 
de sobrescritos e empurrou-os para ele.
      - V se te entendes. E vai construir uma casa para a tua famlia enquanto ests para isso. Ganhaste esse dinheiro todo a correr por a,  chuva e na lama, 
como se no tivesses juzo, a fazer homeruns.
      -  Touchdowns, me. - Joe abriu uma folha de papel, olhou para ela de sobrolho franzido por um momento e, depois, disse: - Me, isto  quase um milho de dlares!
      Faye virou-se para ver. - Esse  um dos de seis.
      - Dos de seis?
      - Seis algarismos antes dos cntimos. - Tirou outro papel do molho. - Este  de sete.
      - Meu Deus! - sussurrou Joe. - Me, ests rica.
      Faye rolou os olhos. - No, Joseph. Poupei o dinheiro para ti. Tonto. Comprar aquele carro com um nome que parece lasagna.
      - O meu Lamborghini, queres tu dizer?
      - Sei l. Eras demasiado novo para ter tanto dinheiro, pura e simplesmente. A mandar-me cheques como se no fosse nada. Eu disse para comigo: "Faye, aquele 
rapaz, um dia, vai precisar desse dinheiro." E tinha razo; agora, precisas.
      - Pai? - repicou o Zachary. - A av  milionria? - Enquanto Joe continuava a olhar, boquiaberto, para os extractos de aces, o Zachary puxava-lhe a perna 
da cala. - Pai, ela j  suficientemente rica para ires comprar-me um bicicleta de montanha?
      Finalmente, Joe dirigiu um olhar distrado ao filho. - Quantas bicicletas de montanha queres, rebento?
      
      
      
    FIM
      
      
??

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